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Posted on 27-03-2021
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DO CORREIO IMS – Blog do Instituto Moreira Salles

 O pai doutor | por Claudio Leal - Correio IMS

ARTIGO

O pai doutor

Por Claudio Leal

Difícil imaginar a devoção de Glauber Rocha por Eisenstein sem que, certa manhã, tivesse sido expulso do Cine Liceu depois de tagarelar durante uma aula do crítico Walter da Silveira sobre O Encouraçado Potemkin. O garoto, sempre comparado pelo mestre a Castro Alves, a imagem da genialidade em flor, abandonou o deboche e caiu de amor febril pelo cineasta soviético, uma admiração mantida e radicalizada nas décadas seguintes. Essencial para o interesse de Glauber pelo cinema político, Walter pertence à geração de intelectuais amadurecidos no antifascismo e nas agitações do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em Salvador, ele evitou pagar tributos a chapéus e echarpes de tremeluzentes estrelas de Hollywood e introduziu a crítica cinematográfica onde havia confetes. Mais que isso, mudou de assunto: iluminou o cinema europeu do pós-guerra. No final dos anos 50, virou o farol teórico dos cineastas da província, deixando de lado as papeladas de advogado trabalhista para liderar as sessões do Clube de Cinema da Bahia. 

No cineclube, Glauber e Walter selaram uma aliança política para além da amizade. E uma relação quase sanguínea para além da aliança política, com projeções frequentes de “pai” e “filho”. As cartas trocadas pelos amigos revelam nuances pessoais de um diálogo relevante na terraplanagem prévia do cinema novo. Em 19 de abril de 1962, escrevendo do Rio de Janeiro, Glauber tentou desfazer um mal-entendido: “Surpreendentemente, quando cheguei à última sessão de um domingo, no Festival Francês, amigos me disseram que o senhor houvera falado contra mim, por motivos que me pareceram inexplicáveis – e como conheço bem o seu temperamento e o meu – e como devo ao senhor um respeito que só devo aos meus pais – achei de melhor política não me dirigir ao senhor – a não ser quando cheguei à sala e o (sic) saudei com absoluta ingenuidade a sua posição”.

“Francamente, não acredito como uma crônica em jornal viesse a feri-lo. Eu não o incluo entre os meus amigos baianos – mas sim entre as pessoas (poucas) a quem devo um compromisso muito maior do que simples e às vezes íntimas relações. No cinema – que é minha órbita sócio-existencial – eu tenho pelo senhor, por Alex e Paulo Emílio uma forte admiração, porque reconheço na minha formação uma influência poderosa de todos os três. (…) Eu sempre tive dúvidas absurdas sobre as pessoas que me cercam, nunca as tive a seu respeito”, confessou o cineasta.

Glauber fixou reiteradas vezes a trindade crítica que influenciou o cinema novo. Além de Walter, lhe pareceram centrais as intervenções do carioca Alex Viany e do paulista Paulo Emílio Sales Gomes. Em 1981, no livro Revolução do Cinema Novo, ele chamou Walter de “pedra angular de nossa teoria cultural”, ao lado de Viany e Paulo Emílio, e agente de “uma aliança política”. Atraído pelo fenômeno cinematográfico da Bahia, Paulo Emílio identificou uma “dialética harmoniosa e vivificante” ao visitar Salvador, em 1962: “Quando um brasileiro do Sul procura refletir os acontecimentos baianos em matéria de cinema dois nomes emergem espontaneamente: Walter da Silveira e Glauber Rocha”. Essa dialética-chave impactou a crítica, a produção e a direção de filmes.

Numa carta a Glauber, em 6 de janeiro de 1964, Walter reforçou a sua admiração pelo amigo, então fixado no Rio, e abriu-se em afetos incomuns em suas exposições públicas. “Procure lembrar-se de vários fatos que comprovam como seguidamente o olhei tal se olhasse um filho mais velho. Daí que também vinham desencantos com atitudes suas. Você frequentemente procedia como se eu não fosse o amigo que sou. E isto – temperamental que sou – me doía. Era, digamos, um filho a afastar-se do pai”, queixou-se Walter, com frequência envolvido por sentimentos de isolamento cultural na Bahia. “Não que eu tenha a pretensão de ser seu mestre, de tê-lo como um discípulo. Longe disto. Há pais e filhos que vivem em plano de amizade fraternal (por paradoxo que pareça), que não se olham de cima para baixo, ou ao contrário”. 

A analogia com a figura paterna ressurgiu no obituário do crítico baiano assinado por Glauber, em novembro de 1970: “Olha aqui, dr. Walter: Adamastor é o nome de meu pai (…) Se eu tive outro pai, foi você, velho Walter. Você me dizia ‘não me chame de doutor nem de senhor’ (…) Você, Walter, era meu pai doutor”. Dedicado ao mestre, o curta Pátio, de 1959, não despertou a condescendência do crítico, perturbado pelo “retardado surrealismo ingênuo” do diretor estreante – em sua opinião, sob influência de Jean Cocteau e Maya Deren. O pai metafórico recusaria ainda a benevolência automática com o cinema novo. 

