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Postado em 31-07-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 31-07-2020 00:20
 
 
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ARTIGO/ Ponto de vista
O ódio político no Brasil e sua expressão corporal 2
Joaci Góes
Ao amigo e notável arquiteto Fernando Peixoto!
Mesmo quando nos educamos para não extravasar o ódio que as situações nos provocam, somos traídos por mensagens não-verbais, corpóreas ou subliminares que, involuntariamente, transmitimos. Os autores Tim La Haye e Bob Phillips propuseram a quantificação dos percentuais dos meios pelos quais a cólera se exprime. Segundo eles, o que é dito sob a ação da ira corresponde a, apenas, sete por cento do processo de comunicação; o tom da voz, a trinta e oito e as ações não-verbais, a cinquenta e cinco por cento. Atribuem eles essa alta percentagem de comunicação não-verbal ao propósito dos odientos de escamotearem sentimentos que sabem condenados pelo meio social.
A finalidade do ódio se desdobra em três vertentes. Em primeiro lugar, acentua a percepção de nosso sentimento e evita a perda da autoestima; em segundo, liberta-nos da frustração; em terceiro, ajuda-nos a nos recobrarmos da violação sofrida pelo nosso sentimento de justiça. Sobre a inveja, a maioria dos autores não diz uma palavra, sequer. A omissão é compreensível porque está em sintonia com o viés que a sociedade humana tem desenvolvido de silenciar sobre a inveja, em razão de sua absoluta inconfessabilidade, como um dos motores principais de sua ação, em contraste com o ódio que pode resultar em múltiplas reações confessáveis, como violência, abuso, lágrimas, sofrimento, mágoa, estresse, incômodo, desconforto, tristeza, fuga, ressentimento, rejeição, arrependimento, impotência, dor, descontrole, perda, solidão, inadequação, ofensa, vingança, ferimento, desvalia, frustração, medo, culpa, destruição… Explica-se, por isso, a avaliação que se faz de que a parte visível dos males produzidos pelo ódio nada mais representa do que a ponta do iceberg. Em abono das mulheres, registre-se que elas respondem por 10% dos crimes violentos, contra 90% dos homens.
Como o ódio oblitera a capacidade de julgar com isenção, os prejuízos sofridos pelas organizações sobem a valores estratosféricos, oriundos de erros de julgamento que produz em seus gestores. Embora não haja dados estatísticos confiáveis para permitir a quantificação dos atos de violência produzidos por cada uma das diferentes causas, parece-nos fora de dúvida que ao inconfessável ódio gerado pela inveja cabe a liderança nessa corrida macabra, tanto em número de casos quanto na intensidade das agressões, bem como no montante dos prejuízos materiais que acarreta.
Registre-se, porém, que, não obstante seu valor, predominantemente, negativo, o ódio tem potencial positivo, desde que utilizado para o bem, a exemplo da invasão de áreas públicas por Irmã Dulce, na Baixa do Bonfim, para abrigar os seus “filhinhos” que viviam na sarjeta. O grande problema para se fazer do ódio um sentimento construtivo reside na dificuldade de se produzir uma resposta proporcional à ação que a causou. É por isso que a ira que nasce da inveja, invariavelmente de caráter destrutivo, é destituída de potencial positivo.
Segundo pensadores do porte de Ralf Dahrendorf, Helmut Schoeck, William Bartley, José Ortega y Gasset, Miguel de Unamuno, Ludwig Von Mises e Gonzalo Fernández De la Mora, entre outros, toda proposta de promoção da igualdade que não leve em conta princípios meritocráticos nasce do inconfessável sentimento da inveja, capaz de levar ao genocídio vão da ex União Soviética e da China de Mao Tsé-Tung que eliminou, conjuntamente, mais de cem milhões de vidas. A União Soviética dissolveu-se antes que tivesse tempo de promover as alterações de rumo que salvaram a China, que passou a se transformar numa grande potência, a partir de quando abandonou o socialismo e passou a reger-se pelo fascismo mais ostensivo de que o Mundo tem conhecimento. A China, depois de um trágico fracasso sob o comunismo, está, agora, alcançando aquilo que Hitler, desastradamente, em sua caricata e perversa loucura, tentou implantar.
Em oposição ao ódio do mal, temos a cólera de Irmã Dulce, a cólera do bem, capaz de elevar às maiores alturas a dignidade humana, consistente na chamada cólera divina ou cólera santa de que
Jesus, de chicote na mão, expulsando os vendilhões do templo, é o símbolo maior.
Mas, isso é assunto para o próximo artigo!
Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahiaa. Texto publicado quinta-feira, 3o, na TB,
 

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