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Postado em 21-08-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 21-08-2020 00:16
Trbn.com.br - Tribuna da Bahia
ARTIGO/PONTO DE VISTA 
 
O ódio político no Brasil e sua expressão corporal 5
Joaci Góes
 
Ao jovem e talentoso amigo Ramon Lisboa!
Sobre o tribunal do Santo Ofício da Inquisição, em 1674, disse o Padre Antônio Vieira, no Memorial a favor dos judeus: “Se no juiz há ódio, por mais justificada que seja a inocência do réu, nunca sua sentença há de ser justa.” Essa magna lição do maior orador sacro de todos os tempos aplica-se às relações humanas em seus múltiplos planos. Os pais que sabem educar nunca aplicam castigos em momentos de raiva, péssima conselheira para orientar na escolha da dosagem certa. Deixam passar o momento tempestuoso para, então, definir a punição adequada e necessária, ainda que com o coração em frangalhos, ao ver marejantes os olhos dos filhinhos amados.
?É farta a comprovação de que em todas as experiências humanas a diversidade constitui fator de enriquecimento, desde que haja a educação necessária para compreender que tanto nas realidades materiais quanto nas espirituais, não há duas coisas iguais no Universo. E quando falamos em educação para a convivência, o fator chave é a tolerância, postura que não depende do grau de instrução, mas do exercício interior e permanente da compreensão de que em matéria de divergência de pontos de vista, a verdade inteira nunca estará de um lado, apenas, de qualquer das partes em confronto. É verdade que há componentes genéticos que predispõem os indivíduos a níveis variados de tolerância. Importa que cada um explore, incessantemente, o conhecimento sobre suas inclinações individuais, trabalhando-as, com determinação e humildade, na busca do autoaperfeiçoamento. A diferença entre os níveis de violência dos povos depende muito mais dessa disposição de espírito coletiva do que de fatores econômicos. É por isso que a Índia pobre e o rico Canadá são menos violentos do que os ricos Estados Unidos. A predisposição genética, portanto, não pode ser tomada como se fora um determinismo psico-biológico, como erradamente alguns supõem.
A história da violência humana corre em paralelo com a história da intolerância, do mesmo modo que a história da prosperidade acompanha o avanço da compreensão do Homem sobre o papel redentor do culto da tolerância, nos planos familiar, societário, acadêmico, comunitário e nacional. A palavra de ordem, chave, para definir a prática da tolerância atende pelo nome de democracia, exercida entre pessoas de uma mesma família, da vizinhança e da comunidade mais ampla de uma cidade, estado, país ou do mundo. Por isso são mais produtivos os grupos plurais, com a participação interativa de homens e mulheres das mais diferentes idades, etnias e procedências geográficas, religiosas ou culturais, sabendo-se que quanto mais diverso o grupo, potencialmente mais rico será, ainda que crescentemente dependente de padrões de tolerância cada vez mais altos.
Meu pai, o velho e bom João Góes, Seu Gozinho, como era conhecido, cursou, apenas, o primário, única opção no ambiente rural do seu tempo, onde não havia escolas de segundo grau. Não obstante, ele foi um mestre da convivência humana, razão pela qual se tornou o melhor juiz de paz de que se tem memória. Tanto que se referia de modo bastante compreensivo a respeito de Lampião que, ao invadir a cidade de Mocambo, hoje Olindina, no dia 1° de agosto de 1932, apossou-se de sua loja, a melhor da praça, e, no melhor estilo Robin Hood, distribuiu tudo que nela havia para gáudio da delirante patuleia ignara, deixando-o sem eira e nem beira, aos 28 anos de idade, com mulher e um filho de oito meses para criar. Foi de meu pai que ouvi os primeiros protestos contra a manutenção das cabeças de Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros, expostas à curiosidade pública, no Instituto Nina Rodrigues, no Pelourinho.
?A intolerância é a mãe de toda violência: as guerras e os genocídios ao longo da história, os maiores dos quais ocorreram no Século XX, protagonizados por Hitler, Stalin e Mao Tsé-Tung, em ordem crescente. O patrulhamento ideológico dominante no Brasil de hoje conduz à conduta irracional de desejar-se o colapso da Nação, como meio de derrotar o adversário. Os que assim atuam, independentemente dos seus níveis intelectuais, esquecem de que o bem estar de cada um dos brasileiros depende, em grande medida, da qualidade de vida no País, como um todo.
?É imperioso que deixemos de usar gasolina para apagar incêndios! Se não abdicarmos desta conduta suicida, seremos rebaixados aos olhos da História.
Joaci Góes, escritor, é presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna  da Bahia. Texto publicado nesta quinta-feira, 20, na TB.

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