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19

DO EL PAÍS

As cisternas, uma política pública que vem sendo descontinuada no Brasil nos últimos anos, são um alento para as famílias do sertão durante a pandemia do coronavírus. Graças a elas, famílias têm água no quintal de casa e algum meio para evitar a fome e garantir a permanência delas no campo em meio às atuais crises sanitária e econômica

Francisco Monteiro e a esposa, Zuleide de Souza.
Francisco Monteiro e a esposa, Zuleide de Souza.Fernanda Siebra
 Beatriz Jucá
Quixeramobim e São Paulo
Mudou a paisagem no sertão. As numerosas antenas parabólicas que antes chamavam a atenção sobre os telhados na beira da estrada agora parecem discretas diante de pomposas estruturas redondas e brancas que quase engolem as fachadas das casas mais simples. Desde que as cisternas, pequenos reservatórios de concreto, começaram a entrar no Orçamento público no Brasil, há 20 anos, 1,3 milhão de famílias de baixa renda que vivem da roça no semiárido passaram a acessar um direito básico: o de ter água pra beber ao lado de casa. Hoje, 343.000 delas têm condições de armazenar água para a produção agrícola. As cisternas foram construídas pelo poder público para que cada casa tivesse seu reservatório e não dependesse de governantes para garantir água. Houve um tempo de extrema miséria em que se trocava água por votos. As cisternas, que aparam a água da chuva dos primeiros meses do ano para que o agricultor consiga atravessar o verão seco, são um alento para milhares de famílias rurais enquanto o Brasil atravessa as graves crises sanitária e econômica pela pandemia do coronavírus. Graças a elas, têm água no quintal para beber e plantar. Um direito básico capaz de afastar a fome e o êxodo que marcam a vida de tantas famílias no sertão brasileiro, castigadas por uma histórica falta de políticas públicas para conviver com a seca.

“Veio a peste, mas neste ano Deus mandou a chuva para encher a cisterna”, celebra o agricultor Francisco Monteiro. A vida da família dele, no sertão central cearense, mudou com a pandemia. A venda dos alimentos que produz nas feiras agroecológicas pelas comunidades vizinhas acabou. Ele ainda tentou vendê-los em feiras online, mas as medidas restritivas da comunidade impuseram que a vizinhança só pode deixar o distrito às segundas e quintas. Como o dia de entrega no mercado online organizado por entidades da sociedade civil é a quarta-feira, ele acabou desistindo. O dinheiro que entra todo mês diminuiu, mas ele comemora que este ano choveu bem e encheu as duas cisternas que tem: uma com água para beber e outra para a produção de frutas e legumes, que segue firme no quintal de casa. Não tem faltado comida à mesa. E nem a família tem precisado deixar o isolamento social para buscar água nos açudes, que foram enfim abastecidos com as chuvas deste ano. “Quem tem cisterna em casa, está escapando bem. Estamos levando na maré mansa porque esse vírus é uma coisa que veio determinado. A gente sabe que as feiras não podem voltar agora. Mas eu continuo com a plantação pequena e tenho o que comer”, diz Monteiro.

Com a crise provocada pela pandemia, o número de pessoas em condições de extrema pobreza deve chegar a 83,4 milhões na América Latina e no Caribe, segundo estima um estudo apresentado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Essas duas entidades clamam para que os países desenvolvam políticas de combate à fome diante da gravidade do problema. No Brasil não estão desenhadas políticas nesse sentido para os pequenos agricultores. O Congresso Nacional ainda discute um plano emergencial para camponeses por conta da pandemia. As cisternas, uma solução que tem amenizado a fome no semiárido brasileiro, não estão garantidas ?apenas autorizadas? no projeto que deve ser votado esta semana. Elas já vinham sob ameaça nos últimos anos. Os recursos para construí-las, reduzidos ano após ano, tiveram a previsão histórica orçamentária mais baixa neste segundo ano de Governo Bolsonaro (de 50,7 milhões de reais). A tecnologia, que mostra a sua relevância também neste momento de pandemia, há anos vem transformando a vida das famílias no semiárido brasileiro.

