Nelson Jr./STF
Credit…Nelson Jr./STF

DO JORNAL DO BRASI

Por GILBERTO MENEZES CÔRTES – COISAS DA POLÍTICA

Mas a Emenda 80 na Constituição, de 2015, ampliou de 70 para 75 anos a idade máxima de permanência em cargos públicos vitalícios. Isso mexeu não só com a composição do STF (e do Tribunal Superior Eleitoral, que escolhe três dos 11 membros do Supremo para exercer a missão em caráter rotativo). A mudança também retardou o rodízio nos demais Tribunais superiores (STJ, TST, STM), e tribunais regionais federais, e nos colégios de desembargadores dos tribunais de Justiça dos Estados. A tardia elevação da idade limite no serviço público (a expectativa de vida média do brasileiro já vinha crescendo desde a virada do século XXI e atualmente está em 76,7 meses), nos privou do saber dos ministros Ayres Britto e Cezar Peluso, aposentados em 2012, aos 70 anos. Em contrapartida, nos deu mais cinco anos de sabedoria e ensinamentos do decano do STF, Celso de Mello, que será o recordista de permanência numa das 11 cadeiras do STF, com 31 anos e 57 dias (17.08.1989 a 13.10.2020).

Indicado pelo presidente José Sarney, de cujo governo foi assistente do Consultor Geral da República, Saulo Ramos, Celso de Mello participou ativamente das negociações da Constituinte. Por isso, mais que interpretar a Constituição como o decano do Supremo, estava enfronhado na gênese de cada capítulo e de cada item dos 250 artigos da Constituição Cidadã. Sua última missão é obter que os colegas aprovem o interrogatório presencial do presidente Jair Bolsonaro sobre as alegadas interferências na Política Federal feitas pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

O novo decano, Marco Aurélio de Mello, indicado por seu primo, o presidente Fernando Collor de Mello, em 13 de junho de 1990, completa 75 anos em 13 de julho de 2021. Oriundo da Justiça do Trabalho, não deve bater a marca de Celso de Mello, que superou ministros longevos na história do STF, como Barros Barreto, André Cavalcanti e Luís Gallotti. Criado em 1890, na República, o Supremo Tribunal Federal sucedeu ao Supremo Tribunal de Justiça, do Império. Nasceu com 15 membros indicados pelo marechal Deodoro da Fonseca. O marechal Floriano Peixoto renovou os nomes indicados por Deodoro.

Cada presidente tentou moldar o STF com indicações de juristas amigos ou da mesma linha política. Por ter ficado mais tempo no poder (1930-45) e de 1950-54), Getúlio Vargas foi o recordista em nomeações (21). Só presidentes de curto mandato como os vices Café Filho (1954-55) e Itamar Franco (novembro de 1992 a dezembro de 1994) e os presidentes das Câmaras que ocuparam a presidência não fizeram indicações. O ex-presidente Michel Temer (abril de 2016 a dezembro de 2018) indicou Alexandre de Moraes.

O STF chegou a ter 16 membros. Foi em 1965, quando a ditadura militar, para reduzir a influência dos ministros indicados por Juscelino Kubitschek e João Goulart, ampliou de 11 para 16 o número de cadeiras. Em janeiro de 1969, após o recesso do Judiciário e já usando o AI-5, de 13 dezembro de 1968, o governo do marechal Costa e Silva joga mais pesado e aposenta compulsoriamente os ministros Hermes Lima, Evandro Lins e Silva e Victor Nunes Leal. Solidário, Antônio Gonçalves de Oliveira renunciou. Ainda em 1969, Lafayette de Andrada pede aposentadoria em protesto às medidas de exceção da junta militar. Com os expurgos e a composição favorável de votos, o governo, já sob o comando do general Emílio Garrastazu Médici, decide manter o STF com 11 membros, número vigente até hoje.

É curioso que as mudanças do STF e da Suprema Corte dos Estados Unidos ocorram quase ao mesmo tempo. Nos EUA, a Corte tem nove membros, com mandatos vitalícios, ou enquanto estiverem em perfeitas condições de saúde física e mental. Com a morte em setembro da liberal juíza Ruth Bader Ginsburg, o presidente Trump, que já indicara dois outros juízes, não perdeu tempo e indicou, antes da eleição de novembro, a juíza conservadora Amy Coney Barrett, mantendo a divisão de seis homens e três mulheres.

