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Postado em 19-04-2021
Arquivado em (Artigos) por vitor em 19-04-2021 00:14

Residentes descrevem comentários ofensivos na rua e em redes sociais

Patricia de Melo Moreira/AFP
Credit…Patricia de Melo Moreira/AFP

Por Jornal do Brasil

Na França, que na última terça-feira (13) determinou a suspensão temporária dos voos com o Brasil devido à situação sanitária, as redes sociais estão repletas de publicações, vídeos e memes ofensivos aos brasileiros, muitos reunidos sob a hashtag #VariantBresilien (variante brasileira).

As postagens são particularmente dirigidas às brasileiras, com associações a prostituição, promiscuidade e calcinhas fio dental. Também há piadas com o sotaque e com a aparência das mulheres.

Com o país em lockdown, as agressões são sobretudo online, mas não se restringem ao universo virtual.

Em um vídeo publicado no Twitter, um homem vai até uma conhecida área de prostituição de transexuais em Paris, o Bois de Boulogne, e começa a perguntar se as profissionais do sexo são brasileiras.

“Variante brasileira? Você acaba de chegar à França?”, pergunta ele.

As menções ao Bois de Boulogne e à prostituição de brasileiras no parque são recorrentes.

Em uma publicação popular na rede, um comediante pergunta: “Voos entre França e Brasil suspensos… E quanto ao Bois de Boulogne, o que acontece?”.

Muitos que acompanham as publicações têm demonstrado perplexidade com os comentários. Ao ler as postagens com a hashtag #VariantBresilien, um brasileiro que não quis se identificar relata a existência de mensagens razoáveis de preocupação com a variante brasileira e, por outro lado, o que chamou de “show de horrores de xenofobia”.

Para ele, os brasileiros, além de serem mal vistos no geral, agora são tratados como ameaças internacionais.

Uma pesquisadora brasileira que vive em Paris e tem publicado as ofensas nas redes sociais, por exemplo, pede para não ter o nome divulgado na reportagem por temer ainda mais retaliações.

Da Irlanda, onde vivem oficialmente cerca de 50 mil brasileiros, também chegam relatos de discriminação com menções diretas à pandemia no Brasil.

Uma parte significativa de motoboys e entregadores de aplicativos de refeições do país é formada por brasileiros. Nos fóruns especializados, eles relatam desde comentários ofensivos até pedidos cancelados.

“Um cliente me disse, na minha cara, que brasileiros estão aqui espalhando doenças, que trouxeram a Covid-19. Ele gritou e me perguntou por que eu não voltava para a minha terra”, diz Anderson Santos, em uma das publicações.

A discussão sobre os países sujeitos à quarentena obrigatória também levou a uma onda de comentários ofensivos, mirando sobretudo brasileiros e sul-africanos.

“Para mim, algumas partes desse debate [sobre quarentena] tiveram um cheiro de xenofobia”, chegou a afirmar o ministro da Saúde, Stephen Donnelly.

“Eu ouvi pessoas dizerem que devemos proteger nosso povo de estrangeiros, não é disso que se trata”, completou.

A associação das variantes do vírus ao local em que são inicialmente identificadas é criticada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que vê risco precisamente no aumento do estigma em relação aos locais associados às cepas do Sars-CoV-2.

PORTUGAL

Brasileiros em Portugal, onde os voos diretos com o Brasil estiveram suspensos entre 29 de janeiro até a última sexta-feira (16), também relatam episódios de discriminação.

Nas redes sociais e em reportagens sobre a situação da pandemia no Brasil, há muitas acusações de que os brasileiros levariam a Covid-19 para o país.

Uma brasileira de Minas Gerais, em Portugal há dois anos, conta, em um grupo de apoio, ter sido ofendida na fila do supermercado, após um outro cliente identificar seu sotaque. Segundo ela, o homem disse que brasileiros só estão no país para espalhar o coronavírus e tomar emprego dos portugueses.

Abalada, ela diz que a situação irregular em Portugal faz com que ela não tenha coragem de expor o caso ou tentar denunciar as ofensas.

As responsáveis pelo projeto Brasileiras Não se Calam, que reúne relatos de discriminação no exterior, dizem ter notado que, em muitos casos em Portugal, a pandemia é usada como justificativa para a xenofobia.

São afirmações como “a pandemia só chegou a Portugal por causa dos brasileiros” ou “não vou usar máscara porque é uma [funcionária] brasileira que está pedindo”.

Além dos brasileiros, a comunidade chinesa também relata aumentos nos casos de discriminação e agressões.

Em uma extensa reportagem no semanário Expresso, chineses de diferentes faixas etárias e classes sociais relatam episódios em que também foram acusados de disseminar o coronavírus no país.

“Desde que começou a pandemia comecei a sentir mais violência no discurso tanto no espaço público como nas redes sociais”, afirmou a luso-chinesa Michelle Chan, membro da ONG SOS Racismo, em entrevista ao jornal.

A última avaliação epidemiológica do país, divulgada em uma reunião no Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde), afirma que a presença das variantes é residual em Portugal.

Até agora, há 29 casos confirmados da variante P.1 no país, o equivalente a uma prevalência de 0,4%. Também bastante disseminada no Brasil, a P.2 teve prevalência de 0,1%.

Em março, a variante britânica representou 83% dos casos no país.

Apontado inicialmente como bom exemplo de combate a pandemia, Portugal viu o cenário mudar completamente no começo de 2021. O país optou por relaxar as medidas restritivas no período do Natal, o que acabou contribuindo para uma grande alta no número de casos e mortes.

Em 15 de janeiro, o país entrou em lockdown. Agora, com os números sob controle, está em curso o desconfinamento. A reabertura começou em 5 de abril e acontecerá, por etapas, até 3 de maio.

As viagens diretas com o Brasil também foram retomadas. Após 77 dias de suspensão, na última sexta-feira o governo decidiu autorizar voos comerciais entre Portugal e Brasil. Os embarques permitidos ainda são bastante limitados.

Devido à pandemia, a entrada de turistas brasileiros está proibida na União Europeia desde março de 2020. As viagens só são autorizadas para pessoas com dupla cidadania ou residência legal em algum Estado-membro, além de algumas exceções para deslocamentos classificados como essenciais.

São consideradas viagens deste tipo aquelas para permitir o trânsito ou a entrada de cidadãos por motivos profissionais, de estudo, de reunião familiar, por razões de saúde ou humanitárias.

Para entrarem em Portugal, além de cumprirem esses requisitos, os brasileiros precisam apresentar um teste PCR negativo, feito 72 horas antes do embarque e, desde o mês passado, estão sujeitos a uma quarentena obrigatória de 14 dias após a chegada.(Folhapress)

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