Em 1960, ele definira os textos de Glauber como “injustos quase sempre, continuadamente sinceros, porém”. Influenciado por André Bazin, em estética, e Georges Sadoul, na vertente historiográfica, Walter reconheceu no realismo cinematográfico o potencial de desvelar a sociedade brasileira, fascinado, como outros críticos de sua geração, pelos neorrealistas italianos. Na Segunda Guerra, ele se fez pioneiro no artigo “Esta é a hora do cinema nacional” (O Imparcial, 1943), uma rara defesa das potencialidades do cinema brasileiro, em que reivindicava que Getúlio Vargas estendesse ao setor a política industrial de substituição de importações.

Se reconhecia a ascendência de Walter, o “filho” não renunciava ao direito da divergência. Aliavam-se na defesa de um modelo econômico emancipador da produção cinematográfica e na representação sem caricaturas da realidade brasileira. Na militância do “cinema de autor”, o cineasta se chocou com o ceticismo de Walter em relação à teoria em voga. O filme Bahia de Todos os Santos (1960), de Trigueirinho Neto, demarcou a autonomia crítica de Glauber, defensor  apaixonado da obra “autoral” rejeitada asperamente por Walter. A polêmica foi travada nas páginas do jornal “Diário de Notícias”.

No ensaísmo de Walter, podemos saber como a filmografia de Glauber foi observada por seu primeiro mentor. Ele acolheu com reservas Barravento, de 1962, e recebeu com entusiasmo Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964, Terra em Transe, de 1967, e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de 1969. De desavenças numerosas, oscilando entre a peleja e o comício, Glauber jamais rompeu a amizade com Walter, a quem confiava todos os seus roteiros. Doados pela família à ABI (Associação Bahiana de Imprensa), os arquivos do crítico estão bem cuidados e abertos à consulta. Entre os papéis de Walter, há uma comovente recorrência de recortes de revistas internacionais sobre seu mais célebre “filho”. Não acabou mal aquela expulsão do Cine Liceu.

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Gilmar quer sessão presencial no STF para julgar suspeição de Moro | VEJA
Moro: sob ataque cerrado de Gilmar…
Cármen Lúcia diz que Operação Lava Jato respeita as leis | Exame
…Cármen Lucia na segunda turma do STF
ARTIGO DA SEMANA

Carmen fere Moro: tiros e punhais na 2ª Turma

Vitor Hugo Soares

No  feroz, teatral e burlesco tiroteio em que se transformou a sessão de julgamento do pedido de suspeição do ex-juiz Sergio Moro, pela condenação do ex-presidente Lula no caso do triplex no Guarujá (SP), era previsível que, com tantas balas saindo das armas disparadas no salão, pelos membros da notória Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, uma acabaria acertando o magistrado condutor da Lava Jato, maior e mais relevante operação de investigação, julgamento e punição de corruptos e corruptores da historia recente do Brasil, mesmo sem ele estar presente no recinto.
Nos duelos de terça-feira, 23, a bala perdida, que feriu o ex – magistrado de Curitiba, não partiu da arma do quase estreante ministro Castro Nunes, como muitos apostavam, por ter sido elevado à corte maior de justiça pelo atual dono do poder, Jair Bolsonaro. O balaço veio, sorrateiro, da atiradora veterana de elite, ex-presidente do STF,  Carmen Lúcia, que lá chegou alçada pelas mãos de Lula. E o estrago está feito, doa em quem doer.

O primeiro efeito é mais político que jurídico. Moro deixa – aparentemente – o papel de um dos principais protagonistas das presidenciais de 2022, e passa ao rol de crucial coadjuvante na busca de um nome de centro – ou da chamada terceira via – ainda em gestação, para tentar quebrar o surrado confronto “direita” x “esquerda” que começa a ganhar as caras de Lula e Bolsonaro. Dórea, Huck, o governador do RGS? Ou o ex – ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que larga na frente e foi o primeiro a protestar forte e duramente contra a suspeição e sair em defesa da Lava Jato. Ao mesmo tempo fez acenos a Sergio Moro ao vê-lo ferido pela Segunda Turma.

Além de balas, punhaladas! No pesado e sombrio ambiente carregado de segredos ainda a serem desvendados – espera-se que o jornalismo o faça, jogando luz sobre os arranjos e acordos de bastidores que desaguaram no estranho 3 a 2 final, com a virada do voto da ministra Carmen. A sessão histórica (para o bem e para o mal), em certos momentos deu a impressão de transformar-se, também, no cenário tétrico, triste e nebuloso do famoso tango portenho “Silbando” (Assobiando, imortalizado por Gardel: “Y, brillando entre la sombra,/El relumbron/Con que un facon/Da su tajo fatal”…) ”E brilhando entre a sombra/o reluzir/com que um facão/Dá seu talho mortal”…) Muitos signos à espera de serem decifrados.

Afinal, o próprio presidente da turma, o agressivo e irritadiço ministro Gilmar Mendes – que, quando as coisas não lhe parecem correr bem, pouco se importa em qualificar um colega de “indecente”, ou ofender o Piauí (terra do ministro Cássio), – afirmou a certa altura da encarniçada sessão: “Aqui ninguém mais engana ninguém”. Precisa desenhar?

