DO EL PAÍS

Presidente da comissão dá ordem de prisão a Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de logística da pasta, sob acusação de ter mentido em depoimento. Aziz fala em “lado podre” da caserna e comandantes militares reagem. Senador diz que não vai ser intimidado e cobra posição do Senado

 Beatriz Jucá|Regiane Oliveira

São Paulo | Paraná Roberto Ferreira Dias durante depoimento na CPI da Pandemia, em Brasília.Roberto Ferreira Dias durante depoimento na CPI da Pandemia, em Brasília.ADRIANO MACHADO / Reuters

A quarta-feira se transformou num divisor de águas para a CPI da Pandemia. Pela primeira vez nessa comissão, um depoente saiu preso da sessão do Senado. O detido foi Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de logística do Ministério da Saúde e um personagem central nas investigações sobre supostas irregularidades na negociação para a compra de vacinas contra a covid-19 pela pasta. Dias passou boa parte de seu depoimento se esquivando da acusação de que teria pedido propina para autorizar a compra de imunizantes de uma empresa que se apresentava como intermediária, a Davati Medical Supply. A divulgação dos áudios do celular do policial militar Luiz Paulo Dominguetti, da Davati, em poder da CPI, acabou por colocar em xeque a declaração do ex-diretor de que havia se encontrado com o suposto vendedor de vacinas de maneira “acidental”. Foi então que o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), deu voz de prisão a Dias, uma decisão sem consenso mesmo entre opositores na comissão. “Não aceito que a CPI vire chacota. Nós temos 527.000 mil mortos. E os caras brincando de negociar vacina. Por que que ele não teve esse empenho para comprar a Pfizer, que era de responsabilidade dele naquela época? Por quê? Ele está preso por mentir, por perjúrio”, discursou.

 
 Não foi o único marco do dia. Em seu depoimento, Roberto Ferreira Dias passou boa parte do tempo dizendo que, se havia alguma responsabilidade, não era dele, mas, sim, de servidores de origem militar lotados no Ministério da Saúde, um fenômeno que ganhou escala quando o general da ativa Eduardo Pazuello comandou a pasta. Desde a eclosão dos escândalos envolvendo a compra de vacinas, nomes e patentes ligadas às Forças Armadas são citados, o que levou a Aziz a comentar: “Os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do Governo”.

O senador pelo Amazonas tocou num ponto latente e constrangedor para as Forças Armadas: serem arrastadas para o redemoinho de problemas do Governo Bolsonaro. Nunca antes na redemocratização tantos militares participaram de uma administração, numa simbiose tida como perigosa para a caserna. Se antes os militares tinham se tornado sócios, com Pazuello, da gestão caótica da pandemia, agora eles também povoam o noticiário policial. A reação não tardou e foi inusual. O presidente da CPI da Pandemia foi repreendido pela cúpula das Forças Armadas em nota assinada pelo ministro da Defesa, Walter Braga Netto, e pelos comandantes das três forças. Nela, os militares dizem que “não aceitarão qualquer ataque leviano” ?numa mensagem que também foi replicada por Jair Bolsonaro.

Aziz reagiu na tribuna do Senado: “Podem fazer 50 notas, só não me intimidem. Quando estão me intimidando, estão intimidando o Senado”, disse ele, dando contorno de crise institucional aos desdobramentos. “A relação promíscua entre Governo Bolsonaro e militares explica a previsível crise de hoje. Nota do Ministério da Defesa parece admissão de culpa”, comentou o historiador Carlos Fico em seu Twitter.

Pontas soltas e o negócio nebuloso da Davati

Enquanto ainda se espera os próximos passos após os choques com a cúpula das Forças Armadas, a CPI ainda tentar fechar o quebra-cabeça envolvendo a oferta de vacinas da nebulosa empresa intermediária Davati. A história da sessão desta quarta mudou quando a CNN Brasil divulgou mensagens de áudio, em poder da CPI, nas quais o PM Luiz Dominguetti fala com outro representante comercial, identificado como Rafael Alves e cita Roberto Ferreira Dias, então diretor no Ministério da Saúde. “A compra vai acontecer, tá? Estamos na fase burocrática. Em off, pra você saber, quem vai assinar é o Dias mesmo, tá? Caiu no colo do Dias… e a gente já se falou, né? E quinta-feira a gente tem uma reunião para finalizar com o ministério”, afirmou o policial militar, de acordo com a gravação. A conversa é do dia 23 de fevereiro, dois antes antes de o ex-diretor de logística se encontrar com Dominguetti e com o tenente-coronel Marcelo Blanco, que foi assessor da Saúde até janeiro, no restaurante Vasto, num shopping de Brasília. Para os senadores, que não haviam comprado a tese de encontro fortuito num chope entre amigos, defendida pelo servidor, foi a gota d’água.

