Caneladas em Moro e piscadelas para Gilmar no campo do Bangu
Foto: Adriano Machado/Crusoé

O deputado federal Marcel van Hattem resumiu da seguinte maneira a sabatina de Kassio Marques na Comissão de Constituição de Justiça do Senado, ainda em curso no momento em que escrevo este artigo:

“Isso aqui pareceu mais uma pelada de várzea num Maracanã lotado.”

 Ele errou de local: é pelada de várzea no campo do Bangu. E o campo do Bangu assistiu, embevecido, o indicado de Jair Bolsonaro para o STF antecipar eventual voto no seu futuro cargo.

Com registramos, Kassio afirmou não ter qualquer objeção contra a imposição de quarentena para juízes que queiram candidatar-se. Ele disse:

“Não vejo nenhuma dificuldade, do ponto de vista jurídico-normativo, não vejo também nenhuma dificuldade do ponto de vista social e político, para o estabelecimento de quarentena de magistrado. Infelizmente, a edificação está sendo proposta e debatida em razão de um ou outro magistrado, por ter proferido uma ou outra decisão que viesse a reluzir personalissimamente e criar um ambiente favorável a que o próprio magistrado venha, amanhã, se candidatar.”

É radioso como o sol no sertão do Piauí que o alvo da fala é Sergio Moro, que pode vir a ser candidato a presidente da República em 2022. Como o garantismo depende do freguês, ninguém pode afiançar que se magistrados passarem a ser obrigados a fazer quarentena para candidatar-se, assunto relevantíssimo para uma sabatina, a regra não será arrumada com a mão para se tornar retroativa — e, desse modo, alcançar o ex-juiz da Lava Jato.

Animado com o carinho da torcida no estádio do Bangu, Kassio Marque foi além e abordou o que chamou de “intervenção judicial prévia às eleições”. Ele afirmou: “Qual o momento certo? Seria possível a deflagração de operações próximo ao período eleitoral? Isso é um debate para o Congresso.” Embalado, ele afirmou que “existem outras [propostas, além da quarentena] que poderiam dar um devido distanciamento. Por exemplo, se o processamento da causa não ocorrer até determinado momento, o juiz deve esperar um momento para não influir na decisão popular com atos jurisdicionais que possam influir na decisão do eleitor”.

O sujeito nada oculto aqui também é Moro. Ele é acusado de ter influenciado indevidamente na eleição de 2018, quando era juiz da Lava Jato, ao levantar parte da delação premiada de Antonio Palocci às vésperas do pleito. Ao adentrar o assunto, sem citar nomes, Kassio Marques dá uma canelada em Moro e uma piscadela para Gilmar Mendes, que abençoou a sua indicação para o STF. Em 2018, ao ser indagado sobre o fato de Moro ter aberto a delação de Palocci, Gilmar afirmou: “Não vou falar sobre o caso. Eu tenho feito muitas críticas a todas essas intervenções do Judiciário (nas eleições) e acho que vai ter que se pensar em um modelo institucional (para evitar isso)”.

A antecipação de voto favorável de Kassio Marques à suspeição de Sergio Moro, no processo movido por Lula no STF, se já era fato esperável, agora se tornou conclusão lógica, a julgar pelas suas considerações. Entre caneladas e piscadelas, o time anti-Moro e a Lava Jato ganhou outro centroavante trombador.

Não, Van Hattem, não é Maracanã.

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