Por G1

Artur Xexéo — Foto: Reprodução/GloboNews

Artur Xexéo — Foto: Reprodução/GloboNews

O jornalista, escritor e dramaturgo Artur Xexéo morreu neste domingo (27) aos 69 anos. Ele estava internado na Clínica São Vicente, na Zona Sul do Rio.

Xexéo foi diagnosticado há apenas duas semanas atrás com um linfoma não Hodgkin de células T. Fez a primeira sessão de quimioterapia na quinta e passou mal à noite. Na sexta, teve uma parada cardiorrespiratória, logo revertida. Mas, em função dela, não resistiu e morreu na noite deste domingo. Artur Xexéo deixa o companheiro, Paulo Severo, com quem foi casado por 30 anos.

Entre os seus livros estão “Janete Clair: a usineira de sonhos”, “O torcedor acidental (crônicas)” e “Hebe, a biografia”. Escreveu ainda, junto com Carlos Heitor Cony e Heródoto Barbeiro, “Liberdade de Expressão”.

Colunista do jornal “O Globo” e comentarista da GloboNews, ele também teve passagens por “Veja” e “Jornal do Brasil”. Desde 2015, participava da transmissão do Oscar na Globo. Também ficou conhecido no rádio. Na CBN, estreou ao lado de Carlos Heitor Cony como comentarista.

“Tudo que eu faço, o que eu edito, o que eu escrevo, é em nome do leitor. Então, eu acho que ele tem o direito de reivindicar, de gostar, de não gostar, de reclamar, de escrever, de se colocar, de se posicionar, eu gosto de participar dessa troca”, afirmou, durante uma das várias entrevistas concedidas ao longo de sua carreira.

Comentarista e autor de teatro Artur Xexéo morre no Rio, aos 69 anos

Comentarista e autor de teatro Artur Xexéo morre no Rio, aos 69 anos

Xexéo também foi dramaturgo. Escreveu o musical “A Garota do Biquíni Vermelho” e a peça “Nós sempre teremos Paris”. Traduziu o espetáculo musical “Xanadu”, dirigido por Miguel Falabella, e “Love Story, o musical”, dirigido por Tadeu Aguiar. Foi responsável também pelos musicais “Cartola – o mundo é um moinho” e “Minha Vida Daria Um Bolero”. Em 2019, fez a adaptação do musical “A cor púrpura”.

Um de seus últimos espetáculos escritos foi “Bibi, uma vida em musical”, em homenagem à diva do teatro Bibi Ferreira.

Trajetória no jornalismo

O jornalismo não foi sua primeira opção ao escolher uma faculdade. Mas logo percebeu o caminho que iria trilhar. “Quando eu cheguei na engenharia, eu levei um susto porque não gostava de nada”, contou.

“Mas, quando eu larguei a engenharia, eu querendo em casa prestar uma satisfação, ter um curso superior, eu fui fazer comunicação, que era um curso fácil de entrar, rápido, só por isso. E, no meio da faculdade, eu me interessei por jornalismo, já no terceiro ano de faculdade. Aí eu gostei, comecei a achar aquele mundo interessante, aquele mundo fascinante.”

Xexéo começou no “Jornal do Brasil” em 1978 como repórter na sucursal do Rio de Janeiro. Conheceu o jornalista Zuenir Ventura e, em 1982, foi convidado para trabalhar na revista “IstoÉ”. Em 1985, virou subeditor da Revista de Domingo, suplemento cultural do Jornal do Brasil.

Artur Xexéo e Maria Beltrão, apresentadora do Estúdio I, da GloboNews — Foto: Reprodução

Artur Xexéo e Maria Beltrão, apresentadora do Estúdio I, da GloboNews — Foto: Reprodução

Ao se aproximar da cobertura cultural, desenvolveu um estilo de texto leve, que veio a se tornar a marca do jornalista.

“Eu acho que eu passava essa impressão escrevendo, ‘Ah, eu vejo você falando quando eu leio o que você escreve’. E aí, eu comecei a ver as coisas que davam certo. Então, se tivesse mais humor, realmente agradava mais”, contou.

Também foi editor do Caderno B, do caderno de Cidade e subsecretário de redação. Em 1992, foi convidado para ser um dos colunistas do jornal. Em 2000, mudou de casa. Virou colunista do jornal “O Globo”. Foi também editor do suplemento Rio Show e do Segundo Caderno.

Uma das maiores inspirações do jornalista foi o cronista Sérgio Porto, conhecido pelo pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. Embora o autor tivesse se notabilizado por livros, Xexéo disse que a obra de Porto o inspirou até para falar sobre televisão.

“O Stanislaw tem muito o universo da televisão, o universo do show business, o comportamento político, que eu não sei se é parecido, mas com o qual eu me identifico, e eu me passei a perguntar se não teria uma influência mesmo não consciente”.

