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Ponto de vista
Esquerdas e direitas 2
Ao casal amigo Maria Reis e Maurílio M. Matos!
Como a realidade social é uma fonte inesgotável de ineditismos, a China comunista só recomeçou a encontrar a paz ao constatar que o desfecho do holocausto que sofreu com Mao Tsé-Tung foi a fome e a miséria. Morto o genocida, a 09/9/76, seu substituto, Deng Xiaoping, cuidou de introduzir mudanças profundas no sistema produtivo nacional, ainda que mantendo as mesmas posturas ditatoriais. Quando o mundo se deu conta, viu que a China passou, com armas e bagagens, do comunismo ao fascismo, adotando tudo que Hitler desejou, mas não consolidou por excesso de ambição psicopática. A China encarna, hoje, o modelo mais completo do fascismo, consistente no poder absoluto do governo central, com suporte militar e econômico a partir da eleição das empresas campeãs, para cuja expansão todos são obrigados a colaborar. Tanto que a China possui quatro vezes mais bilionários do que a Alemanha ou a Índia, mais de quatro vezes do que a Rússia, nove vezes mais do que o Brasil ou o Canadá, e dez vezes mais do que a França. Fica atrás, apenas, dos Estados Unidos, sendo evidente o propósito de ultrapassar o Colosso do Norte, nesse requisito, em poucos anos. Enquanto a soma dos recursos em poder dos bilionários americanos caiu 164 bilhões no último ano, a dos chineses subiu 220 bilhões. Enquanto cerca de um terço da população chinesa vive as emoções da sociedade de mercado, como na Europa e nos Estados Unidos, dois terços vivem nos limites da satisfação das necessidades básicas, com pouca ou nenhuma liberdade.
Com a adesão da China ao fascismo, o comunismo, que chegou a empolgar dois terços da humanidade, viu-se reduzido a Cuba e à Coreia do Norte, totalizando magros 37 milhões de habitantes. O que não significa dizer, de modo algum, que a esquerda acabou. Não! A esquerda estará sempre presente onde houver gente, porque, na sua essência, a esquerda pugna pela redução e, se possível, pela eliminação da desigualdade. Daí, a nosso ver, no mundo, em geral, e no Brasil, em particular, termos um espectro ideológico que se subdivide em cinco modalidades: na extrema esquerda, o socialismo marxista, antidemocrático, caracterizado, sobretudo, pelo monopólio do Estado sobre os meios de produção; no extremo oposto, a direita radical, também totalitária e antidemocrática, resultado da aliança entre as grandes corporações e as forças armadas, em que todo o processo produtivo fica nas mãos da livre iniciativa; do centro para a esquerda, temos duas versões da esquerda democrática: uma coloca todo o processo produtivo de bens e serviços com a iniciativa privada, operando o Estado como uma grande agência reguladora e promotora de ações contínuas destinadas a reduzir desigualdades, notadamente nas esferas da educação e da saúde preventiva. Um pouco à esquerda dessa esquerda democrática, temos a social-democracia que prefere confiar ao poder público a operação, total ou parcial, de certas atividades consideradas estratégicas para a segurança do Estado, como a exploração de fontes energéticas, a educação e a gestão dos sistemas aéreos, marítimos e terrestres.
E, finalmente, a direita democrática que dá a mais completa liberdade de ação ao setor privado, sem qualquer participação do Estado, a não ser nas áreas de segurança pública, educação, e gestão dos sistemas de transporte em que não haja interesse do setor privado, valorizando, democraticamente, as tradições.
As versões democráticas da esquerda e da direita compõem o que alguns chamam de centro.
Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia

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