Jogador, técnico, estou fora dessa', diz Bolsonaro sobre participação na Copa América

Caboclo e Bolsonaro: Copa América começa em Brasília.

ARTIGO DA SEMANACopa e Covid: Bolsonaro, Caboclo, Tite (e Saldanha)

Vitor Hugo Soares

Confirmada para acontecer no Brasil, a partir deste domingo, 13 de junho, em tempo temerário e mortal da pandemia, a Copa América 2021 começa com Brasil x Venezuela, no Mané Garrincha, em Brasília, e todos os ingredientes para entrar na história da grande calamidade da saúde – o pais já conta mais de 480 mil mortos antes do toque de bola inicial – como a “Copa da Covid-19” ou “Copa Bolsonaro”, em homenagem ao seu patrono. A notícia conduz o jornalista aos loucos Anos 70, da ditadura de Emílio Garrastazu Medici no poder e do embate causado pela intervenção política e da propaganda estatal no futebol, que custou a cabeça do indomável jornalista e notável treinador João Saldanha, às vésperas do embarque do escrete nacional para a histórica conquista do tri da Copa do Mundo, no México.

O pensamento me transporta à crônica antológica de Nelson Rodrigues, sobre o episódio que dividiu a opinião pública brasileira na época, publicada no jornal O Globo, no dia 19 de abril de 1970. “Jogo Sujo, muito sujo”, uma brilhante metáfora do Brasil, do mais emblemático “reacionário” do país (como se dizia então) em defesa de princípios e da integridade ética e coragem moral de “João Sem Medo”, notório membro do Partido Comunista Brasileiro.

O texto é irretocável e exemplar – como jornalismo informativo e de opinião – na forma e  conteúdo. A abertura merece ser reproduzida, para a devida contextualização e comparação com os lamentáveis e deprimentes dias que correm: “Quando escrevo sobre as hienas, sobre os abutres, sobre os chacais do futebol brasileiro – todo mundo acha que estou fazendo uma metáfora. E ninguém desconfia que são as hienas, os chacais, os abutres os autores da catástrofe. Já rolou a cabeça de João Saldanha. Não se pense, porém, que a tragédia foi improvisada de um dia para o outro. Sabem quando começaram a afiar a guilhotina? No dia seguinte em que o escolheram para técnico da seleção”, escreveu Nelson.

Luminosa verdade exposta de forma tão candente e exemplar, que fica a impressão de que paramos no tempo e tudo se deu esta semana, mudando apenas algumas manobras e personagens. E lá se vão mais de meio século. Vivemos agora a Copa América do capitão mandatário do Planalto, que escancarou as portas do país para sediar a improvisada disputa continental de futebol, antes programada para ocorrer na Colômbia e na Argentina, que desistiram, diante de fortes reações internas, nas duas nações. Aqui, tudo se deu em rápidas e tenebrosas transações de poder, jogo de interesses e de dinheiro. A partir de turvas e submersas negociações entre cartolas da Conmebol e o Palácio do Planalto, tocadas no Brasil pelo presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo – acusado, às vésperas do torneio, de assédio sexual contra uma secretária da Confederação, que o denunciou – em linha direta com os donos do poder em Brasília, com promessa da cabeça do treinador na barganha. Cabeça prometida por Caboclo ao presidente Bolsonaro, desde o começo do governo do capitão que só pensa na reeleição e em ver Renato Gaúcho no comando dos “canarinhos”. O jogo deu errado e a corda quebrou do lado do Caboclo.

Os jogadores armaram um princípio de sublevação, em defesa de Tite – ironizado até pelo compassivo vice, Hamilton Mourão. Tirado o bode Caboclo da sala, tudo se arranjou, até no STF. A cabeça de Tite fica para depois, se depois houver, além da prevista expansão da  pandemia.­­­ A ver.

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