Morre Luiza Câmara, ativista por direitos das pessoas com deficiência, em Salvador - Jornal CORREIO | Notícias e opiniões que a Bahia quer saber
Joaci Góes
 
 
Reflexões e perdas na quarentena
Joaci Góes
Para Else Coutinho e Ana Maria Bacelar, queridas amigas e irmãs dos pranteados Elsimar e Luiza!
Nunca, na história, os humanos viveram experiência tão partilhada como a partir do segundo trimestre deste pandêmico ano de 2020, no que se refere ao intenso e universal isolamento social, variando, apenas, o que fazer de cada qual. O nosso, meu e de minha mulher, Lídice, tem sido o mesmo: leitura, malhação, escrever, longas sessões cinematográficas, papos a dois, regados a vinho, e em eventuais recepções de um ou outro, bem como, à distância, com filhos, netos e muitos amigos distribuídos por toda parte. Quebrando de modo doloroso essa rotina forçada, a notícia da perda de entes queridos, os últimos dos quais Elsimar Coutinho, no dia 17, e de Maria Luiza Câmera, no dia 19 do corrente.
Cada um, a seu modo, Elsimar e Luiza, dignificaram e conferiram brilho à sua passagem sobre a terra, um lapso existencial que tanto faz os noventa anos vividos por Elsimar, como os 75 de Maria Luiza, são “um momento de angústia ao longo da existência do ser”, na perspectiva dura mas verdadeira do pensamento existencialista, de Sören Kierkegaard a Jean Paul Sartre. O que importa, portanto, é o valor da obra que deixamos em nossa meteórica passagem sobre a Terra, domínio em que os dois pranteados amigos exceliram.
Da perda de Elsimar, precedida de longa e intensa vigília da busca de sua recuperação pela melhor medicina, o mundo deu e continuará dando conta, semanas, meses e anos afora. A qualidade de sua contribuição, no campo da reprodução humana, é universalmente reconhecida. Registro como um momento rico de minha biografia, o concorrido e histórico depoimento que deu na Academia de Letras da Bahia, em outubro do ano passado, como parte do programa Trajetória de uma vida, uma súmula pedagógica e inspiradora para os que queiram ampliar os limites de suas possibilidades. Ali, rodeado de mulher, irmãos, filhos, netos e amigos queridos, o eminente cientista Elsimar Coutinho resumiu o que disse em seu último e antológico livro Janelas Fechadas, Portas Abertas, mas o fez de um modo em que o calor da proximidade física nos permitiu auscultar o bater de seu vibrante coração.
A itabunense Luiza Câmera, nascida no apogeu da lavoura cacaueira, graças ao vigor de sua mente prodigiosa, transformou o revés de sua saúde – a contração precoce da incurável e autoimune doença de Still – uma queda mortal, para muitos – “num passo de dança”, “levantando-se, sacudindo a poeira e dando a volta por cima”, comprovando, como o fez de modo exemplar o britânico Stephen Hawking, que as grandes pessoas, como as águas, ganham força na queda. Por isso, Luiza introjetou e repetiu à saciedade, como um mantra, um marco em sua vida, como mecanismo de aumento, preservação e restauração de sua higidez emocional, a frase que o ortopedista Campos da Paz disse sobre ela, ao deixar o Hospital Sarah Kubitschek, depois de quatro anos de tratamento, em Brasília: “O corpo de Luiza não aguenta sua extraordinária cabeça.”
A Associação Baiana dos Deficientes Físicos, Abadef, localizada no passeio Público, atrás do Palácio da Aclamação, endereço que transformou numa extensão de sua residência, foi o palco sobre o qual Luiza fez de sua vida o instrumento de uma luta, de alcance nacional, em favor dos desfavorecidos por injunções físicas. Tanto que recebeu, do Senado da República, a Comenda Dorina de Gouveia Nowill. Nem as crônicas inflamações do corpo, nem os desgastes progressivos em suas articulações que a levaram a perder os movimentos das pernas foram desculpas, legítimas, sem dúvida, para deixar-se imobilizar.
Triunfante e otimista, na contramão dos que se abatem pelo infortúnio, inclusive familiares mal formados e mal informados que se envergonham dos seus entes queridos, que são portadores de limitações físicas, Luíza testemunhou, de modo inspirador: “Achavam que eu não conseguiria ter filhos e casei, tive duas meninas. Hoje só vou ao médico fazer checape uma vez por ano, tenho todas as taxas excelentes”. Ela fundou, também, o Bloco Me Deixe em Paz que há um quarto de século amplia a inclusão dos que participam do carnaval de Salvador. Luiza registrou o seu legado nos livros Não se cria filho com as pernas e Mulher da vida, ambos de caráter, predominantemente, memorialístico.
Que grande exemplo de afirmação existencial para quantos, sobretudo aqueles dotados de largas posses, que aceitam como determinismo existencial, a subjugação do espírito às dimensões e circunstâncias da conjuntura corporal.
Duas vidas, passageiras em suas dimensões físicas, mas eternas pela significação do seu legado.
Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Artigo publicado nesta quinta-feira, 27, na TB.

DO EL PAÍS

Pastor Everaldo, presidente do partido do PSC de Witzel, é preso em operação. PF fez buscas contra primeira-dama e presidente da Assembleia Legislativa. Governador diz ser vítima de perseguição política

O governador do Rio, Wilson Witzel, após encontro com o presidente Jair Bolsonaro em Brasília, em maio.
O governador do Rio, Wilson Witzel, após encontro com o presidente Jair Bolsonaro em Brasília, em maio.Adriano Machado / Reuters
 Daniela Mercier
São Paulo

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) ordenou nesta sexta-feira o afastamento do governador Wilson Witzel (PSC) do cargo por 180 dias e expediu diversos mandados de prisão e de busca e apreensão em endereços ligados às principais autoridades do Rio de Janeiro. A investigação é um desdobramento da Operação Placebo, que investiga corrupção em contratos do Executivo fluminense na área da saúde e que mirou o governador em maio. Agora, a suspeita é a existência de um amplo esquema de corrupção que envolveria também outras áreas da administração e que teria a participação de membros do Legislativo e do Judiciário. Em pronunciamento, Witzel negou as acusações e disse ser vítima de perseguição política, levantando suspeitas contra o Governo Jair Bolsonaro e a subprocuradora da República Lindôra Maria de Araújo, responsável pela investigação, que ele afirma ser aliada do presidente. “Há interesses poderosos contra mim, e querem destruir o Estado do Rio de Janeiro”, declarou.

