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Livro Além Da Fé - A Vida De Irmã Dulce - Valber Carvalho | Livro Alem da Fe
 Vida e obra de Sérgio Mattos são narradas em 648 páginas – Lu Lelis – Notícias
RESENHA
BIOGRAFIA DE UMA SANTA

Sérgio Mattos

O jornalista Valber Carvalho nos brindou, em fins de 2020, com o lançamento do livro intitulado  “Além da Fé: a vida de Irmã Dulce”, com 624 páginas, narrando parte da vida da Santa, como resultado de um trabalho de mais de seis anos de pesquisa, envolvendo a consulta  de  13 mil documentos e mais de 500 entrevistas.  O livro (publicado pela Editora  IRMABEM, de Salvador, foi impresso na Edigráfica, do Rio de Janeiro)  foi muito bem produzido e apresenta também ilustrações preciosas e de valor histórico. O título do livro é perfeitamente adequado ao conteúdo e apresenta atratividade para o público alvo, todos aqueles que desejam conhecer os detalhes da vida da primeira Santa brasileira.

“Além da Fé” tem objetivo claro e definido, sendo, portanto, forte candidato ao Prêmio Jabuti, não só pela relevância do tema, mas pela originalidade da narrativa brilhante, incisiva, concatenada e, principalmente,  pela  qualidade da linguagem do texto. Com parágrafos e capítulos curtos, o autor lançou mão de sua experiência profissional, como jornalista de impresso e de televisão, para criar um ambiente semelhante ao de um roteiro cinematográfico, pleno de detalhes que transportam o leitor para o local das narrativas como se lá estivéssemos a testemunhar o que está sendo narrado.

O primeiro volume da biografia de Santa Dulce começa no final do século XIX, quando da formação da família dela, concentrando-se, porém, no período a partir de 1914, ano de seu nascimento, até o ano de 1952, quando tinha 39 anos de idade, apresentando e esclarecendo elementos novos e diferenciados de sua vida. O segundo volume, no qual o autor já está trabalhando, abordará a intensa vida do Anjo Azul dos Alagados a partir de 1953 até os dias atuais. Vale destacar que a Santa da Bahia morreu em 13 de março de 1992, aos 77 anos, e que sua canonização foi iniciada no ano 2000, sua beatificação ocorreu em 2011 e foi canonizada no dia 13 de outubro de 2019.

Para narrar a história de vida de Irmã Dulce, o autor se utilizou da técnica da cartografia biográfica, na qual resgata a contextualização socioeconômica , geográfica e cultural de todo o período da narrativa.  Na obra, o autor apresenta ideias e argumentos bem articulados e pode-se observar que todos os fatos são referenciados e foram checados para não deixar dúvidas.  

Com este livro, Valber Carvalho deixa aflorar todo o seu potencial literário, dotado de uma sensibilidade acima da média para descrever as excentricidades sedutoras de Irmã Dulce, a teimosia e a paciência dela para  concretizar todos os sonhos em servir aos pobres, indo, muitas vezes, de encontro aos interesses dos poderosos.

 Com uma abordagem original, o autor soube explorar e humanizar a figura  incansável de Irmã Dulce em sua luta diária, que a transformou em uma militante que não obedecia regras de horário para comer, dormir e descansar, pois o tempo era curto e ela precisava resolver todos os problemas e vencer os obstáculos que se apresentassem. Se fosse necessário invadir terrenos ou casas para abrigar seus pobres e doentes, ela não hesitava.  

Ela também não tinha vergonha para pedir contribuições para suas obras sociais, tendo se revelado boa administradora e com visão para os negócios, desde que voltados para a proteção e bem estar de seus abrigados. Ela freqüentava os escritórios dos empresários e comerciantes poderosos da Bahia e depois resolveu também visitá-los em suas respectivas  residências, pois  entendeu que os empresários estavam doando apenas como pessoa jurídica e que poderiam também contribuir como pessoa física.

Valber descreve a ousadia e confiança dela em iniciar obras, mesmo não tendo recursos para tal, pois acreditava na providência divina e na ajuda de seu Santo Antonio, a quem pedia ajuda que sempre chegava no momento certo como que já previsto pela leis de Deus e que de alguma forma ela tinha certeza de que chegaria e os problemas se resolveriam. Sobre a confiança dela em Santo Antonio, Valber Carvalho escreveu:

“Se fosse possível traçar um organograma da sua ação missionária, o Santo de Pádua funcionaria como um intercessor especial, com fácil acesso às hostes celestiais. Uma espécie de antena avançada, retransmissora de suas preces ao Altíssimo, a quem não hesitava reclamar quando um de seus inúmeros pedidos não era atendido. Em linguagem popular, Santo Antonio era seu procurador no céu” (pag. 333).

Paralelo à história de Irmã Dulce, outros personagens importantes e que também merecem um estudo aprofundado destacam-se na narrativa, a exemplo do próprio pai dela, Dr. Lopes Pontes;  Frei Hildebrando Kruthaup, que criou  uma rede de cinemas católicos em Salvador, emissora de rádio, gráfica-editora e um jornal, O Mensageiro da Fé;  além de Raymundo Frexeiras, criador do Abrigo dos Filhos do Povo.

Enfim, vale ressaltar que, como leitor,  estou ansioso pelo segundo volume da biografia de Irmã Dulce. Enquanto isso,  recomendo a leitura atenta da primeira parte dessa obra, para que descubram  o quanto a Santa tinha visão de marketing político e habilidade para arrancar donativos para suas obras sociais.  Entre outras coisas ela montou hospital, creche, escolas, farmácia para distribuição de medicamentos e foi, talvez, a primeira pessoa a idealizar o ticket refeição e a implantar uma cesta básica que era distribuída de acordo com a necessidade de cada família. Neste primeiro volume, ou primeira parte, o autor apresenta coerência do começo ao fim.

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Comentários

Nadya Argôlo on 2 Março, 2021 at 2:30 #

Espetacular, como sempre, seus comentários, meu
amidgo e mestre querido! Saudades…


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