Artur Xexéo em programa da GloboNews. — Foto: Reprodução/GloboNews

Artur Xexéo em programa da GloboNews. — Foto: Reprodução/GloboNews

Inspirações como essa alimentaram o trabalho de Xexéo naquilo que ele mais se notabilizou: suas colunas. Era nesse espaço que o jornalista buscava ir muito além de escrever agendas ou a programação cultural da cidade.

“Acho que o jornalismo vive de surpresas, você bota na primeira página o que surpreende o leitor, você procura a manchete que surpreenda o leitor, não tem nada mais chato que manchete velha, notícia velha na manchete, então eu acho que o desafio é você surpreender todo dia e quanto menos rotina você tiver, mais fácil você surpreender.”

As surpreendentes colunas atraíam os leitores, que enviavam cartas ou e-mails para Xexéo. Fossem críticas ou elogiosas, o colunista era grato por essas mensagens — na opinião dele, elas mostravam o tamanho da responsabilidade do trabalho do jornalista.

“Acho que a internet trouxe isso: eu recebo muitos e-mails, mais no dia em que sai a coluna. E eu procuro… eu já respondi mais… o problema de você responder e-mail é que aí o leitor manda outro, aí fica um sem fim, eu já cheguei a pensar: “Eu respondo, mas depois não mando mais, se ele responder, eu não mando mais”. Mas é muito bom, é a melhor resposta que você tem de leitor, eu não sei se é muito verdadeira, se ela é muito significativa, mas é a resposta que você tem de cara, se a coluna agradou ou não agradou pela quantidade de e-mails, pelo que os e-mails estão falando.”

“Onde está Você”, Dominguinhos: Em extraordinária interpretação, o fabuloso artista e músico nordestina canta a música do seu ex-percussionista Zezum, “Onde Está Você?”, gravada em 1991, no disco DOMINGUINHOS É BRASIL, que trouxe a faixa que o BP edita neste quase fim de junho de Antonio, João e Pedro.

BOM DIA E BOA SEMANA!!!

(Vitor Hugo Soares)

jun
28
 
Pesquisadores dizem que Jair Bolsonaro está próximo da linha vermelha do derretimento, a partir da qual a perda de popularidade se torna descontrolada
“Sangria desatada de perda de popularidade”
Foto: Marcos Corrêa/PR

 

Jair Bolsonaro “está próximo de atravessar o Rubicão da rejeição e enfrentar uma sangria desatada de perda de popularidade”, diz o Estadão.

“O índice de desaprovação ao governo bateu 49% (a “linha vermelha” do derretimento, segundo ‘pesquiseiros’, é de 55%).”

Por outro lado, “quem lida com as chamadas pesquisas qualitativas diz que os 49% de intenções de voto em Lula estão um pouco inflados pelo ‘recall’ eleitoral e pela percepção de que ele é o único antagonista de Bolsonaro em campanha aberta”.

A terceira via está entre esses dois extremos.

jun
28
Posted on 28-06-2021
Filed Under (Artigos) by vitor on 28-06-2021



 

Sponholz, NO

 

jun
28
Posted on 28-06-2021
Filed Under (Artigos) by vitor on 28-06-2021

DO CORREIO BRAZILIENSE

Saída do ministro do Meio Ambiente, alvo de investigações, e escândalo do contrato da Covaxin têm potencial para causar danos graves à imagem de governo honesto que Bolsonaro propaga, o que pode impactar nos planos do presidente de recondução ao Planalto

 
ST
Sarah Teófilo
IS
Ingrid Soares
 

 (crédito: Alan Santos/ PR )

(crédito: Alan Santos/ PR )

Com foco nas eleições de 2022, o presidente Jair Bolsonaro pretende reinvestir no pilar anticorrupção para atrair o eleitorado. No entanto, as investigações contra o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e, principalmente, as denúncias envolvendo as negociações para a compra da vacina Covaxin, contra o novo coronavírus, podem respingar nos planos dele de recondução ao Planalto. Na última sexta-feira, um fato novo levado à CPI da Covid provocou o maior desgaste do governo até agora: o chefe do Executivo teria sido avisado das suspeitas de irregularidades no contrato do imunizante indiano, dito que parecia ser “rolo” do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), mas não teria tomado nenhuma atitude.

A informação foi levada à comissão pelo deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) e pelo irmão dele, Luis Ricardo Miranda, chefe de importação do Departamento de Logística do Ministério da Saúde. O servidor também relatou ao colegiado “pressões anormais” por parte dos seus superiores para agilizar a importação da Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech, representado no Brasil pela empresa Precisa Medicamentos, que é alvo da CPI. O ministério assinou contrato de R$ 1,6 bilhão com a Precisa, em 25 de fevereiro, para a compra de 20 milhões de doses do imunizante. O deputado informou ter relatado a Bolsonaro as suspeitas de corrupção na negociação, identificadas por seu irmão, e as pressões que ele vinha sofrendo.

