DO EL PAÍS

Cantor e compositor baiano estreia no Festival de Veneza o documentário ’Narciso em férias’, em que narra sua prisão durante a ditadura militar brasileira

O cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso no ducumentário 'Narciso em férias'.
O cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso no ducumentário ‘Narciso em férias’.
 Joana Oliveira
São Paulo

É impossível cantar o Hino Nacional com a melodia da Tropicália. Os versos do Hino são decassílabos, enquanto os da música composta e cantada por Caetano Veloso têm oito sílabas poéticas. Além disso, a acentuação poética das duas canções é totalmente diferente. Isso foi o que respondeu o artista baiano no interrogatório a que foi submetido pela ditadura militar brasileira, que o acusou de fazer “terrorismo cultural” e o manteve preso, junto com o amigo Gilberto Gil, de 27 de dezembro de 1968 —14 dias depois do AI-5— a 19 de fevereiro de 1969, uma quarta-feira de cinzas. Os dois meses de cárcere, cuja primeira semana foi em uma solitária, foram descritos pela primeira vez na autobiografia Verdade Tropical (Cia. das Letras, 1997) —que ganhou uma nova edição em 2017—. Um ano depois, os diretores Renato Terra e Ricardo Calil gravaram o documentário Narciso em férias, homônimo ao capítulo em que Caetano narra os infortúnios de sua prisão semi-clandestina. A coprodução Uns Produções e VideoFilmes estreia nesta segunda-feira no Festival de Veneza, fora de competição, e é o único filme brasileiro no evento.

A ideia foi de Paula Lavigne, ou Paulinha, como Caetano se refere amorosamente à sua mulher, produtora e empresária. “A entrevista comigo seria a base para um documentário mais convencional, com outras locações e outras entrevistas. Ao ver o material, os dois diretores acharam que ali tinham tudo”, conta o cantor em entrevista por e-mail ao EL PAÍS. De fato, a imagem de Caetano sentado em uma cadeira simples, poucas vezes com o violão na mão a cantar, no fundo cinza de uma sala vazia do espaço cultural inacabado da Cidade das Artes, no Rio, é mais que suficiente para embeber o espectador na história que, embora pessoal, é parte de um dos períodos mais tenebrosos da história do Brasil.

Durante a prisão, Caetano secou. Não conseguia chorar e, no que Gil chamou do “silêncio do sexo”, sua libido minguou: tampouco conseguia masturbar-se, algo que, como ele mesmo conta, sempre havia sido uma atividade quase terapêutica. A ereção não vinha. Sua superstição, no entanto, nascida com ele em Santo Amaro, na Bahia, intensificou-se entre as celas. A visão de uma barata era um mau agouro, assim como canções como Súplica, de Orlando Silva, e Onde o céu azul é mais azul, de Francisco Alves. Ainda hoje, o mero título desta última fica preso na garganta e faz água nos olhos de Caetano. É como que impronunciável. Os bons presságios, por outro lado, ficavam a cargo de músicas como Hey Jude, dos Beatles, e Irene, a única que compôs no cárcere, em lembrança e saúde do sorriso da irmã caçula.

A maior bem-aventurança era, certamente, a presença de Dedé Gadelha, sua esposa na época que, tal qual uma detetive, descobriu onde Caetano estava preso e insistiu até conseguir visitá-lo. Em Narciso em Férias, o único momento em que ele vai às lágrimas é quando recorda o sargento que facilitou os encontros entre os amantes.

Pergunta. Há quem diga que revisitar e recontar momentos traumáticos são um exorcismo emocional. O que o fez recontar sua prisão, narrada em Verdade Tropical, em um documentário? Trata-se de mais um exorcismo?

