DO EL PAÍS

Operação acusa filho de presidente da Corte de receber milhões em troca de lobby com magistrados. Advogados de Lula e ex-defensor da família Bolsonaro, Frederick Wassef, também são alvo de apuração

 
Brasília
Frederick Wassef, ex-advogado da família Bolsonaro, em junho passado.
Frederick Wassef, ex-advogado da família Bolsonaro, em junho passado.ADRIANO MACHADO / Reuters

Em Brasília é comum ouvir relatos de que os escritórios de advocacia estão sempre em busca de caminhos para facilitar o acesso a ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Uma das estratégias, descritas no mundo político e jurídico, é de contratar antigos membros ou ex-servidores dessa Corte e do Ministério Público. Seus papéis seriam o de intermediar o contato com os ministros fazendo uma espécie de lobby para seus principais clientes. Nesta quarta-feira essa proximidade entre milionárias bancas de advogados e os magistrados das altas cortes ficou escancarada em mais uma fase da operação Lava Jato do Rio de Janeiro, que investiga desvios de 151 milhões de reais da Federação do Comércio do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ) e de organizações do Sistema S, como Sesc e Senac. Desta vez, o que prevaleceu não foram os contatos profissionais, mas os laços familiares.

O advogado Eduardo Martins, filho do atual presidente do STJ, Humberto Martins, é um dos principais alvos de uma investigação que suspeita de tráfico de influência, por meio de exploração de prestígio, lavagem de dinheiro e estelionato. O Ministério Público Federal acusou Eduardo de receber quase 83 milhões de reais para influenciar em atos de ministros da Corte. Os valores teriam sido pagos pela Fecomércio-RJ. E os casos em análise pelos ministros envolveriam o Sesc e o Senac do Rio, duas instituições irrigadas com tributos públicos. O esquema foi revelado por Orlando Diniz, ex-presidente da Fecomércio que foi preso pela Lava Jato e assinou um acordo de delação premiada para que não retornasse à prisão. A função deste advogado seria manter Diniz à frente da federação. Eduardo Martins não se manifestou, assim como seu pai, o ministro Humberto.

Os vínculos sanguíneos também envolvem representantes de outras Cortes. Outro alvo da operação, denominada E$quema S, em alusão ao sistema S, que abarca Sesc e Senac, foi Tiago Cedraz, advogado e filho do ministro do Tribunal de Contas da União, Aroldo Cedraz. Tiago tinha o mesmo papel que Eduardo, mas nos casos que envolvessem as prestações de contas da entidade presidida por Orlando Diniz. Sua contratação, por 13 milhões de reais, foi sugerida a Diniz pelo ex-governador do Rio Sergio Cabral, que o definiu como um “vendedor de soluções” no TCU. Essa não é a primeira vez que a família Cedraz é investigada por esquemas de corrupção na Lava Jato. Há pelo menos cinco anos o advogado Tiago e o ministro Aroldo são alvos da operação por suspeitas de irregularidades em contratos da Petrobras. Nenhum dos dois se manifestaram sobre as acusações.

Na esfera estadual, ainda é alvo desta apuração o advogado Flávio Diz Zveiter, filho do desembargador Luiz Zveiter, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Ele é suspeito de receber 5 milhões de reais por falsos serviços prestados para a Fecomércio. A reportagem não localizou o advogado Flávio.

Bretas, estrela lavajatista e ainda próximo de Bolsonaro

A operação desta quarta-feira envolveu 50 alvos e foi autorizada pela, agora, principal referência da famosa Operação Lava Jato, o juiz federal Marcelo Bretas. Foi uma demonstração de força num momento em que a Lava Jato sofre golpes da Procuradoria-Geral da República e vive a expectativa da presidência de Luiz Fux no Supremo Tribunal Federal, que começa nesta quinta. Tido como “Sergio Moro” carioca, Bretas segue sendo um apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), com quem se reuniu em agenda extraoficial, além de ter participado de sua posse e celebrado a eleição de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) para o Senado em 2018. Nas últimas semanas, Bretas passou a aparecer na bolsa de apostas entre potenciais nomes para ocupar uma das duas cadeiras de ministros do Supremo Tribunal Federal para as quais o presidente fará suas indicações até o fim de seu mandato, em 2022.

