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Postado em 24-07-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 24-07-2020 00:31
 

DO CORREIO BRAZILIENSE

André Luís Miranda de Barcellos Coelho é finalista da premiação Educador do Ano concedida pela Fundação Victor Civita para valorizar mestres da educação infantil ao ensino médio


 
Com o projeto Óptica com Ciência, o professor de física brasiliense André Luís Miranda de Barcellos Coelho, 30 anos, da escola SEB Dínatos, está entre os vencedores do Prêmio Educador Nota 10. Além dele, outros nove docentes foram escolhidos entre 3.761 inscritos e, agora, concorrem ao título de Educador do Ano, que será decidido em breve por votação popular. 
O professor de física André Luís de Barcellos Coelho, ganhador do prêmio Educador Nota 10(foto: Arquivo pessoal)
O professor de física André Luís de Barcellos Coelho, ganhador do prêmio Educador Nota 10 (foto: Arquivo pessoal)

Para o professor, a história de como ele conseguiu o prêmio começou ainda em 2018, quando foi selecionado para fazer um curso intensivo no laboratório da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern), na Suíça, na época noticiado pelo Eu, Estudante. “De lá para cá, fiz muitos cursos no Canadá, Estados Unidos e on-line. Todas essas experiências mudaram profundamente a minha concepção sobre como ensinar ciência. O que eu fiz foi aplicar tudo isso que eu aprendi fora”, relata.  

Colaboração dos estudantes 

O principal objetivo do Óptica com Ciência, aplicado a alunos do 3º ano do ensino médio, era levar para as salas de aula a experimentação da ciência, prática que, segundo o educador, está em falta no Brasil. “Ensinar ciência sem experimentação é tudo, menos ciência”, diz André. Durante 16 encontros, os alunos seguiram sequências didáticas que se repetiam em três etapas: investigação, análise e tratamento de dados e debate e sistematização. 
Fundamentalmente, o foco do projeto era entender como a ciência é feita. Ou seja, compreender os valores e as metodologias da ciência na prática. “Claro que para fazer isso, eu precisei abrir mão do famoso ‘decoreba’, da aula tradicional. Essa parte foi para o ambiente virtual”, revela. 
Ou seja, a parte teórica era publicada em uma plataforma virtual, enquanto presencialmente os alunos colocavam a mão na massa. André conta que, ao fim de cada investigação, os alunos chegavam às conclusões corretas, entendendo como funciona o processo de pesquisa. “Os resultados deles nas provas continuam exatamente como eram antes, mas com a experiência de viver na pele como é ser um cientista”.
Em uma das atividades, divididos em grupos, os alunos passaram por estações rotativas, cada uma com um experimento, como por exemplo a associação de espelhos planos [imagem abaixo]. A tarefa da primeira etapa era anotar as observações, fazer inferências e produzir questionamentos, a fim de construir um método de investigação particular.
Experimento de associação de espelhos planos(foto: Arquivo pessoal)
Experimento de associação de espelhos planos (foto: Arquivo pessoal)

Na segunda fase, os dados colhidos por cada aluno eram compartilhados e refletidos com a turma, tratados de maneira estatística pelos jovens, o que possibilitava que formulassem as conclusões. Por fim, a classe fazia um debate, em que o professor, a partir dos dados e colocações dos estudantes, trazia novos questionamentos ou chegava de forma dialogada a novas conclusões.

Para ele, o diferencial do método foi a participação colaborativa dos estudantes durante a construção dele.  “Na sexta aula, eu parei tudo e perguntei o que eles estavam achando e do que sentiam falta. O próximo encontro já foi totalmente diferente, porque levei em conta essas opiniões. O engajamento que os alunos tiveram foi incrível. O projeto é deles”, expõe.

Reconhecimento do trabalho

O educador se inscreveu no prêmio com o intuito de receber uma avaliação mais profissional sobre o trabalho, mas não esperava ir tão longe. “Sendo bastante sincero, eu conheço tantos educadores fantásticos, tanta gente que faz um trabalho sensacional e me inspiro tanto neles que sinto que o meu trabalho parte de uma simples tentativa. Meu projeto ainda é experimental, ainda está começando”, confessa. 
Professor há quase 9 anos da escola SEB Dínatos, André Luís se formou pela Universidade de Brasília (UnB), onde também concluiu o mestrado em ensino de física e, agora, é doutorando de educação em ciências. Para ele, o prêmio é o ponto alto da carreira. “É muito legal ser reconhecido, principalmente tendo a consciência de que o profissional da educação é tão desvalorizado no nosso país. A pandemia mostra isso de maneira explícita, pois tudo que se fala sobre volta às aulas, não escutam o professor. Isso dói na gente”, conta André. 
Os nomes dos dez vencedores foram divulgados na segunda-feira (20/7), durante o programa Encontro, da rede Globo. Deles, cinco projetos são com alunos do ensino fundamental, três com turmas do ensino médio, um de gestão e outro com crianças pequenas.
Além do Distrito Federal, os vencedores representam os estados do Amazonas, Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Agora, os 10 campeões farão alguns trabalhos para divulgar seus projetos, como um programa de podcast e um minidocumentário para a votação popular que elege o Educador do Ano. Ainda não há data marcada para o início da votação e resultados.

Recado aos colegas

Agora, o objetivo de André Luís é conversar com os colegas de profissão sobre os projetos de educação, com dicas de como promovê-los. “Eu gostaria de ver esses trabalhos sendo divulgados. Falta isso na educação. Quero incentivar os educadores que estão no anonimato, fazendo projetos interessantes a publicarem, buscarem as universidades e darem visibilidade a eles”, diz.  
A ideia é publicar vídeos falando sobre o assunto, além dos conteúdos feitos para o prêmio, se for autorizado. Além disso, André está escrevendo artigos especializados para revistas de educação. 

A perda do pai

O professor André Luís [à direita] com o pai Júlio César [centro] e o irmão Daniel Luís [à esquerda](foto: Arquivo pessoal)
O professor André Luís [à direita] com o pai Júlio César [centro] e o irmão Daniel Luís [à esquerda] (foto: Arquivo pessoal)

O resultado do prêmio fez com que o início daquela segunda-feira fosse de muita alegria. No entanto, poucas horas após o anúncio, Júlio César de Barcellos Coelho, pai de André, faleceu aos 60 anos. 

Ao conversar com um amigo sobre o prêmio, André foi aconselhado a transmitir os parabéns também aos pais, afinal eles tiveram contribuição nessa conquista. O professor achou o pedido inusitado, mas assim fez e garantiu que o pai soubesse de todo o amor que ele sentia.
“Eu tive a oportunidade rara e muito única de dizer o quanto ele foi importante na minha vida. Foi especial”, emociona-se. Os parabéns e os agradecimentos foram as últimas palavras trocadas entre pai e filho. “Foi uma despedida linda”. 
 
Júlio César de Barcellos Coelho foi dentista e professor da graduação e pós-graduação em Odontologia. O Eu, Estudante presta a André e à toda família as condolências pela perda e deseja conforto e força neste momento.
 
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá. 

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