O divisor de águas é a questão do aborto (defendido como legal, em determinadas circunstâncias, por Ginsburg, e condenado por Barret). Se o Congresso aprovar a indicação, Trump terá feito um terço dos juízes e garantido um perfil ultraconservador à Corte Suprema. Duas juízas foram indicações de Barak Obama, um de Bill Clinton (pelos democratas), dois de George W. Bush e um de George Bush (pai), mas nem sempre os juízes indicados pelos republicanos agiram na linha ultraradical preconizada por Trump. Com Biden liderando as pesquisas, o Senado, de maioria republicana, reluta em apreciar a indicação antes do resultado das urnas. Vale lembrar que a Constituição americana, com apenas sete artigos e vinte e sete emendas, é a mais curta Carta em vigor. Lá a importância da Suprema Corte é bem mais incisiva do que no Brasil, porque os julgamentos da Corte Americana podem inscrever capítulos na Constituição, como as 27 emendas.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, que tinha prometido nomear um “ministro tremendamente evangélico” para a vaga de Celso de Mello, surpreendeu ao indicar o desembargador da 1ª Região da Justiça Federal, Kássio Nunes. Advogado, piauiense, de 48 anos, Nunes, referendado pelo senador do Centrão Ciro Nogueira (PP-PI), tinha jurisdição sobre os estados da Amazônia (AC, AM, PA, RO, RR e AM), além de Tocantins, Maranhão e Piauí e a parte dos estados do Centro-Oeste (Mato Grosso, Goiás e Brasília). Exceto no Maranhão, Pará e Piauí, que preferiram Fernando Haddad, Bolsonaro ganhou em toda a área de influência da 1ª Região. A escolha deixou os pastores evangélicos mais radicais, como Silas Malafaia, indignados, a ponto de classificar Kássio Nunes como petista, por ter sido nomeado para a 1ª Região no governo Dilma (de quem Ciro Nogueira era também aliado). Vão ter que orar e esperar até julho do ano que vem…

Importante sublinhar que, desde o ingresso de Celso de Mello no STF, não mudaram apenas a composição e o perfil da Suprema Corte com a ampliação do tempo de jurisdição de cada ministro. O próprio país mudou muito e o excesso de detalhes da Constituição Cidadã, que tentou explicitar em excesso nos seus 250 artigos a vida nacional, como que para passar uma borracha no excesso de autoritarismo e arbitrariedades do regime militar, exige sucessivas emendas na Carta, através das famosas PECs (Propostas de Emendas Constitucionais), algumas com aprovação de 3/5 dos votos da Câmara e do Senado.

Se nossa Constituição fosse curta e genérica como a americana, teríamos menos problemas, dizem os liberais e os responsáveis pela área econômica. É parcialmente verdade. Mas cabe lembrar que as injustiças e manifestações racistas dos supremacistas brancos sacudiram o país mesmo ainda sob parcial isolamento após a morte brutal de George Floyd, por um policial branco, em Mineápolis (Minnesota), com casos subsequentes, mostram que lá e aqui há muito o que avançar na igualdade de direitos, na educação e na cidadania.

Do ponto de vista de mudanças da economia, o IBGE (em 1º de outubro) e a Agência Nacional do Petróleo e Biocombustíveis (ANP), no dia seguinte, mostraram como o Brasil mudou no período em que Celso de Mello destilou sabedoria pelo Supremo. No levantamento sobre a produção agrícola dos municípios brasileiros em 2019, ficou claro a supremacia dos municípios de Mato Grosso como os maiores celeiros do Brasil em soja, milho e algodão, superando estados tradicionais como Paraná e Rio Grande do Sul.

Com áreas bem maiores do que no RS e PR, muitos agricultores venderam suas terras e foram desbravar o cerrado em MT, Mato Grosso do Sul, Goiás, e o chamado MaToPiBa (o sul dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí, e o Noroeste da Bahia). O município de Sorriso (MT) virou o maior produtor de soja e de milho do país (a lavoura é plantada logo após a colheita da soja). Sapesal, no MT, é o maior produtor de algodão, que também faz rodízio com a soja e tornou São Desidério (BA), o 2º produtor e líder em produtividade do país. Isto explica a mudança política nestas regiões. Há soja em Rondônia e no Pará, mas os municípios produtores não entram na lista dos 100 maiores. O governo devia trabalhar melhor isso em vez de dar murros em ponta de faca na inegável questão ecológica.