Conforme a acusação, Orlando Diniz era persuadido pelos integrantes da organização criminosa para firmar novos contratos advocatícios para ter facilidades em processos em curso no Conselho Fiscal do Sesc Nacional, no TCU, no STJ e no TJ-RJ. Como os contratos eram assinados com a Fecomércio-RJ, entidade privada, os pagamentos não eram auditados pelos conselhos fiscais do Sesc e do Senac Nacional, pelo TCU ou pela Controladoria-Geral da União, órgãos que controlam a adequação dos atos de gestão das entidades paraestatais ?como as do Sistema S.

Advogados de Lula e Bolsonaro

Pela decisão, Bretas transformou 26 pessoas em réus. Entre elas dois advogados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Roberto Teixeira e Cristiano Zanin, os advogados Tiago Cedraz, Flávio Zveiter e Eduardo Martins, além do ex-presidente do STJ Cesar Asfor Rocha, e da advogada Ana Tereza Basília, que defende o governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC). Os ex-governador Cabral e a ex-primeira-dama Adriana Ancelmo eram, conforme a acusação, os intermediadores dos contratos entre a federação e os advogados. O casal figura entre a lista de réus. Ana Basílio, Zanin e Teixeira também teriam atuado como intermediadores, segundo o juiz. Esses dois últimos, advogados de Lula, são acusados de receberem 12 milhões de reais com objetivo de influenciar decisões dentro do Senac.

Em nota, Teixeira tratou a operação como uma arbitrariedade e alegou que todos os “serviços prestados à Fecomércio-RJ estão devidamente comprovados”. Na mesma linha seguiu o seu colega Zanin. Após defender a legalidade dos pagamentos que recebeu, ele afirmou que estava sendo alvo de uma “clara tentativa de intimidação”.

A delação de Diniz ainda resultou em outros 24 mandados de buscas e apreensão. Um dos alvos foi Frederick Wassef, ex-defensor da família Bolsonaro. Ele é apontado como o receptor de 2,6 milhões de reais da Fecomércio para prestar serviços que não foram entregues. Sua contratação ocorreu por meio do escritório de advocacia Nagib Eluf. Wassef, que se afastou dos Bolsonaro depois que Fabrício Queiroz foi preso em sua casa, negou qualquer irregularidade. “O delator Orlando Diniz está deliberadamente mentindo a meu respeito a mando de advogados inescrupulosos que estão usando-o como míssil teleguiado para me atingir visando atender o interesse de um outro cliente em comum”.

O próximo passo da operação é interrogar os réus e analisar as provas obtidas para que, em alguns meses, o juiz Bretas possa emitir suas sentenças de condenação ou absolvição.

“Lamento Sertanejo”, Gilberto Gil: Do tamborim bateu chamando o pessoal ao desfile de outras músicas e letras que seguem encantando o mundo, a obra de um iluminado. Gil, meu rei, Aquele abraço! Agora e Sempre!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

set
10

 

Rose de Freitas deixa o Podemos e Alvaro deseja que ela seja “muito feliz”
Waldemir Barreto/Agência Senado

A senadora Rose de Freitas acaba de anunciar sua desfiliação do Podemos.

Na semana passada, ela apresentou uma PEC que, se aprovada, permitirá que Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia possam tentar a reeleição como presidentes do Senado e da Câmara, respectivamente.

O comunicado da desfiliação foi feita durante sessão virtual do Senado.

Ela disse que “não pode aceitar” as punições do Podemos, que abriu processo de expulsão da parlamentar.

“Sou uma pessoa democrática. Não aceito isso. Quero comunicar que estou me desfiliando do Podemos, por não aceitar nenhum gesto de vaidade ou de autoritarismo.”

