A saída de Dallagnol mostra que a Lava Jato é mais um monumento abandonado no Brasil
Brasília – O procurador Deltan Dallagnol participa da palestra Democracia, Corrupção e Justiça: diálogos para um país melhor, no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), campus Asa Norte (José Cruz/Agência Brasil)

A Lava Jato perdeu os seus dois maiores símbolos: Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Ambos sofreram e sofrem uma campanha de perseguição odiosa e bem articulada. Ela começou no Partido dos Trabalhadores e ganhou adeptos no Supremo Tribunal Federal, depois que tubarões de PSDB e PMDB entraram na linha de tiro. Encorpou-se com advogados de réus, todos com bom trânsito na imprensa, e encontrou uma grande caixa de ressonância na imprensa que divulgou mensagens roubadas por hacker estelionatários. A campanha de perseguição acabou aglutinando a extrema direita, após Moro ter saído atirando do Ministério da Justiça, e obteve finalmente um aliado dentro da PGR, com Augusto Aras, detrator da Lava Jato escolhido a dedo por Jair Bolsonaro — o Judas Iscariotes dessa história toda.

As circunstâncias familiares para a saída de Dallagnol da Lava Jato existem, mas está claro que o peso para ele se tornou insuportável com as pressões feitas por Aras. O PGR tentou colocar a sua mão peluda em documentos sigilosos da operação, acusando a Lava Jato de fazer investigações ilegais. Ele também manobrou para que Dallagnol sofresse sanções disciplinares do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), mas teve o seu objetivo barrado parcialmente pelo ministro Celso de Mello. Aliados seus conseguiram levar a julgamento no conselho o caso do PowerPoint que mostrava Lula como o cabeça da organização criminosa que saqueou a Petrobras. A apresentação de Dallagnol, que ilustrava o oferecimento da denúncia contra o chefão petista, já havia sido julgada legal por quatro instâncias judiciais que apreciaram o pedido da defesa de Lula para punir o procurador da Lava Jato — e, ainda que assim não tivesse sido, o caso já estava prescrito. Sem nenhum sinal de vergonha, porém, o CNMP protagonizou o teatro, apenas para tornar públicas admoestações a Dallagnol. Como estava previsto no roteiro, as admoestações servirão para alimentar o processo de suspeição contra Moro, em julgamento no STF, que pode anular a condenação de Lula no caso do triplex e abrir caminho para a anulação dos outros processos contra ele julgados por Moro. O relator é Gilmar Mendes, o insuspeito paladino do estado de direito. Lula abrirá a porteira para que os demais corruptos poderosos se safem da prisão.

 A saída de cena de mais um símbolo da Lava Jato é comemorada em Brasília por aqueles que não veem obstáculos morais para que tudo volte a ser sempre como foi. Eles estão vencendo a guerra, porque já não há povo nas ruas, tolhido que está pela preocupação de sobreviver ao vírus e ao desmoronamento da economia. A operação que era considerada um patrimônio dos cidadãos está em vias de se tornar mais um monumento abandonado no Brasil. Os vândalos o depredam; os pombos o emporcalham — e, em breve, como quer Aras e todos a que ele serve, será substituída por um poste: a tal Unidade Nacional de Combate à Corrupção (Unac), modelo que substituirá a força-tarefa, concentrando poder nas mãos do próprio PGR, como publicamos. A luz do poste será intermitente e de alcance convenientemente limitado.

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Posted on 01-09-2020
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Toffoli e a imortalidade dos juízes
 

O ministro Dias Toffoli está encerrando com chave de ouro os seus mandatos como presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça — que certamente ficarão na história pela defesa intransigente da liberdade de censura. Ele atendeu aos apelos humanitários de associações de juízes e determinou que os tribunais federais e do trabalho comprem 20 dias dos juízes que quiserem vender um terço das suas férias.

O cidadão desavisado pensará que a conta está errada, porque as férias remuneradas são de trinta dias, afinal de contas. Errado: juízes têm direito a 60 dias de férias por ano. Por quê? Porque os coitados dão um duro desgraçado e até inovam ao levar trabalho para casa. Ademais, os membros do Ministério Público e outras carreiras jurídica podem vender parte das férias, ora bolas. Como disse à Folha o presidente da Associação dos Juízes Federais (Ajufe): “A iniciativa privada pode (vender férias), todas as carreiras jurídicas podem, inclusive o Ministério Público, e só o juiz da União sofre essa discriminação, não tinha esse direito. O que o CNJ fez foi só permitir isso.”

