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Postado em 09-06-2021
Arquivado em (Artigos) por vitor em 09-06-2021 00:10

DO EL PAÍS

Caso de João Saldanha em 1970, derrubado a pedido de Médici, vem à tona com pressão sobre Tite, chamado de “puxa-saco do Lula” pelo senador Flávio Bolsonaro. “Técnico de futebol tem que estar alinhado com o futebol”, encerra técnico brasileiro

Tite, atual treinador da seleção, na partida contra o Equador em Porto Alegre, na última sexta (4)
Tite, atual treinador da seleção, na partida contra o Equador em Porto Alegre, na última sexta (4)Ricardo Rimoli / EFE
 Diogo Magri
São Paulo

 

Pouco tempo antes da Copa do Mundo, um Governo se baseia em motivos políticos para pedir a troca no cargo de treinador da seleção brasileira de futebol. Aconteceu em 1970, quando o ditador Emílio Garrastazu Médici pediu a cabeça de João Saldanha, que treinava a equipe brasileira meses antes do tricampeonato mundial no México, mas decidiu denunciar as violações do regime. O caso emblemático veio à tona nos últimos dias com a intensa pressão política sobre Tite, o atual comandante da seleção, cuja permanência no cargo foi posta dúvida no momento em que ele é alvo de intensa campanha contrária de apoiadores bolsonaristas, puxada nada menos do que pelo filho mais velho do presidente, senador Flávio Bolsonaro. Por ora, Tite fica, e os jogadores anunciaram que vão jogar o torneio, mas o episódio compõe mais uma das tensões envolvendo a realização da Copa América no Brasil.

A articulação do Planalto contra Tite não se resumiu às redes sociais. Segundo o jornalista do SporTV, André Rizek, quando ainda no cargo, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Rogério Caboclo, prometeu ao próprio presidente Jair Bolsonaro a demissão do treinador após a manifestação pública de desconforto por parte de Tite por conta da decisão do país de sediar o torneio em meio ao recrudescimento da pandemia em algumas regiões. Caboclo acabou afastado por denúncia de assédio sexual antes de concretizar a promessa, o que, pelo menos por enquanto, impediu Bolsonaro de repetir a interferência da ditadura militar na entidade mais representativa do futebol brasileiro.

O descontentamento por parte do Governo federal começou desde que Tite se tornou o primeiro da delegação brasileira a falar sobre a realização do torneio sul-americano no Brasil. Depois das recusas de Argentina e Colômbia, a Conmebol firmou o acordo com as autoridades brasileiras para que a edição, a duas semanas do seu início, fosse transferida ao país mais atingido pela covid-19 no continente. A decisão acendeu o debate sobre os problemas de um campeonato dessa proporção acontecendo neste momento no Brasil, inclusive entre os próprios jogadores brasileiros. “Temos uma posição clara, mas não vamos externar isso agora”, se limitou a dizer Tite no dia 3 de junho, 48 horas após a confirmação da Copa América no Brasil.

Apesar de não ter esclarecido a posição, desde então a hashtag #TiteComunista passou a figurar entre os assuntos mais comentados do Twitter. O senador Flávio Bolsonaro corroborou com os protestos chamando o treinador de “puxa-saco do Lula”. “Bastou a CBF pedir para o presidente Bolsonaro a autorização para que ela acontecesse aqui no Brasil para que o Tite se posicionasse politicamente”, disse ele. Hamilton Mourão, vice-presidente, ironizou a possível saída do comandante ao lhe oferecer o cargo num clube mato-grossense que demitiu seu treinador recentemente: “O Cuiabá está precisando de técnico”. Do outro lado, foi a vez do capitão da seleção, Casemiro, se manifestar após a vitória contra o Equador, na última sexta (4), dizendo que “Tite deixou claro nosso posicionamento e o que nós pensamos da Copa América”. Por fim, circulou a informação de que Caboclo teria prometido a Bolsonaro a troca de Tite pelo treinador bolsonarista Renato Gaúcho, que pediu demissão do Grêmio no início do ano.

