DO EL PAÍS

Presidente comemora na Casa Branca a assinatura da normalização das relações

 Yolanda Monge|Juan Carlos Sanz

Washington / Jerusalém15 sep 2020 – 21:49 BRT
A assinatura dos acordos nesta terça-feira, na Casa Branca.
A assinatura dos acordos nesta terça-feira, na Casa Branca.Alex Brandon / AP

Eleições. Eleições. Eleições. Essa é a palavra-chave. A 50 dias das eleições que podem revalidar a presidência de Donald Trump, o mandatário norte-americano foi testemunha nesta terça-feira na Casa Branca da assinatura de um acordo histórico entre Israel e dois países do Golfo Pérsico, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e o Bahrein, que altera o atual equilíbrio no Oriente Médio e que, segundo Trump, finalmente rompeu “o círculo vicioso do terror que existe na região”. Sem citar nomes, Trump disse que “mais cinco ou seis países” estabelecerão em breve relações diplomáticas com Israel. Trump, “o pacificador”, anotou para si mesmo “uma grande vitória” antes das eleições de 3 de novembro e anunciou “um novo amanhecer” na região.

“Temos muitas nações preparadas para seguir [os passos dos Emirados e do Bahrein e normalizar seus laços com Israel]”, disse Trump durante uma reunião bilateral com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pouco antes de participar, nos jardins da Casa Blanca, da assinatura dos chamados “Acordos de Abraham” entre o Governo israelense e os EAU e o Bahrein. Israel foi representado por Netahyahu, enquanto que pelos EAU e Bahrein compareceram os ministros das Relações Exteriores, o xeque Abdullah bin Zayed bin Sultan Al Nahyan e o xeque Khalid Bin Ahmed Al Khalifa, respectivamente.

amos o curso da história”, declarou Trump, observando que o sucesso obtido estaria em perigo se “Sleepy Joe” —como Trump se refere depreciativamente a seu adversário democrata, Joe Biden—ganhasse a eleição e retomasse os contatos diplomáticos rompidos com o Irã pela Administração Trump e que foram um dos maiores êxitos do Governo de Barack Obama.

Independentemente de que outros países se juntem ou não a esse acordo nas próximas semanas, Trump já conquistou uma importante vitória eleitoral ao conseguir dividir o voto judeu que é tradicionalmente democrata. A Administração precisava de um golpe de efeito e selar uma vitória diplomática, já que praticamente careceu delas nos quatro anos no poder.

Trump e Netanyahu encenaram nesta terça-feira a retribuição de favores mútuos. Se Netanyahu estava em dívida com o mandatário republicano por cada vez que este veio em seu auxílio durante sua luta pela sobrevivência política em seu país, Trump foi elevado aos altares da paz pelo primeiro-ministro israelense na esperança de que o magnata renove o mandato. Se o acordo não constitui “a paz” que Trump anuncia, já que não acaba com o atual tabuleiro de conflito na região e, além disso, entre Israel e esses Estados não houve nenhuma guerra aberta, na verdade eram aliados de facto, cria as condições para normalizar as relações (abertura de embaixadas, viagens) e para que se juntem outros atores importantes.

Sem dúvida, Netanyahu e os líderes do Bahrein e dos EAU criaram a atmosfera para que a campanha eleitoral do republicano anunciasse na semana passada que Trump havia alcançado “a PAZ no ORIENTE MÉDIO”, informando que havia sido indicado para o prêmio Nobel da Paz. (escrevendo erradamente “Noble” em vez de “Nobel”).

“Não foi necessário muito diálogo”, explicou na semana passada Jared Kushner, genro de Trump e conselheiro próximo que desempenhou um papel muito importante na diplomacia do Oriente Médio. “O que fizemos foi criar confiança entre as diferentes partes”, resumiu Kushner. “Estamos diante do início do fim do conflito árabe-israelense”, concluiu o genro do presidente.

Israel está começando a preencher o vazio deixado pela progressiva retirada dos Estados Unidos do Oriente Médio. A ameaça comum que o Irã representa na região —fortalecido na Síria e no Iêmen—propiciou a aproximação entre a potência militar e tecnológica do Estado judeu e o poderio econômico das monarquias do Golfo. A histórica cerimônia desta terça-feira na Casa Branca parece mais um contrato de interesses mútuos do que uma entente geoestratégica. De fato, enquanto Abu Dhabi abraça a fórmula do tratado depois de ter anunciado o intercâmbio de embaixadas com Israel há um mês, o regime de Manama se limitou a subscrever uma declaração genérica de estabelecer relações no futuro, depois de ter aderido na última hora à pompa dos “Acordos de Abraham”.