As medidas foram determinadas pelo ministro do STJ Benedito Gonçalves, que em decisão monocrática também proibiu o acesso de Witzel às dependências do Governo do Rio, com exceção do Palácio Laranjeiras, sua residência oficial, e vetou a comunicação dele com funcionários e a utilização dos serviços do Estado. O Ministério Público Federal chegou a pedir a prisão preventiva do governador, mas o ministro entendeu ser suficiente o seu afastamento do cargo para evitar a continuidade das supostas atividades de corrupção e lavagem de dinheiro apontadas na investigação.LICIDADE

A operação desta sexta foi chamada de Tris in Idem, uma referência ao fato de se tratar do terceiro governador do Rio que se “utiliza de esquemas ilícitos para obter vantagens indevidas”, nas palavras dos procuradores. Os ex-mandatários Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, ambos do MDB, estão presos em decorrência de investigações da Operação Lava Jato.

Witzel, que é ex-juiz, foi eleito em 2018 com um discurso anticorrupção e aliado ao bolsonarismo, tendo se afastado do presidente no início da pandemia de coronavírus. Segundo a Procuradoria, porém, desde a sua vitória no pleito organizou-se no Governo um esquema criminoso integrado pelos três poderes. “Liderados por empresários, esses grupos lotearam algumas das principais pastas estaduais —a exemplo da Secretaria de Saúde— para implementar esquemas que beneficiassem suas empresas”, dizem os investigadores em nota.

Em maio, Witzel foi alvo de uma operação que investigava um contrato emergencial assinado entre o Governo e a organização social Iabas no valor de 835 milhões de reais para construir e gerir sete hospitais de campanha para pacientes infectados com o coronavírus. O episódio levou à prisão do então subsecretário estadual de Saúde, Gabriell Neves, e dias depois à demissão do secretário, Edmar Santos. De acordo com a Procuradoria, esse esquema de direcionamento de licitações era o principal mecanismo de atuação do grupo. Os investigadores apontam a existência de uma “caixinha de propina” abastecida pelas organizações e a cobrança de um percentual sobre pagamentos que financiava mensalmente agentes políticos e servidores públicos da Secretaria da Saúde.

“O grupo criminoso agiu e continua agindo, desviando e lavando recursos em plena pandemia da covid-19, sacrificando a saúde e mesmo a vida de milhares de pessoas, em total desprezo com o senso mínimo de humanidade e dignidade”, destacou o ministro do STJ na sua decisão.

O esquema de desvios não se limitava ao Poder Executivo, segundo a investigação. Na Assembleia Legislativa, deputados estaduais são suspeitos de repassar sobras de duodécimos, percentuais recebidos por lei do Governo, para o tesouro estadual. “Dessa conta única, os valores dos duodécimos ’doados’ eram depositados na conta específica do Fundo Estadual de Saúde, de onde eram repassado para os Fundos Municipais de Saúde de municípios indicados pelos deputados, que, por sua vez, recebiam de volta parte dos valores”, detalha a Procuradoria.

Na esfera do Judiciário, por sua vez, as organizações atuariam por meio do pagamento de dívidas trabalhistas judicializadas. Com a ajuda de um desembargador, segundo aponta a investigação, entidades pagavam honorários a uma advogada que, após obter as decisões favoráveis, repassava os valores para os participantes do esquema.

Em outra frente de investigação, o Ministério Público Federal ofereceu denúncia contra Witzel, a primeira-dama Helena Witzel e outras sete pessoas, incluindo advogados e empresários, sob acusação de corrupção e lavagem de dinheiro. A denúncia é assinada pela subprocuradora Lindôra Araújo e pede a decretação da perda do cargo público de Witzel e o pagamento de indenização mínima de 1.108.473 reais aos cofres públicos. O objeto da investigação são os pagamentos de empresas ao escritório de advocacia da primeira-dama, realizados supostamente a partir de contratos simulados para permitir a transferência de valores à família do governador. Foram denunciados os empresários Mário Peixoto, Alessandro Duarte e Cassiano Luiz; Lucas Tristão, ex-secretário de Desenvolvimento Econômico de Witzel; João Marcos Borges Mattos, ex-subsecretário executivo de Educação; Gothardo Lopes Netto, ex-prefeito de Volta Redonda (RJ); e o contador Juan Elias Neves de Paula.

Agentes da Polícia Federal cumpriram mandados no Laranjeiras, no Palácio Guanabara e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, além de outros endereços no Estado. Entre os alvos das ordens de busca e apreensão estão Helena Witzel, o vice-governador, Cláudio Castro (PSC), e o presidente da Assembleia Legislativa, André Ceciliano (PT). Foram expedidos 17 mandados de prisão, sendo seis preventivas (sem prazo) e 11 temporárias. Um dos alvos é Pastor Everaldo, presidente do PSC, partido de Witzel, que foi detido no início da manhã.

“Eu estou incomodando prendendo miliciano?”, diz Witzel

Em pronunciamento na manhã desta sexta-feira, Witzel negou irregularidades, classificou a investigação de “rasa” e sem provas e disse que não praticou nenhum ato desde a operação de maio que indicasse tentativa de atrapalhar a apuração. Destacou que demitiu na época os investigados e que foi enganado pelo ex-secretário da Saúde Edmar Santos, a quem chamou de “canalha” e “vagabundo”.

O governador afastado disse que a investigação contra ele se trata de uma “questão pessoal”, acusando a subprocuradora da República Lindôra de Araújo de perseguir outros governadores. Segundo ele, é preciso investigar a hipótese de influência da família Bolsonaro, com quem rompeu, nas medidas contra seu Governo. “O presidente Bolsonaro já falou que quer o Rio e já me acusou de perseguir a família dele”, declarou. “Estou incomodando prendendo miliciano?”, indagou, em referência a suspeitas de elo do hoje senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) com criminosos ligados ao Escritório do Crime.

Witzel questionou ainda o período de afastamento, de seis meses, afirmando que o prazo tem ligação com o fato de que ele escolheria, em dezembro, o novo procurador-geral de Justiça do Estado. Disse ainda que seu Governo está combatendo a pandemia e repassou sete bilhões de reais para a Saúde nos últimos meses. “Nunca se investiu tanto dinheiro.”

