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ARTIGO/Ponto de vista
Lições da Covid-19
Joaci Góes
 
Para a amiga Maria Raimunda da Silva, eficaz provedora nestes tempos pandêmicos!
Apesar de seu incontestável domínio sobre as demais espécies, a humana é a única que tropeça, mais de uma vez, na mesma pedra, provando que inteligência e instinto cumprem funções importantes, mas distintas, junto à enorme diversidade de inquilinos que habitam nosso Planeta. A razão disso é que, não obstante seu grande valor, os ensinamentos da História são de precisão irregular, por não possuírem o mesmo invariável rigor das lições da Ciência. Tanto é que, segundo confiáveis cálculos demográficos, para cada um dos sete bilhões de pessoas que compõem a população de hoje há catorze mortos, experiência acumulada de 105 bilhões de seres humanos que não representa vacina segura contra a repetição de erros fatais. A relatividade, porém, dos ensinamentos da história não deve enfraquecer a confiança na utilidade das lições com que enriquecem o patrimônio de nossa experiência acumulada.
Essa breve e prévia reflexão à guisa de introito, vem a propósito da tentação de especular sobre possíveis mudanças no comportamento humano derivadas do compartilhamento universal de práticas impostas pela Covid-19. Indizíveis sofrimentos decorrentes da perda de entes queridos postos de lado, (como disse John Donne: “A morte de qualquer pessoa me diminui, porque sou parte da humanidade”) penso que o legado desta pandemia será excepcionalmente útil.
Em primeiro lugar, a recuperação da economia universal dar-se-á numa velocidade muito superior à de qualquer outro momento da História, uma vez que as recessões do passado não servem como parâmetro, pela simples razão de que a atual não está sendo produzida por desacertos macroeconômicos, como aconteceu com todas as outras, mas por causa natural, acima do nosso controle e vontade. Isso significa que a retomada da recuperação da economia dar-se-á a partir da restauração do ambiente comunitário, ensejando a ação produtiva dos mais variados agentes econômicos de todos os níveis. O Brasil estará entre os países de mais rápida recuperação.
Em segundo lugar, antevejo uma elevação significativa na qualidade de vida das pessoas, um grande número das quais vem aprendendo, na quarentena, que o seu trabalho pode ser desenvolvido, sem qualquer prejuízo, na qualidade ou produtividade, a partir do conforto de sua própria casa, no convívio com seus entes queridos, inclusive cães e papagaios, como é o nosso caso. É previsível, portanto, uma reversão do fluxo migratório, do campo para as cidades, com um número crescente de pessoas buscando o restaurador bucolismo rural, onde viver, respeitadas as limitações impostas pela nossa segurança pública, ainda precária.
Em terceiro lugar, ocorrerá o adensamento da percepção de que ser é mais importante do que ter, na medida em que se disponha do essencial para o exercício de uma vida livre de maiores privações materiais. O consumismo, portanto, com todo o seu cortejo de nefastas consequências psicológicas, afetando o convívio familiar e social, deverá sofrer um abalo sem precedentes. As pessoas, durante esta quarentena, em graus variados, estão percebendo que, como nunca, inclusive as de pouca renda, é muito grande o conforto derivado do acesso, hoje, a benefícios que, há apenas um século, eram inalcançáveis, até para poderosos e milionários, como ar refrigerado, televisão, computadores, informações instantâneas e ilimitadas, telefone celular, Netflix, grande variedade de produtos e serviços de boa qualidade. Sem falar nos avanços da Medicina.
Como nunca, o barateamento de todos esses produtos e serviços enseja o acesso por pessoas das camadas cada vez mais baixas na pirâmide social. Basta lembrar que, como salienta Steven Pinker em seu Magnum opus de 2019, O Novo Iluminismo, do total da população planetária de dois bilhões de habitantes, em 1800, 90% vivia na miséria, contra, apenas, 10%, hoje, quando subiu para sete bilhões o número de habitantes. E como vivemos na civilização do conhecimento, sabe-se que a ignorância é a causa da miséria dessa percentagem residual, do tipo existente no Brasil e na Bahia, em número maior do que seria razoável, por omissão dos administradores públicos. Removida essa causa, por todos conhecida, cessará a miséria, como efeito. Realisticamente, o mundo marcha para reduzir esse percentual de miséria a níveis cada vez mais baixos, jogando por terra o discurso derrotista dos que sofrem de dissonância cognitiva.
O Brasil, cuja população, hoje, acima dos 50 anos, viveu o atraso tecnológico decorrente da reserva de mercado que nosso nacionalismo burro concedeu a empresários picaretas, da área de computação, nas décadas de 1970 e 1980, tem agora, excelente oportunidade para se recobrar daquele prejuízo, passando a usufruir do notável conforto que as novas tecnologias agregam às nossas vidas.
Joaci Góes, escritor, é presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado nesta quinta-feira, 16, na TB

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