Bahia em Pauta » Blog Archive » Janio Ferreira Soares: o mais, obediente que sou, seguirei à risca a ordem do capitão Zeca, neste 31 de março

CRÔNICA

Se minha aldeia fosse um país

 

Janio Ferreira Soares

 

 

Não sei se você já ouviu falar de Sealand (ou terra do mar, numa tradução livre). Trata-se do menor país do mundo e sua história, conheci recentemente, é tão pitoresca quanto inspiradora.

Tudo começou em 1965, quando Paddy Roy Bates, um ex-major do Exército britânico que se tornou pescador, resolveu seguir a moda das emissoras piratas instaladas na costa inglesa e fundou a Rádio Essex. Acontece que o governo inglês, incomodado com o crescente sucesso das mesmas, criou a Lei de Crimes de Transmissão Marítima, com o único objetivo de fechá-las.

Diante disso, Bates lembrou-se de uma plataforma antiaérea abandonada no Mar do Norte desde a Segunda Guerra e aí transferiu seu equipamento pra lá, sem nem imaginar (pelo menos num primeiro momento, creio) que naquela véspera do Natal de 1966 estava se apossando de um território de 4.000 m² a apenas 12 quilômetros da costa e, melhor ainda, localizado em águas internacionais fora do alcance da lei antipirataria.

E assim, no dia 2 de setembro de 1967, nove meses após a invasão, Bates aproveitou o aniversário de sua esposa e fundou oficialmente o Principado de Sealand, cujo lema “E Mare, Libertas” (ou “Do mar, liberdade”), traduz toda sua luta pra manter a Rádio Essex cortando os céus da Grã-Bretanha.

Confesso que se eu tivesse descoberto essa história no início da pandemia, teria aproveitado o embalo e procurado alguma brecha na Constituição que me permitisse transformar as tarefas da terra onde vivo numa nação independente, fato que me traria, entre outros benefícios, a indescritível alegria de me livrar de um presidente totalmente impregnado dos principais defeitos que um ser humano precisa ter pra tornar-se um pulha supremo. Dito isto, tergiverso e ponho-me a imaginar alguns detalhes de como seria meu suposto condado.

Pra começar, sua privilegiada localização sobre o Riacho da Morena, exatamente na divisa entre Paulo Afonso e Nova Glória, daria a este ateu de meia-tigela a tranquilidade de saber-se protegido das ziquiziras do mundo, tanto por São Francisco de Assis quanto por Santo Antônio da Glória, ilustres padroeiros das respectivas cidades e figuras das mais veneradas nas quebradas terrestres e celestiais.

Com a segurança garantida e acabando meu espaço, só me resta escolher um hino condizente com o histórico do meu pedaço, cujos versos, além de belos, teriam de ser cantados por uma voz que ao mesmo tempo repelisse os reaças e despertasse a sensibilidade dos mortais. Neste caso, pediria licença a Nelson Ângelo pra que a sua Fazenda, com Milton Nascimento louvando a bica no quintal, os sabiás, as mangas-rosas e o sol da manhã fosse o cântico oficial do meu país, tocado sempre que a Lua, em qualquer fase, traçasse no céu um compasso. Viva Bituca!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco.

 

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