Mais cedo, sua defesa afirmou em nota ter recebido “com grande surpresa a decisão de afastamento do cargo, tomada de forma monocrática e com tamanha gravidade”. Os advogados dizem que aguardam o acesso ao conteúdo da decisão para tomar as medidas cabíveis. Também em nota, o PSC declarou que o Pastor Everaldo sempre esteve à disposição de todas as autoridades, assim como o governador Wilson Witzel. Com a prisão de Everaldo, o ex-senador e ex-deputado Marcondes Gadelha, vice-presidente nacional, assume provisoriamente a presidência da legenda. O partido afirma ainda que o calendário eleitoral do partido nos municípios segue sem alteração.

ago
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Posted on 28-08-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 28-08-2020
Universidade e Sociedade: Anísio Teixeira e a Educação
Conselho de Mestre | Maria José Rocha Lima (Zezé Rocha)
ARTIGO

Maria José Rocha Lima*

As origens dos fundos para a educação se inscrevem entre as formulações mais relevantes do Manifesto dos Pioneiros da Educação, de 1932, em especial do educador Anísio Teixeira. É no Manifesto, de bandeiras de conteúdo liberal, pautado pela defesa da escola pública, obrigatória, laica e gratuita, que vamos encontrar as ideias mais fecundas para a educação do Brasil contemporâneo.
 

Em 1930, Menotti Del Pichia, em artigo publicado no Jornal da Manhã, afirmava que um grupo de professores dos mais ilustres do país acabara de elaborar um documento de cardeal importância para a reorganização da nossa nacionalidade, sugerindo uma reconstrução educacional. Ele vaticinava que a publicação do Manifesto dos Pioneiros assinalava “um dia novo no nosso calendário feito de tantas decepções”.
Oitenta e oito anos após, as ideias  do Manifesto de 1932 continuam vivas, sendo inquestionável a importância do Fundeb.
O Fundeb reduziu as desigualdades regionais; possibilitou a ampliação da escolaridade da educação infantil ao ensino médio; criou as condições para o estabelecimento de piso salarial para o magistério e protegeu os recursos da educação básica das contingências orçamentárias e dos caprichos dos governantes.
Em pelo menos 4.810 municípios brasileiros, ele corresponde a 50% do que é gasto por aluno-ano. E o mais impactante: em 1.102 dos municípios, a participação do fundo chega a mais de 80% do total.  
O fundo proposto em 1932, discutido na Bahia em 1947, é detalhado em 1961. Anísio elaborou, detalhadamente, uma proposta, que serviu de base para a elaboração dos fundos, especialmente o Fundef, criado cinco décadas depois.
 
Na década de 1980, depois de entrar em contato com as ideias de Anísio Teixeira, passei a discuti-las na Associação dos Professores Licenciados da Bahia – APLB, na CPB, atual CNTE, na qual constituiu – se um grupo de trabalho para o estudo do custo-aluno, mas nesse período  passei a enfrentar muitas críticas dos militantes de segmentos mais radicais da esquerda, que consideravam Anísio Teixeira um político liberal e  as suas ideias consequentemente proscritas, mas eu nunca desisti. Nesse período, criei o Movimento Anísio Teixeira em Defesa da Escola Pública, a Marcha Anísio Teixeira e o Tribunal Anísio Teixeira, que julgava os crimes contra a educação na Bahia.  
No movimento pela  Constituinte Estadual,  conquistamos mais de um milhão de assinaturas em defesa da escola pública, no capítulo da Constituição Estadual da Bahia, e incluímos o Fundo Estadual da Educação – FEE, inspirado na proposta de Anísio Teixeira.  
Quando assumi o mandato de deputada, uma das primeiras ações foi escrever uma proposta de Fundo para a Educação Estadual. Para isto, convidei o Reitor da Universidade Federal da Bahia, Professor Felipe Serpa (in memoriam), um anisiano de peso e defensor dos Fundos para a Educação, para compor o Conselho Político do meu mandato e juntos elaboramos a proposta.
Em 1995, depois de uma articulação nacional do reitor Felipe Serpa com o ministro Paulo Renato, para entender a viabilidade de fundos, resolvemos apresentar  o Projeto de Lei Complementar nº 40/95, na Assembleia Legislativa da Bahia. Tal era a nossa convicção sobre a importância de fundos que o reitor buscou influenciar na discussão que viria a se constituir no Fundef. Entre 1996 a 1999, fiz mestrado na Universidade Federal da Bahia e dissertei sobre As repercussões do Fundef na Valorização do Magistério Baiano- um olhar classista.
Em 1999, abandonei a vida parlamentar e fui convidada para assumir na Câmara dos Deputados a Assessoria Técnica do Partido dos Trabalhadores para a área da Educação, quando  elaborei a PEC 112/1999, que deu origem ao Fundeb. Para assegurá-lo, no governo Lula, contei com uma aliada de primeira ordem, a deputada Iara Bernardi-PT/SP, que me indicou como relatora da Equipe de Transição do Governo FHC para o Governo Lula. Desse modo, asseguramos o Fundeb, como Recomendação para os 100 primeiros dias de governo, e ainda contamos com a participação do especialista em Políticas para a Primeira Infância Vital Didonet, por mim convidado.
A deputada Iara Bernardi tornou-se relatora da Proposta de Emenda Constitucional nº 53/2006, que criou o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que tinha vigência até dezembro de 2020. O Fundeb foi criado em substituição ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério.
 Preocupados com o fim do Fundeb, os parlamentares apresentaram duas propostas de Emenda à Constituição – a PEC 15/2015, da deputada Raquel Muniz, e a PEC 24/2017, da senadora Lídice da Mata (PSB/BA), da qual fui assessora em 2017 e elaborei a PEC/ 024 – 2017, contando com a Consultoria Legislativa do Senado e o apoio de Iara Bernardi, ex- relatora do Fundeb na Câmara dos Deputados.
A PEC/ 024, de 2017, tornava permanente o Fundeb, incluindo-o no corpo da Constituição Federal; elevava os investimentos em educação por parte da União de 10% para no mínimo 50%; acrescentava aos recursos do Fundeb um percentual dos recursos provenientes da participação no resultado ou na compensação financeira pela exploração de petróleo e gás natural; garantia a implantação do custo aluno-qualidade; elevava o piso salarial para o magistério da educação básica e garantia a implantação das metas do Plano Nacional de 3ducação (PNE); determinava, ainda,  que o salário dos professores fosse complementado pela União, quando os estados e municípios não pudessem arcar.
A  deputada Dorinha, do DEM/TO, compreendeu que a  PEC 024 estava em plena sintonia com as metas e estratégias inscritas no Plano Nacional da Educação e o seu conteúdo aprimoraria a PEC/015/2015.
A relatora da proposta, senadora Fátima Bezerra, deu parecer favorável, incluiu dispositivos e pautou o Fundeb, na primeira reunião do Fórum dos Governadores, em 2019. A hoje governadora do Rio Grande do Norte  destaca que a PEC/024 atendia às metas e estratégias inscritas no Plano Nacional da Educação (PNE), que prevê, por exemplo, a ampliação da oferta da educação infantil em creches e pré-escolas, a valorização dos profissionais do magistério público da educação básica, a expansão da oferta da educação em tempo integral e o investimento de 10% do PIB em educação.  Desse modo, surgiram as PECs 33/19 e 65/19, que teve  como relator o senador Flávio Arns (Rede-PR). 