Aspas para o ex-juiz Sergio Moro: “Apesar da decisão da segunda turma do STF, tenho absoluta tranquilidade em relação aos acertos das minhas decisões, todas fundamentadas, nos processos judiciais, inclusive quanto aqueles que tinham como acusado o ex – Presidente”. Ponto. Disse mais, mas isso é o suficiente, por enquanto. Diga-se ainda: a sessão de terça-feira foi um show magistral representativo dos pecados capitais, em especial da inveja, da ira e da soberba. E deu no que a sociedade viu e sentiu até aqui. O resto, a desvendar e conferir.
Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitors.h@uol.com.br

“Silbando”, Edmundo: um magnífico tango portenho de interpretação mais que perfeita de Edmundo Rivero – Do Viej Almacé de Buenos Aires – que bem poderia ter servido de trilha sonora para a mais recente sessão da segunda turma do STF.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

A escalada autoritária nos tribunais superiores não conhece precedentes. Eu diria que nem mesmo durante o regime militar. O inquérito aberto de ofício por Dias Toffoli, em 2019, para apurar ameaças ao STF, no âmbito do qual a democracia brasileira foi manchada indelevelmente por um ato de censura de Alexandre de Moraes contra a Crusoé e este site, abriu as portas para toda sorte de abusos. Para além da censura a reportagem jornalística baseada em documento verdadeiro, houve prisões realizadas no âmbito da Lei de Segurança Nacional — um pólipo maligno a ser extirpado do ordenamento jurídico brasileiro –, sem que o Ministério Público cumprisse o seu papel constitucional de titular das ações penais. Não importa aqui se os presos são extremistas bolsonaristas: o Estado de Direito foi simplesmente suprimido por quem deveria zelar pela sua integridade no mais alto grau do Judiciário.

Não bastasse a censura e as prisões, houve o uso vergonhoso de mensagens roubadas e não periciadas como provas “informais” no julgamento que decidiu pela parcialidade de Sergio Moro nos processos contra Lula. Ministros lançaram acusações pesadíssimas contra procuradores e magistrados de instâncias inferiores que ousaram condenar poderosos. Nesse espetáculo indecoroso, o ministro Gilmar Mendes cuspiu fúria no seu “voto de protesto” contra o ministro Kassio Marques, que disse o óbvio: o material criminoso não poderia ser usado no julgamento. Gilmar Mendes rasgou, assim, o código de ética da magistratura, que no seu artigo 26 prevê que “o magistrado deve manter atitude aberta e paciente para receber argumentos ou críticas lançados de forma cortês e respeitosa, podendo confirmar ou retificar posições anteriormente assumidas nos processos em que atua”. O autoritarismo e o seu corolário, a arbitrariedade, ocorrem também na forma.

Para completar o quadro assombroso, tem-se ainda o inquérito aberto de ofício no Superior Tribunal de Justiça pelo ministro Humberto Martins e presidido por ele próprio. Martins quer usar as mensagens roubadas para investigar os procuradores da Lava Jato que, em cumprimento à sua obrigação, conversaram em 2017 com integrantes da PGR sobre a delação de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, que citou pagamento de propina ao próprio Humberto Martins  — o inquérito, lembre-se, foi arquivado por Raquel Dodge, então procuradora-geral da República, em 2019, o que causou a demissão de quatro procuradores que atuavam na operação pelo lado da PGR. Mas o arquivamento, pelo visto, não foi o bastante: como o filho do ministro, Eduardo Martins,  é alvo da Lava Jato do Rio, na qual foi denunciado por vender influência junto ao STJ em processos de interesse de Orlando Diniz, quando presidia a Fecomércio-RJ, o probo Humberto Martins parece disposto a cancelar o fato em desdobramento do inquérito aberto de ofício presidido por ele.

De lá para cá, tudo só está piorando: afora os contínuos atentados à liberdade de expressão, a caça agora se estende ao Ministério Público, o que significa manietar o sistema acusatório. É caso de perguntar qual será o próximo degrau nessa escalada autoritária dos tribunais superiores. E de temer. Se ainda há juízes em Brasília, eles precisam segurar essa alopragem.

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 Amarildo, na

 

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DO CORREIO BRAZILIENSE

Pedido de demissão de Suzana Cordeiro Guerra é motivado por razões pessoais e familiares, diz documento. Presidente deixa o cargo após dois anos no comando do órgão

JV
João Vitor Tavarez*
 

 (crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)

(crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)

A economista Suzana Cordeiro Guerra pediu exoneração do cargo de presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A informação foi divulgada nesta sexta-feira (26/03) por meio de nota publicada no site oficial do órgão. No cargo há dois anos, ela continua à frente do instituto até que o próximo presidente tome posse. 

A ex-presidente do IBGE é PhD em ciência política pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e fez mestrado em Harvard. No Brasil, trabalhou com pesquisas no  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fundação Getulio Vargas (FGV) e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).

*Estagiário sob a supervisão de Andreia Castro

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