Resposta. Tomara. Faz uns três anos, sugeri a publicação em separado do capítulo Narciso em Férias, de Verdade Tropical. Paula Lavigne teve a ideia de fazermos um documentário sobre o que é narrado ali. Ela, produtora e empresária, pensava em economizar a energia que seria gasta em tentar dizer “não” a possível convites para levar aquilo às telas. Mas também queria que, se tomássemos a decisão de fazer, que tudo fosse feito de modo belo e honesto. Como eu tinha gostado imensamente de Uma Noite Em 67 [sobre o festival de música na antiga TV Record], ela convidou Renato Terra e Ricardo Calil para dirigir. E nos levou para a Cidade das Artes, para que uma entrevista comigo fosse rodada na sala vazia do que fora construído para ser um cinema. A entrevista seria a base para um documentário mais convencional, com outras locações e outras entrevistas. Ao ver o material, os dois diretores acharam que ali tinham tudo.

P. No livro, é nítido seu agradecimento ao sargento, “um preto baiano”, que facilitou os encontros com Dedé em sua cela. No documentário, no entanto, ao lembrar que ele foi preso, posteriormente, você chega a chorar. Que sentimentos o gesto daquele homem e sua lembrança despertam?

R. Não que eu não tenha me emocionado ao escrever certas frases no capítulo do livro. Mas falar é outra coisa. E estar diante do fato de não lembrar o nome do generoso sargento baiano me desarmou.

P. Você já era supersticioso e diz que ficou ainda mais na prisão. De que maneira isso se manifesta hoje em sua vida?

R. Com bem menor intensidade. Muito passou a ser um jogo mental, um vício que serve de diversão. Muito simplesmente sumiu. Mas, como eu ia cantar, sendo gravado e filmado, todas as canções a que me refiro e os diretores já voltaram com a ideia de que o filme já estava pronto —e nas duas noites em que filmamos eu só tinha cantado Hey Jude e Irene— vi que as outras, as que eram sinal de má sorte, não estavam incluídas, voltei a achar difícil arriscar cantá-las. Outro dia, dando uma entrevista para a TV, me dei conta de que a uma delas eu nem podia me referir. Mesmo agora, se penso em frases de sua letra ou melodia, sinto vontade de chorar. Não é medo. É uma tristeza de ter deixado uma canção que fala de um grande amor abrangente pelo Brasil ter estado proibida dentro de mim por tantos anos.

P. E como é essa dicotomia de ser um ateu que vê milagres? O candomblé ou outras religiões de matriz africana nunca tentaram sua fé?

R. A frase sobre ser ateu e ter visto milagres foi dita por Jorge Amado. O Pasquim quis entrevistá-lo e queria que eu estivesse presente, ajudando a fazer perguntas. Como eu não podia estar no Rio na data marcada, eles me pediram as perguntas por escrito para que fossem lidas para Jorge. Eu perguntava que significado propriamente religioso tinha o candomblé em sua vida, já que ele era Obá de Xangô. Ele respondeu: “Não sei feliz ou infelizmente, ao contrário de [Dorival] Caymmi, eu não tenho nenhuma fé. Sou ateu materialista convicto. Mas vi muitos milagres do candomblé. Milagres do povo”. Quando me pediram pra fazer uma música para a versão televisiva de Tenda dos Milagres, citei a frase logo na abertura da música. E passo a falar dos “deuses sem Deus”, que “não cessam de brotar nem cansam de esperar”. Eu, pessoalmente, nunca vi milagres.

P. Você foi acusado de “terrorismo cultural”, algo que disse desconhecer. Acredita que o atual Governo brasileiro persegue as artes por acreditar nesse fantasma? Sob o governo Bolsonaro, vivemos a distorção da verdade e uma guerra digital da qual você já foi alvo, quando perseguido por discípulos de Olavo de Carvalho. O hoje é tão terrível quanto o ontem?

R. É. Por caminhos diferentes, é igualmente terrível.

P. Na nova introdução do livro, de 2017, você escreve que “o Brasil está em perpétua convulsão e há coisas demais sugerindo que não temos por que ser otimistas” e lembra uma frase de Fernando Pessoa: “Nós nos extraviamos a tal ponto que devemos estar no bom caminho”. No nosso 2020, essa frase —que traz uma esperança, ainda que irônica— ainda faz sentido?

