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Posted on 18-02-2021
Filed Under (Artigos) by vitor on 18-02-2021

Em meados dos anos 1960, o Jornal do Brasil do Rio de Janeiro era considerado um dos principais periódicos brasileiros – se não o principal. Com ousadia editorial – indo muito além das mudanças implementadas pelo Diário Carioca uma década antes -, inovação na diagramação e a liderança cerebral e talentosa do diretor de redação Alberto Dines, o JB (como era mais conhecido) já havia há muito deixado para trás a pecha de “jornal das cozinheiras”, como ele era chamado nos anos 1930 e 1940 devido aos anúncios classificados de serviços domésticos que cobriam sua primeira página. A redação era um cadinho de profissionais de primeira linha e todo jornalista, de uma forma ou outra, sonhava em trabalhar lá. Ou quase todo. Pelo menos um deles, igualmente talentoso e chefe da seção de pesquisa do jornal, decidiu deixar a carreira em ascensão no JB por um projeto cujo valor, para ele, era muito mais alto. Já fazia algum tempo que o mineiro de Juiz de Fora Fernando Gabeira, radicado no Rio de Janeiro desde o começo dos anos 1960, atuava clandestinamente contra o regime militar encastelado em Brasília com o Golpe de 1964. Até que chegou o momento de decidir entre a redação e a luta armada. Após a Passeata dos 100 Mil, em 26 de junho de 1968 – que ele assistiu da janela da redação do jornal, cuja sede era ainda na Avenida Presidente Vargas -, Gabeira decidiu dar uma guinada na sua militância. Primeiro, deixou o PTB, ao qual era filiado desde os anos 1950, e ingressou no grupo leninista Dissidência Comunista, que logo se tornaria o Movimento 8 de Outubro, ou MR-8. Depois, era hora de saber o que fazer com o Jornal do Brasil. 

Ao notar que Gabeira era cada vez mais militante do que jornalista, Alberto Dines o convidou para tomar um drinque e lhe disse, como recorda Cézar Motta no livro Até a Última Página: “Tenho a maior confiança em você, que é um grande profissional. Por isso, quando sentir que sua militância está interferindo em seu trabalho, peça para sair”. E quase um ano depois dessa conversa, Gabeira saiu, caiu na clandestinidade, participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, foi preso, exilado e começou uma história de vida riquíssima que está longe de ganhar um ponto final. Neste dia 17, Fernando Gabeira faz 80 anos.

Mesmo alguém que tivesse vivido placidamente seus 80 anos no campo, observando a vida da varanda, teria muito o que contar em sua biografia. Imagine, então, alguém como Gabeira, que participou da luta armada, ficou exilado por nove anos, foi deputado federal por quatro mandatos consecutivos, concorreu à Presidência da República por duas vezes e é autor de dez livros. Isso, sem nunca ter deixado de lado o jornalismo, marcado por um texto brilhante e uma atuação inquieta. Não é à toa que ele é considerado um dos melhores comentaristas da Globonews. Então, resumir as oito décadas de vida de Fernando Gabeira em alguns milhares de caracteres de texto se torna, mais do que um tour de force, quase uma injustiça com o perfilado. Mais do que um texto, Gabeira merece uma reflexão. 

O que é isso, companheiro?

Certamente, o ponto de inflexão na vida de Gabeira foi quando ele deixou a redação e caiu nas sombras. Foi ali que ele pegou um caminho à esquerda na bifurcação que sua biografia apresentava e começou a escrever uma história de vida carregada de nuances. A começar pelo sequestro do embaixador Elbrick, em 7 de setembro de 1969. Gabeira nunca pegou em armas durante sua permanência no MR-8. Ele pegava na caneta ou datilografava em uma velha máquina de escrever. Mais do que um militante da ação, ele era um militante da argumentação. E da logística. Foi com o dinheiro de sua rescisão do Jornal do Brasil que ele pôde alugar o casarão na Rua Barão de Petrópolis, no bairro carioca de Santa Teresa, onde Elbrick ficaria hospedado a contragosto. E era Gabeira quem escrevia os bilhetes dos terroristas exigindo a libertação de presos políticos, divulgados pela imprensa. Muitos jornalistas juravam enxergar neles o estilo inconfundível de Fernando Gabeira.

