DEU NA FOLHA
    Reproduzido do espaço no Facebook da autora teatral e cronista, Aninha Franco, que comanda a República do Pelô.
SALVADOR e RECIFE, O policial-pastor já anunciou a principal novidade para o Carnaval de Salvador, caso seja eleito: uma festa evangélica batizada de Cristoval. Em Natal, o outrora sisudo empresário lançou sua candidatura empunhando uma palmatória de meio metro de comprimento e prometeu dar uma surra na corrupção.
Na eleição municipal que sucede a ascensão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), os candidatos da direita conservadora colocaram o time em campo e vão disputar as prefeituras das principais capitais do país.
Para chegar ao comando das prefeituras, apresentaram para a eleição nomes de policiais militares, delegados, empresários e pastores.
A tropa da segurança pública é a maior. Levantamento da Folha aponta que pelo menos 43 policiais e dois oficiais das Forças Armadas disputarão o cargo de prefeito ou vice nas 26 capitais de estados. Desses, apenas quatro são de partidos de esquerda e fazem oposição a Bolsonaro.
Pelo menos cinco chapas nas capitais serão formadas apenas por profissionais da segurança nos postos de candidatos a prefeito e vice. Em Aracaju, por exemplo, a delegada Geolize Telles (DEM) escolheu o coronel da Polícia Militar Péricles de Menezes para ser companheiro de chapa.
O presidente Jair Bolsonaro informou que não vai participar das campanhas no primeiro turno das eleições municipais, mas sinalizou apoio a candidatos em duas capitais: São Paulo e Manaus.
Na capital paulista, pelo menos seis candidatos disputam o voto dos eleitores mais à direita. Mas é o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) quem recebeu um aceno do presidente —com 29%, ele lidera a corrida municipal, segundo pesquisa Datafolha da semana passada.
Sobre Manaus, Bolsonaro disse aprovar Coronel Menezes (Patriota) em uma conversa informal com apoiadores.
O apoio foi comemorado pelo candidato, que é pouco conhecido e pretende crescer associando seu nome ao do presidente. “Sou o único candidato à prefeitura de Manaus que tem o DNA do Bolsonaro porque temos amizade desde quando fui cadete da Aman [Academia Militar das Agulhas Negras]. Seu apoio à minha candidatura é algo líquido, certo e inquestionável”, disse Coronel Menezes à Folha.
Mesmo com a sinalização, o apoio do presidente é disputado por outros candidatos, caso de Capitão Alberto Neto (Republicanos), que é deputado federal e vice-líder do governo na Câmara.
Nas demais capitais, os principais candidatos da direita conservadora batalham pelo apoio de Bolsonaro, de pessoas próximas a ele ou pelo menos buscam se mostrar afinados com as ideias bolsonaristas.
É o que tem feito o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), que tenta a reeleição e se aproximou do presidente. Na mesma disputa, o deputado federal Luiz Lima (PSL) tenta herdar o espólio do bolsonarismo na capital fluminense.
Em Fortaleza, dois candidatos disputam o voto conservador: Capitão Wagner (Pros) e Heitor Freire (PSL).
Deputado federal mais bem votado do Ceará em 2018, o policial militar Capitão Wagner concorre à prefeitura pela segunda vez como principal nome de oposição ao grupo do governador Camilo Santana (PT) e dos irmãos Ciro e Cid Gomes (PDT).
Com ascensão meteórica após liderar o motim da PM em 2011, Wagner tem a pauta da segurança pública como prioritária, mas não faz o estilo truculento. Na disputa deste ano, atraiu oito partidos, entre eles o Podemos e o Republicanos.
Questionado sobre um possível apoio de Bolsonaro em Fortaleza, Capitão Wagner diz que o presidente já declarou que não terá candidatos. “Mas os dois deputados mais ligados a ele aqui no Ceará estão comigo”, diz.
O deputado Heitor Freire, que também disputa a Prefeitura de Fortaleza, diz que aposta no voto conservador: “No passado, as pessoas tinham vergonha de dizer que eram de direita. Mas isso mudou”.
Com os entreveros entre Bolsonaro e o PSL, Freire diz que não deve ligar sua imagem à do presidente em sua campanha: “Apoio Bolsonaro, mas não vou usar o nome dele”.
No Recife, por outro lado, a disputa para ser “o candidato de Bolsonaro” é acirrada. Dentre as cinco candidaturas que miram o eleitorado mais conservador há uma delegada da Polícia Civil e um tenente-coronel da Polícia Militar.
A delegada Patrícia Domingos (Podemos), que ganhou visibilidade ao comandar a Delegacia de Crimes contra a Administração e Serviços Público, concorre a um cargo eletivo pela primeira vez.
Já o deputado Alberto Feitosa (PSC), que já foi secretário de Turismo na gestão do governador Eduardo Campos (PSB) e secretário de Saneamento do prefeito Geraldo Julio (PSB), virou nestas eleições Coronel Feitosa.
“Muitas pessoas já me chamavam de coronel nas áreas da periferia. Neste momento, apresentar sua origem na polícia tem um peso. O eleitorado se identifica mais facilmente”, justifica.
Advogados, médicos e empresários também compõem o rol dos candidatos da direita conservadora.
Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte até junho deste ano, Marcelo Souza e Silva (Patriota) ganhou notoriedade ao polarizar com o prefeito Alexandre Kalil (PSD) ao defender a flexibilização da abertura do comércio em meio à pandemia da Covid-19, em posicionamento alinhado ao de Bolsonaro.
Também disputa o espólio bolsonarista na capital mineira o deputado estadual Bruno Engler (PRTB), coordenador do Movimento Direita Minas. Em entrevista à rádio Jovem Pan em abril deste ano, Bolsonaro afirmou que o nome de Engler o agrada, mas evitou cravar seu apoio.
Em Natal, o empresário Afrânio Miranda (Podemos), que era presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Norte, vai buscar o voto conservador com um discurso focado no combate à corrupção.
Terá pela frente o prefeito Álvaro Dias (PSDB), que disputa a reeleição com o apoio do ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional). Outra candidatura conservadora é a da Pastora Jayde (DC).
Assim como Natal, Macapá e Salvador terão pastores na disputa. Na capital baiana, o Pastor Sargento Isidório (Avante), que também é policial, concorre à prefeitura pela segunda vez. Uma de suas propostas é criar uma festa evangélica na cidade durante o Carnaval.
Em Macapá, o Pastor Guaracy Júnior é o candidato do PSL e deve brigar pelo voto bolsonarista com Cirilo Fernandes (PRTB) e Patrícia Ferraz (Podemos).
Cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Túlio Velho Barreto diz que é natural que os partidos identificados com o eleitorado mais conservador procurem surfar na onda que se formou em 2018.
Ele diz que, quando há uma mudança significativa de direção no plano federal, cria-se um movimento. “Quando o PT chegou ao poder, por exemplo, o que se viu foi a construção de candidaturas mais ligadas ao mundo do trabalho, dos sindicatos, das lideranças populares”, analisa.
Ele lembra que, para formar uma candidatura competitiva, não basta apenas ser aliado ao governo federal do ponto de vista ideológico: “Há outros fatores também importantes, como a estrutura do partido no município, o momento em que a cidade está vivendo e a própria característica pessoal do candidato”.