R. Faz tanto sentido quanto quando a citei ali. Foi [o economista] Eduardo Giannetti, um liberal, quem a destacou para mim. Minhas expectativas otimistas sobre o Brasil não são tanto a esperança. São mais a responsabilidade. Se não buscarmos dentro de nós o que temos de energia histórica para fazer, pelo que somos, algo bom ao mundo, perdemos a exigência de agir e pensar de modo consequente.

P. Você reconhece ter uma “tendência à digressão” e certo caráter proustiano. Isso se acentuou, ou mudou de alguma forma, com a velhice?

R. Pessoas próximas às vezes dizem que piorou. Mas não são todas. Converso muito bem com meus filhos. Eles sabem que posso ser prolixo a ainda um tanto digressivo, mas o papo anda. E muito. Mesmo com Tom, que é lacônico. E quando escrevo, sinto que consigo ser mais breve.

P. Você e seu filho Zeca têm feito sessões de “cineclube” em casa durante a quarentena. É impossível não lembrar as passagens apaixonadas de Verdade tropical sobre o cinema, principalmente aos filmes de Federico Fellini. O que vocês têm assistido nessas sessões?

R. Zeca e eu estamos vendo filmes variados. Ele agora está concentrado em algo que está fazendo. Por isso não temos tido sessões. Mas vimos filmes brasileiros inevitáveis e alguns italianos. Temos planos de continuar.

P. Narciso em férias não é primeiro documentário dirigido por outrem com caráter biográfico de sua pessoa. Sua incursão à criação cinematográfica, entretanto, se limitou ao experimental Cinema falado. Você chegou a revisitar o filme como fez, por exemplo, com o livro, há três anos? E por que não se aventurou novamente detrás das câmeras?

R. Fazer canções e cantá-las é muito mais simples logisticamente do que fazer filmes. O Cinema falado foi um ensaio de ensaios. Gostaria de fazer um na Bahia, que tivesse uma ideia bonita (eu tive um amigo chamado Marco Polo que vivia numa casinha sobre a pedra que limita o Porto da Barra e ia a todos os lugares de Salvador pelo mar. Ele não tinha ideia de que seu nome fora inspirado por um navegador veneziano. Eu queria fazer um filme sobre alguém assim. Que tivesse imagens parecidas com as que de Trampolim do Forte. Nunca me desliguei de todo do sonho de fazer cinema. Mas acho difícil pensar nisso agora. Tenho 78 anos, as pessoas vêem séries de TV que eu acho chatíssimas, com vários episódios e temporadas, não sei se esse sonho pode voltar a ser um plano.

P. Seu amigo Pedro Almodóvar acaba de estrear em Veneza um filme realizado durante a pandemia. Vocês têm se falado e trocado reflexões sobre vida, trabalho e arte nesses tempos incertos? Você se vê voltando aos palcos no futuro próximo?

R. Sei que Pedro vai a Veneza. Eu não posso ir. Brasileiros não são recebidos na Itália ainda. Paulinha falou com Pedro recentemente. Eu não. Faz um tempo que não nos escrevemos. Ele estava filmando e é muito obsessivo quanto a isso. E eu quero voltar a cantar num palco diante de uma plateia.

P. Em Narciso em férias, você diz que abomina o socialismo e, em Verdade tropical, escreve que, se não fosse aquele 1º de abril de 1964, estaria mais distante da esquerda. Vê uma esquerda crítica, como a sua, no Brasil de 2020? Que saída social e política vê para o país?