Solto o embaixador americano, em uma troca de presos que incluía o então líder estudantil José Dirceu, a perseguição aos sequestradores começou com tudo. Policiais e agentes da repressão varejaram esconderijos, casas, aparelhos, até acharem os envolvidos. Gabeira foi pego em São Paulo em 1970, depois de tentar fugir e levar um tiro, que lhe perfurou o estômago, um rim e o fígado. Em junho, acabou solto, trocado com outros 39 militantes pela libertação do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben. O grupo foi banido do País, mandado para a Argélia, e Gabeira caiu no mundo. Viveu no Chile, na Itália e se fixou na Suécia, onde estudou Antropologia na Universidade de Estocolmo e foi até condutor de trem de metrô. Mas essa história estava só começando.

Gabeira (no destaque) em 1970, solto ao ser trocado com outros 39 militantes pelo embaixador alemão Ehrenfried von Holleben – Foto: Reprodução

 

No Brasil, a propalada abertura “lenta, gradual e segura” preconizada pelo general-presidente Ernesto Geisel deu uma ligeira acelerada. E em agosto de 1979, já sob o tacão de João Figueiredo, foi finalmente assinada a Lei de Anistia, que permitia o retorno ao Brasil dos exilados. E em 1º de setembro, Fernando Gabeira foi recebido por uma multidão no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro – e saiu de lá literalmente nos braços do povo. A partir daí, Gabeira passou a escrever com letras maiúsculas novos capítulos de sua biografia. E o primeiro deles incluía um livro revelador e um choque para aquela sociedade carioca que se achava descolada mas, na verdade, era bem conservadora.

Porque todo mundo se chocou ao ver o jornalista recém-chegado do exílio enfiado em uma minúscula tanguinha de crochê na praia de Ipanema. Na verdade, não era exatamente uma sunga de banho, mas sim a roupa de baixo que ele pegou emprestado de sua prima, a também jornalista Leda Nagle, para curtir o sol carioca depois de muito céu cinzento em Estocolmo. E Gabeira virou notícia em toda a mídia brasileira. Por causa de uma tanguinha de crochê. O tempora, o mores… Mas ainda havia mais, muito mais.

O livro de Gabeira: histórias de ex-exilado político – Foto: Reprodução

Porque Fernando Gabeira trazia em sua bagagem de ex-exilado uma pérola em forma de livro, que ele intitulou de O Que É Isso, Companheiro?. O livro contava em detalhes sua participação na militância de esquerda, o sequestro de Charles Elbrick e sua vida de exilado. Lançado pela Codecri – a então editora criada pelo pessoal do Pasquim -, foi um sucesso editorial imediato. E até hoje ainda é. O livro já rendeu 40 edições e vendeu mais de 250 mil exemplares. Depois desse, ele escreveria outros nove livros, entre eles O Crepúsculo do Macho – uma espécie de continuação do primeiro trabalho – e Entradas e Bandeiras, onde narra sua volta ao Brasil e seu abandono da ideologia marxista, passando a lutar por questões como ecologia, prazer e liberdade sexual.

Mas Gabeira trazia outras coisas nesse seu retorno aos trópicos. Ele trazia as ideias de uma social-democracia que ele viu de perto enquanto estava na Suécia, com ideários de Estado do bem-estar social e promoção da justiça social. E foi essa nova perspectiva que acabou por pavimentar, também, sua trajetória política. Que, não necessariamente, foi um sucesso absoluto, mas foi marcante. Para os cargos executivos, sua candidatura fez água: perdeu a eleição para governador do Rio em 1986, quando estava no PT, e a de 2010, já no Partido Verde – o candidato vencedor foi o hoje encarcerado Sérgio Cabral. Também perdeu a eleição para a Prefeitura do Rio em 2008 e a presidencial de 1989, também pelo PV – teve apenas 0,18% dos votos. Mas digamos que esta última candidatura, mais do que uma possibilidade real, era uma chance de trazer à tona debates relevantes para um país recém-entrado na redemocratização.

Na vida parlamentar, Gabeira teve muito mais sucesso. Eleito deputado federal pela primeira vez em 1994 pelo PV, foi reeleito mais três vezes sucessivamente, tendo ido para o PT em 2002, para logo depois sair do partido pela última vez, em 2003. Gabeira estava decepcionado com o PT no governo. “Nossa geração não pode se contentar com apenas estar no governo. Passei a partilhar desse erro da sociedade, que era esperar um governo salvador. Estou saindo deste clima sufocante das esperanças negadas. Meu sonho acabou, concluí que sonhei um sonho errado”, disse ele na época, chegando mesmo a cogitar a saída da vida pública. Não saiu, voltou ao PV e, em 2006, foi o deputado federal mais votado do Estado, com 293.057 votos. Foi sua última eleição.

