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ARTIGO/Ponto de vista(TB)
Esquerdas e direitas 1
Ao inteligente, velho e querido amigo Adalberto Coelho!
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Leitores pedem-me para explicar a distinção entre o que se chama de esquerda e direita, e seus diferentes matizes, em face da aquecida discussão de um tema do maior interesse para a condução dos destinos das pessoas e dos povos. Tanto me interessou a provocação que estou escrevendo um livro a respeito, que deverá receber o mesmo título desta pequena série de artigos, paralelamente à redação do que chamo de Fragmentos de memórias, não para falar sobre minha modesta experiência existencial, mas para dizer de alguns dos episódios de que participei e que contenham aspectos de interesse geral.
Ao fazê-lo, procuro atualizar o que de mais esclarecedor já se publicou sobre o assunto, notadamente pelo baiano de Santo Amaro, o brilhante Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982), o Italiano Norberto Bobbio (1909-2004) e o norte-americano Milton Friedman (1912-2006), por ordem cronológica de suas respectivas publicações. Antes, porém, de discorrermos, ainda que brevemente, sobre o ponto de vista de cada um desses três pensadores, avivemos a lembrança do episódio que gerou o mais famoso neologismo no campo da Ciência Política, a díade esquerda x direita.
Em face da insatisfação social reinante que resultaria na Revolução Francesa, já em pleno curso de realização, em 1789, a Realeza convocou os Estados Gerais, États Généraux, inertes desde 1614, quando do reinado absolutista de Luis XIII, na tentativa, que se revelou vã, de pacificar os ânimos incendiados pela indignação popular, vitimada pela injustiça e a fome crônicas. A Assembleia se instalou num hotel em Versailles, cidade próxima de Paris, sede do majestoso Palácio do mesmo nome. Os Estados Gerais tiveram origens parecidas com as do Parlamento Inglês, das Cortes Gerais do Reino da Espanha, do Sacro Império Romano-Germânico, das Cortes do Reino de Portugal e das Dietas dos Estados Alemães.
Eram compostos de três segmentos: Nobreza, Clero e Povo, cada um com direito a um voto. Historicamente, a Nobreza e o Clero se uniam contra o Povo, derrotando-o por dois votos contra um, em qualquer tema sob discussão, de modo a assegurar a manutenção do status quo. Numericamente, porém, o Povo contava com um contingente de membros muito superior à soma dos outros dois. A partir da percepção da força derivada dessa ostensiva superioridade numérica, o Terceiro Estado, o Povo, resolveu impor seu poder, transformando a Assembleia dos Estados Gerais em Assembleia Nacional Constituinte, propugnando, para começar, pela substituição da Monarquia Absolutista pela Monarquia Constitucional, a exemplo da vigorante na Inglaterra, desde o século anterior.
Enquanto o Clero e a Nobreza ocuparam as cadeiras que ficavam à direita do Rei, o Terceiro Estado, o Povo, se sentou à esquerda do Monarca. A partir de então, esquerda política significa estar contra o status quo, o sistema de forças dominantes, enquanto a direita defende sua manutenção. Como decorrência exegética natural, a esquerda defende a diminuição e ou a extinção das desigualdades, em confronto com a direita que mantém uma atitude mais ou menos conformista diante dela.
Nos precisos duzentos anos compreendidos entre a Revolução Francesa e a implosão do Império Comunista Soviético, a esquerda foi representada pela defesa do socialismo marxista que apresentava como solução definitiva dos conflitos humanos a propriedade pelo Estado de todos os meios de produção dos bens e serviços, daí resultando, diziam, a “democrática ditadura do proletariado”, um oximoro que evidencia invencível contradição de valores.
Quem a isso se opusesse compunha o largo espectro da direita. Entre 1917 e 1989, essa foi a polarização maniqueísta que dividiu a humanidade de todos os quadrantes. O resultado é o que se viu: o duplo genocídio praticado, sequencialmente, por Stalin, na União Soviética, e Mao Tsé-Tung, na China, ambos contribuindo para deixar em terceiro lugar o também psicopata Adolf Hitler, entre os três maiores assassinos da História. Enquanto o comunismo soviético faliu, a China abandonou o comunismo e abraçou o fascismo, no maior salto ideológico de que se tem notícia, como veremos na próxima semana.
Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia, Texto publicado nesta quinta-feira, 1o, na TB.
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