O Fundeb cumpre o desiderato do grande educador e estadista da Educação Anísio Teixeira, que destacava que “o ideal seria que o brasileiro, independente do estado ou município em que vivesse, tivesse educação substancialmente equivalente a de todos os outros, com professores igualmente competentes e igualmente pagos e as demais despesas e condições de escola apreciavelmente idênticas”. O grande educador concluía o documento afirmando que daquele modo “o sistema parecia corresponder às verdadeiras condições federativas do Estado Brasileiro e deveria proporcionar um clima de formação do espírito profissional na condução do maior serviço público de uma democracia: a educação”.

*Maria José Rocha Lima é mestre e doutoranda em educação. Foi deputada de 1991 a 1999. É presidente da Casa da Educação Anísio Teixeira.

“Falando de Amor”, Tom Jobim (Ao vivo em Montreal): Primoroso registro da Biscoito de histórica apresentação de Jobim no Canadá, em show em Montreal. Um músico imortal, uma canção eterna e uma gravação para sempre. Confira.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

ago
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Posted on 28-08-2020
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DO CORREIO BRAZILIENSE

No processo, o partido pede que a Corte proíba a reeleição dos presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP)

JV
Jorge Vasconcellos
 

 

O Senado Federal enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF), dentro de uma ação protocolada pelo PTB, uma manifestação em que defende o direito de presidentes das duas Casa do Congresso se reelegerem. No processo, o partido pede que a Corte proíba a reeleição dos presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

A manifestação é assinada pelo Secretário-Geral da Mesa do Senado, Luiz Fernando Bandeira de Mello, e argumenta que a emenda constitucional que permitiu a reeleição do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso valeria também para o Senado e para a Câmara.

A Constituição proíbe explicitamente a reeleição para as presidências da Câmara e do Senado, determinando que “cada uma das Casas reunir-se-á em sessões preparatórias, a partir de 1º de fevereiro, no primeiro ano da legislatura, para a posse de seus membros e eleição das respectivas Mesas, para mandato de 2 (dois) anos, vedada a recondução para o mesmo cargo na eleição imediatamente suente”.

O Supremo, porém, abriu uma exceção em 1999, permitindo a reeleição do presidente das Casas de uma legislatura para outra. Com base nisso, ocorreu a reeleição de ACM no Senado e depois, a de Michel Temer e Rodrigo Maia. Maia conseguiu também a autorização da Justiça para ser reeleito após um mandato-tampão, em 2017.

Agora, porém, Alcolumbre tenta a reeleição dentro do período de uma mesma legislatura, na eleição que deve ocorrer em 2021. A manobra é defendida pelo Senado.

O argumento é de que a emenda de FHC permite expressamente a reeleição apenas para o Executivo porque “tensões políticas da época não permitiram a inclusão no texto de menção expressa às Mesas do Poder Legislativo Nacional”. Bandeira de Mello defende o “entendimento” de que a alteração se aplica ao Legislativo.

Davi Alcolumbre (DEM-AP) vem costurando a articulação por sua reeleição junto a parlamentares. Ele espera convencer os ministros do STF a liberarem sua candidatura na ação protocolada pelo PTB. Por consequência, seria liberado também Rodrigo Maia, que já está no terceiro mandato consecutivo.

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Do Jornal do Brasil

 

A força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, berço da operação e com 400 inquéritos em andamento com várias frentes de investigação, como casos envolvendo empreiteiras, empresas estrangeiras e multinacionais que firmaram contratos com a Petrobras, segundo informações obtidas pela agência Reuters, enfrenta pressões em meio à discussão sobre o fim do grupo em menos de um mês.

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Procurador Deltan Dallagnol em Curitiba (Foto: Reuters/Rodolfo Buhrer)

Há cerca de 200 inquéritos abertos pela polícia e outros 200 pelo Ministério Público Federal, de acordo com fontes. Existem ainda apurações sobre lavagem de dinheiro com galerias de arte e iniciativas sob sigilo e inéditas que envolvem políticos que perderam foro privilegiado, além de tratativas sobre eventuais acordos de delação premiada e de leniência em curso.

Essas linhas de investigação da força-tarefa de Curitiba podem ser afetadas caso o procurador-geral da República, Augusto Aras, um crítico antigo da Lava Jato, decida não renovar até o dia 10 de setembro a designação dos procuradores do grupo.

O debate sobre a prorrogação da força-tarefa ocorre no pior momento da operação, admitiram fontes envolvidas.

Entre os vários pontos de atrito recentes entre apoiadores e críticos da Lava Jato estão pedidos para afastar o coordenador da força-tarefa em Curitiba, Deltan Dallagnol, suspensos pelo Supremo Tribunal Federal; a derrubada recente de decisões sobre a Lava Jato no Supremo e a possibilidade de novos reveses, inclusive em processos que envolvem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o aumento das críticas à operação no Congresso com ameaças de CPIs, e a aproximação do presidente Jair Bolsonaro com parlamentares do centrão, muitos deles alvos da operação.

Atualmente, são 14 procuradores que atuam com dedicação exclusiva e 45 servidores auxiliando a força-tarefa de Curitiba, que continuam a trabalhar remotamente desde 15 de março e sempre se reunindo virtualmente ao menos uma vez por semana devido à pandemia do novo coronavírus.

O grupo quer seguir com as investigações e argumenta que, além de uma série de inquéritos para tocar, tem tido um histórico eficiente: até julho de 2020, segundo dados obtidos pela Reuters, foram recuperados quase 15 bilhões de reais aos cofres públicos; firmadas 209 delações premiadas e 15 acordos de leniência; houve 71 fases, 532 pessoas acusadas criminalmente em 125 denúncias; 263 condenações de 165 pessoas.