Já havia desconfiança na comissão sobre a atuação incisiva do governo em prol da Covaxin, inclusive com a participação de Bolsonaro, enquanto outros imunizantes com estudos mais adiantados, como o da Pfizer, eram deixados de lado.

Enquanto isso, Bolsonaro faz o que costuma fazer quando se vê envolto em informações negativas ao governo: ataca a imprensa e o adversário mais forte para as eleições de 2022, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — apelidado por ele de “ladrão de nove dedos” — e brada que desde o começo de sua gestão não houve casos de corrupção.

Na sexta-feira, horas antes do depoimento dos irmãos Miranda na CPI, Bolsonaro negou superfaturamento da Covaxin e disse ser “incorruptível”. “O contrato, pelo que me consta, não há nada de errado nele. Não há superfaturamento. É mentira. Eu vou ouvir Queiroga (Marcelo Queiroga, ministro da Saúde) para saber da opinião dele”, frisou, em entrevista coletiva. “Não foi gasto um centavo com a Covaxin, não chegou uma ampola aqui. Vocês querem me julgar por corrupção? Vão se dar mal. Eu sou incorruptível.”

O presidente e governistas têm se amparado no discurso de que “nada foi pago”, apesar de o contrato ter sido assinado e havido uma tentativa da empresa de receber US$ 45 milhões antecipados — investida travada por Luis Ricardo Miranda.

Numa tentativa de contragolpe, o governo tem adotado, também, a estratégia de desacreditar oponentes. Bolsonaro disse que pedirá à Polícia Federal a abertura de investigação contra Luis Miranda. “Olha a vida pregressa desse deputado. É lógico que a PF vai abrir inquérito”, enfatizou. Afirmou, ainda, que o parlamentar ostenta um “prontuário” policial extenso, numa alusão aos processos judiciais que pesam sobre o político do DEM.

O governo também enfrenta suspeitas de corrupção na gestão do agora ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Ele pediu demissão na quarta-feira depois de intenso desgaste provocado pelas operações Handroanthus e Akuanduba, que apura suspeita de envolvimento dele num esquema envolvendo a exportação ilegal de madeira.

Impacto

Na avaliação do cientista político Rodrigo Prando, apesar de os indícios serem graves, é necessário aguardar o desdobramento das investigações. Ele acredita, no entanto, que os casos têm potencial de arranhar o discurso de Bolsonaro. “A saída do Salles é um sinal fortíssimo de que tem coisa para resolver ainda e acaba atrapalhando um discurso que sempre quis se colocar diferente de todos os demais. Essa narrativa de que ‘somos diferentes’ e não houve corrupção também foi dos petistas, até que o mensalão apareceu e depois o petrolão, várias questões relacionadas ao PT. Nesse sentido, a retórica é a mesma”, enfatizou.

Conforme Prando, caso seja comprovada corrupção em relação à gestão de Salles, a tática de Bolsonaro será a de dizer que ele não faz mais parte do governo e que deixará que a investigação esclareça o caso.

Em relação à vacina indiana, a situação parece mais complicada. “Se comprovada corrupção (no caso) da Covaxin, pode não apenas desestruturar o discurso para 2022 como atrapalhar a meta de reeleição, porque Bolsonaro vai perder um eixo significativo do seu discurso”, destacou. “O governo começou com dois pilares: ideias de combate à corrupção, na figura de Moro (Sergio Moro, ex-ministro da Justiça e ex-juiz da Operação Lava-Jato), e de liberalismo, na figura de Paulo Guedes (ministro da Economia). Moro foi defenestrado do governo. Guedes não consegue levar a cabo um projeto liberal.” Para o especialista, “Bolsonaro precisará de uma criatividade enorme para criar um discurso que possa mostrar, em 2022, que ele conseguiu fazer um bom governo, que é honesto e liberal”. “Neste momento, ele não conseguiria apresentar esses três tópicos”, observou.

Na opinião de Prando, a nova controvérsia é fruto de imperícia do governo. “É um problema que o presidente acaba criando quando não tem especialistas, assessores que sejam capazes de entender a complexidade da administração pública e as dificuldades de separação entre interesses públicos e privados”.

A constitucionalista Vera Chemim, mestre em direito público pela Fundação Getulio Vargas (FGV), também reforçou a necessidade de acompanhar o andamento das investigações. “Caso sejam comprovadas (as suspeitas), a bandeira de inexistência de corrupção cairá por terra e será mais uma variável determinante para o resultado das próximas eleições presidenciais, sem esquecer das circunstâncias que envolvem a imagem de Bolsonaro, quanto à sua omissão e/ou descaso com relação à crise do coronavírus”, afirmou.