R. O filme foi feito há dois anos. Nesse meio-tempo, vi Jones Manoel falar no Youtube, li uma introdução dele ao livro Revolução Africana e ali encontrei argumentações que mexiam com minhas quase certezas a respeito do assunto. Na verdade, Jones me respondia perguntas que venho fazendo há décadas sobre a razão por que os marxistas do mundo acadêmico nada diziam sobre as experiências reconhecidamente opressivas vividas nos países que chegaram ao socialismo. Lemos que Marighella chorou quando soube das famosas maldades de Stálin, mas nada se sabe de como a decisão pelo comunismo se refez dentro dele. Bem, eu gostava de Ruy Fausto [filósofo] por ele criticar as experiências de socialismo real. Não que ele fosse o único. Muitos trotskistas já o tinham feito em alguma medida. Pelo menos na repulsa a Stálin. Mas nem Ruy nem eles chegavam a justificar sua adesão a algo que resultara sempre tão mal. Na contracultura, tínhamos coragem de rejeitar tudo aquilo sem virarmos conservadores ou reacionários. Mas a conta não fechava. No livro, conto como oscilávamos entre uma ultraesquerda e o liberalismo. Essa ultraesquerda tinha algo de anarquista. Mas isso não bastava. O credo liberal me parecia mais digno. Não entrávamos numa religião salvadora que não ousa dizer seu nome: a democracia liberal está em prática no ocidente desenvolvido. Mas sou mulato e de país subdesenvolvido. Minha inspiração não se contenta com o esquema que tem como líder o grande país excepcional que fez a revolução antes da Francesa e se mantém fiel a ela, se ele cala-se diante da Arábia Saudita e execra o Irã e a Venezuela. Então a unidade de propósitos profundos que a ousadia socialista representa, tal como aparecia nas fala e textos de Jones Manoel e se explicava detalhadamente nos livros de Losurdo [Domenico Losurdo, filósofo italiano], é composta de uma visão radical sobre a história colonial e a escravização de negros af

“Ive Brussel”, Jorge Ben e Caetano Veloso: dupla muito especial  que deixa cair picardia no You Tube! No Porto do BP tem lugar para matar saudade e nadar na Quarentena com eles! Vamos nessa!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

Judiciário

DO CORREIO BRAZILIENSE

Apontado como ministro técnico e legalista, Fux assume a Presidência da mais alta Corte de Justiça com a expectativa de preservar o tribunal de disputas políticas e pautar mais assuntos de interesse da sociedade

RS
Renato Souza
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 Sarah Teófilo
 

 (foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil - 18/3/19)

(foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil – 18/3/19)

Entre golpes do jiu-jitsu, o ministro Luiz Fux alivia tensões e se prepara para enfrentar desafios que podem alterar o futuro da nação brasileira. Com um tatame montado em casa, antes da pandemia ele costumava treinar com seguranças da Corte destacados para acompanhá-lo tanto em compromissos públicos quanto privados, sejam eles ligados a atividades jurídicas ou pessoais. Faixa vermelha e branca, Fux precisa de apenas mais um grau para chegar à mais alta graduação no esporte. Já na magistratura, alcançará o topo da carreira na quinta-feira (10), quando se tornará presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) pelos próximos dois anos.

Considerado um ministro extremamente técnico, profundo conhecedor do processo civil, é tido como linha-dura em questões penais. Magistrado de carreira, deve conduzir o Supremo com distância segura do mundo político. Fux tem confidenciado a pessoas próximas que a Corte precisa preservar sua liturgia, sua missão como garantidor dos ditames constitucionais, respeitando a atribuição dos demais Poderes. O ministro não pretende participar de reuniões no Palácio do Planalto, encontrar-se com o presidente da República, ministros de Estado ou políticos sem relação direta com as atividades da Corte e em caráter técnico.