Dias contou que conheceu Dominguetti nesse jantar e que ali foi mencionado a oferta de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca para pronta entrega. “Eu disse que a oferta já havia circulado no ministério, mas nunca foi apresentada a documentação necessária, e citei o nome de Cristiano [Alberto Carvalho, representante da Davati]”, explicou Dias. O servidor afirmou que em fevereiro conversou com Carvalho para saber se existia realmente essa oferta de vacinas, mas ele falhou em enviar uma carta de representação do fabricante. Mesmo assim, Dias recebeu Dominguetti para uma agenda formal no ministério já na segunda-feira após o encontro. “Os documentos se mostraram mais do mesmo, não havia carta de representação do fabricante. Entretanto, Dominguetti alegou que a receberia em instantes. Eu disse então que possuía outra agenda, mas que, se ele quisesse aguardar, ficasse à vontade na sala ao lado. Tempos depois, o mesmo se despediu, disse que teria que ir embora, e nunca mais tive notícias, como de diversos outros ofertantes de vacina”, afirmou o ex-diretor de Logística.

Roberto Dias estava muito à vontade na sessão. Foi direto nas respostas, porém, entrou em contradição algumas vezes. Em seu depoimento, o servidor público afirmou que a negociação de compra e preços das vacinas contra a covid-19 caberia exclusivamente à Secretaria Executiva da pasta, na época, sob comando do coronel da reserva do Exército Antônio Elcio Franco. “A proposta da Bharat [Biotech, empresa indiana produtora da Covaxin] foi anuída pelo secretário executivo durante todo o processo”, disse o ex-diretor, ressaltando que, contrariamente a outros produtos, no caso da compra de vacinas contra a covid-19, “todas as tratativas foram feitas pela Secretaria Executiva”.

Dias não conseguiu convencer do motivo de, apesar de não ser o responsável por negociar a compra das vacinas, aceitou o encontro com Dominguetti e “diversos outros”, como o reverendo Amilton Gomes de Paula, fundador da associação privada Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), que também se apresentou como representante da Davati: “Eu lembro de tê-lo recebido em agenda oficial, na minha sala”, disse. “Foi um pedido de agenda, está registrado. E a retórica era a mesma: possuía x doses disponíveis e não tinha a carta de representação do fabricante. E aquilo acabou ali.”

Suspeitas de perseguição e “núcleo militar”

O presidente da CPI, Omar Aziz perguntou também se Dias conheceu o coronel Guerra, em referência a Glaucio Octaviano Guerra, coronel da Aeronáutica reformado em 2016, com quem Dominguetti trocou mensagens sobre fornecimento de vacinas. Foi quando comentou sobre o “lado podre” das Forças Armadas, que geraria o embrião da nova crise.

Ainda no depoimento, Roberto Dias contou que assumiu a área de logística do ministério na gestão de Luiz Henrique Mandetta, quando indicou os três coordenadores do Departamento de Logística. Na gestão de Pazuello, no entanto, as coordenações de Finanças e de Logística foram trocadas pela Secretaria Executiva, passando a ser ocupadas, respectivamente, pelo tenente-coronel Marcelo Costa e pelo tenente-coronel Alex Lial Marinho. Marcelo Blanco, por sua vez, foi nomeado como assessor de Roberto Dias. Questionado pelo senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), Dias afirma não ter sido consultado sobre as nomeações para o seu departamento. “Eu acho que o senhor Élcio Franco cada vez mais se enrola mais, se envolve mais”, disse o senador Randolfe Rodrigues, destacando que Roberto Dias não tinha autonomia para gerir o setor na gestão Pazuello. A CPI estuda convocar Franco, agora lotado no Palácio do Planalto.

