DIÁRIO DE NOTÍCIAS (LISBOA)

Com uma capa especial quase totalmente em branco, o Folha de São Paulo assinala as 500 mil mortes no Brasil devido à covid-19. “Vamos morrer até quando?”, questiona o jornal.

Vários leitores classificaram como “arrepiante” a capa em branco da edição de domingo do jornal brasileiro Folha de S. Paulo, que visava assinalar as 500 mil vidas perdidas devido à covid-19 no país sul-americano.

Com uma capa especial quase totalmente em branco, foi acrescentado o texto: “Se uma capa vazia causa incómodo, imagine a dor que causa o vazio nas famílias dos 500 mil brasileiros que perderam a vida para a covid-19”.

“Vamos morrer até quando?”, questiona ainda o jornal na capa.

As reações foram imediatas, provocando milhares de comentários nas redes sociais.

“Arrepiada com a primeira página da Folha. Arrepiada de raiva pelo desgoverno genocida. Arrepiada de tristeza e frustração pelos 500 mil brasileiros mortos pela Covid”, escreveu a leitora Hanna Korich.

“Parabéns, Folha! É esse tipo de manchete que o Brasil precisa nesse momento (“Vamos morrer até quando?”, Primeira Página, 20/6)”, disse, por sua vez, a leitora Maria Corina Rocha, numa série de comentários destacados pelo próprio jornal.

Vários internautas usaram a secção de comentários da Folha de S. Paulo na rede social Instagram para criticar o Governo de Jair Bolsonaro pela marca trágica de mortes na pandemia.

“Enquanto a população aceitar as coisas do jeito que estão, somos responsáveis também por não fazer nada. Passou da hora de cobrar ações, inclusive de tirar do poder quem não é capaz sequer de lamentar por 500 mil mortes”, defendeu Paola Barros.

“Até quando? Hoje com a Covid é mais percetível, mas faz tempo que o brasileiro morre pelo descaso dos políticos. Enquanto não se governar para o pobre nesse país e tapar os buracos social, educacional e de saúde, muitos brasileiros ainda morrerão. E não será só de Covid”, lamentou o radialista Sergio Scarpelli.

“Alguém tem que deter esse irresponsável. #ForaBolsonaro”, pediu o leitor Gilson Lisboa.

 

Bolsonaro quebrou na segunda-feira o silêncio sobre a marca de 500 mil mortos atingida no sábado, atacando a imprensa.

O chefe de Estado irritou-se com um grupo de jornalistas e insultou-os, após ser questionado sobre as mais de 500.000 mortes que a covid-19 fez no país e a falha no uso de máscaras.

“Lamento todas as mortes”, disse, claramente irritado, Bolsonaro, que até ao final da tarde de segunda-feira ainda não tinha comentado a fatídica marca.

Questionado também sobre o hábito de não usar a máscara em público, que nesse momento estava a usar, Bolsonaro retirou o material de proteção do rosto e perguntou a uma repórter da rede Globo: “Está feliz agora?”.

 Brasil enfrenta uma terceira vaga da pandemia

Já sem máscara, e levantando o tom, afirmou: “Essa Globo é uma merda de imprensa. Vocês são uma porcaria de imprensa. Cala a boca, vocês são uns canalhas. Vocês fazem um jornalismo canalha, canalha, que não ajuda em nada. Vocês não ajudam em nada. Vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira. Vocês não prestam”.

Sobre o uso da máscara, o líder de extrema-direita e negacionista da pandemia insistiu: “Eu chego como quiser, onde eu quiser, eu cuido da minha vida. Se você não quiser usar máscara, você não usa”.

O Brasil, que enfrenta uma terceira onda da pandemia, está entre os três países mais afetados em todo o mundo, juntamente com os Estados Unidos e com a Índia, totalizando 502 586 mortes e 17 966 831 casos.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 3 868 393 mortos no mundo, resultantes de mais de 178,4 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

“A Letra I”, Elba Ramalho: sensacional gravação da nordestina Elba, em arranjo musical, voz e interpretação desta antológica música junina, que emocionou o País, na live que ela fez domingo, em Recife, sob patrocínio da Rádio Jornal do Comércio. Maravilha. Confira!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares) 

jun
23

A publicação de Ciro foi atacada por pastores aliados do presidente Jair Bolsonaro e deixa explícita a briga pelos votos do segmento religioso entre os pré-candidatos ao Planalto.