Com a ajuda do Auxílio Emergencial (que deve virar o Renda Cidadã/Renda Brasil em 2021 substituindo o Bolsa Família), e da maior pressão da água do São Francisco para o semiárido nordestino, numa obra iniciada por Lula, tocada por Dilma e Temer (que inaugurou a primeira estação em Pernambuco no fim de 2018), o presidente Jair Bolsonaro sonha em manter o aumento da aprovação de seu governo em áreas antes dominadas pelo PT, que tinha a paternidade do Bolsa Família.

Outra mudança importante foi o avanço do pré-sal da Bacia de Santos que produziu em agosto 70,7% do petróleo nacional. Quando a Constituição era redigida, o Brasil dependia dos poços da Petrobras na Bacia de Campos. Hoje, os 30 maiores campos de petróleo do país estão na Bacia de Santos (a maioria ainda na plataforma do Estado do Rio de Janeiro). No acumulado da produção nacional, dois campos da Bacia de Santos se destacam pela ordem: o líder Tupi, descoberto em 2006, que virou Lula em 2010 e voltou a ser chamado de Tupi em setembro, por decisão judicial, Búzios (a grande aposta da Petrobras) e Sapinhoá, também na BS. Os campos de Jubarte e Roncador, na Bacia de Campos, ficam em 4º e 5º lugares em produção acumulada.

É importante ter isso em mente, pois caberá ao STF decidir, dia 20 de novembro, a repartição dos royalties do petróleo, aprovada em 2012 e que Dilma usou para garantir votos à sua eleição no Norte e Nordeste, prometendo mais recursos para a educação municipal. Nesse meio tempo, o preço do barril despencou da faixa superior a US$ 110 para menos de US$ 40.

“You`ll Never Find Another Love Like Mine”,Lou Rawls, para recordar um dos grandes da América, no Cantinho da Música do BP! Chegue mais! E viva o YouTube!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

out
05
Posted on 05-10-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 05-10-2020

 

DO CORREIO BRAZILIENSE

A discussão gira em torno do teto de gastos, a regra que impede o crescimento das despesas acima da inflação

AE
Agência Estado
postado em 04/10/2020 16:30
 

 (crédito: Edu Andrade/Ascom/Ministério da Economia)

(crédito: Edu Andrade/Ascom/Ministério da Economia)
A guerra declarada entre os ministros da Economia, Paulo Guedes, e do Desenvolvimento Social, Rogério Marinho, em torno da forma de financiamento do programa Renda Cidadã esquentou a temperatura política em Brasília e evidenciou um racha no governo Jair Bolsonaro.
A divisão entre as alas fiscalista – representada por Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto – e a desenvolvimentista – liderada por Marinho, ministros militares e líderes do Centrão – gira em torno do teto de gastos, a regra que impede o crescimento das despesas acima da inflação.
Nessa disputa, Marinho é o “inaugurador” de obra e próximo ao presidente Bolsonaro. Guedes é taxado como “cortador” de despesas, incluindo benefícios, e defensor do teto.
A ala desenvolvimentista, como mostrou o Estadão/Broadcast, quer colocar de pé o Renda Cidadã excluindo o programa do limite do teto de gastos, mesmo que temporariamente. A iniciativa abriria espaço para investimentos públicos, já que as despesas com o Bolsa Família também poderiam ficar de fora do teto. Com os efeitos da pandemia ainda esperados para 2021, o argumento desse grupo é que será preciso continuar com medidas de estímulo para auxiliar a população mais vulnerável e os investimentos públicos, garantindo a retomada econômica.
Na sexta-feira, depois que Marinho, em conversa com investidores do mercado, disse que o programa seria feito de qualquer jeito, Guedes reagiu e cobrou da ala política “coragem” para fazer o ajuste. Para os fiscalistas do governo, a mudança do teto vai trazer instabilidade e colocar o País em uma trajetória explosiva de dívida pública, com recessão e fuga de investidores.
A expectativa agora é de mais ajustes de alta nas taxas de juros cobradas pelos investidores com as incertezas em torno do Renda Cidadã, ao longo da próxima semana. Marinho e lideranças do governo no Congresso têm estreitado as conversas com o mercado financeiro, mas sem conseguir acalmar o nervosismo em torno do risco fiscal.
Na avaliação do ex-secretário adjunto de Política Econômica e atual diretor de Estratégias Públicas do Grupo MAG, Arnaldo Lima, o ideal é que Guedes e Marinho possam convergir na agenda de reformas, o que traria mais calma para o mercado financeiro. Ele lembra que Marinho foi um dos principais responsáveis pela aprovação da modernização trabalhista e previdenciária. “Chegou a hora da política econômica voltar a se sobrepor à economia política e tanto Guedes quanto Marinho são cruciais para esse reposicionamento estratégico”, diz.
Comparação. A briga entre Guedes e Marinho já é comparada ao episódio do envio do primeiro orçamento com déficit pelo governo Dilma Rousseff. Em 2015, a disputa dos dois principais ministros de Dilma, Joaquim Levy, na Fazenda, e Nelson Barbosa, no Planejamento, em torno do envio ao Congresso do projeto de Orçamento de 2016 com a previsão de déficit de R$ 30,5 bilhões (foi a primeira vez que isso aconteceu) dividiu o governo entre as alas fiscalista e desenvolvimentista. O Brasil perdeu o grau de investimento, o selo de bom pagador, pela agência Standard & Poors dias depois.
A divergência de rumo da política econômica acabou levando mais tarde à troca de comando da equipe econômica. Levy aceitou enviar o orçamento com déficit, mas deixou o ministério da Fazenda poucos meses depois, em dezembro do mesmo ano, após uma sequência de derrotas para Barbosa e os ministros palacianos na tentativa de garantir um ajuste fiscal mais rápido a partir de 2016. Barbosa defendia um ajuste gradual para não comprometer o crescimento e os investimentos.