O PSD de Gilberto Kassab está de olho em Rose de Freitas — e não é de hoje. Rose já foi do MDB e do PSDB.

Alvaro Dias, líder do Podemos, desejou que a agora ex-colega de bancada seja “muito feliz” em sua nova aglomeração, ainda não anunciada. O senador reforçou que o partido é contra a possibilidade de reeleição à Presidência do Senado na mesma legislatura.

“Lamento profundamente esse episódio com a senadora Rose de Freitas. Mas é a circunstância. A vida partidária precisa ser vivida exatamente dessa forma.”

O processo de expulsão de Rose, claro, não faz mais sentido e, portanto, será encerrado, informou Alvaro Dias.

set
10
Posted on 10-09-2020
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DO CORREIO BRAZILIENSE

Em abril deste ano, Abdelmassih havia ganho na Justiça o direito de cumprir pena em prisão domiciliar. E 28 de agosto, o Tribunal de Justiça de São Paulo revogou a decisão

AB
Agência Brasil
 

 

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski concedeu, nesta terça-feira (8/9), liminar determinando a transferência do médico Roger Abdelmassih, da Penitenciária II de Tremembé para um hospital penitenciário de São Paulo. O argumento que serviu de base foi a condição de saúde de Abdelmassih, de 76 anos de idade, que apresenta quadro de hipertensão pulmonar e cardiopatia isquêmica.

Abdelmassih atendia em uma clínica de reprodução assistida e foi condenado a 173 anos de reclusão pelo estupro de pacientes. Ao todo, foram imputados a ele 49 crimes sexuais.

Em abril deste ano, Abdelmassih havia ganho na Justiça o direito de cumprir pena em prisão domiciliar. A decisão foi proferida pela juíza Sueli Zeraik de Oliveira Armani, da 1ª Vara de Execuções Criminais de Taubaté, que se guiou pela Recomendação 62 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O ato normativo tem por objetivo orientar o Poder Judiciário a implementar medidas que evitem a propagação em massa de covid-19 no sistema carcerário, o que implica, em alguns casos, a concessão de prisão domiciliar.

Em 28 de agosto, contudo, o Tribunal de Justiça de São Paulo revogou a decisão, de modo que Abdelmassih retornou à Penitenciária II de Tremembé. A deliberação foi feita em atendimento a um recurso apresentado pelo Ministério Público de São Paulo. 

A Agência Brasil tentou contato com a defesa de Abdelmassih, mas não conseguiu retorno. A reportagem também solicitou à Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) mais informações sobre a transferência de Abdelmassih, mas ainda não teve resposta.

set
10
Posted on 10-09-2020
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DO CORREIO BRAZILIENSE

Operação da Lava-Jato investiga fraude envolvendo o Sistema S no Rio de Janeiro. Denúncia aponta que Frederick Wassef teria cometido lavagem de dinheiro

ST
Sarah Teófilo
 

 (foto: Sergio Lima/AFP)

(foto: Sergio Lima/AFP)

Em pedido de busca e apreensão na casa e no escritório do advogado Frederick Wassef, o Ministério Público Federal (MPF) apontou suspeita de lavagem de dinheiro praticado pelo ex-advogado do presidente Jair Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Segundo investigação, que é uma nova fase da Operação Lava-Jato, ele teria recebido recursos oriundos do Serviço Social do Comércio (Sesc-RJ), do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac-RJ) e da Federação do Comércio (Fecomércio-RJ) de forma dissimulada, por meio de contrato com um outro escritório de advocacia.

Conforme investigação, teria sido repassado ao escritório de Wassef R$ 2,7 milhões de um outro escritório contratado pela Fecomércio. Quando os valores eram depositados na conta deste outro escritório, a maior parte era destinada Wassef & Sonnenburg Sociedade de Advogados e para uma outra advogada. O MPF aponta que os valores repassados pela Fecomércio eram destinados, na verdade, a Wassef e outra defensora.