A senadora Simone Tebet (MDB-MS) reafirmou a suspeita contra o bloco militar. “A sensação que eu tenho, infelizmente, é que estavam querendo tirar um núcleo de poder dentro do Ministério da Saúde e lamentavelmente, estavam querendo colocar um núcleo militar para tomar conta desse galinheiro. Está muito claro isso. Tirou poder do Roberto Dias, colocou militar. Quem era o Ministro da Saúde? Era um militar. Quem era o número um do Ministro ou o número dois do ministério? Era um militar. Ele não falou apenas de dois nomes, falou de três nomes militares”, destacou a senadora.

“Nunca pedi nenhum tipo de vantagem ao senhor Dominguetti nem a ninguém”, disse Dias. “Estou sendo acusado sem provas por dois cidadãos, o senhor Dominguetti, que foi constatado nessa CPI como um picareta que tentava aplicar golpes em prefeituras e no Ministério da Saúde, e o nobre deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), que possui um currículo controverso”, afirmou o ex-servidor.

Dias afirma que a prova apresentada por Miranda, uma mensagem de celular em que pergunta “como está a LI [licença] da vacina” não tem relação com a compra da Covaxin. “O teor da minha mensagem se referia à LI da vacina AstraZeneca, que chegaria no domingo, dia 21 de março, um dia depois do envio daquela mensagem, e contaria com a presença do Ministro da Saúde e outras autoridades em seu desembarque no aeroporto de Guarulhos. Minha preocupação era de que a vacina estivesse sem nenhum problema em seu desembaraço sanitário e aduaneiro que viesse a gerar algum constrangimento à presença do Ministro”, afirmou.

Lembrou que Miranda negou na CPI ter negócios na área da saúde, mas áudio divulgado na comissão, com ata notarial, mostra que o deputado teria negócios de comercialização de luvas e EPIs. Dias referiu-se ao parlamentar como “uma pessoa desqualificada”, e que as denúncias contra ele “jamais serão provadas” devido à ausência de base. “Será que atrapalhei algum negócio do deputado? Porque essas denúncias três, quatro meses depois dos fatos? Neguei um pedido de cargo para seu irmão, servidor do ministério, e cheguei a pensar que fosse uma retaliação contra mim. Mas será que atrapalhei alguma outra coisa? Já acionei o deputado por difamação contra minha pessoa”, afirmou.

O ex-diretor de logística do Ministério da Saúde negou que tenha sido indicado pelo atual líder do Governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros. Também afirmou que nunca recebeu nenhuma mensagem da Casa Civil orientando sua atuação no Ministério da Saúde. O servidor negou também ter intermediado uma reunião entre o policial militar Dominguetti e o coronel Elcio Franco, então secretário-executivo da pasta. “Ele [Dominguetti] entendeu que tinha chance de fazer e procurou [Elcio Franco] direto. Essa iniciativa não foi minha. Não faço triagem de propostas que interessam ao Governo”, afirmou Dias. Ele confirmou, porém, que pediu ao então ministro Eduardo Pazuello que o indicasse a uma vaga na Anvisa, pois “já estava cansado da rotina de pandemia do Ministério da Saúde”. Ele afirmou ter sido vítima de um factoide para atrapalhar a indicação.

Até a publicação desta reportagem, Roberto Ferreira Dias seguia preso, nas dependências do Senado. Ele deve prestar depoimento e pagar fiança.

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BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

jul
08
Posted on 08-07-2021
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Jovenel Moïse foi morto durante ataque à sua residência em Porto Príncipe, disse primeiro-ministro, Claude Joseph

BBC

BBC Geral
postado em 07/07/2021 08:43
 

 

O presidente do Haiti, Jovenel Moïse, foi morto em um ataque à sua residência privada, de acordo com um comunicado do primeiro-ministro interino Claude Joseph.

Joseph disse que a residência do presidente em Porto Príncipe foi invadida por homens armados não identificados à 1h hora local (1h do horário de Brasília).

A primeira-dama também teria sido ferida no ataque.

Joseph disse que “todas as medidas foram tomadas para garantir a continuidade do Estado”.

Jovenel Moïse, de 53 anos, estava no poder desde fevereiro de 2017, depois que seu antecessor, Michel Martelly, deixou o cargo.

Moïse vinha enfrentando dificuldades em seu mandato, com acusações de corrupção e desafiado por ondas de protestos antigovernamentais frequentemente violentos.


