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CRÔNICA

                                                 A websérie mais sem graça da quarentena

                                         Janio Ferreira Soares

Leio que nesse isolamento social muita gente aproveitou pra produzir webséries em seus ambientes caseiros, algumas delas mostrando apenas experiências pessoais. Assim, sigo o fluxo e imagino como seria se eu também resolvesse mostrar meu cotidiano nas redes, apesar de sabê-lo um retumbante fracasso diante do marasmo das cenas e do meu total desconhecimento das coisas do streaming (gracias, Google!).

Pois bem, pra começar usaria uma minicâmera no protetor facial pra mostrar detalhes do meu dia a dia pelo ângulo que os vejo, como agora, seis da manhã de quinta-feira, quando aí você poderia assistir ao lento manquitolar de um pato sobre a grama orvalhada só pra me lembrar do milho que não lhe dei, ou os pousos das garças num laguinho próximo ao rio, a propósito, lindamente encoberto por uma rara neblina a lhe conferir ares de um Tâmisa sertanejo.

No próximo bloco já é madrugada de sexta-feira e, no lugar dos delicados e distantes cocoricós, sou despertado por rajadas metálicas semelhantes a britadeiras tentando furar placas de metais, fato que me faz tatear os óculos espremidos entre um controle remoto sem tampa e a capa de Angústia, do mestre Graciliano Ramos, cuja leitura, contradizendo o título, suaviza tensões e me põe de fraldas a babar num berçário de extraordinários parágrafos que jamais escreverei.

Já com a câmera ligada, sigo na ponta dos pés feito um bailarino manco até um basculante próximo, onde, para localizar a origem e a causa do barulho, tenho que subir numa banqueta bamba e dobrar os joelhos num arriscado demi plié, o que finalmente me leva a ver (e a lhe mostrar) o autor dos sincopados golpes.

Com penas pontuadas em amarelo e preto até a altura do penacho vermelho no seu cocuruto, lá está o velho pica-pau bicando o flandre de uma desativada chaminé, coitado, totalmente desorientado depois que os ventos de agosto derrubaram o tronco de um coqueiro morto, há anos servindo de morada não só pra ele, como também pra uma corujinha do mato e uns periquitinhos de velame, cujos filhotes infelizmente não resistiram.

No final do episódio, todo animadão, falo pra câmera: “e aí, gostaram? Na próxima semana você vai curtir a emocionante saga de uma casaca-de-couro fazendo seu ninho com vários tipos de garrancho, além de umas disgramas de umas lagartas que estão acabando com as folhas das minhas caraibeiras. Não deixe de perder!”.

P.S.: 1) Assim como Joca, Jorge Portugal e Jaime Sodré farão falta nas janelinhas deste velho coqueiro que verga, verga, mas não tora.

P.S.: 2) Manchetes de ontem: “PIB prevê forte recessão”.“106 mil mortes por Covid”. “Queiroz depositou 72 mil na conta de Michele Bolsonaro”. “Presidente tem aprovação recorde”.

Não sei se tomo uma taça de cicuta ou uma dose de ozônio no fiofó.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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