 Você poderia estar pensando: mas não seria o caso, então, de reduzir as férias do pessoal da toga para 30 dias por ano e pagar os 10 dias que o restante dos mortais pode vender? Seria, sim, se os magistrados fossem mortais. Mas, ao contrário do que se pode achar, eles não são. Você ainda continua com o seu direito de achar o que quiser, porque nada vai mudar: a imortalidade é direito adquirido. E põe adquirido nisso. O salário de um juiz federal e do trabalho é atualmente de 33,7 mil reais, e eles ganham o adicional de férias duas vezes por ano, o que eleva o salário para cerca de 45 mil reais. Tinha mesmo de ter a possibilidade de vender 20 dias.

Os sindicalistas de toga argumentam que há de se compreender a decisão, porque os juízes vivem uma situação difícil, uma vez que não têm dissídios coletivos e só obtiveram reajuste em 2018, de 16,38%, em troca da perda do auxílio-moradia de 4.377 reais. Sim, eles recebiam auxílio-moradia. Você acha que morar no Olimpo é barato? Como os mortais são de uma mortalidade absoluta, um dia os imortais voltam com o penduricalho.

Para a Ajufe, o custo anual da venda de 20 dias de férias dos juízes federais e do trabalho seria de 57,7 milhões de reais. Mas, como apenas 65% dos juízes federais estariam dispostos a vender parte da sua folga remunerada, o impacto cairia para 37,9 milhões. No caso dos juízes do trabalho, segundo a combativa Associação dos Magistrados do Trabalho, o gasto poderia alcançar até 107 milhões de reais por ano. Todo mundo no Olimpo jura que o Judiciário tem dinheiro para tantos milhões, porque não consegue gastar inteiramente o dinheiro do seu orçamento.

Você poderia achar que melhor seria, então, devolver o que não foi gasto aos cofres públicos, para que o dinheiro fosse direcionado para, sabe-se lá, o combate à pandemia. Você tem mesmo mania de achar qualquer coisa. Talvez esteja na hora de cassar esse direito. Ainda dá tempo, Toffoli.

Folha da Madrugada”, Carlinhos Cor das Águas:Este editor do Bahia em Pauta recebeu do seguint e-mail do professor Paulo Fábio Dantas – destacado antropólogo da UFBA, amigo do peito e colaborador deste site blog 

“Boa noite,
A quem ainda não recebeu de outras pessoas, por meios mais eficazes, envio um link com a sugestão de que se inscrevam no canal de Carlinhos Cor da Águas no YouTube.
Espalhem a boa nova para todo mundo que conhece seu trabalho e queira por isso ajudar a dar esse presente a nós todos. E também para quem não o conhece, tenha curiosidade e mereça a sorte de ser apresentado a esse belo artista. 
Abraços,
Paulo F.
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Abraços, Paulo Fábio. Vivas e agradecimentos dos que pensam e fazem o BP (a começar por este editor e fã de Carlinhos) pela boa nova musical que você nos traz E aí está este imenso e inspirado artista , abrindo setembro no Bahia em Pauta.
BOM DIA, COM AGRADECIMENTOS!!!
(Vitor Hugo Soares)

 

 

DO CORREIO BRAZILIENSE

Ministro determinou que PGR e STJ se manifestem sobre o caso em 24 horas

RS
Renato Souza
 

 (foto: Mauro Pimentel/AFP)

(foto: Mauro Pimentel/AFP)

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, foi escolhido, nesta segunda-feira (31), relator de um pedido de suspensão de liminar apresentado na Corte pela defesa do governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. O político pede a suspensão da decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que o removeu do cargo. Toffoli solicitou que a Procuradoria Geral da República e o STJ se manifestarem sobre o caso. Ambas as instituições têm 24 horas para enviar parecer sobre o tema.