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08
Posted on 08-07-2021
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Amarildo, NA

 

jul
08

Reportagem revela identidade de militar com quem Dominguetti conversou nos EUA; coronel reformado abriu uma empresa em Maryland no ano passado

Reprodução
Credit…Reprodução

Por Alice Maciel, Bruno Fonseca

A Agência Pública descobriu a identidade do “coronel Guerra”, militar com quem o representante da empresa americana Davati Medical Supply, Luiz Paulo Dominguetti, trocou mensagens sobre fornecimento de vacinas. Segundo a reportagem apurou, trata-se de Glaucio Octaviano Guerra, coronel da Aeronáutica reformado em 2016. A Pública também descobriu que, em 2 de novembro do ano passado, ele abriu uma empresa, a Guerra International Consultants, no estado de Maryland, Estados Unidos.

O coronel Guerra é o irmão do meio de uma família de militares e policiais com histórico de acusações de corrupção e ligações com a Família Bolsonaro. Cláudio Guerra, o mais velho dos três, é um ex-policial federal que já foi acusado de integrar a milícia do Rio de Janeiro, foi preso duas vezes e atualmente tem a aposentadoria cassada pelo Ministério da Justiça. A última foto postada por ele nas redes sociais foi curtida pelo ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, o policial militar denunciado no esquema das rachadinhas, Fabrício Queiroz. A relação é recíproca: Cláudio também curtiu a foto mais recente de Queiroz com sua família nas redes.

Já o irmão mais novo do coronel Guerra é Glauco Octaviano Guerra, ex-auditor fiscal preso em maio do ano passado na Operação Mercadores do Caos, acusado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) de envolvimento em um esquema de desvio de verba pública na aquisição de ventiladores para atender pacientes com covid-19. A operação apreendeu 97 respiradores pulmonares importados pela MHS Produtos e Serviços, controlada por Glauco, conforme informações do MPRJ.

Sua empresa também possui mais de 400 contratos com as Forças Armadas que somam mais de R$ 1,4 milhão, incluindo o fornecimento de alimentos como leite condensado, sorvete de chocolate, cereja, salgadinhos de camarão.

Glauco Guerra ainda integra o grupo de cinco auditores investigados pela Corregedoria da Receita Federal por enriquecimento ilícito que alegaram que seus dados teriam sido acessados ilegalmente, mesma tese usada pelo senador Flávio Bolsonaro para tentar anular o inquérito das “rachadinhas”. A defesa de Flávio argumentou que o acesso ilegal de dados era uma prática na Receita, como mostraria o caso dos auditores. Mas o argumento perdeu força, em fevereiro deste ano, quando Glauco Guerra foi exonerado pelo ministro Paulo Guedes por ato de improbidade administrativa.

 Por meio da assessoria de imprensa, o senador Flávio Bolsonaro informou não conhecer nenhum dos irmãos Guerra. Tentamos contato com Glaucio, Cláudio e Glauco por e-mail e redes sociais, sem retorno. Não conseguimos contato por telefone. A reportagem também buscou a esposa de Glaucio, que vive nos Estados Unidos com o coronel e seus filhos.
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As mensagens trocadas entre o coronel Guerra e Luiz Paulo Dominguetti, reveladas pelo Fantástico no último domingo, apontam que o militar é mais uma peça fundamental no quebra-cabeça do mercado paralelo de vacinas que envolve o Ministério da Saúde, governos estaduais e prefeituras, militares, políticos e religiosos.

No dia 1º de julho, a Pública revelou que a Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), liderada pelo reverendo Amilton Gomes, também participou das negociações junto à Davati e o poder público. No dia 4 de julho, mostramos que as negociações contaram com o apoio de um deputado federal da bancada evangélica, o pastor Roberto de Lucena (Podemos/SP).

Procurada, a Davati respondeu via assessoria que “a venda de vacinas no Brasil não foi concretizada porque a empresa não recebeu formalização de interesse de compra por parte do Ministério da Saúde” e “que não houve, de sua parte, qualquer procedimento indevido”. A assessoria também afirmou que “nunca foi assinado nenhum documento” e que “a empresa estará à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos juridicamente necessários, certa de que não houve, de sua parte, qualquer procedimento indevido”.

Questionada sobre a relação da Davati com o coronel Guerra, a assessoria da empresa afirmou que não poderia responder, pois não teria conhecimento dessa informação.

 

Coronel brasileiro em solo americano teria negociado vacinas com PM

Glaucio Octaviano Guerra, nascido em 1970, no Rio de Janeiro, atuou como coronel no Centro de Comunicação Social da Aeronáutica até setembro de 2016, quando foi transferido para a reserva das Forças Armadas. No seu último pagamento disponível, em fevereiro deste ano, ele recebeu pouco mais de R$ 16 mil do governo federal, já descontados deduções e impostos.