Contador de histórias

Fernando Gabeira em Fronteiras do Pensamento, Porto Alegre – Foto: Fronteiras do Pensamento/Flickr via Wikimedia Commons/CC BY-SA 2.0

Mas, mais do que um político, Fernando Gabeira é um ser político – e um jornalista que nunca abandonou a vocação e que soube, de várias formas, fazer uma perfeita simbiose entre o fazer jornalístico e o pensar político. E nessa combinação ele mostrou sua faceta mais iluminada, aquela que já vinha sendo mostrada desde seus primeiros livros – o de um grande contador de histórias. Antes de a pandemia o tirar das ruas e das estradas, ele fazia sucesso na TV paga com um programa no qual viajava pelos mais recônditos grotões do País em busca de personagens e histórias interessantes para serem apresentados. O programa, posto também em quarentena, chama-se simplesmente Fernando Gabeira. Mas que não se veja aí qualquer laivo de egocentrismo. É na simplicidade de seu título que reside sua ideia jornalística, aquela de apresentar pessoas simples, comuns, mas com muitas histórias a contar para um público mais amplo. Gabeira, que caiu nas sombras nos anos 1960, se preocupa agora em tirar dessas mesmas sombras e do anonimato personagens com uma riqueza que talvez só ele pudesse resgatar.

Enquanto o Fernando Gabeira não volta ao ar, seu criador pontifica todos os dias nos mais variados telejornais da Globonews, se tornando seu mais interessante comentarista. Com voz mansa, quase como a de um monge sábio, Gabeira trata dos mais variados assuntos, mas se detém principalmente na política – em uma tarefa hercúlea em tentar deslindar para o público esse Brasil cada vez mais bizarro. Com certeza, ninguém tem o currículo que ele tem para fazê-lo. Jornalista, militante político perseguido e exilado, político experiente dos salões do Congresso Nacional, escritor, defensor das causas sociais no País, precursor da defesa ao meio ambiente. Está longe de ser pouca coisa. Ao 80 anos, Fernando Gabeira ainda tem muito o que contar. 

“Alegria, Alegria”, Caetano Veloso: Parabéns a Fernando Gabeira, o referencial jornalista, pensador revolucionário e humanista, na data de sua gloriosa chegada aos 80 anos. Celebremos e peçamos mais, muito mais anos de vida, saúde, vihor e lucidez, porque talento ele tem de sobra para muito mais de 100. Viva!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

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Posted on 18-02-2021
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Desde a madrugada, robôs levantam no Twitter hashtags contra o Supremo: #stfvergonhamundial, #alexandredemoraesnacadeia, #impeachmentalexandredemoraes e #stforganizacaocriminosa.

O comportamento automatizado de postagens foi captado pelo Bot Sentinel, uma plataforma gratuita desenvolvida para “detectar e rastrear bots políticos, trollbots e contas não confiáveis”.

Antes da prisão de Daniel Silveira, o Bot Sentinel também captou tuítes suspeitos levantando a tag #biakicisnaccjsim.
 

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Posted on 18-02-2021
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 Sid, NO PORTAL

 

Conhecido como o apresentador do longevo programa The Rush Limbaugh Show, ele foi uma figura de destaque do movimento conservador por muitos anos

BBC

BBC Geral
postado em 17/02/2021 16:49 / atualizado em 17/02/2021 17:20
 

 

Rush Limbaugh, controversa personalidade do rádio americano e comentarista político, morreu aos 70 anos.

Sua esposa, Kathryn Adams, anunciou a morte no programa de rádio do comentarista nesta quarta-feira (17/02). Ele sofria de câncer nos pulmões.

Conhecido como o apresentador do longevo programa The Rush Limbaugh Show, ele foi uma figura de destaque do movimento conservador por muitos anos.

Três presidentes americanos participaram do programa e ele recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade em 2020, durante o governo do republicano Donald Trump.

Limbaugh era tão controverso quanto influente, expressando ao longo se sua carreira opiniões racistas, sexistas e homofóbicas.

Negacionista das mudanças climáticas, ele divulgou diversas teorias da conspiração em seu programa, se opôs veementemente à imigração e foi um forte defensor do chamado “excepcionalismo americano” – a crença de que os Estados Unidos são de alguma forma especiais em relação às demais nações. Limbaugh também foi um ativo apoiador de Trump.