“Meu Ego”, Erasmo Carmo: Show de melodia e de interpretação (e notável arranjo musical) de Erasmo, o Tremendão da Jovem Guarda, na despedida de Setembro.Bravíssimo!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo  Soares)

Por G1

Observados pelo moderador Chris Wallace, Donald Trump e Joe Biden participam de debate presidencial em Cleveland, Ohio, na terça-feira (29) — Foto: Jim Watson/AFP

Observados pelo moderador Chris Wallace, Donald Trump e Joe Biden participam de debate presidencial em Cleveland, Ohio, na terça-feira (29) — Foto: Jim Watson/AFP

Faltando 35 dias para as eleições presidenciais dos Estados Unidos, Donald Trump e Joe Biden discutiram acaloradamente nesta terça-feira (29) em seu primeiro debate. O primeiro dos três debates entre os dois candidatos aconteceu na Case Western Reserv University, em Cleveland, Ohio, e foi moderado por Chris Wallace, da Fox News.

O debate foi transmitido pelo G1 e pela GloboNews.

Falando muito, Trump quase não deu espaço para o adversário, interrompendo inclusive o moderador e tornando difícil a distribuição do tempo. O presidente foi o primeiro a ser questionado, tendo que responder porque indicou Amy Coney Barrett para a Suprema Corte a pouco mais de um mês para a eleição presidencial.

