Do Jornal do Brasil

 

O presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, era todo euforia na manhã desta 4ª feira, 26 de agosto, ao anunciar os números do 2º trimestre. Graças à operação do Auxílio Emergencial de R$ 600 a partir de abril, que atingiu a 66 milhões de pessoas, e já com uma parte cadastrada no Bolsa Família, a CEF conseguiu a façanha de, mesmo sob a pandemia, aumentar em 24,673 milhões o número de clientes no fim de junho, em relação a 30 de março, somando 23,980 milhões de contas correntes. Na caderneta de poupança a CEF conquistou 53,427 milhões de novas contas, somando 136,988 milhões de contas. Foi a maior operação de bancarização do mundo.

Para uma base de operação, o Bradesco, instituição financeira com a maior clientela do país antes do efeito Auxílio Emergencial, fechou o 1º semestre com 69,5 milhões de clientes (70 milhões em março), sendo 31,2 milhões de correntistas (30,7 milhões em março) e 64,6 milhões na poupança (61,3 milhões em março), um aumento também reflexo do Auxílio Emergencial que muitos preferiram receber na caderneta de poupança de seu banco tradicional.

Entretanto, os números e a mania de grandeza podem custar caro. Analisando o balanço da Caixa não há motivos para tanta euforia de Pedro Guimarães. Seu lucro líquido de R$ 2,558 bilhões no 2º trimestre do ano caiu 16,1% frente ao 1º e encolheu 39,3% frente a igual período de 2019. Foi melhor que o desempenho do Itaú, que teve queda de quase 50% sobre igual período de 2019, do que o do Santander (-40,76%)e o do Bradesco (-40,1%). Em termos operacionais, só foi superado pela queda menor do Banco do Brasil (-23,7%).

É evidente que só com muito esforço de eficiência, o que não foi possível demonstrar no regime especial de atendimento, que a Caixa vai manter os “clientes”. Até aqui, a experiência foi negativa. Mesmo com flexibilidade no horário de atendimento e abertura de agências aos sábados, os que dependiam do AE da Caixa amargaram horas na fila às portas das agências.

Por sinal, percebendo que muitos dos “clientes” podem evaporar quando o valor do Auxílio cair dos atuais R$ 600 para o valor ainda não fixado do Renda Brasil, que será maior que os R$ 200 do Bolsa Família (mas de 50% a 40% menor que o AE) e boa parte conseguir recuperar seus rendimentos e abrir mão da ajuda, a CEF manteve inalterado o número de 3.372 agências e ainda encolheu em 4 os postos de atendimento (739) e em 55 unidades os correspondentes Caixa Aqui. Só as lotéricas cresceram em 13 unidades para 28.386. E o número de empregados ficou estável na faixa de 84,3 mil.

Caixa reduziu provisões, na contramão dos bancos

Mas o que chama a atenção é o comportamento diverso da Caixa em relação aos quatro maiores bancos do país. Todos reforçaram as provisões para devedores duvidosos (em relação ao 1º trimestre e ao 2º trimestre de 2019). A CEF fez ao contrário. Só aumentou em relação ao 1º trimestre deste ano (de R$ 2,012 bilhões para R$ 2,817 bilhões, +40%. Mas fez o contrário da concorrência baixando 17,1% frente aos R$ 3,397 bilhões no 2º trimestre de 2019. No 1º semestre deste ano, as provisões de R$ 4,829 bilhões foram 22,4% menores que de igual período do ano passado. Em junho de 2020, o saldo de PCLD correspondia a 4,73% do total da carteira de crédito, contra 4,99% em março e 5,31% em junho de 2019.

A estranha queda da inadimplência

Pode-se classificar a gestão de temerária. Ou será que a Caixa acreditou mesmo – que com a flexibilização das provisões autorizadas pelo Banco Central para estimular a renegociação de dívidas imobiliárias e nas demais carteiras, o que estava em níveis altíssimos de inadimplência passou a virar crédito bom e a ter curso normal no 3º e 4º trimestres?

A Caixa tinha uma carteira de crédito amplo de R$ 720 bilhões em julho, sendo 67,3% dela (R$ 470,4 bilhões) de crédito habitacional, que cresceu 7,2% em 12 meses. Em março, quando surgiram os primeiros impactos da pandemia, a inadimplência da carteira era de 2,86% (atrasos acima de 90 dias). Pois em junho, como a prorrogação “botou” quase tudo em dia, o índice de inadimplência caiu a 1,72% (1,70% em junho de 2019).

Na carteira de empréstimos a taxas livres para pessoas físicas, a inadimplência mostrou movimento inverso: era de 5,89% em março e subiu a 6,19% em junho. Na carteira comercial de pessoas jurídicas a inadimplência era de 5,45% em março e baixou para 5,05% em junho. No total, a inadimplência baixou de 3,14% em março para 2,48% em junho.

O mais estranho foi o movimento da carteira de crédito rural: a inadimplência era de 3,78% em março e baixou para 2,05% em junho. A carteira teve aumento de 257,9% em 12 meses, com saldo de R$ 7 bilhões, mas mais da metade das operações foram para pessoas jurídicas. Terá havido um acerto nas dívidas com a agroindústria de cana Atvos, do Grupo Odebrecht, que entrou em recuperação judicial em maio?

No 1º semestre de 2020, as receitas de prestação de serviços e tarifas bancárias, de R$ 11,2 bilhões, encolheram 15,1% em 12 meses, impactadas, principalmente, pelas reduções de 26,7% em serviços de governo, 14,8% em receitas de conta corrente, 10,7% em fundos de investimento e de 10,4% em convênio e cobrança, compensada pelo crescimento de 12,9% em crédito. No 2º trimestre de 2020 as receitas somaram R$ 5,4 bilhões, redução de 18,8% frente ao 2º trimestre de 2019.

Ainda bem que em um dos parágrafos comentados do balanço, a própria Caixa diz textualmente: “A Caixa continuará acompanhando as operações de crédito em relação à evolução da pandemia Covid-19”. Se crescer a inadimplência como a “clientela”, a CEF pode virar Caixão.

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