O afastamento do governador ocorreu por ordem do ministro Benedito Gonçalves e o caso será levado ao Órgão Especial do STJ na próxima quarta-feira (02). O colegiado é formado por 15 dos magistrados mais antigos da Corte. No entanto, caso entenda necessário, Toffoli pode decidir sobre o caso antes disso, caso não queira esperar a decisão dos demais juízes.NN

 
Witzel é acusado de envolvimento em um esquema de corrupção no Rio. Ele teria recebido propina de verba desviada em contratos firmados nas áreas de saúde e educação, especialmente na compra de testes para o novo coronavírus.

A defesa do governador alega que ele não poderia ser afastado por decisão monocrática, e apresentou recurso. Ele deve ficar fora do cargo por pelo menos seis meses, caso a decisão do ministro Benedito não seja revista.

Em discurso após ser alvo da operação conduzida pela PF, Witzel alegou ser vítima de perseguição política e acusa o presidente Jair Bolsonaro de interferir no caso. Para o governador, o presidente agiu para evitar que ele indicasse o procurador-geral do Estado, no fim do ano, pois quem for nomeado ao posto terá participação no processo contra o senador Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro.

O parlamentar é acusado de chefiar um esquema de rachadinha supostamente montando no gabinete dele na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), à época em que ele era deputado estadual. O senador nega as acusações.

DO CORREIO BRAZILIENSE

‘Stranger things’, ‘Birdbox’ e ‘Dois papas’ estão entre os filmes e séries que podem ser vistos de graça

CB
Correio Braziliense
 

Bird box é um dos filmes disponível para não assinantes -

Bird box é um dos filmes disponível para não assinantes –

A Netflix disponibilizou alguns dos mais populares títulos do catálogo, de forma gratuita, para não assinantes. Em uma página especial, estão disponíveis os filmes Mistério no Mediterrâneo (com Adam Sandler e Jennifer Aniston), Bird box (com Sandra Bullock) e Dois papas, longa do diretor brasileiro Fernando Meirelles, que foi indicado ao Oscar.

Entre as séries, pode-se assistir à Stranger things e Elite, grandes sucessos da plataforma, à animação O Chefinho: de volta aos negócio, à minissérie Olhos que condenam, ao documentário ambiental Nosso planeta, ao reality Casamento às cegas, e Grace & Frankie, comédia dramática estrelada pelas veteranas Jane Fonda e Lilly Tomlin.

Os filmes estão disponíveis na íntegra, enquanto, no caso das séries, apenas os primeiros episódios estão acessíveis.

A ação de marketing da plataforma, visando seduzir novos clientes, já havia sido lançada nos Estados Unidos, e, agora, chega ao Brasil e aos demais países.

 Não é a primeira vez que a empresa libera conteúdo gratuitamente. No início do ano, mais de 30 documentários foram publicados no YouTube, como forma de auxiliar os professores que, antes da pandemia, tinham acesso a eles por meio da escola, disponibilizados pela Netflix.

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Posted on 01-09-2020
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DO EL PAÍS

Polícia acusa a deputada, pastora e cantora gospel de organizar o assassinato de seu marido, perpetrado por um dos 55 filhos do casal. Foi por motivos econômicos, segundo o delegado que comanda o caso

Flordeliz em 25 de junho de 2019.
Flordeliz em 25 de junho de 2019.AGENCIA BRASIL / Reuters

 Naiara Galarraga Gortázar

São Paulo
Quando Flordelis dos Santos, de 59 anos, enterrou seu marido, assassinado a tiros, estava no auge da sua carreira. Acabava de ser eleita deputada federal pelo PSD-RJ. Um grande triunfo para essa pastora evangélica e cantora gospel, famosa desde a década de 1990 por acolher crianças carentes em sua casa. Ela e seu inseparável marido, vários anos mais jovem, também pastor, formaram juntos uma imensa família de 55 filhos. Essa imagem de casal perfeito foi destruída pelo crime.

Durante o enterro, há um ano e meio, ela chorou desconsolada, enquanto vários parentes a ajudavam a se manter em pé. Ao final da cerimônia, quando um dos filhos foi detido como suspeito, ela defendeu a inocência do jovem. Nesta semana, a deputada Flordelis, como é conhecida, foi formalmente acusada de ser a mandante do homicídio do homem com quem construiu sua carreira política, religiosa e artística, Anderson do Carmo, morto aos 42 anos.