Para que o governo erga a bandeira da anticorrupção, acrescentou, é indispensável que se elucidem os fatos no sentido de isentá-lo de qualquer envolvimento ilícito. “Contudo, não são apenas essas ameaças que podem derrotar o mandatário, pois existem outras mazelas de natureza político-ideológica, como a grave polarização, além do retorno de Lula ao cenário eleitoral e a possibilidade, ainda que remota, do surgimento de uma terceira via que detenha credibilidade, carisma e competência para disputar as eleições de 2022”, completou.

Analista político do portal Inteligência Política, Melillo Dinis afirmou que a situação do presidente em relação aos escândalos só se complica. “A sombra da corrupção está cada vez mais iluminando pelo conjunto da obra que Bolsonaro vem apresentando. Ele acaba por, nesses dois episódios (Salles e Covaxin) completar o serviço que começou com a demissão de Sergio Moro”, disse. O ex-juiz federal foi o “símbolo” anticorrupção do governo Bolsonaro, que surfou na onda da Lava-Jato para se eleger.

Dinis acrescentou que as denúncias envolvendo Ricardo Barros fizeram o governo perder mais credibilidade em relação ao discurso anticorrupção. “Já era ruim, ficou pior”, disse. Agora, segundo ele, é preciso observar com atenção os movimentos do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e, principalmente, os do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), a fim de perceber se o “tom” subirá no Congresso. “O Centrão vai ficar ainda mais importante na dinâmica de submissão”, frisou.

Apoio

Antes da sessão de sexta-feira da CPI, o vice-líder do governo na Câmara Evair de Melo (PP-ES) negou que as questões envolvendo Salles e a Covaxin representem desgaste para o Executivo. Segundo o deputado, o termômetro do Planalto é o painel do plenário, referindo-se ao apoio a Bolsonaro. “E o plenário está consolidado em números absolutos em todas as votações. Quando você olha o plenário, os nossos resultados são autoexplicativos. Estão querendo criar um cavalo de Tróia onde não existe”, destacou.

O parlamentar enfatizou que as denúncias não têm provas, nada que as sustentem. “O termômetro do governo é deputado. Quem fica na rua no dia a dia é deputado. Deputado é que anda, que joga voto para dentro. Deputado vai para o painel, bota a cara dele e segue a vida, significa que o termômetro da política está certo”, pontuou.

Deputado nega

Em postagem no Twitter após a acusação de Luis Miranda, o deputado Ricardo Barros afirmou: “Não participei de nenhuma negociação em relação à compra das vacinas Covaxin. Não sou esse parlamentar citado. A investigação provará isso”. Ele disse estar à disposição para “quaisquer esclarecimentos”.

Controverso

Integrante da tropa de choque do governo, o deputado Luis Miranda já foi processado por estelionato, em golpes que teriam sido aplicados no Brasil e nos Estados Unidos. Antes de ser eleito para este primeiro mandato, ele morou em Miami e ensinava, nas redes sociais, como ganhar dinheiro fácil. Em 2019, uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, mostrou que Miranda era acusado de pegar dinheiro de usuários da internet.

jun
28
 DO CORREIO BRAZILIENSE

Escritor e historiador Laurentino Gomes destaca que a escravidão brasileira não está restrita aos livros, faz parte da nossa realidade

BBC

Vinícius Pereira – De São Paulo para a BBC News Brasil
postado em 27/06/2021 08:26
 

 
Escravizados urbanos coletando água no Brasil da década de 1830

JOHANN MORITZ RUGENDAS/SLAVERY IMAGES
Escravizados urbanos coletando água no Brasil da década de 1830

Cerca de 2 milhões de pessoas foram arrancadas de suas terras na África, marcadas a ferro quente, embarcadas em navios, e comercializadas como se fossem produtos no Brasil ao longo de 100 anos.

Não à toa, esse movimento deixou profundas cicatrizes na sociedade brasileira até hoje, mas, mesmo com tamanha importância, ainda é insuficientemente discutido.

“A escravidão é o assunto mais importante da história do Brasil, sem ela você não consegue entender nenhum acontecimento histórico”, diz Laurentino Gomes, sete vezes ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura.

Prestes a lançar a segunda edição de uma trilogia sobre a escravidão no Brasil, Gomes conversou com a BBC News Brasil sobre o tema. Para o autor, que também já escreveu outros três best sellers sobre a história do Brasil, a escravidão não é assunto apenas para livros de história ou museus, mas ainda se demonstra na realidade do país em pleno século 21.

“A escravidão está nos indicadores sociais até hoje. Há um abismo entre números referentes ao Brasil branco e o Brasil negro, além do racismo, que é como uma ferida que fica abrindo a toda hora”, afirma.

“A contribuição dos africanos é enorme, não só do ponto de vista econômico, mas na formação do caráter, do comportamento, das crenças religiosas, da culinária, da música, da dança, do jeito de as pessoas se relacionarem umas com as outras; eu diria que a raiz disso é africana”, conta.