A investigação da Lava-Jato apontou também que entre dezembro de 2016 e maio de 2017, o delator Orlando Diniz e outras duas pessoas desviaram ao menos R$ 4,7 milhões do Sesc e Senac do Rio, “mediante pagamentos de honorários advocatícios, por serviços que efetivamente não foram prestados”. Os valores, conforme apurado, eram repassados de forma sequencial a Wassef e a outra advogada, “ocultando a sua origem e distanciando o dinheiro de sua origem ilícita”.

Além disso, MPF relata que entre janeiro de 2015 e abril de 2017, o escritório de Wassef teria recebido R$ 4 milhões de três empresas de informática ligadas a ex-companheira de Wassef. “Como se vê, o uso de pessoa interposta para recebimento de valores – assim como o fez em relação ao Sesc/Senac/Fecomércio –, por Frederick Wassef mostra-se como prática reiterada e forma de atuação para prática de lavagem de dinheiro”, pontua o MPF.

O advogado defendeu o senador Flávio Bolsonaro no caso das ‘rachadinhas’ (esquema de desvio de salário de servidores) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) até junho deste ano. Wassef saiu do caso depois que a polícia prendeu o ex-assessor de Flávio, Fabrício Queiroz, no escritório advocatício do defensor em Atibaia (SP). Ele também defendeu o presidente no caso da facada desferida por Adélio Bispo contra o então candidato à presidência da República Jair Bolsonaro.

Esquema

A Operação E$quema S foi deflagrada pelo MPF, Polícia Federal e Receita Federal, que cumpriram 50 mandados de busca e apreensão. O MPF denunciou 26 pessoas. Denúncia aponta que possível desvio, entre 2012 e 2018, de cerca de R$ 355 milhões do Serviço Social do Comércio (Sesc) do Ri, do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac-RJ) e da Federação do Comércio (Fecomércio-RJ).

Dentre os denunciados estão o advogado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Cristiano Zanin, o ex-governador Sérgio Cabral e a ex-primeira-dama Adriana Ancelmo.

Confira nota de Wassef:

“No dia de hoje foi cumprido um mandado de busca e apreensão em minha residência no Morumbi, assustando meus pais idosos que moram comigo e não podem ter contato com ninguém pela questão da pandemia. Nenhuma irregularidade foi encontrada e, por consequência, não houve a apreensão de nada. O mesmo se sucedeu em meu escritório de advocacia: nada foi apreendido.

Não fui denunciado como os demais advogados e nada tenho que ver com nenhum esquema de Fecomércio. Jamais fui contratado pela Fecomércio ou recebi pagamentos desta entidade. Fui contratado por um renomado escritório de advocacia criminal de São Paulo que tem como dona uma conhecida procuradora do Ministério Público de SP e que sua biografia é um exemplo de integridade, retidão e honestidade, além de ter dedicado sua vida no combate ao crime como atuante promotora e procuradora de justiça que foi.

Todos os meus serviços, de todos os clientes, foram prestados. Meus honorários foram declarados à Receita Federal e todos os impostos pagos na totalidade. Após dois anos e meio de investigação não fui denunciado. Jamais em minha vida pratiquei qualquer irregularidade e nunca fui investigado ou respondi a qualquer processo. Sou aprovado pelo rigoroso compliance de todos os Bancos e de meus clientes.

O delator Orlando Diniz está deliberadamente mentindo a meu respeito a mando de advogados inescrupulosos que estão usando-o como míssil teleguiado para me atingir visando atender o interesse de um outro cliente em comum.

Denunciei no ano passado a uma autoridade pública o esquema e uma engenharia criminosa que estava sendo montada para usar o delator para me atingir e já existe uma investigação em curso apurando tais fatos.”

Do Jornal do Brasil

 

Macaque in the trees
Cristiano Zanin, advogado de defesa de Lula (Foto: Ricardo Stuckert)

O advogado Cristiano Zanin Martins, alvo de operação da Lava Jato nesta quarta-feira (9), disse que era “óbvio” que a força-tarefa “iria promover uma retaliação” contra ele.