Antes de se aposentar, o militar ocupava um cargo internacional de destaque: era chefe da Divisão de Logística da Comissão Aeronáutica Brasileira em Washington, DC, nos Estados Unidos. Ele foi oficialmente designado ao posto em 2013, por portaria assinada pelo então ministro da Defesa, Celso Amorim. Desde fevereiro de 2014, o então tenente-coronel tinha autorização das Forças Armadas para se ausentar do país. A partir de março do mesmo ano, ele já começaria a receber os encargos da nova função. A portaria definiu que Guerra permaneceria no cargo até março de 2016, meses antes dele se retirar da ativa.

Segundo a Pública apurou, a Guerra International Consultants LLC está registrada em seu nome. A empresa fica no estado de Maryland, famoso por abrigar empresas da indústria de defesa dos EUA e diversas companhias internacionais ligadas ao setor militar — é nesse estado que fica a sede da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos. A cidade mais populosa do estado é Baltimore, justamente onde Guerra estaria em 22 de maio, segundo mensagem no celular do PM Dominguetti reveladas pelo Fantástico no último domingo.

A empresa Guerra International Consultants foi aberta em 2 de novembro do ano passado e permanece ativa. Ela está registrada num subúrbio tranquilo de uma área chamada Potomac, no condado de Montgomery (Maryland). No quarteirão arborizado onde casas de tijolos de dois andares se enfileiram lado a lado não há indicação da empresa de Guerra ou de outros negócios comerciais.

O coronel já teve uma segunda empresa, a Velox LLC, registrada no mesmo estado, mas na região de Bethesda, vizinha a Potomac. A empresa de transportes de cargas, criada em 2016 em seu nome e de sua esposa, consta nos registros de empresas do estado de Maryland como “not in good standing”, o que significa que o negócio tem alguma pendência com o governo, fisco ou foi submetida a alguma penalidade. A reportagem tentou contato através do telefone disponível dessa empresa, que não atendeu.

 

CPI descobriu que Dominguetti trocou mensagens sobre vacinas com “coronel Guerra”

O escândalo da comercialização de vacinas com participação da americana Davati foi revelado após o policial militar de Minas Gerais e representante da empresa no Brasil, Luiz Paulo Dominguetti, denunciar à Folha de S. Paulo um esquema de propina dentro do Ministério da Saúde.

Durante depoimento à CPI da Covid, em 1º de julho, seu celular foi apreendido pelos senadores após ele divulgar um áudio do deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) insinuando contato com a empresa de medicamentos.

A troca de mensagens entre o policial e o Coronel Guerra encontra-se no aparelho apreendido. “Cmt boa tarde. Podemos falar com serafim e ajustar ambos assuntos: Vacinas e AU”, escreveu o policial militar para “Coronel Guerra”, em 20 de maio. Serafim ainda não foi identificado pela CPI da Covid. Guerra respondeu: “Vamos sim. Deixa eu sair aqui do DOD. Não da para usar telefone aqui”. A sigla DOD em inglês é usada para se referir ao Departamento de Defesa.

No dia 22 de maio, Dominguetti voltou a falar com o coronel: “Hoje conseguimos avançar em uma conversa com nossos parceiros”. Em resposta, Guerra disse: “Sim. Qualquer hora. Estou no campeonato com meu filho em Baltimore”.

Na data, houve um campeonato de luta na cidade, o Newbreed Baltimore Championship, organizado por uma federação de jiu jitsu no ginásio do Maryland Sportsplex. Poucos dias antes, uma postagem na rede da esposa do coronel Guerra comemorou que o filho estaria voltando a lutar jiu jitsu. A reportagem descobriu que um treinador de jiu jitsu com o qual o filho do coronel faz aulas estava oficialmente registrado na competição. Baltimore fica localizada em Maryland, o mesmo estado onde está a empresa do coronel reformado.

Segundo as mensagens obtidas pela CPI, em 31 de maio, os dois voltaram a se falar: “Cel bom dia. Acredito que seria bom senhor dar uma ligada ao serafim. Estão bastante descontentes com a falta de comunicação. Estou tentando ajustar para não cair. Mas peço ao senhor essa disponibilidade para ajustar lá também”, escreveu. “Dominguetti, tá tudo alinhado”, retornou Guerra.