O livro Escravidão – Da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de Dom João ao Brasil concentra-se entre 1700 e 1800, auge do tráfico negreiro no Atlântico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes em território brasileiro e pela disseminação, em outras regiões da América, do cultivo de cana-de-açúcar, arroz, tabaco, algodão e outras lavouras e atividades de uso intensivo de mão-de-obra africana escravizada.

“As pessoas mais ricas do Brasil no final do século 18 não eram senhores de engenho, barões do café, já não eram mais os mineradores de ouro e diamante, mas sim os traficantes de escravos. A compra e venda de pessoas se tornou o maior negócio do Brasil e do mundo nessa época”, afirma.

Laurentino Gomes

Divulgação
“A escravidão é o assunto mais importante da história do Brasil”, afirma Laurentino Gomes

De acordo com o autor, para além da influência social marcante, os negros escravizados também auxiliaram o desenvolvimento econômico do país, contribuindo com a tecnologia necessária para a descoberta e exploração das minas de ouro e diamantes em território brasileiro.

“A própria tecnologia de mineração de Minas Gerais aparentemente veio da África e não da Europa. Os portugueses sabiam fazer açúcar, mas não sabiam garimpar ouro e diamante. Quem sabiam eram os africanos, que conheciam essas tecnologias muito bem”, afirma.

“Isso muda bem a visão da escravização e da própria construção do Brasil. A tecnologia e o conhecimento que permitiram a construção do Brasil e de seus muitos ciclos econômicos eram africanos.”

Apesar da importância desse acontecimento histórico para a formação do Brasil atual, a história ainda é pouco contada pelo ponto de vista dessas pessoas escravizadas, pois há um processo de apagamento histórico da contribuição dos africanos ao país.

“Esse projeto de apagamento se reflete nos livros de história, livros didáticos, como se a construção do Brasil fosse exclusivamente branca e europeia e todos os demais agentes fossem autores secundários. Quando você mergulha de fato na história da escravidão, você vê que, na realidade, essas pessoas escravizadas são protagonistas”, disse.

Segundo Gomes, a imagem de uma escravidão mais sútil e benévola ao cativo por aqui, forjando uma identidade brasileira de gente pacífica, ordeira e honesta, é uma construção imposta pelo Estado e não corresponde à realidade da época.

“A característica principal da escravidão era a violência”, diz.

Confira a entrevista de Laurentino Gomes à BBC News Brasil:

BBC News Brasil – Você vendeu milhões de livros sobre a história do Brasil. Por que se dedicar agora ao recorte da escravidão?

Laurentino Gomes – Escrever sobre escravidão é resultado de um aprendizado sobre o Brasil que fui acumulando ao longo da primeira trilogia. É como se fosse um resultado natural e óbvio desse primeiro trabalho. Nos primeiros livros, eu procurei entender e descrever o Brasil em relação à formação de um Estado nacional brasileiro, ou seja, como que o Brasil se organizou do ponto de vista legal, institucional, administrativo, burocrático, desde a chegada da corte ao Rio de Janeiro, em 1808, até a proclamação da República, em 1889. Ali eu consegui ter uma noção bastante precisa sobre as características do Brasil. Mas me dei conta que tinha uma dimensão mais profunda para entender o que chamamos de identidade nacional brasileira, que são as raízes africanas e a escravidão.

Capa do livro Escravidão - Da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de Dom João ao Brasil

Divulgação
Livro concentra-se entre 1700 e 1800, auge do tráfico negreiro no Atlântico

A escravidão é o assunto mais importante da história do Brasil: você não consegue entender nenhum acontecimento histórico, desde a chegada de Pedro Álvares Cabral e a imediata escravização dos índios, passando pelo ciclo do açúcar, do ouro, do diamante, do tabaco, do algodão, do arroz, do café, ou seja, a construção das cidades históricas, do Barroco mineiro, a marcha em direção ao oeste amazônico, sem estudar a escravidão.

O Sérgio Buarque de Holanda defende uma tese muito curiosa, de que o Brasil não estava preparado para a independência e preferia continuar como Reino Unido de Portugal e Algarves. Mas, nesse período há um sentimento de medo que funciona como um motor do processo de independência, pois a elite brasileira percebeu que o Brasil poderia mergulhar em uma guerra civil republicana, como acontecia na América espanhola.

Nessa hipótese, como o Brasil não tinha forças armadas, os caciques regionais lutariam entre si, e teriam que armar seus escravos. Esses escravos armados, imbuídos de ideias libertárias que sopravam da Europa e EUA, poderiam reivindicar a liberdade, exatamente como ocorreu no Haiti.

Ou seja, o Brasil poderia resultar em uma fragmentação nacional e em meio a uma guerra étnica. Isso fez com que a elite, para preservar seus interesses, se congregasse ao redor do herdeiro da Coroa portuguesa, rompesse o ciclo com Portugal, mas mantivesse a estrutura social vigente.

A independência não acabou com o analfabetismo, com o latifúndio, etc. Cito esse exemplo para mostrar que você não consegue entender o Brasil sem observar a escravidão. A escravidão é um assunto presente no Brasil de hoje.