AE
Agência Estado
postado em 22/06/2021 09:41
 

 (crédito: Fonte: Twitter)

(crédito: Fonte: Twitter)
Em uma tentativa de aproximação com o eleitorado evangélico, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) postou nesta segunda, 21, um vídeo em suas redes sociais no qual exalta os valores cristãos enquanto segura a Bíblia em uma mão e a Constituição na outra. “O Brasil é uma República laica, mas a Bíblia e a Constituição não são livros conflitantes”, disse o presidenciável pedetista. A publicação de Ciro foi atacada por pastores aliados do presidente Jair Bolsonaro e deixa explícita a briga pelos votos do segmento religioso entre os pré-candidatos ao Planalto.
Confira o vídeo:
Na mensagem de pouco mais de 2 minutos, Ciro disse que o Brasil “se formou no berço do cristianismo”. Aliado e conselheiro de Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, postou uma resposta rápida nas redes sociais atacando o ex-ministro. “Começou a temporada de mentira, safadeza e cinismo na política”, afirmou o líder religioso. Em seguida, Malafaia disse que o PDT apoia o aborto e a “ideologia de gênero”.
A gravação de Ciro ocorreu após o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se encontrar na semana passada no Rio de Janeiro com Manoel Ferreira, bispo primaz da Assembleia de Deus, uma das maiores igrejas do País. Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, o eleitorado evangélico está dividido entre o atual e o ex-presidente: 35% das intenções de voto para Lula e 34% Bolsonaro.
Estudioso do tema, o cientista político Vinicius do Valle, autor do livro Entre a religião e o lulismo, avalia que Ciro terá muita dificuldade para se aproximar desse eleitorado. “Ele não tem qualquer relação com o movimento evangélico. Soa artificial, mas é uma primeira tentativa de aproximação”, afirmou. Valle ressaltou ainda que Bolsonaro está fechado com os principais líderes evangélicos brasileiros, mas Lula conta com um apoio enraizado e crescente na base desse segmento. “Esse é o momento mais frágil de Bolsonaro entre os evangélicos. Não há um domínio absoluto da alta cúpula das igrejas sobre os fiéis.”
Em 2010, os evangélicos representavam 22% da população do País, segundo a última edição do Censo, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“Ciro nunca foi ligado à igreja e alguns líderes evangélicos estão se descolando da imagem de Bolsonaro. Enquanto isso, Lula tem muito apoio nas classes D e E. Está mais forte. Existem 11 mil igrejas na capital (paulista). Quando você anda nos bairros mais pobres vê várias na mesma rua”, afirmou o pastor da Igreja Evangélica Poderoso Deus, Luciano Luna, que também é coordenador de assuntos religiosos do PSDB paulistano.
Ao mesmo tempo que luta para ser o candidato do PSDB à Presidência, o governador João Doria tenta também quebrar a polarização entre os fiéis. O tucano vai fazer uma série de agendas nas igrejas quando avançar a vacinação, disse Luna. “Quando era prefeito, Doria virou amigo dos grandes líderes das igrejas, que estão em sua maioria na capital. Fizemos um culto com 300 pastores dentro da Prefeitura e levamos ele em todas as igrejas.”
Presbítero da Assembleia de Deus e filiado ao Podemos, o pastor Geraldo Malta acredita que 90% do segmento evangélico permanecerá com Bolsonaro. “O (bispo) Manuel Ferreira recebeu o ex-presidente por cortesia, já que eles são amigos e foram deputados juntos. É muito difícil evangélico votar na esquerda”, afirmou.
O presidente mantém um discurso sob medida para esse público religioso. Foi contra o fechamento das igrejas na pandemia e mantém a promessa de indicar para o Supremo Tribunal Federal (STF) um ministro “terrivelmente evangélico” após a aposentadoria de Marco Aurélio Mello.
Além do alinhamento com as pautas religiosas, o governo Bolsonaro tem evangélicos em postos-chave: o Ministério da Educação é comandado pelo pastor presbiteriano Milton Ribeiro. Damares Alves, pastora da Igreja Batista, é a titular do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Cotado para o STF, André Mendonça, ex-ministro da Justiça e atual advogado-geral da União, é pastor presbiteriano.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

jun
23
Posted on 23-06-2021
Filed Under (Artigos) by vitor on 23-06-2021



 