Nascido no Missouri em 12 de janeiro de 1951, começou a trabalhar no rádio em uma emissora local quando ainda estava no ensino médio. Após de formar em 1969, foi estudar na Southeast Missouri State University, mas abandonou o curso após dois semestres e conseguiu seu primeiro emprego numa rádio na Pensilvânia.

Inicialmente, Limbaugh enfrentou dificuldades para ter sucesso no rádio. Ele foi demitido de seus dois primeiros empregos e mudou de volta para a casa dos pais no Missouri. Se tornou então apresentador de um talk show em Kansas City, mas novamente perdeu a vaga.

Em 1979, ele começou a trabalhar para o time de beisebol Kansas City Royals. Nessa época, viajou à Europa e à Ásia. Essas experiências, diria Limbaugh posteriormente, reforçaram sua crença no excepcionalismo americano.

Rush Limbaugh em foto de 1995

Getty Images
Rush Limbaugh (acima, em foto de 1995) defendia o ‘excepcionalismo americano’

“Fui a Europa e fiquei pensando: ‘Espera aí. Por que esse quarto é tão fora de moda e nada funciona? O que diabos é isso? Eles chamam isso de banheiro?’ Então comecei a me perguntar: ‘Como é que nós, que somos uma nação há pouco mais de 200 anos, estamos anos-luz à frente de povos que estão por aqui há milhares de anos?'”, disse ele a seus ouvinte em 2013.

Limbaugh voltou ao rádio em 1983, lançando no ano seguinte o Rush Limbaugh Show na emissora californiana KFBK.

Mas o conservador declarado só ganhou ampla notoriedade depois que a Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês) revogou a chamada “fairness doctrine” (algo como doutrina da imparcialidade) em 1987 – uma regulação que até então exigia que as emissoras dos Estados Unidos apresentassem os dois lados de uma opinião controversa.

Como o Wall Street Journal afirmou em 2005, essa decisão permitiu que “apresentadores conservadores hiperarticulados abrissem seus microfones para milhões de eleitores conservadores hiperfuriosos”.

Em 1988, o programa passou a ser transmitido nacionalmente e ao vivo por centenas de rádios em todos os Estados Unidos. Em 2020, atraía cerca de 27 milhões de ouvintes todas as semanas.

O programa e seu apresentador desenvolveram forte influência no Partido Republicano e no movimento conservador americano. As opiniões controversas de Limbaugh frequentemente provocavam ultraje.

Ele recebeu fortes críticas pelo uso de estereótipos racistas em seu programa, incluindo uma vez em que disse que todas as imagens de jornais de criminosos procurados se pareciam com o pastor negro e ativista de direitos civis Jesse Jackson.

Limbaugh ao ser condecorado, em 2018

Getty Images
Limbaugh ao ser condecorado, em 2018, depois de anunciar ter câncer

Limbaugh declarava sua oposição aos direitos LGBT, e fazia comentários depreciativos sobre as vítimas da epidemia de HIV/Aids.

Ele rejeitava o conceito de consentimento sexual e desacreditava os defensores dos direitos das mulheres. “O feminismo foi criado para que mulheres feias tenham acesso à sociedade convencional”, disse Limbaugh certa vez. Ele frequentemente desqualificava mulheres chamando-as de “feminazis”.

Além disso, ele divulgou diversas mentiras e teorias da conspiração aos seus ouvintes, como a que dizia que o ex-presidente americano Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos. Também negava a ação do homem sobre as mudanças climáticas e acusava ambientalistas de deliberadamente terem causado o vazamento de óleo no Golfo do México em 2010.

Dizia ainda que os perigos do fumo eram exagerados e seus benefícios escondidos. “Gostaria de receber uma medalha por fumar”, disse a seus ouvintes em 2015.

Em fevereiro de 2020, ele afirmou que o coronavírus era “uma gripe comum” e que estava sendo usado como “mais uma elemento para atacar Donald Trump”.

Trump ofereceu a Limbaugh a Medalha Presidencial da Liberdade em 2020. O ex-presidente afirmou então que a maior honraria civil americana era para reconhecer a “incansável devoção de décadas ao país” do radialista e os milhões de ouvintes aos quais ele “falava e inspirava”.

A medalha foi entregue no dia seguinte ao que Limbaugh anunciou sofrer de um câncer de pulmões em estado avançado.

Em outubro, ele disse aos seus ouvintes que a doença estava progredindo “na direção errada”.

Limbaugh se casou quatro vezes e se divorciou três, mas nunca teve filhos.



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