BBC News Brasil -No primeiro livro você se dedica a oferecer um foco sobre a África. Por que o segundo tem um olhar sobre o Brasil?

Gomes – Existe uma mudança importante de foco geográfico entre os dois livros. O primeiro começa pela África pela razão óbvia que, para estudar escravidão no Brasil, você precisa olhar para a África. Que continente era esse com milhares de línguas, etnias e povos? Como era a própria escravidão na África antes da chegada dos portugueses? As rotas do tráfico islâmico cruzando o deserto do Saara, feiras organizadas, ou seja, qual é a origem desses milhões de seres humanos que foram arrancados de suas raízes, marcados a ferro quente, embarcados em navios negreiros e leiloados em praça pública? Então por isso o primeiro volume tem como cenário a África.

Pessoas escravizadas em fazenda no passado

ARQUIVO NACIONAL / DOMÍNIO PÚBLICO
“No Brasil do século 18 ocorrem coisas muito importantes. A primeira é que a escravidão se torna algo banal e corriqueiro”, diz escritor

O segundo, que tem como recorte cronológico o século 18 só poderia ter como cenário o Brasil. É o auge do tráfico negreiro no Atlântico, no período de apenas 100 anos, entram no Brasil dois milhões de pessoas escravizadas, que é um terço do total que veio ao continente americano, que compreende seis milhões de pessoas.

No Brasil do século 18 ocorrem coisas muito importantes. A primeira é que a escravidão se torna algo banal e corriqueiro. Gosto de um exemplo que chegou a tal a ponto que em um museu de Belo Horizonte tem balança de pesar queijo, farinha, boi e uma de pesar gente antes de leilões públicos -o que mostra o quanto a escravidão se tornou algo corriqueiro no Brasil. Pela descoberta do ouro e diamantes veio uma onda, um tsunami negro da África para alimentar esse comércio.

Nesse período, a população brasileira se multiplicou por dez. Há uma corrida de aventureiros, gente de todos os locais do mundo, e o Brasil dobra de tamanho, já que até meados do século 17 o território oficial da América portuguesa estava delimitado pelo Tratado de Tordesilhas, mas o Tratado de Madri, de 1750, reconhece o tamanho efetivo do Brasil e o país dobra de tamanho.

E, por isso, é o foco do segundo e do terceiro livro, que pretendo lançar no ano que vem.

BBC News Brasil – Como era, de forma geral, a vida dos africanos escravizados no Brasil?

Gomes – Com a corrida do ouro e do diamante e a ocupação do interior do Brasil, houve uma inflação no preço dos africanos escravizados. Então, da mesma forma que houve uma corrida pelas pedras preciosas, houve uma corrida por gente escravizada na África, com os preços disparando. Oitenta por cento de todas as viagens de navios negreiros foram feitas a partir do começo do século 18 até o século 19.

A característica principal da escravidão era a violência. Essas pessoas eram arrancadas de suas raízes africanas, compradas e vendidas em entrepostos, castelos e fortificações que ficavam no litoral da África, marcadas a ferro quente, embarcadas em um porão de um navio negreiro, leiloadas em praça pública em Salvador, Recife e outros portos, e aí seguiam em comboios para as minas de ouro, fazendas e para as cidades.

Pessoas escravizadas

ARQUIVO NACIONAL / DOMÍNIO PÚBLICO
“A escravidão no século XVII se consolidou como o maior negócio do mundo, envolvendo milhares de pessoas”, afirma Gomes

Ou seja, o principal mecanismo de controle era a violência. O escravo que fugisse era marcado com ferro quente, com a letra F no peito ou sobre o ombro, poderia ter a orelha cortada. Foi discutido na Câmara, em Mariana (MG), a possibilidade de cortar o tendão de Aquiles para quem fugisse mais de uma vez.

Muita gente morreu. O trabalho era horroroso. Na mineração nos leitos dos rios, os escravos passavam doze, 14 horas mergulhados em águas geladas, muitos morriam. Depois que acabou esse tipo de garimpo, eles tinham que se enfiar em buracos na terra para achar os veios de ouro subterrâneo, e como era um espaço muito apertado, muitas crianças eram usadas neste trabalho devido à baixa estatura.

Neste trabalho, muita gente morria por desmoronamento, excesso de peso, doenças pulmonares dos resíduos, poeira e umidade. O trabalho era muito difícil, mas em Minas Gerais também surge a chamada escravidão urbana, ou seja, de serviço, comércio, de fornecimento de alimentos, que mudou a paisagem escravista, dando mais mobilidade aos escravos.

(Isso) deu um papel de destaque para as mulheres, favoreceu o desenvolvimento das irmandades religiosas, deu mais chances de alforria, pois o escravo em ambiente urbano poderia fazer trabalhos extras e talvez comprar a própria liberdade, o que vai mudando o escravismo brasileiro, inclusive alguns participaram da construção do barroco mineiro, como escultores, pintores, etc.