Amarildo, no jornal

 

jun
23
Posted on 23-06-2021
Filed Under (Artigos) by vitor on 23-06-2021
 

DO EL PAÍS

Ministério Público do Tribunal de Contas da União pede ao Supremo compartilhamento do inquérito que levanta a engrenagem nas redes para financiar os atos antidemocráticos. Tentáculos passam pelos endereços da primeira-dama e assessores dos filhos do presidente Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro entre apoiadores e o filho Eduardo (à direita), em 12 de junho de 2021, durante um protesto bolsonarista em São Paulo.
O presidente Jair Bolsonaro entre apoiadores e o filho Eduardo (à direita), em 12 de junho de 2021, durante um protesto bolsonarista em São Paulo.Marcelo Chello / AP
 Flávio Freire
Santos

A pandemia do novo coronavírus já havia fechado fronteiras de diferentes países e ganhava corpo no Brasil em maio do ano passado. O país contabilizava, à época, 100.000 casos e 7.000 mortes pela covid-19, e seguia numa progressão que já se mostrava descontrolada, sobretudo pelo descompasso das ações do Governo ao que até hoje é preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Na manhã do dia 3 daquele mês, um domingo ensolarado, o presidente Jair Bolsonaro devotou-se a apoiar manifestantes em frente ao Palácio do Planalto. Não usava máscara, tampouco seguia a orientação de autoridades médicas e científicas para evitar ?ou ajudar a formar? aglomeração. Diante de fiéis seguidores, disse que havia chegado ao seu limite, e que pedia a Deus para não ter problemas.

Cercado de seguranças, gravou um vídeo para a equipe responsável pelas suas redes sociais. Nele, minimizava os primeiros efeitos da pandemia, a qual, mais de um ano depois, colocaria o Brasil na lista dos países com um dos mais altos índices de mortalidade em decorrência da covid-19: “Sabemos o efeito do vírus, infelizmente muitos serão infectados e perderão suas vidas, mas é uma realidade.” O indisfarçável desdém em relação à doença, no entanto, tinha um outro propósito naquele dia.

O colérico convescote à porta da sede do Governo reunia uma trupe de homens e mulheres de camisas e faixas verde e amarela, alguns enrolados em bandeira do Brasil, não para exigir medidas sanitárias que pudessem conter o avanço da doença, mas aguerridos em campanha pela reedição do Ato Institucional 5 (AI-5) e por intervenção militar, processo inconstitucional dada a apologia contra a democracia.

Os principais alvos eram o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional, após medidas contrárias ao pensamento bolsonarista. “Queremos a independência verdadeira dos três Poderes, não apenas uma letra da Constituição. Não vamos mais admitir interferência”, disse Bolsonaro, em tom peremptório se comparado à preocupação com as vítimas do coronavírus desde àquela ocasião.

Dias antes, um dos ministros do STF, Alexandre de Moraes, havia barrado o nome de Alexandre Ramagem para a diretoria-geral da Polícia Federal, sob o argumento de que a nomeação representava um desvio de finalidade do Governo para interferir politicamente na PF. Ramagem é amigo dos filhos do presidente, e a tentativa de acomodá-lo no cargo levou à crise do Planalto com o ex-juiz Sergio Moro, que abandonou o barco quando percebeu que não tinha carta branca para, como ministro da Justiça, indicar sequer alguém para o maior posto da PF.

Considerados antidemocráticos, os atos realizados pelo país àquela altura eram apenas a face visível de um trabalho estrategicamente elaborado desde a campanha presidencial nos porões da internet, com ajuda de apoiadores da chamada linha de pensamento conservador que ganhou brado com a chegada de Bolsonaro ao poder. Para investigar as denúncias de mau uso das redes por parte do Governo a fim de insuflar uma faixa do eleitorado contra os Poderes constituídos, a polícia então instaurou em abril do ano passado um inquérito com a finalidade de investigar quem são os responsáveis pela atuação nas redes, quem financia e qual a relação de cada um deles com o comando do Governo federal. Revelou-se, a partir daí, uma ação coordenada entre os mais diferentes agentes, de parlamentares a empresários, passando por influenciadores digitais e donos de sites colocados sob suspeita pela PF.