Zanin é um dos advogados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e crítico dos métodos da Lava Jato. Deflagrada nesta quarta-feira pela Polícia Federal e Ministério Público, a Operação E$quema S cumpre 50 mandados de busca e apreensão em escritórios de advocacia, endereços pessoais e de empresas.

O operação investiga desvios de pelo menos R$ 150 milhões do Sistema S e da Fecomercio do Rio de Janeiro por escritórios de advocacia no Rio e em São Paulo.

Por meio do Twitter, Zanin disse que tinha atuado nos “últimos anos” para “desmacarar abusos” da Lavaja Jato, por isso a operação de hoje era uma tentativa de “retaliação”.

Além disso, por meio de nota, o advogado criticou o juiz Marcelo Bretas, que expediu os mandados, afirmando que ele é ligado ao presidente Jair Bolsonaro e citando a investigação por suspeita de corrupção contra o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

“O juiz Marcelo Bretas é notoriamente vinculado ao presidente Jair Bolsonaro e sua decisão no caso concreto está vinculada ao trabalho desenvolvido em favor de um delator assistido por advogados ligados ao senador Flavio Bolsonaro. A situação fala por si só”, disse Zanin.

‘Invasão da minha casa’

A operação da Lava Jato tem como base delação premiada de Orlando Diniz, ex-presidente da Fecomercio. A delação é assinada pelas advogadas Juliana Bierrenbach Bonetti e Ana Heymann Arruti, do escritório Bierrenbach & Pires Advogados, que assumiu a defesa de Flávio Bolsonaro no caso Queiroz.

Zanin também disse que a operação tinha como objetivo intimidá-lo.

“A iniciativa do senhor Marcelo Bretas de autorizar a invasão da minha casa e do meu escritório de advocacia a pedido da Lava Jato somente pode ser entendida como mais uma clara tentativa de intimidação do Estado brasileiro pelo meu trabalho como advogado, que há tempos vem expondo as fissuras no Sistema de Justiça e do Estado Democrático de Direito. É público e notório que minha atuação na advocacia desmascarou as arbitrariedades praticadas pela Lava Jato, as relações espúrias de seus membros com entidades públicas e privadas e sobretudo com autoridades estrangeiras”, disse ele.

Outro advogado de Lula, Roberto Teixeira, é alvo da operação da Lava Jato. Também foram realizadas buscas em endereço de Frederick Wasseff, ex-advogado da família Bolsonaro. Não há mandados de prisão. Segundo o MPF, o esquema envolvia contratos falsos, sem a prestação dos serviços advocatícios.(Com agência Sputnik Brasil)

set
10
Posted on 10-09-2020
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Jorge Braga, NO JORNAL

 

NO EL PAÍS

Sem rodas de samba, Réveillon e Carnaval, Rio perde turistas e economia fica sem ‘combustível’

Pandemia do coronavírus afasta o turismo e deixa a cultura ‘respirando por aparelhos’. Auxílio do Governo e campanhas de arrecadação viram tábua de salvação para pessoas e empresas da cidade

A cidade do samba, no Rio de Janeiro, vazia devido à pandemia.
A cidade do samba, no Rio de Janeiro, vazia devido à pandemia.FABIO MOTTA
 Ana Paula Grabois
Rio de Janeiro09 sep 2020 – 08:33 BRT

A covid-19 acertou em cheio o coração do Rio de Janeiro. Referência da cultura nacional e principal destino de estrangeiros que vem ao país em busca de lazer no país, a cidade tem nas atividades criativas e no turismo grande parte de sua base econômica. Os dois setores, no entanto, estão entre os mais atingidos pela pandemia. Após cinco décadas, o Rio não terá a queima de fogos na praia de Copacabana no Réveillon. O Carnaval também não vai ocorrer pela primeira vez desde o início do século XX. A festa chegou a ser adiada em 1912 por causa da morte do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira. No entanto, os foliões driblaram a proibição criaram outros carnavais naquele ano.