“O modelo de forças-tarefas é usado no mundo inteiro para investigar e atuar contra esquemas criminosos complexos. Um procurador sozinho não dá conta de todo o trabalho. Os números mostram que o modelo é eficiente e compensa”, disse o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro Sergio Moro à Reuters, exaltando os números da operação.

Por ora, segundo fontes ligadas a Aras, não há uma decisão sobre prorrogar a força-tarefa de Curitiba.

“Enquanto pudermos entregar coisas relevantes, a força-tarefa tem que ser mantida”, disse um dos integrantes da força-tarefa de Curitiba à Reuters, sob a condição do anonimato, diante da sensibilidade do assunto.

No fim de julho, o vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques, abriu uma consulta para saber quais procuradores teriam interesse de fazer parte de forças-tarefas. O interessado terá de acumular o trabalho da força-tarefa com o que desempenha atualmente e precisará do aval do coordenador da apuração —em Curitiba, a aquiescência é dada por Deltan Dallagnol.

Jacques destacou na consulta que o conjunto das forças-tarefas é maior que as unidades do MPF em 20 Estados, entre eles Amazonas, Mato Grosso e Distrito Federal. Pelas contas, segundo uma das fontes, são de 65 a 70 procuradores nesses grupos. O teto de gastos tem impedido o crescimento do número de procuradores, acrescentou o vice-procurador.

Outra questão também é o custo das forças-tarefas. Em 2018, as despesas com diárias e passagens foi maior do que qualquer procuradoria no país e há também o gasto de 3,7 milhões de reais em gratificações pagas a procuradores por acumularem o trabalho dos colegas que estão cedidos aos grupos.

“Essa nova realidade constitucional impõe ao Ministério Público Federal uma nova racionalidade no enfrentamento de suas prioridades e na sua dispersão territorial”, considerou Jacques.

Uma fonte ligada a Aras —procurador-geral escolhido por Bolsonaro fora da lista tríplice da categoria— contestou o argumento de eficiência usado pela Lava Jato de Curitiba. Destacou que o dinheiro devolvido pela operação não vai para o caixa do MPF e que essa é a função do próprio procurador.

No embate com a força-tarefa de Curitiba, Aras chegou a dizer que haveria uma “caixa de segredos” no grupo com informações fora do sistema do MPF, fala repudiada pelo grupo. Durante o recesso do Judiciário, a PGR chegou a obter uma liminar do presidente do STF, Dias Toffoli, para ter acesso ao banco de dados das Lava Jato de Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Depois, o relator da operação no Supremo, Edson Fachin, barrou esse repasse.

Fora do MPF, há também críticas sobre a força-tarefa. Investigado na operação perante o Supremo, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), vê excessos e respaldou críticas de Aras à operação. Recentemente, em entrevista ao jornal O Globo, o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), disse que as investigações da operação tentam fazer “gol de mão”.

Embora não tenha questionado a ação, Bolsonaro tem se mantido em silêncio quanto à Lava Jato, após efusivos elogios desde a época da campanha eleitoral de 2018. Afirmou há semanas numa rede social que não respondia por operações conduzidas por outros Poderes.

“Qualquer operação, de combate à corrupção ou não, deve ser conduzida nos limites da lei, e assim tem sido feito no meu governo”, disse Bolsonaro no Twitter. “Quanto às operações conduzidas por outro Poder, quem responde pelas mesmas não sou eu.”

Para um ministro do STF, esse modelo de gestão de forças-tarefas tem dado sinais de problema, e Aras tem atuado para tentar melhorar a governança. “A parte quer mandar no todo”, criticou.

APOIO POPULAR

Apesar das críticas e pressão pelo seu encerramento, a Lava Jato em Curitiba conta com amplo apoio na sociedade. Sondagem divulgada pelo Instituto Paraná Pesquisas apontou que 78,1% dos entrevistados são favoráveis à continuidade da grupo ante apenas 15,8% contrários —6,1% não opinaram. A sondagem ouviu 2.260 pessoas em todo o país, entre 11 e 15 de agosto.

Integrante do Grupo Muda Senado, que apoia a Lava Jato, o senador Major Olimpio (PSL-SP) disse que há um movimento que envolve segmentos dos três Poderes e também interno da PGR para esvaziar a operação, contestar e anular julgamentos e paralisar investigações. “Claro que há hoje uma campanha de satanização da Lava Jato”, afirmou ele.

Também integrante do Muda Senado, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) acredita que se há excessos, caberia à Corregedoria do MPF avaliar. Há procedimento neste sentido aberto no órgão. “As condições para não se renovar a força-tarefa estão sendo dadas”, disse o senador.

Randolfe e Olimpio participaram recentemente de uma conversa virtual com Aras na qual disseram que o procurador-geral não se comprometeu com a prorrogação do grupo. Procurado pela Reuters, o procurador-geral não se pronunciou.

Entre as possibilidades, segundo fontes, a PGR estuda se mantém o grupo, se o fatia ou coloca-o subordinado à Unac (Unidade Nacional Anticorrupção) —órgão que poderá ser criado para chefiar as forças-tarefas— ou até mesmo substituí-las. O debate sobre a criação da Unac está sendo travado no Conselho Superior do MPF, o principal órgão administrativo da instituição.

A possibilidade de se criar uma estrutura que pode ser ligada diretamente à cúpula da PGR preocupa integrantes da operação. Dois deles concordam com o fim da força-tarefa e até se atrelar as apurações à Unac, mas desde que haja uma autonomia em relação ao procurador-geral.

“Em nenhum momento, os atuais membros das forças-tarefas foram contra essa nova estrutura da Unac”, disse um procurador que atua na Lava Jato. “Queremos uma estrutura que funcione independentemente de quem seja o procurador-geral”, completou.

Procuradores da Lava Jato têm conversado com integrantes do Conselho Superior do MPF a fim de garantir —em caso de extinção das forças-tarefas— que procuradores continuem a conduzir as apurações, segundo uma das fontes.

Duas fontes admitem haver incômodo dentro e fora da instituição com o nome Lava Jato e até não se preocupam com o fim desse uso. “Não precisa se prender nisso, querem mudar o nome, dê outro”, disse uma delas.

