Bahia em Pauta » Blog Archive » Joaci Góes: “Bolsonaro tem razão. Uma pena que se movimente com a leveza de um elefante numa loja de cristais”
Artigo/Ponto de vista
Homenagem a Ruy
Joaci Góes
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Ao eminente amigo, Desembargador Lourival Trindade.
Entre as celebrações pelo transcurso do 171° ano do nascimento de Ruy Barbosa, destaca-se a promovida pela Unidade Corporativa do TJBa, através de um seminário, on-line, às 17hrs de hoje, com uma palestra nossa sobre Ruy, o jornalista, e outra do renomado jurisconsulto mineiro Roberto Rosas sobre Ruy, o jurista. Participam, também, do encontro os presidente e vice-presidente do TJBa, respectivamente, os desembargadores Lourival Trindade e Carlos Roberto Santos Araújo, além do diretor-geral da Unicorp, desembargador Nilson Castelo Branco.
Os três são considerados, Bahia e Brasil afora, entre os mais cultos magistrados brasileiros. Fico a me perguntar o que faz alguém tão modesto como eu no meio de tanta gente graúda. Explica-se, talvez, por serem eles, como eu também sou, integrantes da esquerda democrática, aquela que luta com inteligência e invariável fidelidade e determinação para superar desigualdades, com o comprometimento mínimo do imorredouro ideal de liberdade, em lugar da instantânea imposição da igualdade, atropelando o mérito e matando a liberdade, como ocorreu em todos os casos do regime comunista.
Para aclarar a confusão reinante, até entre doutos, do conceito mais atual da díade esquerdas-direitas, estamos escrevendo um livro que tem tudo para ser nesta altura outonal da existência o meu canto do cisne, se a generosidade da pandemia a tanto o permitir.
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É lugar comum e verdadeiro dizer-se que para definir os talentos de Ruy nenhuma hipertrofia adjetival é excessiva, de tal modo o mais notável dos brasileiros excele nos domínios de tudo quanto abordou, como o Direito, o culto à língua, a incomparável oratória e a profética consistência de sua dialética e pregação moral.
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Se vivo fosse, Ruy, além do combate à corrupção, faria da educação de qualidade, para todos, sobretudo os das camadas mais modestas da sociedade, a primeira das prioridades. Nada comparável ao acesso a educação qualificada como fator de aumento de renda e avanço social. Mais do que outro estado da Federação, a Bahia seria a grande beneficiária de sua luta, por se encontrar nos últimos lugares no ensino dos diferentes níveis, do primário ao universitário. Da tragédia que é nosso ensino médio, discorri em recente série de cinco artigos. No plano universitário, considerando a relação custo benefício, entre dispêndio e aproveitamento por aluno, o ensino federal na Bahia é de lamentável improdutividade, resultado direto da precedência do fator ideológico sobre o rendimento acadêmico, como parâmetro de avaliação do mérito entre alunos e professores.
Outro, aliás, não poderia ser o resultado quando se faz das instalações da Universidade o comitê de um partido político e de campanha para a soltura de seu líder, condenado por assalto explícito aos cofres públicos, num rompimento escandaloso com os princípios mais elementares da decência a ser observada para o exercício saudável da cidadania. Além de representar um processo de estupidificação em massa da juventude universitária, por sua indução ao mais primário bolivarianismo, já proscrito das práticas da esquerda dos países civilizados, constitui, também, o mais condenável estímulo ao crime essa glamourização dos mais notórios assaltantes do Erário. Roubar o dinheiro público, sobretudo de povo pobre, representa o mais hediondo dos crimes por impedir a erradicação da ignorância e da miséria que condenam ao sofrimento eterno as camadas mais carentes da sociedade.
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Professores e alunos dotados de espírito libertário, doravante, contarão com nossa modesta voz para somar, ao seu lado, contra essa prática solerte de fazer de uma universidade pública o centro de um único pensamento que, uma vez vitorioso, nos conduziria ao que, por caminhos diferentes, mas com o uso dos mesmos métodos, alcançou gente como Hitler, Stalin e Mao Tsé-tung.
?Impressiona o silêncio omissivo e conivente de setores de vanguarda da sociedade baiana diante desse escandaloso crime protraído, perpetrado contra os mais caros valores de nossa melhor tradição. Importa reiterar que é muito mais do que uma causa importante o que está em jogo; é o nosso próprio destino.
 
 
Joaci Góes é escritor, ex-presidente da Academia de Letras da Bahia. Texto publicado nesta sexta-feira, na Tribuna da Bahia.

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