História e acomodação

Nos anos 70, o então técnico da seleção, João Saldanha, não deixou sua opinião de lado e, após a morte do guerrilheiro Carlos Marighella pelo regime militar, montou um dossiê em que citava mais de 3.000 presos políticos, mortos e torturados pela ditadura brasileira, e o distribuiu a autoridades internacionais quando esteve no México para o sorteio do Mundial, em janeiro de 1970. Dali até a demissão por influência do Governo, em março daquele ano, foi questão de tempo. A tese de que a oposição de Saldanha contra o regime militar foi a responsável por sua demissão é reforçada pelo livro Quem derrubou João Saldanha, de Carlos Ferreira Vilarinho, e no documentário Pelé, de 2021, onde o camisa 10 da seleção é colocado como pivô na discussão que culminou na queda do treinador. Desde então, outros presidentes não interferiram diretamente no futebol brasileiro.

Nesta segunda, o presidente Bolsonaro garantiu que só interveio na CBF para autorizar o recebimento da Copa América no país. “No tocante a jogador, técnico, estou fora dessa. Não tenho nada a ver com isso aí”, afirmou. Tite, em entrevista coletiva, desconversou ao dizer que nunca se sentiu ameaçado de demissão. “As pessoas acham que a gente tem que ter opinião sobre tudo, mas a gente tem que ter opinião sobre futebol. Técnico de futebol tem que estar alinhado com o futebol”, disse o treinador, na contramão do que havia declarado, ou ao menos insinuado, até então. Vale lembrar que, de acordo com os artigos 14 e 19 do Estatuto da FIFA, as federações nacionais (como a CBF) são consideradas entidades privadas e não podem aceitar interferência de Governos, sob possibilidade de punição. Nos últimos dez anos, as federações de Nigéria, Paquistão e Chade foram punidas ou ameaçadas pela FIFA após terem intervenções dos Governos locais em suas diretorias ou seleções de futebol.

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O novo discurso de Tite e sua permanência no cargo deu o tom da acomodação dos ânimos, para irritação dos críticos do bolsonarismo, que gostariam de ver a resistência do elenco. Após o afastamento do presidente da CBF, Rogério Caboclo, os jogadores da seleção brasileira de futebol também decidiram que irão disputar a Copa América 2021 no Brasil, segundo o portal de notícias esportivas da Globo (GE). Tudo deve ser confirmado em um manifesto que será divulgado pelos jogadores após a partida contra o Paraguai, nesta terça, às 21h30, em Assunção, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo.

Segundo o GE, o manifesto deve ter críticas dos atletas com relação à forma como o evento foi organizado em meio à pandemia de covid-19, sendo transferido para o Brasil a duas semanas de seu início. Porém, os jogadores querem evitar uma “politização” do assunto, apesar das rusgas envolvendo bolsonaristas e Tite. O portal apurou que o maior motivo de insatisfação dos jogadores era personificado no presidente da CBF, que não comunicou a eles a possibilidade do campeonato ser realizado no Brasil antes do anúncio oficial e seria o responsável pela discussão política ter invadido o ambiente da seleção.

O debate acerca da realização da Copa América no país sul-americano mais atingido pelo novo coronavírus ainda prossegue, com a divulgação dos protocolos de segurança sanitária. Atletas da seleção uruguaia e argentina chegaram a explicitar a preocupação em jogar no Brasil e um boicote chegou a ser cogitado entre as seleções, mas descartados pelas próprias federações —Argentina e Uruguai, por exemplo, já confirmaram a participação no torneio, apesar de a última revelar que ficará concentrada em Buenos Aires. Na volta do Paraguai —onde boa parte da delegação deve receber a primeira dose da vacina contra covid-19— Tite anunciará seus convocados pra a competição sul-americana, e já se prepara para jogar em Brasília no próximo domingo, dia 13, contra a Venezuela, na abertura oficial da Copa América 2021.

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Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 9 junho, 2021 at 12:21 #

João Saldanha era fera! Digno, altivo, sério, honesto, combativo, sintonizado com as lutas do povo brasileiro.

‘Ele escala o ministério, eu escalo a seleção’: o técnico do Brasil que peitou o presidente


Taciano Lemos de Carvalho on 10 junho, 2021 at 1:09 #

Quem nasceu para ser Tite, nunca chega a João Saldanh.


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