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Postado em 09-03-2021
Arquivado em (Artigos) por vitor em 09-03-2021 02:43
ARTIGO
Memorável João Carlos Teixeira Gomes

 

Lucia Jacobina

 

 

 

Hoje é o 85º aniversário de João Carlos Teixeira Gomes, nascido em 09 de março de 1936. Desde quando o conheci, a data só era comemorada na intimidade, pois não costumava fazer grandes celebrações, salvo quando completou 60 anos, ocasião em que o casal Vera e Florisvaldo Mattos ofereceu-lhe um jantar em sua residência com a presença de inúmeros amigos, na qual dois grandes seresteiros, o poeta Ruy Espinheira e o compositor Fábio Paes, revezaram-se ao violão para tornar inesquecível aquela noite.

Durante muitos anos, quando estava aqui em Salvador, costumava passar a data com familiares no seu restaurante preferido, o Baby Beef. Algumas vezes, festejou lá em casa com direito a ceia, bolo com velas, parabéns, música e danças, pois na intimidade,aproveitava para exibir seus dotes como dançarino.E quando completou 80 anos, fez questão de comemorar em grande estilo na Livraria Cultura do Salvador Shopping, cercado de colegas, amigos e admiradores, com o lançamento de seu segundo livro de memórias A Brava Travessia.

Todas essas recordações me impelem a cultuar a data e hoje o faço utilizando suas próprias palavras, no soneto dedicado ao mês de março, constante de seu livro de estreia, Ciclo Imaginário:

 

MARÇO

Março é o mês dos seres impulsivos

Nele nasci e dele mesmo herdei

A flama acesa dos seres emotivos

E o orgulho fantástico de um Rei.

 

Ó ventania de março, rudes silvos

A cujos sortilégios me entreguei

Quando os pés, já cansados, vi cativos

De um destino sobre o qual perdi a lei.

 

Conjurado pela dor e a violência

Era em março que as ondas aloucadas

Meus sonhos afogavam sem clemência

Tempo forte das coisas consumidas…

Ó março mês fatal, mês da demência

Que rói as solidões desesperadas.

 

O jornalista Claudio Leal, em artigo publicado no jornal A Tarde, “Joca e seu Duplo”, após seu falecimento, referiu-se com rara sensibilidade ao amigo: “João Carlos Teixeira Gomes insistiu em ser uma dupla encarnação de si mesmo. Joca o homem era passional, aguerrido, de amores pletóricos e opiniões muitas vezes irrefletidas. Joca, o escritor, investia contra as características de sua humanidade: a prosa clara e equilibrada alcançava uma harmonia inexistente em sua alma de jornalista, professor e viajante.”

Assim como exerceu um leque diversificado de atividades, o jornalismo, o magistério, a literatura,as artes em geral e as viagens, notabilizando-se em todas elas pela coragem de emitir opiniões e assumir posições, honestidade intelectual e dotado de um discernimento excepcional, ouso afirmar que além de dupla, sua fascinante personalidade envolvia múltiplas facetas, dela se destacando, como as que mais me encantam, a irreverência, com que se divertia e aos outros, com tiradas hilárias de um espírito requintado e a capacidade de surpreender.

No processo de triagem de fotos e escritos que estou realizando, deparei-me com essa fotografia edecidi selecioná-la para, na primeira oportunidade, reproduzi-la em alguma publicação, pela fidedignidade, não só da aparência, mas do contexto em que foi tirada. Nela, Joca está sozinho,sentado numa das mesas laterais do restaurante Baby Beef, como era de sua preferência, com um cálice de vinho tinto na mão, num raro flagrante de beatitude. Na ocasião, tinha sessenta e um anos e para ele a noite era o período mais prazeroso, seja para escrever, ler, ouvir música ou jantar fora, hábito que herdara de sua atividade como jornalista militante e incorporado ao seu cotidiano.Com o detalhe de que lá tocava um piano e ele adorava música. Sem contar que aquele espaço não deixava de ser um posto de observação privilegiado, onde podia acompanhar os acontecimentos à distância, pois toda a Bahia empresarial e política frequentava o restaurante. E qual não foi minha surpresa, quando li o texto manuscrito no verso da fotografia e o divertido comentário ali lançado que, no fundo, era a forma encontrada de fazer troça dele mesmo. Eis o texto:

 

 

 

 

“Julho/97 – no Baby Beef. Uma testa imensa! Poderia ser o reduto da inteligência, mas na verdade, é a concentração da burrice! Ass. João Carlos Teixeira Gomes autodefinindo-se.Em 12ag97”.

Hoje também faz um ano que estive com ele pela última vez, vivo. Almoçamos juntos em sua residência e festejamos como foi possível,sem a mesma disposição para a alegria. Em seguida, a crise sanitária segregou a todos em suas casas e Joca se foi em silêncio, deixando-nos a saudade de sua luminosa presença.

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