“Não fui eleito para três anos, fui eleito para quatro”, justificou Trump, embora em 2016 seu próprio partido tenha barrado uma indicação de um juiz feita em março por Obama. Biden afirmou que a nomeação não deveria ser feita neste momento porque a eleição já está em andamento, uma vez que a votação por correio já foi iniciada em alguns estados.

A conversa então foi direcionada para a área de saúde e a promessa de Trump de encerrar o Obamacare, e Biden disse que Barrett “acredita que o Affordable Care Act não é constitucional”. Segundo o democrata, colocar a juíza na Suprema Corte é a forma de Trump para entregar sua promessa de campanha.

 que Trump acusou o candidato democrata de ser aliado da esquerda radical, uma estratégia antecipada por sua equipe. “Seu partido quer adotar a medicina socialista”, acusou, sendo rebatido pelo adversário.

O tom da troca de farpas aumentou ainda mais quando o o coronavírus foi discutido, com Trump insistindo que a imprensa quer prejudicá-lo com uma imagem negativa, embora até mesmo governadores democratas elogiem suas iniciativas no combate à pandemia. Biden chegou a rir da afirmação.

Com mais de 7 milhões de casos e 200 mil mortes, os Estados Unidos são o país com o maior número de infecções e óbitos por Covid-19 em todo o mundo.

Donald Trump e Joe Biden em primeiro debate nos Estados Unidos — Foto: Reprodução/GloboNews

Donald Trump e Joe Biden em primeiro debate nos Estados Unidos — Foto: Reprodução/GloboNews

Ainda assim, o presidente tentou comparar a crise com a epidemia de gripe aviária de 2009, e que, segundo ele, foi enfrentada de forma desastrosa por Obama. Em resposta, seu adversário lembrou que a gripe suina matou 14 mil americanos, em comparação com as 200 mil mortes da Covid-19.

Em determinado momento, Biden se irritou e chegou a pedir para que Trump se calasse para que ele pudesse falar. Este, porém, não foi seu primeiro momento de irritação.

Quando ainda discutiam planos de saúde Biden chegou a chamar o presidente de palhaço: “Tudo que ele está dizendo até agora é simplesmente mentira. Todo mundo sabe que ele é um mentiroso… você tem alguma ideia do que este palhaço está fazendo?”

Trump também não ficou atrás e lançou provocações, respondendo às críticas sobre sua atuação em relação à pandemia de coronavírus dizendo que “você não deveria falar em esperteza comigo, não há nada de esperto em você, Joe”.

Trump acusou Biden de querer manter os EUA fechados, e disse que isso iria destruir o país, enquanto o democrata afirmou que era a favor de manter medidas de segurança necessárias para evitar o aumento do número de casos e mortes causadas pelo Covid-19.

O presidente chegou a ironizar a prática, dizendo que muitos especialistas não a recomendam: “Eu não uso uma máscara como (Biden), toda vez que você o vê, ele tem uma máscara”, disse ainda. “Ele pode estar falando a 200 metros de distância e aparece com a maior máscara que eu já vi.”

Ao falar sobre economia, o presidente foi questionado sobre seus impostos, após uma matéria do “New York Times” mostrar que ele pagou apenas U$ 750 em 2016, e Biden – que divulgou nesta terça seus impostos do ano passado – voltou a pedir que Trump faça o mesmo.

“Eu paguei milhões de dólares em imposto de renda”, disse Trump, que desmentiu o jornal, mas voltou a repetir o mesmo que diz desde 2015, que mostrará os documentos quando “eles estiverem prontos”.

Biden disse que eliminaria os cortes de impostos feitos por Trump como estratégia para reaquecer as atividades econômicas do país e chamou o adversário de “o pior presidente que os Estados Unidos já teve”.

“Lei e ordem”

Ao falar sobre os protestos ao redor do país e violência, Trump voltou a associar Biden à esquerda radical, dizendo que o democrata não afirmaria ser a favor da lei e da ordem, porque isso o faria perder os votos dessa ala de eleitores.

Ele também o acusou de querer retirar fundos da polícia, o que foi negado. O presidente também reafirmou que cidades governadas por democratas são mais violentas

“A violência em resposta nunca é apropriada. Nunca é apropriada. O protesto pacífico é. A violência nunca é apropriada”, afirmou Biden, que negou categoricamente que pretenda retirar financiamento de forças policiais.