BBC News Brasil -Para além desse contexto social, a escravidão também era uma política econômica. Como a economia brasileira se organizava em torno da exploração?

Gomes – A escravidão no século 17 se consolidou como o maior negócio do mundo, envolvendo milhares de pessoas para além das pessoas escravizadas, como compradores e vendedores dos dois lados do Atlântico, a tripulação dos navios, fornecedores de crédito, armadores, fabricantes de mercadorias, de armas, etc, na Europa, na Índia, na América, na própria África.

Isso vira um negócio equivalente hoje à indústria do automóvel ou do petróleo, ou seja, uma coisa gigantesca. Isso valia também para o Brasil. As grandes riquezas, as pessoas mais ricas do Brasil no final do século 18 não eram senhores de engenho, barões do café, já não eram mais os mineradores de ouro e diamante, mas sim eram os traficantes de escravos. A compra e venda de pessoas se tornou o maior negócio do Brasil e do mundo nessa época.

A escravidão se tornou um fato natural da vida, quase que inquestionável nessa época. O abolicionismo só surgiria na Inglaterra e nos EUA no final do século 18. Até então, todo mundo aceitava a escravidão, inclusive negros que, depois de alcançar a alforria, compravam escravos, como o caso mais famoso, a Xica da Silva, que nasceu escrava e se casou com o contratador de diamantes João Fernandes, conquistando a alforria, e se tornou uma grande dama da sociedade da atual Diamantina. No final da vida, ela era dona de um enorme plantel de escravos.

BBC News Brasil -A religião também aparece como forte fator de controle sobre os cativos. Quão importante foi a participação da Igreja Católica no processo de escravidão dos africanos em solo brasileiro?

Gomes – [O Brasil] era uma colônia carola de sacristia, em que toda a vida social era regida por dias santos, feriados, procissões, missas, vias sacras, e é interessante pois há uma grande contradição. Você tem uma igreja que se compromete a catequizar os negros africanos com a mensagem do evangelho da misericórdia, do amor, do acolhimento, mas essa mesma mensagem é deturpada e usada para justificar a escravidão.

No primeiro volume, eu mostro como as bulas papais, os sermões dos padres jesuítas, tratados filosóficos a partir do século 14 serviram como alicerce para essa ideologia escravista, ao dizer que os africanos eram pessoas inferiores, eram selvagens, praticantes de religiões demoníacas e, portanto, a escravidão era boa para eles.

Há um sermão famoso que diz que os escravos deveriam agradecer Nossa Senhora do Rosário pela oportunidade de vir ao Brasil em um navio negreiro, já que isso era a oportunidade de se incorporar a uma suposta sociedade mais avançada, que era católica e europeia.

Escravos trabalham em uma plantação de café no Brasil

THE NEW YORK PUBLIC LIBRARY
Escravos trabalham em uma plantação de café no Brasil

Tem uma historiador americano chamado Donald Ramos que mostra que a igreja foi um importante elemento de controle social dentro do sistema escravista, pois ela dava oportunidade ao escravo de se incorporar dentro dessa atividade social participando de irmandades religiosas das igrejas, participando de procissão, batizando, casando seus filhos, participando de cerimônias fúnebres, etc.

Isso deu ao escravo um status social diferenciado dentro da sociedade portuguesa nos trópicos, embora ele continuasse cativo, então isso era um papel como se fosse uma válvula de escape contra a violência do cativeiro, do pelourinho e da senzala.

BBC News Brasil – Nas cidades históricas de MG, principal território onde a mão de obra escrava foi utilizada, pouco se fala sobre a escravidão. A história ainda é contada pelo ponto de vista da Igreja e elite financeira. Acha que esse recorte pode mudar no país?

Gomes – Eu acho que sim. Eu fiz um capítulo chamado de o herói invisível, sobre um personagem curiosíssimo, ninguém sabe o nome, quem era, onde nasceu ou onde morreu. O único registro sobre ele o descreve como um mulato vindo do Paranaguá (PR), onde havia uma mineração mais rudimentar, e teria achado ouro em Minas Gerais.

Ele salvou a glória de Portugal, que estava seriamente abalada no século 18, depois da guerra contra os holandeses e da União Ibérica. Isso muda bastante a narrativa, pois pela historiografia ufanista brasileira esse protagonismo caberia aos bandeirantes, como Fernão Dias Paes Leme, Borba Gato, que entraram pelo sertão, alargaram fronteiras, descobriram ouro, diamantes, etc, portanto uma história branca e do colonizador.

A própria tecnologia de mineração de Minas Gerais aparentemente veio da África e não da Europa. Os portugueses sabiam fazer açúcar, mas não sabiam garimpar ouro e diamante. Quem sabiam era os africanos, que conheciam essas tecnologias muito bem na costa do Ouro ou costa da Mina, nos atuais Togo, Costa do Marfim e Gana. Essa tecnologia de achar ouro veio da África.