Postura reservada

Além disso, a visão geral que se tem da postura do ministro como presidente é que ele buscará menos holofote sobre o Supremo, tirando-o da “vitrine”, como diz a especialista em direito constitucional, Vera Chemim. Para ela, Fux será “apolítico e, sobretudo, técnico”. Vera acredita que o novo presidente deve manter distância de questões políticas, sem se alinhar ou se opor ao governo, com uma postura bem mais discreta. Buscará pautar assuntos que julgar importantes para a sociedade no momento, independentemente de ser negativa ou favorável ao Executivo nacional, seguindo estritamente a legislação.“Ele vai manter o Supremo onde ele deveria ser; vai fazer com que o Supremo se recolha ao papel de guardião da Constituição Federal, guardando o distanciamento dos Poderes políticos”, diz.E

Advogado e professor de direito penal da Universidade de São Paulo (USP), Pierpaolo Cruz Bottini tem uma visão distinta. Avalia que todo ministro do Supremo tem perfil político, ainda que seja não partidário. O professor ressalta que a presidência do órgão precisa se relacionar institucionalmente com outros Poderes. Sobre as prioridades de Fux, o jurista afirma que ele tem um perfil mais rigoroso em questões penais. “Mas, não acho que isso seja um aspecto fundamental a ser levado em consideração na gestão dele como presidente do Supremo”, considera.

De fato, Fux é chamado de punitivista por muitos advogados, e até ‘linha-dura’ no âmbito do direito penal. Apoiador da Lava-Jato, acredita que a força-tarefa tem seus méritos e que a corrupção precisa ser combatida no país. Com essa postura, espera-se que temas de combate à corrupção ganhem força, sem haver, no entanto, choque com o Congresso Nacional.

Conhecido entre os amigos pela educação e cordialidade, o ministro é respeitado entre os alunos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde dá aulas, geralmente às segundas-feiras. Quando a Uerj implantou as cotas raciais, os primeiros alunos negros viam nele uma referência, em razão do apoio dele à medida. Fux defende ações afirmativas, com a inclusão de todos por meio da educação, assuntos que também devem marcar os temas do plenário nos próximos anos.

Nos momentos em que se desprende das atividades da magistratura, além de se dedicar à leitura, Fux avança sobre a paixão no esporte. Costuma assistir campeonatos de jiu-jitsu pela tevê a cabo. Um canal esportivo que tem programas quase que diários voltado para a modalidade é um de seus hábitos. Amigos próximos destacam que o magistrado tem uma vida diurna. Em Brasília, é avesso a jantares e eventos. Até por razões de segurança, prefere descansar em casa.

A postura reservada pode se estender à presidência. Para Pierpaolo Bottini, o ministro deve articular menos externamente. Para ele, Fux tende a reduzir as conversas com os outros Poderes, mas não por uma diferença em relação à Toffoli, mas porque as circunstâncias mudaram. “O Toffoli pegou o Judiciário em um momento de quase crise institucional, com ameaça do presidente de fechar o Supremo. Foi preciso de um diálogo para manter o equilíbrio”, diz.

Advogada criminalista e especialista em tribunais superiores, Flávia Guth caracteriza Fux como alguém com um perfil mais apaziguador e menos polêmico. Ela pontua que, se Fux perceber que determinada decisão atinge alguma política pública, ou questões financeiras, analisa a repercussão social e econômica da decisão. Por outro lado, em outras situações, como as que envolvem garantias pessoais, a atuação dele é mais dura. “Ele aplica a letra fria da lei, sem muita flexibilização”, diz.

Dom Pedro II

Aos amigos próximos e colegas do direito, Fux não esconde que o colégio no qual frequentou a educação básica é um de seus maiores orgulhos. O magistrado estudou no Colégio Pedro II, público, federal, local em que três ex-presidentes da República também passaram. O grêmio estudantil da instituição de ensino foi um dos mais engajados nas ações contra a ditadura militar. A escola é uma das mais tradicionais do Rio de Janeiro.