Churrasco no Alvorada após briga

O ministro da Economia, Paulo Guedes, foi um dos convidados para um churrasco promovido ontem pelo presidente Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada. O ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho foi convidado, mas ficou em São Paulo.

out
05
Trump pode receber alta amanhã, diz médico
 

Um dos médicos que acompanha Donald Trump disse há pouco que o presidente americano poderá receber alta amanhã se o quadro clínico continuar melhorando.

Segundo afirmou, o presidente não apresentou mais febre nem falta de ar de ontem para hoje.

Ainda na mesma coletiva, Sean Conley, médico da Casa Branca, disse ainda que Trump teve leve queda de saturação de oxigênio no sábado. A saturação, continuou, foi controlada em uma hora.

“Queremos dar alta o quanto antes for possível.”

out
05

DO EL PAÍS

Um dos maiores pesquisadores musicais do país faleceu nesta madrugada aos 87 anos enquanto dormia. Deixa em livros e entrevistas a história viva da música brasileira

O escritor, jornalista e crítico musical Zuza Homem de Mello em seu escritório na zona oeste de São Paulo.
O escritor, jornalista e crítico musical Zuza Homem de Mello em seu escritório na zona oeste de São Paulo.Alf Ribeiro / Folhapress
São Paulo

Apaixonar-se pela música brasileira é fácil, difícil é mergulhar a fundo como o jornalista e pesquisador musical Zuza Homem de Mello o fez em sua vida. Zuza fez do seu trabalho uma poesia e sua partida não poderia ter sido mais simbólica. Morreu aos 87 anos dormindo, nesta madrugada de domingo, em seu apartamento no bairro de Pinheiros, em São Paulo. “Ele morreu dormindo, de infarto, após termos brindado na noite de ontem todos os projetos bem sucedidos”, escreveu em um post no Instagram sua companheira por 35 anos, Ercília Lobo, que assina o post junto com filhos e netos.

Na noite anterior, Zuza celebrava a biografia de João Gilberto que havia terminado, mais uma história narrada pelo pesquisador e musicólogo, autor de livros como Copacabana, a trajetória do samba-canção (1929-1958), A era dos festivais, uma parábola, e A Canção no Tempo, em co-autoria com o historiador Jairo Severiano, com dois volumes que perpassam a música brasileira de 1951 a 1957, e de 1958 a 1985. Nessas duas obras, navega-se de Chiquinha Gonzaga e Francisco Alves, até chegar aos gigantes Gil, Chico e Caetano, e aterrissar em Renato Russo e Cazuza. Num país em que a memória é constantemente negligenc

A bossa nova e o jazz eram duas de suas grandes paixões, vividas intensamente ao longo da sua vida profissional. Nascido em São Paulo, Zuza começou no jornalismo em 1956. No ano seguinte, mudou-se para os Estados Unidos, mais precisamente Nova York, onde foi estudar musicologia no conservatório Juilliard School. Lá, aprendeu o conceito que o acompanhou a vida inteira, como disse há dois anos numa entrevista. É preciso aprender a ouvir. E teve na Big Apple uma enorme escola.