Com a popularidade por vezes em xeque, o Governo era apontado como um incentivador de perfis dominados por robôs, que, com nomes e apelidos diferentes, repetiam à exaustão uma mesma crítica (muitas vezes com igual erro de português) ao STF ou a algum parlamentar na mira dos bolsonaristas. Com 1.023 páginas, o inquérito montado em oito meses de investigação revela a estreita relação de agentes públicos e apoiadores também com os filhos do presidente. Segundo o relatório, aliados ao clã Bolsonaro formavam o que foi batizado de gabinete do ódio, o que já se sabia há tempos, mas agora desvelado nas investigações com detalhes até então resguardados pela privacidade das redes sociais. Trecho do documento diz que o grupo incitava “parcela da população à subversão da ordem política ou social e à animosidade das Forças Armadas contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional”. Eduardo e Carlos Bolsonaro foram intimados na condição de testemunha para falar sobre os atos antidemocráticos. Assíduos nas redes sociais, eles fazem críticas costumeiras às medidas adotadas pelo STF e pelo Congresso contra o Governo do pai.

Nunca antes um inquérito da PF havia vasculhado tamanho volume de indícios que colocam o governante do país em situação tão desconfortável quando o assunto é a destituição do Judiciário ou do Legislativo.

As investigações se concentraram por um tempo numa figura de zerada expressão pública, mas com trânsito aparentemente livre entre Bolsonaro e seus familiares. Tido como um dos participantes do gabinete do ódio, Tercio Arnaud Tomaz é lotado como assessor no gabinete de vereador de Carlos Bolsonaro, no Rio, mas dava expediente no Palácio do Planalto numa sala contígua a do gabinete presidencial, no terceiro andar. Ao lado de outros assessores, Arnauld opera ou administra, segundo a polícia, perfis disseminadores de falsas informações. Há cerca de dois anos, ele foi chamado para “impulsionar” as redes bolsonaristas.

O foco das investigações em torno de Arnauld ganhou tinta quando a polícia descobriu ?e o STF decidiu divulgar ao liberar o sigilo do inquérito? que a atuação dele não se restringia aos corredores palacianos. Ex-recepcionista de hotel alçado à condição de mentor intelectual do grupo que produziria fake news, além de memes e piadas para atacar moralmente os adversários do presidente, Arnaud teve suas redes devassadas. Foram encontradas 31 pessoas vinculadas a contas operadas ou administradas por ele.

Mas foi ao quebrar o sigilo dos perfis que a polícia descobriu um elo ainda mais forte da atuação dos Bolsonaros no ambiente profundo do mundo virtual. Arnauld já havia acessado as contas Bolsonaronews e Tercio Arnaud Tomaz através da rede da primeira-dama Michelle Bolsonaro. E não foi em Brasília. “Trata-se, ao que tudo indica, do endereço residencial do presidente Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro”, segundo um dos analistas da PF que relatou no inquérito.

Todos os integrantes da família Bolsonaro negam irregularidades no uso de suas redes sociais. A polícia descobriu ainda que tais perfis administrados por Arnaud foram acessados 1.045 vezes também de computadores do Senado Federal, da Câmara, da Presidência da República e até do Comando da Brigada de Artilharia Antiaérea. “Ao que tudo indica, as contas objeto desta análise, removidas pelo Facebook de suas redes sociais, se enquadram na tipologia ‘Operações executadas por um governo para atingir seus próprios cidadãos. Isso pode ser particularmente preocupante quando combinam técnicas enganosas com o poder de um Estado’”, diz o relatório da PF.

Assessores ligados aos filhos de Bolsonaro atuam, de acordo com a investigação, em contas sem autenticação usadas para atacar opositores do Governo. Para tentar entender melhor como funciona a dinâmica dos ataques na internet, a PF foi abastecida com informações da Atlantic Council, empresa especializada em analisar comportamentos inautênticos nas redes sociais. Verificou-se, a partir daí, que três grupos ?chamados Rio, Brasília e São Bernardo do Campo? tinham atuação relevante entre os bolsonaristas.