No grupo, segundo uma fonte, há quem veja que o procurador-geral, com suas críticas à Lava Jato, pode, no final, estar prestando um serviço à narrativa de Lula, que busca tirar a legitimidade de uma eventual candidatura presidencial de Moro em 2022. Um interlocutor de Aras contesta essa avaliação. “Se há esse tipo de leitura, é um erro em princípio. A força-tarefa está querendo se colocar como cabo eleitoral?”, questionou.

Para Moro, que não comentou essas discussões, a operação representou o fim da tradição de impunidade da grande corrupção no Brasil, na esteira do caso do mensalão, julgado pelo Supremo. Disse que quando juiz sempre decidiu com base na lei e em provas.

“Nunca houve qualquer política. Nunca tive questões pessoais com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, destacou, citando que a sentença que deu sobre ele —a condenação em 2017 no caso do tríplex do Guarujá— foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e pelo Superior Tribunal de Justiça.

“A Lava Jato foi o produto de uma ação das instituições de Estado, várias delas, em várias instâncias, inclusive do Supremo Tribunal Federal. Como ela foi muito abrangente, despertou vários inimigos que, por vezes, são pessoas politicamente poderosas. Algumas críticas são compreensíveis e devem ser consideradas, outras são motivadas por interesses não coincidentes com a aplicação da lei”, concluiu.

ERROS E AVANÇOS

Em entrevista à Reuters, o professor José Eduardo Faria, docente no Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Universidade de São Paulo e da Fundação Getúlio Vargas, afirmou que a força-tarefa de Curitiba cometeu erros, citando inexperiência de integrantes em como lidar com novos fatos, uso e abuso de interpretações baseadas em princípios e trocas de informações, uma referência às mensagens da chamada Vaza Jato.

Contudo, Faria avalia que isso não é motivo para enterrar a Lava Jato ou a figura jurídica das forças-tarefas. Para ele, houve um saldo positivo de avanços com as investigações. “Os excessos não autorizam a destruição da Lava Jato”, disse.

O professor da USP e da FGV disse que um traço comum nas forças-tarefas é a presença de procuradores e juízes que estudaram no exterior e tiveram contato com uma concepção do direito penal anglo-saxônica, baseada em princípios e conceitos mais abertos, que se choca com a cultura do país que é franco-romano-germânica, com tipos penais claros.

O docente disse que o “pecado mortal” da força-tarefa foi a ida de Sergio Moro para o governo Jair Bolsonaro. Segundo ele, ao haver uma “evidente vinculação” de Moro com os procuradores, o ingresso do ex-juiz no governo fez com que eles perdessem seu “grande trunfo” e “capital simbólico”.

“No momento em que o então juiz Sergio Moro aceitou ser ministro da Justiça de um presidente sem biografia, que foi eleito por circunstâncias que não cabe agora (discorrer), naquele momento ele, de certo modo, tirava da Lava Jato a ideia de que era uma operação que era absolutamente isenta, objetiva, sem envolvimento partidário”, disse.

“E isso enfraqueceria a ideia de uma força-tarefa do Ministério Público, abriria caminho para que houvesse uma ruptura interna dentro do próprio Ministério Público Federal, como está acontecendo, e isso geraria uma pressão da classe política contra as forças-tarefas de modo geral”, completou.(Com agência Reuters)

DO EL PAÍS

Estado planeja quarto ano no ensino médio para mitigar perdas. Alunos e professores apontam precariedade na periferia enquanto sindicato da categoria acena com greve em caso de reabertura

Camilo Augusto Andreassy Castro, 10, e a mãe, Erika Andreassy na residência onde vivem em São Paulo.
Camilo Augusto Andreassy Castro, 10, e a mãe, Erika Andreassy na residência onde vivem em São Paulo.Lucio Telles

“Se meu filho perder um ano na escola, isso não vai fazer diferença para ele lá na frente. Mas se eu perder um filho, sim. Prefiro perder um ano a perder um filho”. A pesquisadora Érika Andreassy, 47, está há quase cinco meses trabalhando em casa com a presença dos dois filhos, João Pedro Andreassy Castro, 15, e Camilo Augusto Andreassy Castro, 10, ambos estudantes de escolas públicas de São Paulo. “Está bem puxado”, diz ela, sobre a rotina de trabalho com os filhos em casa. “Aumentou muito a demanda das coisas para fazer em casa”. Sozinha, ela não conta com mais ninguém para dividir os cuidados e acompanhamento dos filhos nas aulas online. Ainda assim, afirma preferir permanecer como está à volta das aulas presenciais neste momento. “Acho arriscado. E se as aulas voltarem neste ano, eu não vou mandar meus filhos para a escola”.

A opinião de Érika é compartilhada por 79% dos brasileiros que, segundo o instituto Datafolha, dizem que a reabertura das escolas vai agravar a pandemia do novo coronavírus e que por isso as escolas devem permanecer fechadas nos próximos dois meses. A discussão sobre o retorno das aulas presenciais em meio a índices ainda altos de contaminação vem ocorrendo no mundo inteiro. Envolve pais sobrecarregados, escolas particulares falindo, professores apreensivos, estudantes ansiosos e governos que vão e voltam nas decisões sobre o que fazer nesse delicado debate.

Considerando que grande parte do ano letivo foi cumprido em casa, especialistas e autoridades cogitam soluções para mitigar os danos da educação à distância, muitas vezes com pouca ou nenhuma estrutura para isso. A implantação de um quarto ano para o ensino médio e até a reprovação automática de todos os alunos são possibilidades que estão na mesa. Fazer novamente o ano é, inclusive, uma ideia debatida pelos próprios estudantes, especialmente os da rede pública, que tiveram mais dificuldade para acompanhar as aulas online. “Eu tenho muito dificuldade para aprender à distância e acabei desistindo. E fiquei sabendo que não era só eu que estava com essa dificuldade”, afirma Jessica Matias Pereira Lúcio, 17, aluna do segundo ano do Ensino Médio da Escola Estadual Martin Egídio Damy, na Brasilândia, periferia de São Paulo.

Com as dificuldades encontradas, a estudante se diz “decidida” a não voltar mais aos estudos, nem online e nem presenciais, neste ano. “Deste ano eu desisti faz tempo”, afirma. Ela diz que mesmo com a reabertura da escola, ela não pretende ir. “Minha mãe é do grupo de risco porque teve câncer. Prefiro ficar em casa do que trazer algum risco para ela”. Fernando Angelis de Souza, 14, estudante do nono ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Firmino Tiburcio da Costa, na zona leste de São Paulo, também não quer voltar para a sala de aula. “Ainda está sendo estranho ter aulas online, minha conexão é instável, e eu não vejo o professor”, diz. “Mas por mais que eu queira, acho que não é bom voltar para a escola agora. Não me sinto seguro”. Apreensivo, o adolescente diz que prefere até repetir de ano do que voltar agora para a escola. “Talvez ainda assim seja melhor do que voltar agora”.

