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 Bolsonaro em Alagoas: campanha na região do rio São Francisco
ARTIGO DA SEMANA

Velho Chico e Codevasf: palanque de Bolsonaro, estatal do Centrão

Vitor Hugo Soares

À imagem e semelhança do destino atávico da tristeza do samba, na composição dos tropicalistas baianos, também os rumos do Rio São Francisco, descoberto pelo navegador florentino Américo Vespúcio – que navegou em sua foz em 1501 parece, desgraçadamente, fadado à desvairada e predatória exploração política e eleitoral. Principalmente a partir da criação, no governo da ditadura militar, da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba- Codevasf (a inclusão do vale piauiense é fruto de um arranjo eleitoreiro, do petismo) de grandes descalabros históricos desde então, agora envolvida pelo governo Bolsonaro, em escândalo de quase R$ 3 bilhões, para atender aos desígnios do mandatário, já em campanha para reeleição em  2022, e em benesses ofertadas ao notório Centrão para  assegurar o controle político do Congresso.

Nasci nas barrancas do rio que vem de Minas e atravessa cinco estados, até desembocar na costa alagoana, cada vez menos caudaloso em sua foz, como deve ter visto o presidente da República, em visita-comício a Alagoas, na quinta-feira, a título de inaugurações. Conheço o Velho Chico desde os primeiros ruídos que escutei na vida (da correnteza de sua passagem quase no quintal de minha casa). Sei quase tudo de seu curso doce e milagroso no sertão nordestino: cada curva, banco de areia que prende embarcações, cada salto, cachoeira, canal de irrigação, cada barragem e usina hidrelétrica no seu leito, ora barrento ora cristalino. Quase sempre de pura mansidão, às vezes vigoroso e encrespado. Imprevisível mesmo, como no trecho da Barragem de Xingó, em Sergipe, onde o ator Domingos Montagner foi tragado pala força dos redemoinhos, num banho em suas águas, no fim das gravações da novela  “Velho Chico”, da TV Globo, um drama tão simbólico e inesquecível quanto o próprio folhetim.

Sei por ver e viver, e não por ouvir dizer, sobre o rio e a Codevasf. A começar pela construção da usina pioneira da Chesf, em Paulo Afonso. Garoto, estava lá no dia que o presidente Café Filho desembarcou, no aeroporto local, para inaugurar a hidrelétrica, idealizada no governo Getúlio Vargas, para iluminar o Nordeste inteiro. Posso afirmar: desde a criação da Codevasf, quanto mais o rio definha e seca, mais é devastado pela sanha corrupta e caça de votos em períodos eleitorais: da “direita”, “esquerda” e dos esfomeados “centrões” que pousam no poder em todos os governos. 

Desta vez, o esquema bolsonarista – sem projeto próprio e sem diretriz – extrapolou. O jornal Estado de S. Paulo revelou situação escandalosa que vai muito mais de um ponto fora da curva. Além da criação de um orçamento clandestino de R$ 3 bilhões, o governo Bolsonaro “expandiu e turbinou a Codevasf, estatal loteada pelo Centrão, onde vai aplicar cerca de um terço destes recursos, por imposição dos políticos que a controlam”. Um novo golpe eleitoral da “transposição”, agora aplicado por forças de mando da “direita” no poder. A Codevasf , inchada, virou duto para saciar interesses localizados. Na febre antecipada da campanha, o esquema do mandatário” incluiu na área de atuação da empresa pública mil novos municípios, muitos deles localizados a mais de 1.500  quilômetros das águas do São Francisco”. A estatal passa a abarcar também os estados do Amapá, de Davi Alcolumbre; Paraíba e Rio Grande do Norte. Mais bocas para mamar nas tetas da Codevasf e sugar ainda mais o anêmico Velho Chico.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail:vitors.h@uol.com.br

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Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 15 Maio, 2021 at 10:48 #

Que perfeito relato sobre o Velho Chico! Sobre o Velho Chico e sobre aqueles políticos que vivem mamando nas tetas dos cofres públicos e, também, sugando das águas do Rio. E se alimentando, também, da desgraça do nosso Povo.

Vitor, parabéns pelo excelente artigo.


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