Assistiu de perto a apresentações de grandes gênios do jazz em redutos musicais de negros, frequentados por Theolonius Monkey, Duke Ellington, John Coltrane. Viu a estreia de Ray Charles no Carnegie Hall, como contou em seu livro Música com Z: “O mais arrebatador do concerto de jazz no Carnegie Hall, em 29 de novembro de 1957, com a orquestra de Dizzy Gillespie, seguida por um jovem pouco conhecido, Ray Charles, pelo quarteto de Theolonious Monk, com John Coltrane, pelo quarteto de Zoot Sims, com Chat Baker, pelo trio de Sonny Rollings e com Billie Holiday ao final”, lembrou ele que era então um simples estudante de música, e que pagara 3 dólares pelo show.

Voltou ao Brasil e acompanhou como a bossa nova começava a ganhar corpo, e entrou na TV Record, onde ficou por dez anos. Ajudou a produzir programas como o Fino da Bossa, de Elis Regina e Jair Rodrigues. Conviveu, produziu discos, shows e entrevistou todos os grandes da música brasileira, com quem conviveu até o final. Atuou como crítico, teve programas de rádio e nunca parou de trabalhar em nome da música.

Num dos seus últimos projetos, participou da série “Muito prazer, meu primeiro disco”, do Sesc São Paulo, em que atuou como curador. Três dias atrás, um vídeo no Instagram mostrava um Zuza entusiasmadíssimo para anunciar a estreia do programa neste sábado, 3. “Gilberto Gil!”, dizia ele, para em seguida saudar o anúncio com uma sonora risada e marcar a alegria de poder contar a todos sobre o primeiro disco de Gil, Louvação, “um discaço”, avisava Zuza.

Tinha no forno também um projeto para gravar uma série de 10 episódios sobre grandes nomes da música brasileira para o Itaú Cultural, onde atuou como conselheiro informal na área musical. A ideia era distribuir os capítulos por whatsapp, informa a instituição. “Nas últimas semanas havíamos definido que iria falar de nomes como o Maestro Milton Santos, Vadico, Rogério Duprat e Sérgio Ricardo, entre outros”, diz Edson Natale, gerente de música do Itaú Cultural, em release distribuído a jornalistas neste domingo.“Ele viveu para gerar conhecimento sobre a arte e a cultura de nosso país e faer esse conhecimento fluir”, lamentou Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

Numa conversa há dois anos com Pedro Hertz, dono da Livraria Cultura, o pesquisador disse que o Brasil “exporta a melhor música popular do mundo e consome a pior”, fazendo menção ao fato de a bossa nova ser ainda hoje a grande identidade brasileira no exterior. O musicólogo testemunhou os capítulos mais importantes da música, e tornou-se referência no Brasil e no exterior. Parte desses passagens estão registradas para as novas gerações em seu Instagram ou no Youtube. Da amizade com Isaura Garcia e Elizeth Cardoso, das conversas com Orlando Silva, e da sua leitura sobre cantores internacionais, como Billie Hollyday ou Edith Piaf. Muitas de suas histórias estão guardadas numa biblioteca imensa de 10.000 LPs da qual se orgulhava, e outro volume significativo de CDs.

Ao longo da quarentena, continuou produzindo e participando de programas, lives e festivais virtuais. Sua sede de aprender e, depois, de ensinar, marca toda a sua trajetória generosa, realçada por todos que conviveram com ele. O resumo da sua existência não poderia ter sido melhor descrito do que sua companheira Ercília e a família. “Zuza nos deixou em paz após viver uma vida plena”. Como presente eterno, ficam suas obras para que o Brasil se reconheça no Brasil visto por Zuza.

out
05
Posted on 05-10-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 05-10-2020


 

Jorge Braga, NO JORNAL O POPULAR (GO)

 

out
05
Posted on 05-10-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 05-10-2020

DO EL PAÍS

Ele foi o primeiro criador japonês a conquistar Paris, abrindo o caminho internacional para compatriotas como Yohji Yamamoto e Issey Miyake

Kenzo Takada, em sua casa em Paris em 2019
Kenzo Takada, em sua casa em Paris em 2019JOEL SAGET / AFP
 
Paris

O estilista japonês Kenzo Takada morreu neste domingo aos 81 anos, vítima de covid-19, anunciou seu porta-voz. Ele morreu em Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris, onde se estabeleceu em 1964 e fundou a empresa de moda e perfumes que leva seu nome. O falecimento coincidiu com a Paris Fashion Week, que termina terça-feira.