Chegar à vida dela como filho adotivo não impediu que mudasse de papel e se tornasse seu parceiro sentimental por duas décadas e meia ?e pai do resto da prole. Um dos filhos foi preso como autor confesso do crime; outro, por conseguir a pistola de onde saíram os 30 tiros. Outros sete rebentos e até uma neta acabaram atrás das grades como supostos cúmplices. Um final digno de série documental para uma carreira que há uma década inspirou um filme brasileiro de ficção. Os detalhes agora vazados à imprensa incluem visitas da deputada e do pastor a casas de swing e desenham um universo escabroso, em que chegaram a oferecer uma de suas filhas a líderes religiosos estrangeiros para que mantivessem relações sexuais.

Flordelis, que cresceu em uma das favelas mais duras do Rio, ficou famosa na década de 1990 quando adotou 37 meninos de rua que acabavam de sobreviver a uma chacina. Seu empenho em acolher crianças e adolescentes que até então viviam afundados na miséria, nas drogas e na prostituição fez dela uma personagem pública. E a partir daí sua carreira decolou. Veio o filme, vieram os CDs ?incluindo um disco de ouro? e, após vários fracassos na política, finalmente a entrada em grande estilo. Não conseguiu ser prefeita do Rio nem vereadora, mas, com 200.0000 votos, tomou posse no ano passado no Congresso Nacional. “Não estou preparada para ir para a cadeia, nem vou. Sou inocente e tenho certeza de que a minha inocência será provada nos próximos dias”, disse ela neste fim de semana em sua primeira entrevista após ser acusada.

“A principal motivação foi financeira”, afirma por telefone o delegado Allan Duarte, que dirige a investigação sobre o assassinato de Anderson do Carmo. “Ele era responsável pela gestão do dinheiro da família e administrava a carreira política, religiosa e artística dela. E ela não gostava de como ele a conduzia, então concebeu um plano macabro para tirar a vida dele.”

O trampolim a partir do qual a pastora/cantora deu o salto à política foi o Ministério Flordelis, uma igreja personalista criada pelo casal e que, no momento do assassinato do fundador, tinha três templos na periferia do Rio. Como várias outras denominações evangélicas, a igreja de Flordelis recebia quantias milionárias em dízimos dos fiéis. O pagamento costuma ser feito durante o culto, muitas vezes no cartão.

O delegado Duarte prefere não mencionar cifras concretas quando perguntado sobre o patrimônio familiar. Afirma desconhecê-las.

Flordelis é uma deputada irrelevante num Congresso onde abundam os caciques, os evangélicos somam um quinto dos assentos, e ela foi convidada a proferir um discurso no Dia Internacional da Adoção. Seguidora do presidente Jair Bolsonaro, apoiou iniciativas para que vários salões da Câmara sejam batizados em homenagem a mulheres com trajetórias destacadas.

Depois do crime, a primeira reação da viúva foi se mostrar desolada e atribuir o crime a desconhecidos que teriam assaltado a sua casa, um sobrado numa rua sem saída em Niterói. Lá o casal vivia com dezenas dos filhos, lá o pai foi assassinado, e lá ocorreu a maioria das detenções na segunda-feira passada. O delegado contou depois que Flordelis começou a chorar ao ver a chegada dos policiais, que não puderam detê-la por gozar de imunidade parlamentar.

A deputada decidiu matá-lo, segundo as investigações, porque queria ter o controle do dinheiro e da sua carreira. Separar-se de Anderson estava fora de cogitação, segundo afirmou em uma troca de mensagens com um dos filhos: “Fazer o quê? Não posso me separar dele, escandalizaria o nome de Deus”. A investigação policial também descobriu, como nos telefilmes, que Flordelis e os filhos tentaram envenenar seu marido pelo menos quatro vezes. Conseguiram que adoecesse, mas não chegaram a matá-lo. Passaram ao plano B, a pistola.