Junto com a vida de mais de 16.000 pessoas, o vírus levou embora a principal marca cultural da cidade, o encanto das ruas. Os encontros nas esquinas, praças, botequins e mesas na calçada, quase sempre embalados pela música, não existem mais como eram antes da pandemia. Sobrou a praia, que o carioca teima em frequentar desrespeitando as regras de prevenção ao contágio da covid-19.os com falta de médicos, salários e equipamentos para pacientes de covid-19

A bateria das escolas de samba, as rodas de samba e as caixas de som dos bailes funk estão silenciadas. Não há turistas estrangeiros, bares e restaurantes lutam para sobreviver ou fecharam as portas e os hotéis estão com baixa ocupação. O desemprego, que já era alto antes da pandemia ? índice de 13% no primeiro trimestre ? explodiu nestes setores. Antes da covid-19 chegar, eram 107.000 trabalhadores da cultura, 100.000 do setor hoteleiro e 110.000 de bares e restaurantes, cerca de 10% do total de empregados no município. O segmento cultural só não parou totalmente devido ao fenômeno das lives na internet, nem sempre remuneradas. Os hotéis já perderam 20.000 postos de trabalho e os bares e restaurantes, cerca de 9.000.

“O impacto é catastrófico porque o retorno é mais complicado para os dois setores e para os que dependem deles. O aeroporto do Galeão tem apenas um voo diário internacional”, diz o economista Luiz Gustavo Barbosa, da Fundação Getulio Vargas. Na cultura, 90% das atividades dependem da presença física e da reunião de pessoas, afirma ele. “É um setor que está respirando por aparelhos”.

Nas escolas de samba, a alegria deu lugar à apreensão. Com barracões vazios e quadras de ensaio fechadas, a sobrevivência nos próximos meses é a principal preocupação. No atual período do ano, as quadras estariam escolhendo seus sambas-enredo ou promovendo ensaios e os barracões estariam no auge da preparação para os desfiles. Na Cidade do Samba, que abriga os barracões das escolas do Grupo Especial, circulam apenas bombeiros, seguranças e garis.

A Cidade do Samba, no Rio de Janeiro, vazia devido à pandemia de covid-19.
A Cidade do Samba, no Rio de Janeiro, vazia devido à pandemia de covid-19.FABIO MOTTA

A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) diz ser impossível colocar as escolas na avenida em fevereiro sem a vacina contra a covid-19. “Quem vai comprar ingresso para assistir aos desfiles no Sambódromo sem vacina?”, indaga o presidente da Portela, Luis Carlos Magalhães. Os dirigentes das escolas decidirão em setembro se a festa será suspensa ou adiada para outro mês de 2021. “Existe a hipótese de adiar. Só é viável até maio. Depois, seria o início da preparação do Carnaval seguinte, de 2022”, diz Magalhães.

A Portela, por exemplo, perdeu 20% da sua receita sem os eventos na quadra, como as tradicionais feijoadas. A escola se valeu dos programas de redução de jornada do governo federal para manter os funcionários administrativos e os profissionais fixos dos desfiles, como mestre sala, porta-bandeira e mestre da bateria. “Estamos com zero de receita, a não ser a que vem dos sócios contribuintes e torcedores, mas que também sofreu queda”.

Profissionais como os gessistas, aramistas e aderecistas dos barracões estão sem perspectiva. “Está complicado, estou sobrevivendo com encomendas de bolos, doces e salgados e do auxílio emergencial”, conta Lilian Cristina de Jesus, que faz adereços para a escola São Clemente há 10 anos. A renda do trabalho no barracão cobria o orçamento de 5 a 6 meses do ano da artesã desde 2003. Ela conta estar com dificuldade para pagar o aluguel da casa onde mora com o filho adolescente. “Estou pagando cerca de 50% do aluguel, minha dívida está acima de 2.000 reais”, relata.