Entre os colegas do ministro no Pedro II está o sambista Arlindo Cruz, que atualmente tem saúde delicada, e se recupera de um AVC sofrido em 2017. Fux costuma dizer que a passagem pela instituição de ensino foi um divisor de águas e é uma das experiências que ele dá mais valor no currículo. No âmbito familiar, ele diz que o pai, que não está mais vivo, foi uma grande referência na vida dele, assim como a mãe, que ele visita sempre que consegue ter um tempo entre a agenda do Supremo.

set
08
Posted on 08-09-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 08-09-2020
No 7 de Setembro, Bolsonaro almoça com Toffoli fora da agenda
 

Neste 7 de Setembro, Jair Bolsonaro almoçou na casa do secretário especial para Assuntos Estratégicos do Planalto, almirante Flávio Augusto Viana Rocha.

O ministro Dias Toffoli, que deixará o comando do STF nesta semana, participou do encontro, em um condomínio fechado em Brasília.

Também estiveram presentes Paulo Guedes (Economia), Tereza Cristina (Agricultura), Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), Fabio Wajngarten e, claro, o deputado Hélio Lopes, garantindo uma imagem ao lado do presidente.

O encontro, aparentemente informal, não consta na agenda oficial de Bolsonaro.

O Antagonista recebeu uma foto do momento em que Toffoli (de camiseta preta) deixava a residência, acompanhando do anfitrião (de camiseta do Brasil).

O presidente havia deixado o local, cercado por seguranças, um pouco antes.

Leia mais: Por que Gilmar Mendes ainda julga causas dos próprios amigos?
Mais notícias

7 DE SETEMBRO

DO CORREIO BRAZILIENSE

Cerca de 200 manifestantes inflaram um boneco do presidente da República com as mãos cobertas de sangue, um grupo de terno e máscaras da ratos rasgava réplicas da Constituição, mulheres com as mãos pintadas de vermelho chamava atenção para a violência de gênero e o estudante universitário Daniel Pereira, 23, interpretou um Cristo de pele negra, crivado de balas

LC
Luiz Calcagno
 

 (foto: )

(foto: )

A tradicional manifestação da esquerda de 7 de setembro, batizada de Grito dos Excluídos, ocupou o canteiro central da Esplanada dos Ministérios. Diferentes grupos de partidos da oposição e representantes de movimentos LGBTQ+, indígena, feminista e negro fizeram performances para chamar a atenção para as pautas dos movimentos.

Cerca de 200 manifestantes inflaram um boneco do presidente da República com as mãos cobertas de sangue, um grupo de terno e máscaras da ratos rasgava réplicas da Constituição, mulheres com as mãos pintadas de vermelho chamava atenção para a violência de gênero e o estudante universitário Daniel Pereira, 23, interpretou um Cristo de pele negra, crivado de balas.

Ele compunha, com uma manifestante, uma representação da Pieta, escultura sacra de Michelangelo. O rapaz ficava ao lado da mulher que representava Maria enquanto um representante de cada um dos grupos assumia a posição de um Jesus morto no colo da santa.

À reportagem, Daniel disse que se manifestou contra o genocídio do povo negro no Brasil. “A minha performance é para que as pessoas vejam e sintam o que está acontecendo “, afirmou. O ato do Grupo dos Excluídos durou até por volta de 10h, quando os manifestantes começaram a dispersar para o protesto seguinte, a favor do presidente.

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08
Posted on 08-09-2020
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Duke, NO JORNAL

 

Do Jornal do Brasil

 

Macaque in the trees
Dom Pedro 1 e Dona Leopoldina (Foto: Julien Palliere)

A Independência do Brasil está marcada pela complexidade dos atores políticos como Dom Pedro I e Maria Leopoldina. “O que mais me atrai nessas histórias são esses personagens envolvidos nesse processo da Independência. Poderia ter acontecido tudo ali”, confessa Paulo Rezzutti, escritor de biografias do período colonial.

Pedro chegou criança (7 anos de idade) na nova terra. “Depois de 12 anos no país, ele já era mais brasileiro do que português”, diz Rezzutti. A esposa, Maria Leopoldina (da Áustria), chegou ao Brasil em 1817 e foi só então que conheceu o marido (em um casamento acordado por procuração). Ela, aliás, revelou-se uma articuladora hábil e se liga a movimentos autonomistas, que desejavam que a situação permanecesse como estava. Uma personagem determinante para a mudança da rota da história.