Sob essa fachada de generosidade e harmoniosa família, Flordelis fazia distinções claras entre seus filhos. “Parte da família planejou todo o crime, havia duas facções”, explica o delegado Duarte. Os quatro biológicos e os mais velhos entre os adotados eram considerados de primeira classe; conviviam com os pais, ocupavam postos na Igreja ou no gabinete parlamentar. O resto da garotada era de segunda classe.

Todos os acusados de participar do crime estão presos, menos a deputada, embora, segundo as investigações, tenha sido a mentora do plano, dado o dinheiro para comprar a arma e convencido os filhos a participarem. Só poderá ser posta sob prisão preventiva se o Congresso cassar seu mandato, o que não é frequente. Suas excelências estão sempre temerosas em estabelecer precedente. Não é de estranhar, levando-se em conta que há quatro anos mais de metade deles tinha contas pendentes com a Justiça, a maioria por corrupção.

Acusações de homicídio, no entanto, não são alheias ao Congresso. Uma das mulheres que Flordelis pede que seja homenageada é Ceci Cunha, uma deputada alagoana que foi assassinada em 1998 por ordem de seu suplente, Talvane Albuquerque, que chegou a ocupar brevemente a vaga. Exatamente um ano depois chegou à Câmara Hildebrando Pascoal, conhecido como “o deputado da motosserra”. Ele tentava que a imunidade parlamentar o salvasse de prestar contas à Justiça por liderar um grupo de criminosos que assassinava suas vítimas com métodos bárbaros. Meses depois, seus colegas o expulsaram do Congresso. Foi condenado a mais de um século de prisão, que ainda cumpre, mas em casa.

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Posted on 01-09-2020
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Duke, NO JORNAL

 

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Posted on 01-09-2020
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DO EL PAÍS

A mais recente cidade sacudida pelos protestos antirracistas, em um Estado chave para as eleições presidenciais, põe a prova a mensagem de lei e ordem de Trump e a demanda por justiça racial de Biden

Um grupo de manifestantes pacíficos passa por carros queimados em Kenosha.
Um grupo de manifestantes pacíficos passa por carros queimados em Kenosha.SCOTT OLSON / AFP

 Pablo Guimón

Kenosha
  • Agentes de policía de Portland retienen a un hombre que se encontraba con la víctima mortal momentos después del tiroteo.

    Um morto a tiros em Portland após confrontos entre seguidores de Trump e do Black Lives Matter

Os tapumes, que protegem as lojas caso os protestos saiam do controle, serão mais um símbolo deste 2020 histórico nos Estados Unidos. A proteção contra saqueadores, as máscaras contra o coronavírus. Os rostos e as vitrines cobertas nas ruas de Minneapolis, Seattle, Des Moines, Houston, Louisville, Memphis, Nova York, Los Angeles, Portland e agora Kenosha. Uma cidade de 100.000 habitantes no sudeste de Wisconsin, às margens do Lago Michigan, onde, no último domingo, um policial branco disparou sete tiros nas costas do afro-americano Jacob Blake, deixando-o prostrado em uma cama de hospital.

O crime reacendeu as chamas dos protestos por justiça racial que varreram o país desde que, no dia 25 de maio em Minneapolis, a 600 quilômetros de Kenosha, outro policial branco matou outro homem negro, George Floyd, sufocando-o com o joelho em seu pescoço enquanto ele repetia que não conseguia respirar. O padrão se repete. O povo, furioso, sai para protestar pacificamente. À noite, uma minoria de pessoas violentas causa estragos na cidade. Pichações, carros em chamas, saques e, na manhã seguinte, tapumes.

“Estou indo embora, vou para a casa de um parente”, explica Lynette, trabalhadora de uma fábrica de plásticos, cuja casa na 10th Street é cercada por um terreno dilapidado, uma concessionária de automóveis queimada e um banco saqueado. Seu cachorro já está esperando no carro. “Vou levar 40 minutos por dia para ir trabalhar, mas não posso ficar. Foi terrível. Eu apenas senti o cheiro da fumaça e ouvi as explosões. Ficamos sem eletricidade da uma da manhã às duas e meia da tarde. Eu moro sozinha e não consegui dormir a noite toda. Achei que eles fossem incendiar minha casa. O que aquele policial fez é horrível. Mas isso é ainda pior. Isso tem que parar. Todos falam da nossa situação, usam-nos como arma política e tudo o que queremos é que nos deixem viver em paz“.