Personagem Cristina
Personagem CristinaFABIO MOTTA

Paulo Roberto Santos trabalha para diversas escolas fazendo o acabamento de efeitos visuais em fantasias. O artista plástico, que costuma atuar na Beija-Flor, Vila Isabel e Mocidade, tem metade da sua renda anual originada na festa. Ele tinha começado a trabalhar como tatuador neste ano e a pandemia interrompeu a atividade. “Não sei o que vai acontecer pela frente, não sei o que fazer”, diz. Uma campanha de arrecadação de recursos foi lançada recentemente para ajudar financeiramente e com cestas básicas os cerca de 1 mil trabalhadores dos barracões, o Barracão Solidário. Idealizador da iniciativa, o carnavalesco da Estácio de Sá, Wagner Gonçalves, diz que muitos não conseguiram receber o auxílio emergencial.

Os mais de 450 blocos do Carnaval de rua decidiram que não irão desfilar em fevereiro sem vacina. O adiamento para outro mês de 2021 ainda está no horizonte e depende do andamento dos testes das vacinas e da distribuição efetiva para a população. “Existe uma força do setor hoteleiro e dos patrocinadores para que se faça. Não vejo outra hipótese que não seja virtual, talvez eventos gravados com número reduzido de participantes e sem plateia. É mais razoável”, afirma o cantor e compositor Pedro Luís, fundador do Monobloco, grande bloco precursor da retomada do Carnaval de rua carioca a partir dos anos 2000.

O Monobloco tem oficinas de percussão no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte. Conta com um grupo de cerca de 30 músicos profissionais que fazem de 100 a 120 shows no país e no exterior durante o ano inteiro. Entre dezembro e fevereiro, o número de apresentações é maior. Tudo foi suspenso. Sem o desfile de Carnaval, o bloco deve ficar sem o patrocínio habitual. Para driblar a crise, os músicos têm se reinventado. As oficinas do Monobloco passaram a ser online e reuniram os alunos das três cidades. O total de alunos passou de 350 para 200. Boa parte da equipe técnica passou a receber auxílio emergencial. Grande parte dos 30 músicos começaram a dar aulas online individualmente e outros participam de outros projetos artísticos digitais.

Pedro Luís resiste a fazer lives do bloco porque exigiria a reunião de um grupo, o que considera um risco. “A roda tem que continuar a girar, mas com responsabilidade e informação. Por trás disso, temos um governo central que flerta com a morte. Não só tem a política da morte para certa camada da população, mas tira a morte para dançar. Quem se arma e quem atira pode tomar um tiro. É uma bizarrice, uma sedução perversa”, diz. Pedro Luís tem feito lives individuais nas redes sociais para arrecadar recursos para os técnicos que trabalham com ele na carreira solo. “É um exercício de guerra”, afirma.

O bloco Caramuela, que mistura forró e samba, iria produzir seu terceiro Carnaval em 2021 e planejava abrir duas turmas de oficinas. “A pandemia nos deu uma rasteira de dois pés juntos”, diz um dos fundadores da agremiação, o músico Igor Conde. Para sobreviver, as cinco pessoas que produzem o bloco também aderiram às plataformas digitais. Dos 100 alunos presenciais, 60 migraram para as aulas na internet. “Estamos com dificuldades em fechar as contas do mês e perspectivas muito ruins. Nosso mercado vai ser o último a voltar”, diz.

O Carnaval carioca levou 10 milhões de pessoas às ruas em fevereiro deste ano, um recorde. Deste total, 2,1 milhões eram turistas. Somente nos blocos de rua, foram 7 milhões de foliões. A cidade recebeu 4 bilhões de reais em receita e a atividade hoteleira registrou ocupação de 93%. Com a pandemia logo depois, o turismo mergulhou em um cenário “devastador”, segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), Alfredo Lopes.

