Vida longa ao Rei! Roberto Carlos faz aniversário e comemora: 'Sou um cara com muitos sonhos aos 80 anos' | Diversão | O DIA

Gama Livre: Jânio Ferreira Soares, no Bahia em Pauta: O Rio São Francisco, mesmo com milhões de metros cúbicos sem oxigênio, manda de Paulo Afonso um recado de vida e resistência

CRÔNICA

                                           Roberto tem gosto de Fratelli Vitta

           Janio Ferreira Soares

Na última segunda-feira, 19 de abril, Roberto Carlos fez 80 anos. Os poucos que me dão a honra sabem que vez ou outra cito suas canções por aqui, já que elas me acompanham desde quando eu pedalava minha bicicleta de rodinhas pelos becos de Glória e sua voz saía do alto-falante da praça ritmando meus cambitos, ora dizendo que era proibido fumar, ora avisando de um leão solto nas ruas, outras tantas freando o carango na contramão só pra azarar um brotinho na calçada, que imaginava Wanderléa com sua botinha ¾ sobre o meio-fio da esquina do bar de Miguel Campos.

Pois bem, num recente texto sobre o fechamento do restaurante Cervantes, Joaquim Ferreira dos Santos, escritor dos bons e colunista de O Globo, disse que um homem é feito dos livros, dos abraços e das comidas de sua infância. Faltou acrescentar, meu velho Joaquim, uma generosa pitada de canções, tempero ideal pra adoçar leituras, azeitar amplexos e relembrar sabores escondidos bem na gordurinha grudada na farinha do miolo à milanesa que você tanto comia por lá, cujo sanduba de pernil ainda hoje me visita quando lembro daquela Copacabana que baianos adoravam amar.

Dito isto, sopro a poeira dos vinis com a marca da CBS no meio e aproveito pra contar novamente um delicioso fato que acontecia na década de 1970 em Paulo Afonso, quando quase todas as barracas das festas de fim de ano eram batizadas com nomes de suas canções.

A coisa funcionava da seguinte maneira: os barraqueiros mais tradicionais possuíam, digamos, o monopólio sobre as mais antigas, enquanto os novatos tinham de correr pra descobrir quais as mais tocadas do seu recém-lançado LP, pra depois estampá-las nas suas testeiras.

E assim, com a rua transformada numa imensa coletânea real, você podia tomar um sorvete em frente à Lady Laura, comer uma rodela de pão com carne moída nas Curvas da Estrada de Santos, tomar todas Embaixo dos Caracóis de Seus Cabelos ou se empanturrar de batata frita na Ilegal, Imoral ou Engorda.

Eu mesmo, depois de sair do Meu Pequeno Cachoeiro, costumava ir pra Além do Horizonte, que ficava entre As Flores do Jardim da Nossa Casa e Como é Grande o Meu Amor por Você. Mas a saideira era sempre sob o manto de Jesus Cristo que, tal a capa pendurada, assistia a tudo e não dizia nada.

Pra terminar, uma historinha que não conhecia. Conta o jornalista Oscar Pilagallo, que por cultuar o rock americano certa vez um crítico o chamou de laranjada. Aí Caetano, bem ao seu estilo, retrucou dizendo que de tão nosso, na verdade ele era uma espécie de guaraná. Assino embaixo e digo que, no meu caso, com o gostinho do Fratelli Vitta que tomei nas imediações da Rua Chile, num tempo em que o mesmo Sol que brilhava na estrada, projetava minha sombra flanando por caminhos onde nunca passei. Viva el Rey!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, nas barrancas baianas do Rio São Francisco.

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Comentários

Maria Aparecida Torneros on 26 Abril, 2021 at 10:21 #

Crônica com gosto de juventude. No final dos anos 60 e início dos anos 70 eu e o querido Joaquim éramos companheiros de UFF e voltavamos juntos na barca, trocando muita informação sobre música. O danado pegou meu LP do Caetano gravado em Londres e nunca devolveu. Maria Bethânia, please send me a letter…na praça XV pegavamos nossos ônibus para o subúrbio. Ao longo da vida profissional nos cruzamos muitas vezes. Vi o seu casamento com minha amiga Sandra e acompanhei o nascimento das filhas do casal. Mas era notório que o querido Joa seria mesmo um excelente cronista ligado principalmente às artes. Num lançamento de um livro seu ele me fez uma dedicatória me chamando de ” musa da Cantareira”. Nosso tempo de faculdade era uma busca constante para equilibrar a alegria de viver com a repressão que nos rondava. A cada semana alguém da turma era preso ou sumido. Mas o Roberto Carlos cantava para neutralizar nossos medos. Havia esperança de acabar com a ditadura e redemocratizar o Brasil. O tal gosto da Mocidade ainda volta às nossas línguas em arremessos de maturidade preservada. Aquela viagem da turma São Paulo em 69 para ver a Bienal, é inesquecível.
O grupo fez de tudo um pouco. Cruzamos com os hippies da praça da República, nos hospedamos no dormitório dos atletas no estádio do Pacaembu, vimos Pelé de perto, passeamos no Ibirapuera, tiramos fotos escalando o monumento dos Bandeirantes. Tudo passou depressa. Como pedir a alguém: please send me letter? Melhor acordar com o Rei, e amar de manhã, no aconchego de lembranças , algumas inenarráveis. Mas todos estamos a caminho dos 80, com vacina sim, e com saudades de abraços presenciais também.


Lucia Jacobina on 26 Abril, 2021 at 10:34 #

Linda crônica, Janio, bem ao estilo do nosso Rei, Roberto Carlos, que, como você bem reconhece, tem gosto de Fratelli Vitta e de todas as boas memórias de nossa juventude e de nossa vida amorosa.


Janio on 26 Abril, 2021 at 20:11 #

Cida, Lucia, que maravilha! Beijos.


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