Do ponto de vista educacional, a forma como cada grupo foi afetado pela pandemia foi muito diferente, opina Ivan Gontijo, coordenador de projetos na ONG Todos pela Educação. “Por isso, uma solução generalizante, de reprovar todo mundo, por exemplo, deixa de olhar para esses grupos específicos que conseguiram levar o ensino remoto”, diz. “Reprovar o aluno do terceiro ano de uma escola pública que depende do diploma para entrar no mercado de trabalho e que cumpriu as atividades remotamente, pode virar uma punição que afetará a família toda”.

Gontijo reconhece, no entanto, que o ensino remoto não substitui o presencial. “O ensino remoto é uma solução para mitigar os efeitos da pandemia e manter algum vinculo entre as escolas e os estudantes”, afirma. “O fato de a gente não reprovar todo mundo não significa que não houve um grande prejuízo. Vão se criar lacunas de aprendizagens”.

Em São Paulo, o Governo decidiu implementar um quarto ano para o ensino médio. A ideia, de acordo com Henrique Pimentel Filho, subsecretário de Articulação Regional da Secretaria da Educação, é que os alunos possam revisar as matérias que não ficaram claras, mas não será obrigatório. Para Gontijo, essa pode ser uma boa medida. “Seria uma possibilidade facultativa. Faz quem quer. E pode servir com uma preparação para o vestibular”, diz. “Aumentar a jornada escolar diária no ano que vem e incluir mais programas de reforço e recuperação também me parecem medidas acertadas para que ninguém fique para trás”, afirma. Além disso, Gontijo alerta para questões que ultrapassam a grade curricular: o acolhimento emocional e atendimento psicológico dos alunos e professores. “Não será um retorno comum às aulas. Os estudantes vão voltar muito afetados”, diz. “Acolher bem esses alunos e professores será uma pré-condição para estruturar todas as questões pedagógicas depois”.

Falta até banheiro

Em São Paulo, o epicentro da pandemia, a Prefeitura ainda não estabeleceu uma data para o retorno das aulas presenciais. Nesta semana, um inquérito sorológico realizado pela gestão Bruno Covas (PSDB) revelou que 16% dos alunos da rede municipal já tiveram coronavírus, sendo que 66% deles foram assintomáticos. Entre esses estudantes, um quarto vive com pessoas acima de 60 anos, o que pode representar um risco de se contrair a doença na escola e levar para dentro de casa, segundo analisou o prefeito.

Por isso, Covas diz que não seguirá a decisão do governador João Doria (PSDB), que estipulou que algumas cidades paulistas já poderiam retomar o funcionamento parcial das escolas no dia 8 de setembro, com atividades como reforço. E marcou o dia 7 de outubro como a data provável para o retorno total das aulas. Para isso, os municípios precisam estar há ao menos 28 dias apresentando índices estabelecidos pelo Governo, que incluem baixa taxa de ocupação da UTI e do contágio da doença. A capital, se seguir no patamar de hoje, teria aval para que os portões das escolas reabrissem já em setembro.

“A retomada das aulas neste momento significaria a ampliação do número de casos, do número de internações e do numero de óbitos”, afirmou Covas, ao apresentar os resultados do inquérito sorológico e anunciar que, em São Paulo, as escolas não poderão reabrir em setembro. A decisão vale para toda a rede, incluindo a rede privada. O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeep) entrou então com um pedido de liminar contra a decisão da Prefeitura. “A economia voltou. Onde as pessoas vão deixar as crianças?”, afirmou o presidente da entidade, Benjamin Ribeiro da Silva. “Como o prefeito proíbe a opção da família de mandar ou não seus filhos para a escola? A opção é da família”.

De acordo com Silva, as escolas particulares já estão preparadas para o retorno. Em São Paulo, alguns dos colégios mais caros contrataram consultorias de renomados hospitais para estabelecer protocolos de segurança. Instalaram bebedouros acionados por sensor de aproximação, compraram pistolas de medição de temperatura, câmeras de reconhecimento facial para checar se o aluno está usando máscara e estabeleceram até o uso de raios UV para a higienização de livros da biblioteca.

Câmara com raios ultravioletas para higienização de livros na biblioteca do colégio Dante Alighieri, em São Paulo
Câmara com raios ultravioletas para higienização de livros na biblioteca do colégio Dante Alighieri, em São PauloDivulgação

Mas, por outro lado, uma realidade bastante discrepante grita nas instituições públicas. “Qual escola que tem sabonete, papel higiênico? Nem o básico tem”, afirma Flavia Bischain, diretora licenciada do sindicato dos professores da rede pública de São Paulo, a Apeoesp, e professora da Escola Estadual Martin Egídio Damy, em São Paulo. “Aqui na Brasilândia muitas escolas têm o piso quebrado, chão no cimento. Muitas tiveram até que interditar salas por um problema de infiltração”, diz. De acordo com ela, nem mesmo o abastecimento de água é garantido. “Acontece muito de ter que dispensar os alunos mais cedo porque acaba a água.”

De acordo com um relatório da Unicef publicado neste mês de agosto, a realidade das escolas brasileiras está muito mais para a Brasilândia do que para a os raios UV de higienização de livros. Menos de 40% das escolas têm acesso a saneamento básico, cerca de 61% têm acesso a água potável e ainda cerca de 5% das municipais e 5% das estaduais não têm sequer banheiro. Por isso, de acordo com Ítalo Dutra, chefe de educação da Unicef, o retorno às aulas implica em planejamento e recursos mínimos para garantir condições de higiene. “A gente não vai conseguir garantir o acesso à água potável rapidamente, mas é possível criar medidas paliativas ao menos por enquanto”, diz.

As condições das escolas para receber os alunos de volta gera temor nas mães com quem a reportagem conversou. “Eu vejo o pessoal fazendo piada no Facebook, dizendo que não tem nem papel higiênico na escola e querem colocar divisória de vidro nas carteiras”, ironiza a vendedora Dayse Barbosa da Silva, 32, mãe de duas crianças, uma de oito e outra de três anos, matriculadas na rede pública de São Paulo. “As escolas não têm a estrutura necessária para receber as crianças agora. Até em casa é difícil dar conta, a gente tem que ficar em cima o tempo todo. Imagina fora dos meus olhos, não tem como”. Erika Andreassy concorda. “Imagina uma criança ficar quatro horas e meia dentro de uma sala, de máscara? Acho arriscado”.