Cisternas em uma comunidade de Senador Pompeu, no Ceará.
Cisternas em uma comunidade de Senador Pompeu, no Ceará.Fernanda Siebra

Para quem vive ali, parece até milagre ver a seca rachar o chão dos açudes quando a chuva não vem e não precisar migrar em busca de recurso e trabalho pra sobreviver. Seca grande nunca abandonou o sertão brasileiro, o que vinha mudando nos últimos anos era a “maneira de atravessá-la”. “Pra viver aqui nesse clima você tem que ser o gênio da lâmpada. Tem que saber inventar água”, diz o agricultor Francisco Monteiro, enquanto puxa no braço uma corda amarrada em uma espécie de cilindro de metal adaptado por ele para retirar a água que encontrou cinco metros abaixo do chão. Era novembro de 2019, período de seca, quando ele recebeu a reportagem em sua casa. E exibiu orgulhoso o poço —um cano com menos de 30 centímetros de diâmetro— que ele mesmo cavou a cerca de 100 metros da casa onde mora com a esposa Zuleide de Souza. Teve a sorte de ainda encontrar água numa região de reservatórios subterrâneos escassos e ampliar os canteiros onde planta legumes e hortaliças. Mas quando a água da terra colapsa, como já aconteceu tantas vezes, é a cisterna que segura pelo menos parte da lavoura no simbólico be-erre-ó-bró (os meses do ano terminados em bro: setembro, outubro, novembro e dezembro), quando raramente chove.

“Hoje pra mim isso aqui é brincadeira na frente do que já foi”, conta Francisco. Mesmo com o mínimo acesso à água, as altas temperaturas o fizeram perder dois canteiros de coentro no final do ano passado. A produção (de subsistência com a venda do excedente) também caiu. Depois cresceu outra vez com as chuvas deste ano, mas sua comercialização foi paralisada com a pandemia. Ainda assim, ter água na cisterna pra beber e para produzir é um alento tanto na crise quanto nas secas que têm ocorrido em períodos cada vez mais prolongados, num cenário em que o mundo inteiro vive uma emergência climática. “A gente vai se mantendo. Um dia tem mais, no outro menos, mas tem comida na mesa. Teve época aqui que a gente não tinha nem um pedaço de mato pra colocar numa panela. Hoje tem”, diz. Os primeiros meses são de esperança no sertão. É a chuva que cai nas cisternas que anuncia a fartura (ou não) do restante do ano, mas nem sempre foi assim.

A hora de partir

A memória de Francisco o leva ao tempo dos avós, quando a ordem máxima durante grandes secas era migrar pra tentar escapar da fome porque, ali, tanto morria bicho quanto gente. Se o chão pedregoso já não dava legume por falta de chuva numa época em que armazenar não era uma opção, famílias inteiras batiam as portas de casa e saiam a pé pelas estradas em busca de alguma comida e qualquer oportunidade de trabalho. O mato da caatinga virava comida, e o xique-xique assado ou o caldo da raiz de mucunã era o que alimentava as crianças. A fome era tanta que motivava saques a mercados e armazéns nas cidades. Levas e levas de flagelados incomodavam as elites e o Governo, que reagiu com uma política federal de criação de campos de concentração, espaços que mantinham os retirantes sob constante vigília e ofereciam alguma alimentação. Os “currais humanos” existiram no Ceará nas grandes secas entre 1915 e 1932, e eram desfeitos na volta do inverno chuvoso, no início do ano. “Meus bisavós tiveram que se largar no mundo sem saber como ia ser. Foram encurralados em Fortaleza e tratados como bicho, mas conseguiram vencer”, diz Francisco.

As duas gerações seguintes da família, a do pai e do avô, enfrentaram as grandes secas com as frentes de serviço do Governo, as grandes empreitadas de contração de mão de obra para fazer serviços emergenciais em estradas ou açudes. Eram geralmente os homens que deixavam suas casas para trabalhar na construção de estradas e voltavam, a cada 15 dias, com um pouco de comida para alimentar o restante dos parentes. “Eles contavam que era pouco e tinha que fazer dar. O serviço ainda dava pro arroz e pra farinha. Mas, naquela época, não tinha ainda gás nem geladeira, né? A gente não pagava energia porque não tinha luz, então não precisava tanto do dinheiro”, diz Francisco.

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