Estamos assistindo ao nascimento de um novo Oriente Médio? O vaticínio de Kushner parece mais alinhado com a estratégia de campanha para a reeleição do presidente republicano do que com uma reviravolta na região. Kushner, arquiteto na sombra do pacto diplomático, conseguiu pelo menos oficializar com grande aparato e no momento oportuno a normalização das relações com os Emirados e o Bahrein.

Trata-se, em todo caso, de um processo de vinculação regional que vem se estreitando há mais de duas décadas, quando Israel abriu representações comerciais no Golfo depois dos Acordos de Oslo (1993) com os palestinos. Como o ex-diretor de Segurança Nacional Jacob Nagel destacou nesta terça-feira na rádio israelense, “a importância dos acordos não deve ser superestimada nem tampouco desprezada; é um processo que cria um eixo contra o Irã (…) e se supõe que [os Emirados e o Bahrein] receberão em troca apoio militar de Israel e dos Estados Unidos”.

Netanyahu teve o cuidado de divulgar os detalhes do acordo antes da assinatura e se limitou a exaltar sua relevância histórica. Enquanto os israelenses se preparam para passar confinados a partir deste fim de semana e durante três semanas as grandes festas do Ano Novo judaico, o impacto do êxito diplomático do primeiro-ministro foi diluído no Estado hebreu em meio às más notícias diárias sobre a crise sanitária e econômica.

Por enquanto não há menção expressa do rearmamento com aviões furtivos F-35 (teoricamente indetectáveis por radar) com o qual os EUA agradecerão Abu Dhabi por sua disposição em assinar o acordo. Israel teve até agora uma superioridade tecnológica militar garantida por Washington durante seis décadas. Netanyahu deu a entender que pedirá compensações a Trump para manter a vantagem estratégica sobre os céus do Oriente Médio.

Os emiradenses já anteciparam, porém, que a normalização das relações levará à paralisação do projeto israelense de anexação parcial da Cisjordânia, que se amparava justamente no chamado “Acordo do Século”, o plano de paz para o Oriente Médio da Casa Branca apresentado em janeiro e que foi categoricamente rejeitado pelos palestinos. O secretário de Estado dos Emirados para a Cooperação Internacional, Reem al Hashimy, mencionou o assunto na rede CNN: “A suspensão da anexação é um componente importante do acordo (…) em defesa do direito dos palestinos a um Estado e a uma vida digna”.

A mensagem de “paz por paz” que Netanyahu trouxe a Washington em face do supostamente abandonado consenso internacional de “paz por territórios” esconde uma evidente guinada pragmática para a “paz por interesses”. A decisão dos Emirados, grande aliado da Arábia Saudita, e do Bahrein, reino fantoche de Riad, é vista como “traição” pelos palestinos, que não conseguiram forçar uma condenação da Liga Árabe a monarquias do Golfo que precisamente financiam muitos Estados do fórum regional.

Depois do fiasco das negociações com a Coreia do Norte, Trump procura apresentar na campanha um perfil de estadista internacional que soluciona e conclui conflitos ao invés de provocá-los e empreendê-los.

FACÇÕES PALESTINAS SE REAGRUPAM DEPOIS DOS “ACORDOS DE ABRAHAM”

A aproximação de Israel com os países sunitas, encarnados pela federação de principados e pelo pequeno reino insular, teve o efeito inesperado de realinhar as principais facções palestinas. Com todas as pontes rompidas desde 2007, o Fatah, o partido nacionalista do presidente Mahmud Abbas, e o Hamas, o movimento islamista que governa de facto na Faixa de Gaza, criaram junto com o resto dos grupos políticos um “comando unido de resistência”. Essa plataforma, sem precedentes desde a Primeira Intifada (1987-1991), convocou nesta terça-feira os palestinos a protestar com bandeiras negras contra a radical guinada diplomática, que enterra a Iniciativa Árabe de Paz de 2002 (paz por territórios, em essência).

Dois foguetes foram disparados da Faixa de Gaza durante a cerimônia de assinatura em Washington. Um dos projéteis foi interceptado e o outro causou ferimentos leves em pelo menos seis pessoas na cidade costeira israelense de Ashdod.

Os organizadores esperam que a mobilização se intensifique nesta quinta-feira, 38º aniversário do massacre de Sabra e Chatila de refugiados palestinos no Líbano, e na sexta-feira, em uma “jornada de luto” durante o dia sagrado muçulmano. É preciso esperar para ver. Desde as manifestações religiosas de julho de 2017 na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, e especialmente desde as Marchas do Retorno (2018-2109) na fronteira de Gaza, os palestinos não se levantam em massa contra Israel.

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