A conversa foi levada à uma discussão sobre racismo, e o moderador lembrou que, durante protestos contra supremacistas brancos em Charlottesville, em 2017, Trump afirmou que havia “boas pessoas dos dois lados”. Wallace pediu então, que o presidente condenasse os grupos de extrema-direita e supremacistas brancos, como já fez com a extrema-esquerda e o movimento Antifa em várias oportunidades.

Trump então disse: “Proud Boys (grupo de supremacistas), recuem e fiquem parados”. Ele, porém, prosseguiu: “Mas, vou lhe dizer uma coisa, alguém tem que fazer algo sobre a Antifa e a esquerda porque isso não é um problema de direita, é um problema de esquerda”.

Sem cumprimento

O estado de Cleveland é importante para os dois candidatos por ser um dos swing states, aqueles em que os eleitores não se comprometem tradicionalmente com um partido. Em 2016, Trump venceu ali, mas este ano, segundo média de pesquisas compiladas pelo site RealClearPolitics, Biden lidera, com 49% a 45,7% das intenções de voto.

O encontro teve duração de 90 minutos, sem intervalos. Foram seis blocos de 15 minutos cada, divididos por assuntos, selecionados por Wallace. Não houve checagem de fatos pelo moderador.

Seguindo um acordo entre os dois partidos estabeleceu que, devido à pandemia de coronavírus, os candidatos e o apresentador não trocaram apertos de mão, uma tradição de mais de 50 anos durante debates presidenciais, quebrada apenas por Trump e Hillary Clinton no último debate de 2016.

Eles também concordaram que Trump e Biden não precisariam usar máscaras no palco, por estarem distantes um do outro e das demais pessoas presentes no estúdio.

Próximos debates

Antes das eleições, Trump e Biden têm ainda mais dois debates: em 15 de outubro, em Miami, na Flórida, mediado por Steve Scully, do canal C-SPAN, e incluindo perguntas de eleitores que estarão na audiência; e em 22 de outubro, em Nashville, Tennessee, com mediação de Kristen Welker, da NBC News, em formato semelhante ao desta terça-feira.

set
30

 

Miguel Reale Jr.: “Pedalada de Bolsonaro é crime de responsabilidade”
 

Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, disse a O Antagonista que usar precatórios e Fundeb para financiar programa assistencial, como propôs o governo Bolsonaro, será “pedalada” e “crime de responsabilidade”.

“É a contabilidade criativa de novo. A contabilidade criativa voltou junto com o Centrão. Está voltando o Ricardo Barros, está voltando o Fernando Bezerra, está voltando tudo.”

 As propostas de financiamento do Renda Cidadã, afirmou Reale Jr., “são, sem dúvida, um calote e desvio de finalidade”.

set
30
Posted on 30-09-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 30-09-2020

 

DO CORREIO BRAZILIENSE

Eles foram denunciados no início do ano por crimes relacionados à invasão de celulares de autoridades. Também foi apontado crime de organização criminosa, lavagem de dinheiro e interceptação telefônica ilegal

ST
Sarah Teófilo
 

 (crédito: Ed Alves/CB/D.A. Press)

(crédito: Ed Alves/CB/D.A. Press)

O juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal Criminal de Brasília, revogou a prisão dos hackers Thiago Eliezer Martins Santos, conhecido como “Chiclete”, e Walter Delgatti Neto, chamado de “Vermelho…”. Ambos foram presos no âmbito da Operação Spoofing, que apurou interceptação de mensagens de autoridades, dentre elas o ex-juiz federal e ministro da Justiça Sergio Moro, o procurador da República Deltan Dallagnol, ex-coordenador da Lava-Jato de Curitiba e até do presidente da República, Jair Bolsonaro.

Eles foram presos em julho do ano passado e denunciados em janeiro por crimes relacionados à invasão de celulares de autoridades. Também foram apontados crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e interceptação telefônica ilegal. Em sua decisão, da última segunda-feira (28), o magistrado citou a decisão de um habeas corpus da Quarta Turma do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, que declarou a nulidade das audiências realizadas desde o início da instrução.

“Entendo que manter a prisão preventiva de Thiago Eliezer Martins Santos e de Walter Delgatti Neto durante toda a instrução criminal acarretará inevitável excesso de prazo. Mesmo tendo a defesa pugnado pela nulidade da instrução processual, tendo dado causa à demora na instrução processual, entendo que objetivamente há excesso de prazo na increpação dos custodiados sem que tenha havido o desenvolvimento da relação processual. Além disto, sequer houve oferta de denúncia em relação ao outro inquérito pelo qual constam como investigados”, justificou.

