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Postado em 24-07-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 24-07-2020 00:36
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ARTIGO/Ponto de vista (TB)
O ódio político no Brasil e sua expressão corporal 1
Joaci Góes
Ao amigo Marcelo Cordeiro, intelectual e político exemplar!
Todos percebem, comentam e lamentam o ambiente de ódio reinante na política brasileira contemporânea, altamente ideologizada, distanciando velhos amigos e familiares queridos, e visivelmente expressa na linguagem corporal dos âncoras da TV. Decidimos, por isso, abordá-lo, anatomizando-o e advertindo para os males que causa ao povo brasileiro. É verdade que parte da mídia está engajada numa luta de vida ou morte com o Governo Bolsonaro. Por isso, trataremos desse importante sentimento em cinco artigos, sucessivos, como o fizemos, recentemente, ao abordar a tragédia da educação baiana. Sobre a ira, em geral, e sua expressão corporal, em particular, discorremos, extensivamente, em nosso livro Anatomia do ódio, de 2004.
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Um estudo denominado “Diferenças culturais no julgamento da expressão facial das emoções”, liderado pelo psicólogo americano Paul Ekman, considerado o maior especialista na expressão facial das emoções que mobilizam cerca de oitenta músculos do rosto, revelou uma alta percentagem de acerto do julgamento feito por observadores americanos, brasileiros, chilenos japoneses e argentinos, de seis diferentes emoções como o ódio, a felicidade, o medo, a surpresa, a tristeza e o desgosto, em fotos de rostos que lhes foram apresentadas. Ekman demonstrou que a capacidade de reconhecer expressões faciais fugazes revela uma habilidade invulgar para o exercício da empatia. Exibiu, ainda, numa fita de vídeo, seis rostos expressando diferentes sentimentos. Cada expressão aparecia na tela por uma fração de segundo, para simular as microexpressões que ocorrem na vida real, num total de aproximadamente sete mil combinações, sem que delas tenhamos noção, nós que as observamos, e nós que as exibimos, involuntariamente, em nossos rostos, como reflexo dos nossos sentimentos, independentemente de origem, raça, educação ou credo. Ekman observou que os indivíduos mais aptos a identificar essas emoções são os mais abertos, eficientes, dignos de confiança, interessantes e motivados para aprender.
Pesquisadores, no mundo inteiro, dedicam-se ao estudo do Sistema de Codificação das Atividades Faciais, que servirá a múltiplas finalidades, inclusive a um mais eficiente meio de investigação policial do que o detector de mentiras. Depois de estudar as reações faciais de uma tribo da Nova Guiné, Ekman concluiu pela universalidade homogênea expressiva das emoções, já defendida por Charles Darwin em 1872, no livro A expressão das emoções no homem e nos animais. Paul Ekman, respondendo ao Dalai Lama, disse que o humor dura horas, um dia no máximo, enquanto o temperamento corresponde a uma disposição de espírito duradoura, ainda que não eterna, parcialmente herdado e parcialmente condicionado pela criação e pela experiência. Como a satisfação com a vida depende mais do humor e do temperamento das pessoas do que de suas condições objetivas – de saúde e bem-estar material -, não deve estranhar, como exemplo, que paraplégicos e pessoas de baixa renda apresentem humor e temperamento equivalentes, quando não superiores, aos de atletas e milionários. Essa constatação não deve conduzir à crença precipitada de que a felicidade humana está sujeita a um determinismo biológico, como analisaremos ao longo destes artigos.
Enquanto os pensamentos são secretos, do nosso exclusivo conhecimento, as emoções são públicas porque se estampam em nosso rosto. Ao meio cultural cabe modelar as emoções que devemos decidir como e quando exibi-las. Aqui, também, se aplica a máxima vigorante nas ciências sociais que ensina haver “alguns aspectos iguais em todas as pessoas, alguns aspectos iguais num determinado grupo e outros aspectos peculiares a cada indivíduo.” É noção elementar em sociologia que a realidade da vida social costuma ser diferente da percepção que temos dela. A razão principal é que, em matéria social, somos, a um só tempo, sujeito e objeto de estudo, diferentemente das ciências exatas ou da natureza, campo em que não há envolvimento emocional do estudioso com o objeto de sua análise. A tendência natural de selecionar e valorizar os aspectos da vida social que mais nos interessam leva-nos a consolidar idiossincrasias e visões distorcidas do mundo, com o prejuízo de sua compreensão objetiva. Uma porção dessas distorções consiste em assumir reações cautelares, como a cólera, a presumidas intenções de terceiros, não raro, preconceituosas. Por isso, nosso crescimento intelectual e emocional consiste em controlar esse viés, buscando inspiração e apoio em nossa mente avançada.
A tarefa não é fácil! Mas, é possível!
Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado nesta quinta-feira, 23, na TB.

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Comentários

Paulo Alcantara on 24 julho, 2020 at 9:19 #

Parabéns por mais um artigo enriquecedor.


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