Cerca de 90 hotéis suspenderam suas atividades em março e a ocupação atual, de apenas 28%, é composta por profissionais de saúde ou de plataformas de petróleo e de idosos. Em meados de agosto, os eventos corporativos foram liberados pela prefeitura, um pleito do empresariado do setor. “A sustentação da hotelaria do Rio são os eventos. O turismo de lazer não sustenta a ocupação porque é concentrado nos fins de semana e no verão”, diz Lopes. O empresário prevê mais de dois anos para recompor as perdas causadas pela pandemia. “O ano que vem vai ser de retomada lenta, as pessoas ainda vão tomar vacina. Muitos perderam o emprego ou tiveram a remuneração reduzida. Ninguém viaja com o dinheiro do feijão com arroz”, completa o presidente da ABIH-RJ.

Alguns hotéis voltaram a funcionar nas últimas semanas. O luxuoso Copacabana Palace reabriu no dia 20 de agosto depois de quatro meses fechado. Neste período, o hotel tinha apenas um hóspede ilustre, o cantor Jorge Benjor. O hotel mudou o foco de negócios e agora mira o morador da cidade, com pacotes de 30 horas de hospedagem.

No mês passado também foram reabertos alguns pontos turísticos, como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, a roda-gigante da zona portuária e o AquaRio, com a adoção de medidas de prevenção à covid-19. Todos estão voltados para o carioca ou o turista que vem de localidades próximas. Neste primeiro fim de semana, houve filas para visitar o Cristo e o Pão de Açúcar.

Os bares e restaurantes cariocas tentam resistir. Dos 7.000 estabelecimentos que estão abertos, após o fechamento de outros 3.000, 80% operavam no vermelho até o fim de julho, de acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Estado do Rio (Abrasel-RJ). A previsão é de que 30% fechem suas portas até o fim do ano por falta de crédito bancário. Endereços tradicionais da boemia estão à espera dos clientes. O centenário Bar Luiz, patrimônio histórico da cidade, manteve seus 14 funcionários. Localizado no centro, passou a fazer entregas e lançou uma campanha de financiamento coletivo nas redes sociais. A Casa Villarino, onde o músico Tom Jobim e o poeta Vinícius de Moraes foram apresentados nos anos 50, tenta sobreviver. Foi lá que se ouviu pela primeira vez o termo Bossa Nova para o gênero musical que ficou conhecido no mundo. Nas duas primeiras semanas após reabrir, o Villarino teve queda de 90% do movimento e passou a oferecer serviços de entrega e de retirada de refeições. O bar Hipódromo, reduto boêmio na zona sul, foi vencido e fechou após 75 anos de funcionamento.

O Cristo Redentor é higienizado após reabertura.
O Cristo Redentor é higienizado após reabertura. FABIO MOTTA

Teatros, cinemas, casas de espetáculos e museus seguem fechados. Para o presidente da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), Eduardo Barata, a situação é de “calamidade” no segmento. Nas vésperas da quarentena, 100 espetáculos teatrais iriam entrar em cartaz. “Poucos vivem de patrocínio. A maioria dos artistas vive da bilheteria e estão contando com ajuda da família e de amigos”, conta. Entre os cerca de 5.500 profissionais do segmento, entre artistas e técnicos, a maior parte recebeu o auxílio emergencial.

Agora, os artistas aguardam a liberação dos recursos através da Lei Aldir Blanc, cuja sanção presidencial foi publicada em 18 de agosto, quase dois meses após a primeira aprovação na Câmara. O mais importante da lei emergencial, segundo Barata, é a liberação de 104 milhões de reais repassados do governo federal através do Estado do Rio para espaços e micro e pequenas empresas culturais, em valores mensais que variam de 3.000 reais a 10.000 reais. Outra parte da lei prevê o auxílio emergencial específico para a cultura. São 39 milhões de reais a serem repassados pela prefeitura. No entanto, quem recebe o auxílio emergencial geral não pode ser contemplado por este benefício.

Até o momento, a única ajuda governamental concreta para a cultura foi a entrega de cestas básicas pelo governo do Estado em conjunto com a prefeitura. No teatro, foram 250 cestas, todas destinadas aos técnicos. “Até a vacina, teremos que nos reinventar, seja na internet ou em espetáculos ao ar livre com poucos artistas”, afirma Barata.

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