Outro Lado da Moeda

Margem de crédito no país é a maior da organização

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Por GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O tempo passa, o tempo voa, mas o lucro do Santander Brasil continua numa boa. A frase era da poupança Bamerindus, conglomerado que foi comprado pelo HSBC em 1995 e vendido ao Bradesco em 2017, mas se aplica à filial brasileira do banco espanhol controlado por Ana Botin, que divulgou hoje os seus números consolidados. Enquanto o lucro global do Santander caía 33% nos primeiros nove meses de 2020 para 3,658 bilhões de euros (5,453 bilhões de euros no mesmo período de 2019, a valores constantes), o lucro em nove meses do Santander Brasil, embora tenha caído 31,3% no mesmo período para 1,545 bilhão de euros (2.249 bilhões de euros em 2019), sustentou a maior parte – 30% – do lucro global da organização espanhola.

A título de comparação, o lucro de toda a operação espanhola (497 milhões de euros) só representou 9% do lucro. E a participação da Santander Corporate Finance, o braço financeiro do grupo que opera em toda a Europa e lucrou 761 milhões de euros, só representou 15% dos lucros acumulados este ano. A Europa como um todo (inclui filiais do Reino Unido, Portugal e Polônia) respondeu por 39% dos ganhos globais – pouco mais que a fatia do Brasil). Mas somando os ganhos do Brasil com os resultados de Chile, Argentina, Peru, Uruguai e Colômbia, a América do Sul sustentou 41% do ganho global. As operações da América do Norte responderam por outros 20%, sendo 11% do México e 9% dos Estados Unidos.

Macaque in the trees
… (Foto: Balanço Global Santander)

Decompondo os ganhos

No balanço em reais, o Santander Brasil registrou lucro líquido gerencial de R$ 3,902 bilhões no 3º trimestre de 2020, aumento de 82,7% frente ao 2º trimestre. O resultado surpreendeu o mercado, com aumento de 3,8% na carteira de crédito no trimestre para R$ 397,38 bilhões, enquanto o retorno sobre o patrimônio médio (ROE) subiu a 21,2% no 3º trimestre, contra 12% no 2º trimestre. Um dos fatores para o aumento do lucro foi a redução de 12,5% nas provisões para devedores duvidosos (PDD) para R$ 2,916 bilhões, frente ao 2º trimestre, mas com aumento de 3,4% em relação ao terceiro trimestre de 2019. Na comparação com o 3º trimestre de 2o19 o lucro só aumentou 5,3%.

No acumulado dos primeiros nove meses do ano, contudo, o lucro líquido societário do banco atingiu R$ 9,61 bilhões, queda de 7,9% na comparação anualizada. O lucro líquido gerencial entre janeiro e setembro foi de R$ 9,89 bilhões, queda de 8,6% na comparação com o mesmo período de 2019.

A carteira de crédito teve expansão de 3,8% na mesma base de comparação, para R$ 397,38 bilhões, enquanto o retorno (ROE) subiu para 21,2% no 3º trimestre, contra 12% nos três meses anteriores.

Bomba relógio da inadimplência

Aproveitando as facilidades do Banco Central para enfrentamento dos impactos econômicos da covid-19, com a dilatação dos prazos dos empréstimos sem necessidade de provisões (o que dá a falsa impressão de queda na inadimplência, o índice de inadimplência dos empréstimos de 90 dias caiu 0,3 ponto percentual, para 2,1%. Para as pessoas físicas as operações com atraso acima de 90 dias caíram de 4% em junho para 3% em 30 de setembro. Como as operações com pessoas jurídicas baixaram de 1,6% para 0,9% no mesmo período, a inadimplência total caiu de 3% para 2,1%.

Entretanto, quando se observa o aumento nas operações em atraso superior a 15 dias e abaixo de 90 dias, há um salto nos atrasos. Nas pessoas físicas, aumenta de 4,2% em junho para 4,6¨em setembro. Para as pessoas jurídicas foi de apenas 1,1% para 1,2%. Com isso, a média da carteira foi de 1,7% para 3,1% de atrasos.

Nota-se que a dinâmica da retomada do emprego e do faturamento para as pessoas físicas pode representar uma bomba relógio na inadimplência das operações bancárias. O Santander tem uma forte exposição no crédito ao consumidor (e é ainda o líder do mercado de financiamento a veículos).

O mercado de ações brasileiro reagiu mal ao balanço e as ações do Santander caíram 3,92% por volta das 15 horas e afetou outros papéis do setor financeiro. No mesmo período a queda do Ibovespa era de apenas 0,81. O Bradesco, que revela os seus números amanhã, tinha queda de 2,18% nas ações PN. O Itaú Unibanco, que divulga os números do 3º trimestre dia 3 de novembro, desvalorizava 2,50%.

Um número que desagradou aos analistas foi o total de crédito de liquidação duvidosa de R$ 15.858 milhões no acumulado do ano, alta de 1,9% em 12 meses, mas com crescimento menor que as receitas totais no mesmo período.

As receitas de prestação de serviços e tarifas bancárias de R$ 13.331 milhões nos nove primeiros meses do ano, tiveram queda de 4,0% em 12 meses, mas cresceram 15,7% no último trimestre.

Margens de ganho no Brasil são as maiores do mundo

Analisando o balanço consolidado do Santander dá para entender porque a unidade brasileira – que tem a maior clientela isolada entre todas as unidades – dá uma pista da enorme margem financeira com que opera o banco no Brasil. O Santander discriminou a evolução do Custo dos Depósitos e a Rentabilidade do Crédito desde o 3º trimestre de 2019.

No Brasil, o custo dos depósitos era de 4,55% no 3º trimestre de 2019 e a rentabilidade do crédito, de 15,32%, com spread de 10,75%. Em setembro de 2020, com as mudanças drásticas causadas pela covid-19, o custo dos depósitos baixou para 1,64%, mas a rentabilidade do crédito ainda era de 11,47%, com spread de 9,83%. Na Europa a diferença era de 2,24%. Nos Estados Unidos era de 6,84%, no México era de 8,21%. Até na Argentina a margem era menos que no Brasil: 9,67%.

Rentabilidade do Crédito X Custo dos Depósitos (%)

Fonte: Balanço global do Santander

Macaque in the trees
… (Foto: Balanço Global Santander)

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