Uma das informações obtidas através da Atlantic é que Fernando Nascimento Pessoa operava seis contas ocultas em redes sociais. Pessoa é assessor de Flávio Bolsonaro desde 2014 e investigado no caso da rachadinha à época em que trabalhava para Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

O relatório destaca nomes como a ativista Sara Giromini (conhecida como Sara Winter) e o jornalista Oswaldo Eustáquio. Mais que apoiadores, ambos tinham cargo no Governo e atuavam a favor do presidente Bolsonaro enquanto recebiam salários no ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado pela religiosa Damares Alves. Sara e Eustáquio chegaram a ser presos durante a investigação, e desde então diminuíram, ao menos publicamente, suas presenças nas redes.

Foram oito meses de investigação, até dezembro, quando a Polícia Federal encaminhou o inquérito para o STF. Alexandre de Moraes, então, enviou o documento para a Procuradoria Geral da República, que, cinco meses depois, em maio deste ano, pediu o arquivamento do processo. O ministro do STF solicitou mais informações à Procuradoria, antes de decidir se daria ou não por encerrado o processo que investiga aliados do Governo. Antes, porém, Moraes liberou o sigilo de toda a investigação, resguardando apenas os documentos obtidos ao longo da apuração.

Na última quinta, a PGR reiterou ao STF pedido de arquivamento dos processos contra deputados com trânsito livre na Presidência. O vice-procurador Humberto Jacques de Medeiros afirmou: “Não se pode prolongar investigação sabidamente infrutífera”. O procurador-geral, Augusto Aras, aliado de Bolsonaro, tenta uma indicação para o STF.

A julgar pela transcrição das mensagens, fotos e cópias de documentos anexados ao inquérito, as investigações devem dar fruto. O que já era percebido nas redes sociais foi revelado com detalhes pelas investigações. Os dois primeiros anos do Governo Bolsonaro foram marcados por forte atuação de agentes da Secretaria Epecial de Comunicação (Secom) junto às chamadas redes aliadas para propagar o que era de interesse do Governo, consequentemente, contra as ações do Congresso e principalmente do STF. Foram ataques direcionados a Moraes que levaram o deputado bolsonarista Daniel Silveira à prisão, de onde saiu obrigado a usar tornozeleira eletrônica.

O inquérito mostra que o ex-secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, abraçou a causa bolsonarista e estabeleceu, em sua gestão, uma forte relação com os influenciadores digitais da direita. Segundo relatório da PF, em abril de 2019 Wajngarten assumiu o comando da Secom e tratou de se aproximar do blogueiro Allan dos Santos, dono do site Terça Livre e amigo dos filhos do presidente.

Na ocasião, mostra o documento, Wajngarten se apresentou para Allan dizendo que poderia aproximá-lo de veículos tradicionais de imprensa e que, naquela semana, já havia promovido encontros de parlamentares com a cúpula do SBT, da Band e se encontraria com “bispos da Record”. Wajngarten nega que tenha havido interesse político na aproximação. “Minha gestão sempre foi técnica e profissional. Cabe à Secom atender a todos os veículos de maneira equânime”, afirmou.

O foco da operação policial nas ações que vinham sendo tomadas por pessoas próximos ao presidente terminou por um revés no comando das investigações. A delegada Denisse Ribeiro, responsável pelo caso, foi afastada do posto duas semanas depois de pedir ao STF autorização para realizar busca e apreensão nos gabinetes da Secom e da Presidência.

O conteúdo conservador dos blogs e páginas em rede social não rendem apenas seguidores com o mesmo viés ideológico. Desde a campanha de Bolsonaro à Presidência, pelo menos 12 perfis já receberam 4 milhões de reais via monetização de suas redes de apoio ao Governo. As páginas ganham reforço financeiro também de doadores espontâneos. O relatório da PF identificou que apenas o site Terça Livre, de propriedade de Allan dos Santos, receberia 100.000 reais por mês via plataformas de crowdfunding. “Durante busca e apreensão executava na residência de Allan dos Santos foi encontrada uma planilha de doadores do canal com mais de 1.700 linhas”, diz o documento da PF.