Ítalo Dutra, da Unicef, diz que faz sentido falar no retorno das aulas somente quando houver segurança para que isso aconteça. “A escola tem um papel importante também na segurança social”, diz. “A gente deve sim proteger a vida das crianças e dos professores e por isso o cuidado de ser bem estabelecido e quais são os dados epidemiológicos necessários para que possa reabrir”.

Em Manaus, capital que registrou falta de vagas nos hospitais e até nos cemitérios para as vítimas da covid-19 nos meses de maio e junho, as aulas retornaram no último dia 10. Mas o debate ainda está em jogo na capital amazonense, que pode ser um laboratório do que o resto do país poderá enfrentar nos próximos meses. Professores da rede estadual chegaram a iniciar uma greve, embora um dos principais sindicatos da categoria, que reúne também professores, tenha descartado entrar de vez em uma paralisação nesta quarta-feira. Os dirigentes denunciam que o Governo do Amazonas não tem cumprido o protocolo de afastamento dos profissionais diagnosticados com a covid-19 e prometem permanecer mobilizados. “Vamos fazer greve no país todo se insistirem em voltar as aulas agora”, diz Flavia Bischain, da paulista Apeoesp.

ago
28
Posted on 28-08-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 28-08-2020



 

Sponholz, NO

 

DO EL PAÍS

Protestos antirracismo em Wisconsin marcam a terceira jornada da convenção. O vice-presidente Pence acusa o candidato democrata de ignorar a violência nas cidades

Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos, em Baltimore (Maryland), nesta quarta-feira. Em vídeo, o discurso do vice-presidente contra Joe Biden.
Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos, em Baltimore (Maryland), nesta quarta-feira. Em vídeo, o discurso do vice-presidente contra Joe Biden.SAUL LOEB / AFP

Os paralelismos entre o ano de 2020 e o turbulento 1968 voltaram a aflorar na noite passada nos Estados Unidos. A escalada violenta dos protestos contra a brutalidade policial em Wisconsin, onde duas pessoas morreram, marcaram a terceira jornada da convenção republicana. O partido do presidente lançou uma mensagem simples e crucial: Donald Trump ou o desastre. O encarregado de pintar esse panorama sombrio foi o vice-presidente Mike Pence, que prestou seu apoio às forças de segurança e afirmou aos eleitores: “Vocês não estarão seguros na América de Biden”.

Como fez Richard Nixon na convenção que abriu caminho ao seu primeiro mandato, 52 anos atrás, quando o país era um barril de pólvora, Trump procura se alçar como o presidente “da lei e da ordem”. Funcionou para Nixon, que venceu as eleições. O trumpismo repete a receita, embora com notáveis diferenças: já acumula um mandato de desgaste e enfrenta a pior pandemia em um século.

“Na semana passada, Joe Biden disse que a democracia seria votada nas urnas, mas a verdade é que o que vai se decidir nas urnas é a nossa recuperação econômica, a lei e a ordem”, afirmou Pence em seu discurso de aceitação da candidatura a vice-presidente. “A violência deve parar, seja em Minneapolis, Portland ou Kenosha”, enfatizou Pence.

O conclave republicano se reuniu em um dia acalorado, horas depois de a polícia deter um adolescente branco de 17 anos como suspeito dos disparos contra manifestantes na madrugada de terça para quarta-feira em Kenosha, a cidade de 100.000 habitantes no centro desta nova erupção social. Os disparos pelas costas feitos pela polícia contra um homem negro desataram manifestações, saques e incêndios. O boicote dos jogadores do Milwaukee Bucks (Wisconsin), que se negaram a entrar em quadra contra o racismo, obrigou a NBA (liga de basquete) a suspender a rodada dos playoffs.

Pence aproveitou seu discurso para manifestar seu respaldo às forças de segurança, submetidas a duras críticas nestes últimos meses de históricas mobilizações contra o racismo: “O presidente e eu sabemos que a cada dia, quando vocês saem para trabalhar, põem nossas vidas acima das suas”, disse, e recordou ao agente federal Dave Patrick Underwood, morto em maio passado na Califórnia, supostamente por um ativista de extrema direita. Não mencionou Jacob Blake, o afro-americano em estado grave por causa do tiroteio de domingo, nem George Floyd, cuja morte em uma detenção brutal gravada em vídeo desencadeou a maior onda de mobilizações desde justamente esse 1968 em que Martin Luther King foi assassinado.

Tampouco admitiu nenhum problema de racismo no país e atacou o candidato presidencial democrata de ter ignorado a violência nas cidades. “Joe Biden disse que os Estados Unidos são sistematicamente racistas. E que as forças de segurança têm um ‘viés implícito’ contra as minorias. A verdade é que vocês não estarão seguros na América de Joe Biden”, afirmou Pence. “Com o presidente Trump, sempre apoiaremos a polícia e não vamos reduzir seus recursos nem agora nem nunca […]. Apoiamos as manifestações, mas os saques não são direitos de manifestação, e derrubar estátuas não é liberdade de expressão, e a lei será aplicada a quem faz isso”, acrescentou.

Uns minutos antes tinha tomado a palavra o presidente da Associação Nacional de Organizações Policiais dos Estados Unidos, Mick McHale, para apontar as críticas à polícia como motivo do aumento da violência e do uso de armas de fogo registrado em várias grandes cidades nas últimas semanas. “Infelizmente, o caos acontece quando as autoridades em cidades como Portland, Minneapolis, Chicago e Nova York tomam a decisão consciente e pública de não apoiar os agentes.”

Lara Trump, esposa de Eric, segundo filho homem do presidente, somou-se à tarefa e assegurou que “descapitalizar a polícia” é o novo lema do “radical Partido Democrata” e que Biden “não fará o necessário para manter a ordem”. O candidato democrata apontou o racismo como um problema estrutural nos Estados Unidos e apoiou medidas para evitar os abusos policiais, mas não se uniu às vozes de ativistas que exigem menos recursos para as forças de segurança. “A maior parte de agentes é boa, mas a questão é que os maus devem ser identificados e processados”, disse o vice-presidente da era Obama após a morte de George Floyd por policiais em Minneapolis.

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