Jornalismo pernambucano se despede de Beto Rezende, vítima da covid-19
Beto Rezende
Bahia em Pauta » Blog Archive » Janio Ferreira Soares: o choque de gerações no embalo da farra à beira do Rio São Francisco

ARTIGO

O primeiro amigo que a Covid me levou

 

Janio Ferreira Soares

 

Quando Beto chegou por aqui em 1971, eu tinha 13 anos e ele 11. Não me recordo exatamente quando nos conhecemos, mas creio que foi em 74, época da lendária Brasília amarela e seu toca-fitas Mitsubishi mandando Rock and Roll na moçada, em cujos falantes ele dizia ter conhecido sua banda favorita no mundo.

Confesso que essa revelação sempre me intrigou, pois acho que seu debut nas profundezas das quebradas púrpuras se deu na salinha da Landulfo Alves, 142, quando botei o Made in Japan pra tocar e, tal um profeta embriagado, celebrei: “Beto, você aceita Deep Purple como sua legítima banda, prometendo amá-la e respeitá-la na genialidade de Blackmore ou na pegada de Tommy Bolin, nos agudos de Gillan ou no timbre rasgado de Coverdale, até que Ian Paice rufe os tambores no fim?”. Aí, com os olhos arregalados e um copo de Dom Bosco na mão, ele disse “porra!”, e o resto, baby, são lembranças guardadas nas conexões cerebrais que sobreviveram aos bombardeios de clorofórmio, benzina e éter.

Sem tocar nenhum instrumento, certa vez ele deu uma canja na quase famosa The Band Ilusion, infelizmente desfeita depois da única e histórica apresentação na pérgula da piscina do Clube Paulo Afonso, quando Carlão, após meia garrafa de Drury’s, quebrou um violão nas costas de Ricardo Moreira, só porque ele errou umas notas de Hotel Califórnia.

Pois bem, depois de trucidar Stairway to Haven num inglês de lascar, Silvinho Cabaré falou: “agora vou chamar meu amigo Beto pra cantar Something comigo”. E aí, em meio ao segundo massacre da língua de Shakespeare, ele entrou no “I don’t know, I don’t know” do refrão e, empolgadíssimo, estendeu o now!, now!, now! se envergando pra trás, só não caindo na piscina porque Gato (gerente do clube), honrando o nome, deu uma pirueta e segurou-o pelo cós da calça.

Para quem não o conhecia, Beto Rezende morava em Recife e era jornalista dos bons (Diário de PE, JC e Folha de PE), além de idealizador do Enquanto Isso na Sala de Justiça, famoso bloco do Carnaval pernambucano. Mas, para este escriba, ele será sempre o menino Betoso, um misto de Eduardo Bueno “Peninha” (no físico e no modo eletrizante de expressar um vasto conhecimento daquilo que lhe interessava), e João Saldanha (na firmeza ideológica e nas sacadas mezzo doces, mezzo ferinas – bela herança do velho Albano).

Agora olho o São Francisco e me vem uma entrevista de Bob Dylan, onde ele diz que ter o Pacífico em seu quintal lhe acalma a alma. Dona Alvani, mãe de Beto e dos queridos Baninho, Ilma, Lulu, Virgínia e Leila, tem o mar de Boa Viagem em sua frente. Tomara que ele ajude-a a superar a dor de perder um filho, e a sacanagem da vida em deixá-lo partir sem sequer um beijo, um cafuné ou um último adeus dos muitos que lhe amavam tanto. Viva Betoso!

Janio Ferreira Soares, cronista, é Secretário de Cultura de Paulo Afonso, na barranca baiana do Rio São Francisco

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