O juiz, então, revogou a prisão preventiva e determinou medidas cautelares diversas à prisão. Os dois usarão tornozeleira eletrônica, estão proibidos de manter contato com quaisquer dos demais réus, proibidos de entrar em contato com testemunhas e outras pessoas que tenham participação nos fatos apurados, de acessar endereços eletrônicos pela internet, de usar smartphones, e só poderão acessar a internet para videoconferências e compromissos com a Justiça, o que vai ser fiscalizado pela Polícia Federal.

Além disso, eles precisam manter o endereço usado e só se ausentar da comarca onde residem com autorização judicial, e de comparecer a todos os atos processuais bem como prestar depoimentos para esclarecer pontos e fatos sempre que solicitados pelo Ministério Público Federal (MPF), Polícia Federal ou pela Justiça Federal.

set
30
Posted on 30-09-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 30-09-2020



 

Zé Dassilva, NO

 

 DO EL PAÍS

Renda Cidadã substituiria programa criado sob o PT na esteira do auxílio emergencial. Promessa é respeitar teto de gastos, mas especialistas chamam arranjo de “pedalada”

Presidente Jair Bolsonaro acompanhado por parlamentares após anúncio do novo programa social, o Renda Cidadã, em Brasília.
Presidente Jair Bolsonaro acompanhado por parlamentares após anúncio do novo programa social, o Renda Cidadã, em Brasília.Joédson Alves / EFE

 Heloísa Mendonça

São Paulo

Não caiu bem a nova ofensiva do presidente Jair Bolsonaro de criar um programa social com sua assinatura para substituir o Bolsa Família, uma forte marca das gestões petistas. Rebatizado de Renda Cidadã, o programa que o Governo tentará aprovar no Congresso nos próximos meses servirá como uma espécie de continuação do auxílio emergencial, dirigido aos mais afetados pela pandemia do coronavírus. De acordo com a proposta anunciada nesta segunda, terá três fontes de recursos: o orçamento do próprio Bolsa Família, parte do dinheiro reservado para o pagamento de precatórios e ainda uma parcela do Fundo de Manutenção de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), o principal mecanismo de financiamento da educação. O desenho foi suficiente para gerar críticas no Congresso e apreensão no mercado financeiro, que vê na ideia de utilização da verba dos precatórios para financiar o programa uma espécie de calote por parte do Governo. Alguns especialistas falam em contabilidade criativa, ressuscitando o termo pedalada, a manobra fiscal que municiou a controversa argumentação legal do impeachment contra Dilma Rousseff.

A proposta surge poucos dias depois de Bolsonaro ter dito que continuaria com o Bolsa Família até 2022 e criticar a equipe econômica. O anúncio derrubou o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, que fechou o dia em queda de 2,41%. Se o caminho de angariar a confiança dos investidores na Bolsa não parece tão fácil, tampouco é o caminho político do plano. O projeto será incluído na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) emergencial, em tramitação no Senado, segundo informou o relator, senador Márcio Bittar (MDB-AC) em plena campanha eleitoral das municipais. Ainda não há detalhes sobre o valor do novo programa de transferência de renda, mas ele não deve chegar a 300 reais, atual parcela do auxílio emergencial.

Para o mercado, a controvérsia envolve especialmente o uso dos precatórios, que são dívidas do poder público a pessoas físicas ou jurídicas após sentença definitiva na Justiça. Quando alguém ganha um processo contra um ente público e tem valores a receber, passa a ter um precatório e entra na fila do pagamento. Ou seja, um dinheiro com destino certo. Essas despesas têm crescido ano a ano e são obrigatórias, isto é, não podem ser canceladas pela União. Para 2021, o projeto de lei orçamentária anual (PLOA) previu que elas somarão 55,52 bilhões de reais. Nesta manhã, o senador Bittar, que também é relator do PLOA no Congresso, afirmou que o presidente deu sinal verde limitar do pagamento de precatórios a 2% das receitas correntes líquidas. “O que sobrar vai para o Renda Cidadã”, disse Bitter.

O diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente do Senado (IFI), Felipe Salto, afirmou, em sua conta de Twitter, que “limitar pagamento de precatórios é eufemismo para dizer que se empurrará com a barriga um pedaço relevante dessas despesas”, que são obrigatórias. Para Sergio Valle, economista-chefe da consultoria MB Associados, a solução de colocar precatórios e verbas do Fundeb para financiar o programa não parece a mais adequada. “A utilização de uma parte do valor utilizado para pagar precatórios pode passar a ideia que o Governo está deixando de pagar uma conta judicial. É uma forma de rolar a dívida para os anos seguintes. Vira uma espécie de calote, uma postergação de pagamento. Volta aquela história novamente dos restos a pagar”, explica. Sobre os recursos do Fundeb, o economista avalia que o Governo está tocando numa área que precisa muito dos recursos. “O presidente falou tanto em não tirar dos mais pobres para dar para os paupérrimos, mas tirar do Fundeb não é muito diferente disso.”

Bittar informou que até 5% do novo recurso para o Fundeb será deslocado para que beneficiários do programa mantenham seus filhos na escola, mas não deu detalhes. Essa proposta já tinha, entretanto, sido apresentada pela equipe do ministro da economia, Paulo Guedes, na época de votação do novo fundo, mas foi vetada pelo Congresso.

Para a Rede Brasileira de Renda Básica, instituição da sociedade civil que advoga por um amplo programa de renda básica, é descabido que o Governo aponte para o Fundeb como fonte de recurso para criação de um novo programa social. “Ele é destinado à manutenção e desenvolvimento da educação (…) O uso dessa verba com assistência social é inconstitucional”, afirma o grupo em nota, manifestando-se contrário também à utilização de recursos destinados ao pagamento de precatórios para bancar o programa. Segundo a Rede, o financiamento do Renda Cidadã deve ser por meio da “reorganização da carga tributária, para que se torne mais progressiva”.

O ponto mais importante, na avaliação de Valle, não é, no entanto, a fonte de financiamento do programa, mas como ele caberá dentro da regra do teto ? que proíbe que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação. “A regra do teto já não estava cabendo dentro do orçamento que foi apresentado para 2021 e ainda não incluía o novo programa. Na hora que você incorpora o Renda Cidadã, que custará entre 30 a 40 bilhões de reais, você irá furar o teto, a não ser que você faça cortes, mas fica difícil ver onde caberiam esses cortes. Ou então você precisa tirar o programa da regra do teto, o que não faz sentido”, diz.

Segundo Bolsonaro, a nova versão do programa tem como premissa respeitar a lei do teto de gastos e “segue a doutrina Paulo Guedes, para voltar à normalidade o mais rápido possível”. O líder do Governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), também reforçou que o Renda Cidadã será apresentado respeitando o teto de gastos públicos e tem por objetivo atender aos milhões que, a partir do próximo ano, ficarão sem receber o auxílio emergencial pago durante a pandemia. Guedes, também se juntou à promessa de que o Governo respeitará o teto de gastos na iniciativa, que possibilitará a aterrissagem do auxílio emergencial num novo programa de renda básica a partir de 1º de janeiro.

A avaliação de especialistas, no entanto, é que o Governo está com o tempo muito curto, em meio a um período eleitoral? em que as atividades ficarão paralisadas ? e uma pandemia, para que o projeto saia do papel já no início do ano. Valle ressalta, no entanto, que é do interesse dos parlamentares venderem nas eleições de 2022 que votaram para o novo programa social. O capital político não fica apenas para o presidente. “Eles vão querer dar uma solução para o tema, o que deve travar nos próximos meses qualquer outra pauta como a reforma tributária. Alguma solução será encontrada, ainda que não seja a melhor. O tempo é muito curto e o Governo muito desorganizado “.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro viu sua popularidade crescer entre a população mais pobre, impulsionado pelo programa de auxílio emergencial direcionado à população mais vulnerável. Nem o aumento na rigidez dos critérios para conceder a ajuda aos brasileiros mais pobres nos últimos meses foi capaz de impedir a aprovação de Bolsonaro subir de 19%, em dezembro de 2019, para 35% entre os eleitores com renda familiar de até um salário mínimo, de acordo com a última pesquisa CNI/Ibope, publicada no dia 24 de setembro. É essa parcela da população que impulsionou a avaliação de ótimo ou bom do presidente para 40%, sua melhor avaliação até agora ?em dezembro do ano passado, a taxa era de 29%, e apresentava tendência de queda.

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