DO EL PAÍS

Depois de deixar o hospital, e enquanto o coronavírus se espalha pela Casa Branca e até pelo Pentágono, o presidente compara sua doença com a gripe e afirma que debaterá com Biden

O presidente Trump ao chegar à Casa Branca na segunda-feira.
O presidente Trump ao chegar à Casa Branca na segunda-feira.ERIN SCOTT / Reuters
 Pablo Guimón|Antonia Laborde
Washington

O presidente Donald Trump ficou internado durante 72 horas, foi submetido a dois tratamentos experimentais e continua com uma doença fatal. A Casa Branca foi sacudida por uma série de contágios. Pelo menos três senadores republicanos estão infectados. Boa parte da cúpula do Pentágono está em quarentena. Mas a mensagem de Trump a respeito de uma pandemia que custou mais de 210.000 vidas norte-americanas permanece inalterada: convém continuar com a vida normal e desconsiderar as diretrizes estabelecidas pela ciência. A lealdade ao presidente passa pelo ceticismo diante da crise sanitária e a estratégia na reta final da campanha é prometer a volta à normalidade.

Aprendi muito sobre a covid-19. Eu a entendo, eu a compreendo”, disse Trump em um vídeo que gravou dentro do Hospital Walter Reed, onde foi internado na sexta-feira. Na segunda-feira, quando anunciou que deixaria o hospital naquela mesma tarde, escreveu: “Não tenham medo da covid-19. Não a deixem dominar sua vida.” E nesta terça-feira, da Casa Branca, à qual chegou na véspera em uma encenação dramática, sulcando os céus avermelhados do pôr do sol de Washington a bordo do Marine One, o presidente decidiu, com a autoridade de quem tem o vírus no sangue, voltar a comparar a covid-19 com a gripe sazonal, equiparação que fez nos primeiros meses da pandemia e que, diante do alarme dos cientistas e enquanto as mortes se acumulavam no país, já havia banido de seu discurso.

“A temporada de gripe está chegando! Todos os anos, muitas pessoas, às vezes mais de 100.000, e apesar da vacina, morrem de gripe”, tuitou o presidente. “Vamos fechar nosso país [devido à ameaça de mortes por gripe]?”, acrescentou. “Não, aprendemos a conviver com isso, assim como estamos aprendendo a conviver com a covid-19, na maioria dos territórios. É muito menos letal!”.

O Facebook eliminou a postagem do presidente por conter informações enganosas e o Twitter acompanhou a publicação de uma mensagem avisando que eram “informações enganosas e potencialmente nocivas”. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC na sigla em inglês) estimam que a variação de mortes por gripe em um ano normal é de 34.000 a 43.000.

Outras vozes republicanas se juntaram à do presidente, como a do senador Ron Johnson, que também testou positivo para covid-19 na semana passada e falou de “um nível de histeria injustificada”. “Desde o primeiro dia”, continuou o legislador republicano do Wisconsin, “não deveríamos ter feito o fechamento de atividades, devemos seguir em frente com nossas vidas.”

A campanha de Trump evitou oferecer sinais de moderação da atividade, dando continuidade a planos de comícios de massa, onde nas últimas semanas os participantes não respeitaram as diretrizes federais de usar máscaras e manter a distância social. O vice-presidente Mike Pence, que deu negativo em seu último teste, debaterá nesta quarta-feira com sua adversária democrata, Kamala Harris, em Salt Lake City (Utah), e nesta terça-feira se recusou a aceitar a colocação de divisórias entre os candidatos. Na quinta-feira Pence fará campanha no Arizona. E, se havia dúvidas, o próprio Trump também tuitou que está ansioso pelo debate com o democrata Joe Biden previsto para a próxima semana em Miami (Flórida).

Alardeado pela direita midiática, o insólito ceticismo sobre a gravidade da crise sanitária, que paradoxalmente se intensifica exatamente quando esta atinge o próprio centro do poder republicano, tornou-se um ingrediente básico da cultura de lealdade a Trump. O contágio do presidente e o surto de casos na Casa Branca e no partido colocaram novamente a pandemia no centro nevrálgico da campanha, já que nas últimas semanas disputava com a mensagem de lei e ordem dos republicanos, a batalha pela Suprema Corte e as declarações de impostos de Trump. Esse cenário com foco na pandemia é o que os democratas queriam, mas os republicanos não estão dispostos a assumir o custo político. Os sinais lançados nesta terça-feira indicam que Trump se prepara para passar ao ataque, posição em que atua muito melhor do que na defensiva. A estratégia que se deduz é a de minimizar a ameaça do vírus para se apresentar como o único candidato disposto a reabrir o país e salvar a economia.

Alguns em sua campanha quiseram ver na convalescença de Trump uma oportunidade de humanizá-lo. Despertando empatia em certo eleitorado moderado, por meio de uma experiência que tocou de perto milhões de norte-americanos, o presidente teve a oportunidade de mudar a narrativa de sua gestão de uma crise sanitária que havia prejudicado, segundo as pesquisas, suas possibilidades de reeleição. Mas essa opção foi pelos ares com as mensagens emitidas pelo presidente inclusive ainda dentro do hospital.

Enquanto isso, a ofensiva do coronavírus contra as instâncias de poder nos Estados Unidos continuou nesta terça-feira. Vários membros da cúpula do Pentágono foram colocados em quarentena depois de terem sido expostos ao vírus, depois do positivo do vice-comandante da Guarda Costeira, almirante Charles Ray, segundo o Departamento de Defesa. Entre eles, o general Mark A. Milley e quase todo o Estado-Maior Conjunto que preside.

Da conta do presidente no Twitter saíram durante a manhã os habituais ataques a Joe Biden, à imprensa e até mesmo a Michael Bloomberg, magnata da comunicação e ex-candidato nas primárias democratas, que agora investiu milhões em uma série de anúncios contra Trump na Flórida. “Eu me sinto ótimo!” tuitou Trump antes de seu médico o confirmar. Outros médicos advertem que o otimismo do presidente pode ser prematuro. Mas Trump já está em outra coisa.

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