Em 2 de junho o policial pediu novamente que o Coronel entrasse em contato com Serafim. “Para que esse documento chegue e que consigamos avançar (sic) com serafim. Hoje seria de suma importância que o senhor entrar em contato com ele”. “Vou entrar”, respondeu o coronel.

As conversas também apontam que Guerra tinha contato direto com o presidente da Davati, Herman Cárdenas. “Bom dia. O Herman e isolou das calls com a AZ (a CPI suspeita que a sigla AZ refere-se à Astrazeneca) desde quinta-feira. Acredito que ele esteja analisando a documentação mas o alocador é um…”, escreveu o coronel. (O Fantástico não teve acesso ao restante da mensagem)”. “Estou no aguardo da call dele. Americano é um pouco fdp”, acrescentou.

Irmão mais novo de coronel, ex-auditor fiscal é dono de empresa que faturou com as Forças Armadas

A empresa do irmão mais novo do coronel Guerra, o ex-auditor da Receita Glauco Octaviano Guerra, fechou mais de 400 contratos com o governo federal a partir de maio de 2018. Segundo a Pública apurou, até 13 de novembro do ano passado, a MHS Produtos e Serviços faturou mais de R$ 1,4 milhão com esses contratos e a maior parte desse valor foi pago pelo Comando do Exército. A MHS foi aberta por Glauco um ano antes, em 2017.

O principal serviço prestado pela MHS foi o fornecimento de alimentação para refeitórios militares. Foram entregues às Forças Armadas latas de leite condensado, sorvete de chocolate, cereja e salgadinhos de camarão, entre outros itens. A empresa também atendeu às operações de Garantia de Lei e da Ordem (GLO) realizadas pelo Exército e à intervenção federal no Rio de Janeiro em 2018, durante o governo de Michel Temer (MDB). Além disso, a MHS fechou contratos sob a rubrica de assistência médica e odontológica para os militares.

A MHS está registrada em um bloco de um centro comercial na Avenida das Américas, na capital carioca. Coincidentemente, no mesmo centro comercial, atuaria a esposa de Flávio Bolsonaro, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro. A Pública encontrou no Diário Oficial do Rio de Janeiro uma concessão de registro para que a dentista trabalhasse no endereço entre 2018 e 2020.

A esposa de Flávio Bolsonaro foi denunciada, junto ao marido, em 2020, por suposta participação no esquema de rachadinha de salários de funcionários da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Segundo a denúncia do MPF, a dentista teria recebido parte do dinheiro desviado em sua conta bancária.

Irmão Guerra mais velho já foi preso e teve aposentadoria cassada por corrupção

O terceiro e mais velho dos irmãos Guerra, Cláudio Octaviano Guerra, também tem sua parte em casos de corrupção envolvendo a família. A Pública descobriu que, assim como Glauco, Cláudio, que era policial federal, foi demitido do serviço público por acusações de corrupção.

Segundo reportagem do G1, Cláudio foi detido no Rio de Janeiro em 2007, junto a outros policiais suspeitos de favorecer presos durante escoltas no âmbito da operação Furacão, que mirou figuras importantes do Jogo do Bicho na cidade. Em 2009, a Justiça Federal do Rio de Janeiro o condenou a 2 anos e 9 meses de reclusão, pena que não havia sido comprida até 2017, segundo sentença da 09ª Vara Federal Criminal que declarou extinta a pretensão executória. Em 2016, o MPF do RJ chegou a pedir a prisão do policial.

A Pública apurou que, em 2016, Cláudio foi punido pelo Ministério da Justiça com a cassação da sua aposentadoria depois de enquadrado pelos artigos de improbidade administrativa, prática de ato que importe em escândalo ou que concorra para comprometer a função policial, prevalecimento abusivo da condição de funcionário policial e prática de ato lesivo da honra ou do patrimônio de pessoa, natural ou jurídica, com abuso ou desvio de poder, ou sem competência legal.

 Ele sofreu uma segunda punição no ano seguinte, em dezembro de 2017, que reforçou a cassação da sua aposentadoria. Novamente, o Ministério da Justiça apontou as infrações de improbidade administrativa e abuso da condição de funcionário policial.

De acordo com dados do Portal da Transparência, o ex-policial segue com a aposentadoria cassada.(Agência Pública)

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