O tráfico negreiro não era apenas o comércio de gente na forma de commodity, gente cujo trabalho dependia do vigor físico – havia especializações. Então os africanos que vinham dos atuais Guiné-Bissau e Costa do Marfim sabiam muito bem a pecuária. Os africanos da Nigéria entendiam de metalurgia, os de Gana conheciam a mineração de ouro e assim por diante.

Os escravos que foram para o Maranhão e para a Carolina do Norte, nos EUA, conheciam cultivo de arroz na África e ainda hoje essas regiões produzem arroz.

Pessoas escravizadas reunidas em propriedade rural

LOFGREN/GOUVEA/FERREZ
“Os traficantes e seus fornecedores não eram bobos, sabiam da especialização e o preço variava de acordo com o seu conhecimento tecnológico na própria África”, detalha Gomes

Isso muda bem a visão da escravização e da própria construção do Brasil. A tecnologia e o conhecimento que permitiu a construção do Brasil e de seus muitos ciclos econômicos era africana.

O preço desses escravos era diferenciado na África de acordo com sua especialização. Os traficantes e seus fornecedores não eram bobos, sabiam da especialização e o preço variava de acordo com o seu conhecimento tecnológico na própria África.

BBC News Brasil – A história e cultura africana sempre foram deixadas em segundo plano, quando não apagadas intencionalmente. Quais as principais contribuições dos escravos para o Brasil atual?

Gomes – São muitas. Os grandes ciclos econômicos dependeram do trabalho braçal dos africanos, mas também do seu conhecimento tecnológico. Os grandes mestres construtores do Barroco mineiro, da Bahia, Pernambuco, eram negros. Até recentemente, se julgava que o Barroco era uma forma artística e arquitetônica europeia. Sim, claro, a influência é europeia, mas os elementos que estão lá são africanos.

A contribuição dos africanos é enorme não só do ponto de vista econômico, mas na formação do caráter, do comportamento, das crenças religiosas, da culinária, da música, da dança, do jeito de as pessoas se relacionarem umas com as outras, eu diria que a raiz disso é africana.

A escravidão não é um assunto de livro de história ou museu, é uma realidade concreta no século 21. Você vê a escravidão na paisagem brasileira, você vai ao Rio de Janeiro e vê quem mora na zona sul e quem mora nos morros e periferias abandonadas pelo Estado, é uma população majoritariamente descendente de africanos.

A escravidão está nos indicadores sociais até hoje. Há um abismo entre números referentes ao Brasil branco e o Brasil negro, além do racismo, que é como uma ferida que fica abrindo a toda hora, como vemos todos os dias notícias de racismo explícito nas redes sociais, no noticiário, etc.

Então, o legado da escravidão está nesse Brasil ruim que citei, mas está no Brasil bonito, plural, sorridente, generoso, da música, das festas, mas essa África infelizmente a gente despreza.

Uma África que é bonita, diferencia o Brasil do mundo, já que poucos países são tão plurais, heterogêneos e diversos como o Brasil, mas não valorizamos essa África quando temos que dar moradia, renda, estudo. É um dilema que o Brasil vive em relação ao seu passado escravagista.

BBC News Brasil – E por que não discutimos essas heranças?

Gomes – Eu acho que existe um projeto nacional de apagamento da memória. Por que não há um grande museu da escravidão? Não tem um museu como o que [o ex-presidente dos EUA], Barack Obama, inaugurou em Washington, nos EUA, por exemplo.

Esse projeto de apagamento se reflete nos livros de história, livros didáticos, como se a construção do Brasil fosse exclusivamente branca e europeia, e todos os demais agentes fossem autores secundários. Quando você mergulha de fato na história da escravidão, você vê que na realidade essas pessoas escravizadas são protagonistas.

Mas acho que isso está mudando. A história é uma ferramenta de construção de identidade, olhando o passado sabemos quem somos hoje. Essa identidade, no passado, foi imposta pelo Estado brasileiro de cima para baixo, em períodos de ditadura, como a do Estado Novo, como pelos generais, e é uma identidade que vende um Brasil de faz de conta, que teve uma escravidão patriarcal, benévola, que resultou em uma democracia racial e um Brasil pacifico, ordeiro, honesto.

Agora na democracia, que é uma coisa quase que inédita na história brasileira, estamos rediscutindo esses traços da identidade brasileira, entendendo que a imensa maioria deles era puramente mitológica.

Estamos fazendo uma reflexão muito profunda. A curto prazo é assustador o quanto somos diferentes do que imaginamos que éramos, mas a longo prazo é muito bom que isso ocorra, pois teremos uma consciência mais clara a respeito do que é o Brasil e quais as decisões teremos que tomar ao colocar o voto na urna e termos um país melhor que hoje.


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