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Postado em 02-08-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 02-08-2020 00:26

 

        Janio Ferreira Soares

 

Poderia ser um filme de ficção. Ou melhor, de comédia. Ou melhor, de drama. Ou melhor, de terror. Ou melhor, do gênero que você quiser.

Começaria numa noite de 2017, com Michael Temer recitando mesóclises codificadas para Joesley Batista, que no dia seguinte surgiria igual a uma Rapunzel caipira na janela de uma torre construída ilegalmente na Ladeira da Barra, jogando linguiças Friboi em forma de tranças pra Geddel usá-las como pêndulo num constante vai e vem de malas cheias de dólares e promessas sem fim.

Corta para o Guarujá, onde um senhor grisalho caminha pela orla com uma camiseta atochada numa pança esbanjando impunidade, onde se lê – num sofrível francês: “Terminé Lé Palhaçé! Est Meilleur Déjàir S’habituer: Bolsonarré Président Brésilien 2018”.

No percurso, ele se junta a um grupo protestando em frente ao triplex de Lula e, depois de um equivocado “bonjour, mon ami compatriote” a um rapaz vestindo uma camiseta com a foto de um disco de Lobão chamado Décadence Avec Élégance, pega um megafone e berra: “un, deux, trois, quatre, cinq mille, jé quer qué lê Lulê voá pá putê quelle parrê!”, para delírio de umas senhorinhas segurando cartazes de Bolsonaro ao lado de Doria, à época ainda gritando ao mundo: “Je t’aime, mon cherry Jair!”.

De repente, um de seus capangas, igualmente amante do idioma de Balzac, diz: “pardon, mi desembargadé”, e cochicha algo em seu ouvido. Em seguida, extremamente nervoso, o doutor exclama: “merde, justement em Baúrrú!”, e retorna ao seu esconderijo secreto – ma non troppo -, localizado no Tribunal de Justiça de São Paulo.

Corta pra Bauru, onde acaba de nascer Francisco Guedes Bombini, um garoto vindo do ensolarado Planeta Down, cuja principal missão é enfrentar adversidades e derrotar estatísticas, fatos que o transformarão no fofo e poderoso Super Chico, herói ideal pra se contrapor aos desmandos de monsieur Eduardô Siqueirrá, coincidentemente ex-juiz da cidade do nosso herói.

Passam-se três anos e estamos em julho de 2020. Depois de vencer sete cirurgias causadas por problemas renais e cardíacos, Super Chico agora luta pra derrotar o vírus que invadiu a Terra e já matou mais de 91 mil brasileiros. Enquanto isso, o nosso desembargador, adepto do “e daí?”, anda pela orla de Santos sem nenhuma máscara protetora e, ao ser orientado por um guarda a usá-la, se irrita e diz: “mas c’est só una petit gripezinha, seu analphabète!”.

Nessa hora, como o filme é meu, Super Chico, já curado do Covid, dá um rasante e pega o doutor pelo elástico do calção, que aos gritos de “oh mon dieu, est entré no mon régô!”, é levado de volta ao Planeta das Carteiradas, um privilegiado mundo onde todos usam poderosas capas pretas, há séculos blindando-os das leis que castigam os mortais. Fini.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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