Papa Francisco cita um samba de terreiro na encíclica Fratelli Tutti
Bahia em Pauta » Blog Archive » Janio Ferreira Soares: o mais, obediente que sou, seguirei à risca a ordem do capitão Zeca, neste 31 de março
 CRÔNICA

 

O encontro do papa com o poetinha de Oxalá

Ainda é madrugada de domingo, 4 de outubro, quando os primeiros fogos em homenagem a São Francisco estouram nas proximidades do Bico de Pedra, local onde se concentram as embarcações que sairão em procissão escoltando a imagem do santo pelas águas do rio que leva seu nome.

Aproveitando o amanhecer sem vento e a paz que precede o alarido dos pardais, uso a técnica de contar nos dedos a distância que separa os relâmpagos dos trovões e tento aplicá-la entre o clarear das bombas e a efetiva chegada dos tiros aos meus ouvidos, porém, fracasso. Teimoso, insisto e vou ao o Google Maps e aí ele traça uma linha de 3,5 km até o foguetório, coincidentemente passando por cima do Terreiro de Mãe Neta e do Abassà da Deusa Òsùn de Idjemim, como se me mandando um sinal do que estava vindo do Vaticano, mais precisamente num dos parágrafos da nova encíclica que o papa resolvera publicar bem no dia do santo que também lhe empresta o nome. Simbora.

Com o Sol clareando os primeiros poemas que a Primavera declama sobre as acácias e os ipês, eis que vejo a seguinte manchete: “Em nova encíclica, papa Francisco cita Vinicius e defende fraternidade contra injustiças”. De cara, não acreditei que o Vinicius em questão fosse o mesmo do uísque, dos terreiros e das poesias, ainda mais servindo de referência num documento oficial assinado pela maior autoridade católica depois de Cristo. Mas aí, quando vi que era realmente o nosso poetinha, pude então confirmar que o papa argentino, definitivamente, é uma rês desgarrada das manadas celestiais.

Intitulada “Fratelli Tutti” (“Todos Irmãos”, em italiano), a nova encíclica trata, entre outras coisas, das injustiças do capitalismo global e do surgimento de nacionalismos agressivos aos mais vulneráveis, além de apostar todas as fichas na boa convivência das diferentes culturas, ocasião em que Sua Santidade pesca na letra que Vinicius fez para o Samba da Bênção (musicada por Baden Power), a frase: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”.

Impossível saber ao certo o momento em que ele lembrou-se dessa canção para citá-la em sua encíclica. Mas, se assim o fez, foi porque a conhece na ponta da língua, o que me leva a imaginá-lo num velho calção de banho, bebericando um vinhozinho e cantando com “o branco mais preto do Brasil”, que é melhor ser alegre que ser triste, que a alegria é a melhor coisa que existe, é como uma luz no coração.

No fim, antes do último gole, nosso hermano ergue um solitário brinde ao capitão do mato, poeta, diplomata e filho de Oxalá, se benze e vai dormir sem ao menos rezar, pois sabe que o samba quando vem lá da Bahia, cheio de feitiço e de poesia, nada mais é do que uma bela forma de oração. Saravá, velho pontífice!

Janio Ferreeira Soares, cronista, é secretário de Cultura  de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco

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Comentários

Maria Aparecida Torneros on 11 outubro, 2020 at 8:12 #

Lindo. Adoro esse Papa. Amo o poetinha carioca. O samba da benção é perfeito para uma encíclica em tempos tansversos onde o gado em divergentes boiadas segue cursos de um questionamento intenso. Uma res fora da manada representa uma esperança de mudança de rumo a favor de alinhamento no respeito aos credos diversos.
O texto do colunista me adentrou com sutil emoção. As boiadas passarão mas uma possibilidade de novos caminhos pode renovar mesmo nossas esperanças. O ” hermano” é sensível “.
Bergoglio não escolheu a-toa seu título de Francisco, aquele jovem de Assis que abandonou a riqueza e se dedicou aos pobres, aos animais, a natureza e venerou o amor pela simplicidade. Bravo! É melhor ser alegre, sim. O poetinha e o Papa, além do cronista e do santo de Assis, estão no rumo certo. Há luz no fim do túnel escuro da ganância e do belicismo. Fazer samba não é fazer piada. Orar é muita responsabilidade em todas as religiões. Saravá e amém são duas faces da mesma moeda!


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