Nesse material consta, por exemplo, a doação de 70.000 reais por parte de uma servidora do BNDES, além de outros 40.000 reais por parte de um funcionário da secretaria da Fazenda, no Rio. O engajamento de pessoas simpáticas ao ambiente conservador tem suscitado desconfiança entre os investigadores. Allan dos Santos nega irregularidades ou responsabilidade na divulgação de notícias falsas. “Resta saber se essas doações são por pura simpatia à causa ou se tem gente tendo que rachar salário para abastecer um ambiente perverso à democracia”, diz um delegado da PF de São Paulo que ajudou nas investigações ao longo do ano passado.

Diz o documento: “Segundo os dados discutidos por pessoas ligadas à gestão financeira do Terça Livre, entre 13 de abril e 2020 e 13 de maio de 2020, foram realizadas 1.581 transações, das quais 659 sem reconhecimento de identificação de CPF.” À letra da lei, transações financeiras que ocultam a identificação dos negociadores revelam, no mínimo, uma dinâmica inapropriada. No rol de aliados também ouvido pela Polícia Federal, o empresário Otavio Fakhoury aparecia até então não só como um entusiasta do Governo bolsonarista, mas um dos grandes críticos ao STF e ao Congresso, fórmula capaz de transformar em aliado qualquer amigo de primeira hora da família Bolsonaro.

Uma análise feita no celular de Fakhoury mostra sua disposição em atacar o STF quando o assunto desagrada o Governo, como aconteceu quando o ministro Luís Roberto Barroso o criticou o uso de hidroxicloroquina como medicamento para prevenir a covid-19, num tratamento precoce sem qualquer comprovação científica, mas até hoje usado como uma bandeira bolsonarista.

Numa conversa em maio de 2020, semanas depois daquele domingo ensolarado em que Bolsonaro apoiou o ato contra o STF, Fakhoury endossou as críticas da deputada Bia Kicis (PS) contra o ministro Barroso. Defensora fervorosa da atual Administração, o que lhe rendeu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na Câmara, Kicis reclamou com o empresário que Barroso estava tentando barrar o uso do remédio como tratamento precoce a covid-19. “Canalhas. Olha, vai ser muito difícil terminar esse governo sem entrar de cabeça numa guerra institucional contra eles, porque eles é que invadem o Executivo”, respondeu Fakhoury.

Dois meses antes, o empresário havia procurado Eduardo Bolsonaro para que o deputado tentasse lhe ajudar a conseguir um dial de FM para migrar a rádio que ele administra na internet. Numa das mensagens interceptadas pela polícia, o empresário dispara: “Precisamos da FM, nossa arma para a guerra política.” O empresário declarou que a expressão “guerra política” não ultrapassa o limite do debate de ideias.

Eduardo Bolsonaro, deputado federal mais votado nas eleições para a Câmara em 2018, decidiu atender prontamente ao pedido do empresário e buscou apoio do bispo RR Soares. Dia depois do encontro com o religioso, disse ao empresário que pelo menos três rádios estariam à venda, e que ele (Fakhoury) deveria tratar com os negociadores. Procurada, a assessoria de imprensa do deputado não respondeu sobre as conversas com o empresário.

Sem precedentes no Brasil, a investigação pela Polícia Federal de atos antidemocráticos revelou uma relação dissoluta do Governo com sua base fisiológica, dentro e fora do poder. Ao que tudo indica, a dinâmica adotada pelo clã Bolsonaro para blindar o Planalto já não é uma dúvida para as autoridades federais, resta saber se, quando, quanto e quem pode ter recebido recursos para jogar nas trincheiras pró-bolsonaristas.

Nesse sentido, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União decidiu pedir, na última quinta-feira, ao STF que compartilhe dados não só a respeito da organização, mas do financiamento desses atos, virtuais ou não. A ideia é entender se houve dinheiro público nesse custeio. “Chegar ao financiador nos permitirá descobrir quem está por trás da tentativa de perpetuar um governo que faz questão de acabar com instituições democráticas”, diz um senador integrante da CPI da Pandemia, que, assim como o inquérito dos atos antidemocráticos, também investiga toda a sorte de informações falsas responsáveis por prejudicar a luta contra a covid-19 no país.

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