Kenzo Takada foi o primeiro dos grandes estilistas asiáticos a conquistar Paris, abrindo assim o mercado internacional para compatriotas como Yohji Yamamoto e Issey Miyake, que no início dos anos oitenta revolucionaram a indústria da moda com seus designs conceituais e arquitetônicos, suas peças experimentais e uma dramática carga artística, criações que continuam influenciando e inspirando criadores contemporâneos.

Kenzo Takada se formou no Bunka Fashion College de Tóquio ?que, quando ele se matriculou, em 1958, tinha acabado de abrir suas portas para homens? e seis anos depois se instalou em Paris, seguindo os passos de seu admirado Yves Saint Laurent. Sem recursos e com uma máquina de costura alugada, confeccionou sua primeira coleção em 1970 com tecidos, quimonos velhos e retalhos comprados em brechós. Sem saber, estava transformando a necessidade em virtude e, principalmente, na marca registrada de uma grife que, meio século depois, continua sendo sinônimo de cor, estampas com grande carga gráfica e experimentação. Suas peças ?poéticas e livres? e seu estilo inédito chamaram a atenção da poderosa revista Elle, que, apenas um mês depois, dedicou-lhe uma capa e, com ela, deu o empurrão definitivo para sua carreira. Em 1974, abriu sua primeira loja na Place des Victoires parisiense, iniciando uma longa e frutífera relação com a França, que o nomeou Cavaleiro da Legião de Honra em 2016 e onde viveu até sua morte (especificamente, na rive gauche da capital).

Amigo de Andy Warhol e de Antonio López, Kenzo Takada ficou famoso no final dos anos setenta por seus desfiles excêntricos: em 1997, organizou um espetáculo de moda na discoteca nova-iorquina Studio 54, com Grace Jones como mestre de cerimônias e Jerry Hall caminhando na passarela com um cigarro na mão. Também é muito lembrado o desfile realizado sob uma tenda de circo: as modelos mostraram seus desenhos vanguardistas a cavalo, e no encerramento o estilista saudou o público montado em um elefante.

Ele dizia que sua maior influência era “o mundo em que vivia” e que a moda era como comer: “Você não deve se limitar a apenas um menu”.

Antes que a palavra diversidade estivesse na boca de todos, Kenzo Takada defendeu um casting de modelos multirraciais. Também foi um pioneiro no mundo dos negócios, lançando sua própria linha de perfumes em 1988, uma das mais fortes do setor atualmente.

Kenzo, em uma apresentação.
Kenzo, em uma apresentação.Bernard Cyrille/ABACA / GTRES

Em 1993, o conglomerado de marcas de luxo LVMH ?proprietário da Dior, Louis Vuitton e Givenchy? adquiriu sua marca. Seis anos depois, Kenzo Takada se aposentou para se concentrar em seu lado artístico, embora tenha voltado há três anos ao design de tecidos, desta vez para casa, em uma colaboração com a empresa francesa Roche Bobois. “Vendi minha empresa porque o contexto era difícil: um dos meus três sócios morreu, o outro teve um problema de saúde, veio a crise econômica… Mas naquela ocasião não imaginei que seria privado do meu nome para sempre. Via vitrines onde aparecia Kenzo, mas não era eu. Foi um longo luto, mas agora lido bem com isso”, assinalou em uma entrevista concedida ao EL PAÍS há dois anos.

Sua empresa seguiu em frente e viveu um ressurgimento comercial quando os americanos Humberto León e Carol Lim ?fundadores da rede de lojas Open Ceremony? assumiram o controle da marca em 2011. No ano passado, o estilista português Felipe Oliveira Baptista foi nomeado diretor criativo da grife, que apresentou sua coleção mais recente na quarta-feira passada.

ra passada.

  • Arquivos

  • outubro 2020
    S T Q Q S S D
    « set    
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    262728293031