Bahia em Pauta » Blog Archive » Joaci Góes: “Nada tão parecido com um conservador do que um esquerdista no poder”
ARTIGO
 
Ponto de vista
Esquerdas e direitas 4
Joaci Góes
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Ao querido confrade Florisvaldo Matos, um dos maiores poetas brasileiros!
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Diante do testemunho histórico de que a extinção da propriedade privada não conduz à prosperidade social, nem elimina desigualdades, sem falar na fome e no rastro sangrento como aconteceu em todos os casos de implantação do comunismo, procura-se explicar por que há defensores de um regime tão desastrado. A resposta mais convincente é a de que essa postura decorre da inveja, o mais destrutivo dos sentimentos humanos, do qual, na maioria das vezes, não temos consciência.
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Apesar do parentesco com outros sentimentos, com eles não se confunde, como ciúme, cobiça, admiração, ódio, emulação, e ressentimento. A inveja provoca “tristeza pela felicidade alheia” (tristizia aliena bonis), como a descreveu Tomaz de Aquino, na Suma teológica. Por isso, as pessoas vestem sua conduta com a roupagem edificante da indignação legítima, como é o caso dos defensores do comunismo, contra a “perversa sociedade de mercado”.
Quando o invejoso passa a focalizar e a aceitar os méritos da pessoa invejada, para ter o que tem, o sentimento de inveja se transforma em admiração. Em muitas situações, os limites entre a inveja e a admiração se confundem, dificultando sua distinção. Para se transformar em admiração, a inveja tem que se converter, antes, em ressentimento. Neste caso, o sentimento que era um obstáculo ao crescimento, passa a ser motivação para crescer.
Outras emoções, como frustração, privação, baixa autoestima, conflito, hostilidade, ambivalência, agressão, avareza, vaidade diferem da inveja, ainda que dela possam resultar, a ela conduzirem ou com ela se mesclarem. Os indivíduos conscientes da presença em suas almas dessa “pestilência, contra a qual ninguém está imune”, na expressão de Petrarca, quando dominados pelo propósito de crescer, conseguem minimizar os efeitos da inveja, impondo sua vontade. Os inconscientes e os destituídos de projetos de crescimento pessoal estão condenados ao sofrimento provocado pelo triunfo alheio e ao desejo de destruí-lo. Ésquilo, o criador da tragédia grega, dizia cinco séculos antes de Cristo, pela boca de Agamenon, retornando da guerra de Tróia, que “poucos homens têm o estofo natural para festejar o êxito de um amigo sem sentir inveja”, observação que o escritor norte-americano
Gore Vidal confirmou ao confessar: “Quando um dos meus amigos tem sucesso, algo dentro de mim se apaga”. Ao saber da morte de Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues declarou: “a notícia deu-me um alívio, uma brusca e vil euforia. É fácil admirar, sem ressentimento, um gênio morto. Nestes momentos de pulha, o indivíduo se sente um límpido, translúcido canalha.”
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Conta Esopo que Júpiter chamou Inveja e Avareza e trovejou: “Vocês são a vergonha deste Olimpo. Se perdurarem as queixas, expulsá-las-ei. Como tentativa de recuperá-las, vou conceder a cada uma a satisfação de um pedido, que será atendido, em dobro, em favor da outra. Comecemos por você, Inveja”. Inveja sugeriu: “Prefiro ouvir primeiro o desejo de Avareza”. Avareza não se fez de rogada: “Eu quero um salão cheio de ouro!” Imediatamente surgiram três salões abarrotados de ouro: um para Avareza e dois para Inveja. “Agora é a sua vez, Inveja”, estrondeou Júpiter. Inveja olhou de través e fulminou: “Eu quero que tu me cegues um olho”.
Sobre o assunto, escrevi o livro A inveja nossa de cada dia, como lidar com ela.
Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado na ediçã desta quinta-feira da TB, 1/10.

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