Isso é pedir muito, especialmente 67 dias antes de uma eleição que ambos os partidos qualificam como a mais importante da história recente dos Estados Unidos. “Seu voto decidirá se protegeremos americanos cumpridores da lei ou libertaremos anarquistas violentos, agitadores e criminosos que ameaçam nossos cidadãos”, disse Donald Trump na quinta-feira, no gramado da Casa Branca, ao aceitar a nomeação do Partido Republicano para lutar oficialmente por um segundo mandato no dia 3 de novembro. “Essas eleições decidirão se defendemos o estilo de vida americano ou se permitimos que um movimento radical o desmonte completamente e o destrua”.

Os republicanos, ansiosos por desviar a atenção da má gestão de uma pandemia que continua a atingir fortemente o país, lançaram sua campanha como uma cruzada pela “lei e ordem”. Os democratas falam dessas eleições como “uma batalha pela alma da nação”. E essa alma foi “perfurada”, nas palavras do candidato Joe Biden, pelos tiros daquele policial. Duas visões concorrentes do país e, presa entre uma e outra, Kenosha coloca-se no centro da batalha política nacional.

Além disso, a forma como os residentes de Kenosha decidirem votar pode não ser desprezível nas eleições de novembro. Em 2016, Trump foi o primeiro republicano a vencer nesse condado em 44 anos. E isso contribuiu para que o atual presidente tomasse Wisconsin com uma diferença de apenas 23.000 votos sobre a democrata Hillary Clinton, que nem mesmo fez campanha no estado. Wisconsin, um daqueles estados indecisos onde qualquer uma das partes pode vencer, foi a chave para a vitória de Trump. E quatro anos depois, a importância de uma cidade como Kenosha passou desapercebida por nenhum estrategista político. O próprio Biden, que, ao contrário de seu rival, disse que não faria reuniões cara a cara para evitar a geração de fontes potenciais de contágio do coronavírus, nos últimos dias deixou a porta aberta para viajar pessoalmente a alguns estados indecisos, incluindo Wisconsin.

“Eu rezava para que um acontecimento como esse unisse as pessoas, mas sinceramente temo que isso nos divida ainda mais. E isso que em Wisconsin já estamos divididos desde o início. Eu, pessoalmente, valorizo a vida mais do que a propriedade. Mas meus amigos e minha família não pensam como eu e, nas últimas semanas, o problema está muito mais presente“, diz Christina Oldani, professora de 44 anos. Ao seu redor, no entanto, existe, sim, unidade. Talvez se possa até falar de comunhão. Um padre pede à congregação pelo microfone para levantar juntos os braços sob o sol inclemente. Um jovem com uma camisa que diz “alternativa socialista” fala com outro cuja camiseta diz “Jesus”.

Um misterioso texano com um chapéu de aba larga tenta explicar a três afro-americanos que a bandeira americana de 50 metros quadrados que ele está tentando colocar na grama, com as barras vermelhas pintadas de preto e a legenda “não há preto em nossa bandeira”, não é ofensiva, mas muito pelo contrário. Um cozinheiro de um coletivo de Portland, chamado Riot Ribs (costelas de protesto) prepara carne em uma churrasqueira para distribuir de graça para qualquer pessoa. E no chão da praça, a palavra “amor” pintada nas cores hippie.

Este é o parque do Centro Cívico. Desde o último domingo, tornou-se o epicentro de protestos pacíficos todos os dias às quatro da tarde. “Precisamos encontrar uma maneira de os protestos não ficarem fora de controle, porque os distúrbios só beneficiam Trump”, disse Isaac Wallner, um residente de Kenosha, motorista de caminhão e veterano ativista por justiça racial. “O caos que vimos no início da semana definitivamente não ajuda, porque se encaixa na narrativa de Trump de que o que precisamos é de lei e ordem”.