“A situação se acirra. Se por um lado, Pedro está preocupado com os acontecimentos em Portugal, Leopoldina estava ligada à manutenção do trono no Brasil. Pedro considerava ficar desde que pudesse nomear os próprios ministros. Isso acontece no dia 9 de janeiro de 1822, o Dia do Fico”, conta o biógrafo, que já escreveu livros sobre Dom Pedro I, Leopoldina, Marquesa de Santos, Dom Pedro II, entre outros.

A decisão de Dom Pedro I ficar no Brasil cai como uma bomba em Portugal. “As Cortes revogam tudo o que Dom Pedro faz. Mas o navio com essa comunicação só chega em 28 agosto de 1822”, explica Rezzutti.

Depois de tanto tempo, as ordens de Lisboa determinavam ainda que Pedro e família deviam voltar para a metrópole imediatamente, e os auxiliares, como José Bonifácio e Clemente Pereira, que participaram do aconselhamento deviam ser demitidos, presos e levados para Lisboa. A reação no Brasil desencadeia uma sucessão de acontecimentos com as características da velocidade da época. “Até reunir o conselho de ministros, foi 2 de setembro. Os auxiliares levam a Dom Pedro I a ideia de declarar a independência. José Bonifácio manda oficial de chancelaria encontrar Dom Pedro urgentemente. Isso acontece em 7 de Setembro, no Ipiranga, em São Paulo. Até Portugal saber o que estava acontecendo, também demora”, destaca Rezzutti.

Leopoldina, a articuladora

Um detalhe ressaltado pelo biógrafo de Maria Leopoldina é que ela tem participação determinante no conselho de ministros em relação à declaração formal da Independência. “Ela era articuladora hábil. Tinha conhecimento de política e funcionou como uma mediadora importante nos bastidores do palácio para encontrar uma solução adequada”.

Após a independência, a situação continuou efervescente. A professora de história da Universidade de Brasília, Teresa Marques, destaca que a decisão pela independência também não era consensual. “De fato, existem protestos no Nordeste do país que se levantam contra a Corte. Em Pernambuco, em 1817 e em 1824, há manifestações contra a Constituição imposta”.

Ela explica que a forma de lidar com as províncias era conturbada. “As pessoas comuns não entendiam direito o que estava acontecendo. Nem sempre Dom Pedro se aconselhava com mentes mais moderadas. Quem dera ele ouvisse mais a esposa”.

As províncias reagiram a ter que obedecer ao Rio de Janeiro e não mais a Portugal. Pelo caminho da diplomacia, a independência só foi reconhecida pela Europa em 1825 mediante o pagamento de duas milhões de libras esterlinas para Portugal.

Independência x Brasilidade

O conceito de brasilidade acontece em não menos do que duas décadas depois, segundo os pesquisadores entrevistados. Teresa Marques destaca o papel da imprensa que, a par das dificuldades de dar conta de explicar o tempo presente, traz discussões relevantes para os jornais.

Para o historiador Deusdedith Rocha Junior, o 7 de setembro, em boa parte pelo império português, não era tratado de forma importante. “Quando destacamos a independência como fruto da ação determinada de uma pessoa que é, no caso o imperador, abafa-se os interesses dos poderosos e também a ideia de que essas elites e Dom Pedro tomaram todo cuidado para que a população não participasse disso”. Ele cita que as manifestações na Bahia e no Pará foram tratadas com violência policial, incluindo centenas de mortes.

“Não é uma história pacífica. Isso tudo cai no esquecimento para confirmar uma ideia de mansidão do brasileiro”. Os pesquisadores entendem que não é possível entender aquele período apenas por uma ideia de “grito”, como se fosse o último episódio.

A história barulhenta, cheia de nuances, inclusive de silêncios, ainda vai ecoar pelos séculos.

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