Entrando na reta final da campanha, as nuances desaparecem e é mais difícil para os democratas explicar que apoiam a causa, mas condenam o componente violento dos protestos. O populismo de Trump, em contraste, move-se maravilhosamente em um território sem nuances. O presidente sabe perfeitamente a quem dirige sua mensagem simples de “lei e ordem”. Não às suas bases, que já mobilizou, mas aos eleitores moderados que dela escapam. Aqueles que rejeitam os caminhos de Trump, mas percebem que as cidades e estados onde os protestos estão fora de controle tendem a estar nas mãos dos democratas.

O problema é que existem nuances. Uma, e muito importante, é que tudo isso está acontecendo sob seu mandato. “Trump diz que esta é a América de Joe Biden. Mas espere, Trump: você não é o presidente agora? Este é o seu Estados Unidos. Ninguém tem uma bola de cristal para saber como será com Biden “, diz Tyler Stecen, um morador de 25 anos de Kenosha.

Outra nuance não menos importante é que as duas únicas vítimas fatais na cidade, até agora, foram mortas por tiros de um vigilante autoproclamado. Um garoto de 17 anos que queria impor a lei e a ordem por conta própria com um rifle de assalto e que também era um seguidor entusiástico do inquilino da Casa Branca. “Apoiar Trump não o torna necessariamente uma pessoa má, mas um cachorro é um cachorro e um gato é um gato”, defende Alex Simon, 22, que usa uma camiseta anti-Trump. “O que está claro é que existem duas justiças diferentes. Por um lado, um negro que não tinha arma na mão foi alvejado por um policial não com um, mas com sete tiros nas costas, com os filhos à sua frente. Se não fosse pelos cidadãos que o gravaram, quem sabe que história nos teriam contado. Por outro lado, você tem um menino branco andando na rua com um rifle de assalto no meio dos protestos, e a polícia é amiga dele. É por isso que devemos permanecer ativos, para sermos ouvidos. A violência policial é política, claro que é. Todo mundo sofre com a violência policial, mas nós, negros, somos dramaticamente mais brutalizados. Eu queria que a violência fosse desnecessária, mas às vezes demora um pouco. É ruim que as lojas sejam vandalizadas, mas às vezes é preciso destruir. Isso vai passar, mas a história mostra que nenhuma revolução veio com um protesto pacífico. Às vezes esquecemos que as mudanças só acontecem quando queimamos as ruas“.

Às sete horas da tarde de sexta-feira o alerta do toque de recolher soa nos celulares, mas quase não sobrou ninguém no parque do Centro Cívico. Os uniformes dos agentes da Guarda Nacional, enviados por Trump, estão camuflados contra o esqueleto de um dinossauro no jardim do museu de paleontologia. Em outro canto, exausto, um pregador rapper que rimava alto pela salvação de todos deixou o microfone e colocou uma melosa canção pop cristã. A cera das velas se derrama sobre a palavra “amor” no chão da praça. Os skatistas aproveitam as ruas fechadas para praticar suas manobras. Um senhor idoso sem camisa e com uma faixa contra a polícia reclama porque onde estará o rebuliço, “é fim de semana”. E Edward, com uma massa de cabelos brancos sobre o rosto negro e uma camiseta que diz “velho número um”, sai para fumar um cigarro na escada da frente de sua casa.

Ele não foi embora, ao contrário de sua vizinha de rua. Ele também não tem dormido, diz, mas poderia ter sido pior. “Tenho uma amiga que perdeu o negócio e realmente sinto muito por ela, porque sei o quanto ela trabalhou para fazer isso”, explica. “A violência obscurece a mensagem, porque agora o foco não está nas reivindicações, mas na reação. Mas aqueles que causam violência e destruição são uma minoria. Quando o fogo se apaga, a mensagem deve seguir. Quando a fumaça se dissipar, espero que o protesto continue. Porque esse presidente alimentou o discurso racista. Você pode ser parte da solução ou parte do problema, e ele é parte do problema. Eu tenho 73 anos. Já vi bons presidentes, e outros não tão bons. Com cada um deles tivemos alguma tragédia, seja uma guerra ou outra coisa. Não podemos julgar o coração de um homem, não podemos ver o que está dentro. Só podemos ver o que sai de sua boca. Todo presidente, desde que me lembro, usou palavras para tentar aproximar as pessoas. Trump é o primeiro na minha vida a usar a retórica para separar as pessoas”.

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