O borogodó e o violão de Martha Rocha
Joaquim F dos Santos –
O poeta Manuel Bandeira estava no júri do Miss Brasil em 1954, realizado no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, e deu um risinho malicioso quando lhe perguntaram por que votara – junto com Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, outros intelectuais na bancada – na baiana Martha Rocha, de 1,70cm de altura, 57kg, 58cm de coxa, 60 cm de cintura, 95cm de busto, 21cm de tornozelo e olhos verdes para carregar a faixa. Bandeira deixou a alta cultura de lado e foi no popular. Usou a gíria da época para elogiar uma mulher bonita: “A baiana tem borogodó”, justificou.
O Brasil tem uma enorme galeria de mulheres com borogodó, com sexy appeal, com fogo nos olhos, com um vulcão nos quadris, mas jamais houve outra como Martha Rocha, que morreu ontem aos 83 anos. É possível que alguém argumente com os tons clássicos de Tônia Carrero, quem lembre da elegância de Giselle Bundchen ou da sensualidade matadora de Juliana Paes. Todas divas, todas de cetro e coroa na imaginação do país. Mas se o Brasil tiver que resumir numa só a beleza de todas as suas mulheres, aquela que melhor sintetizou esse mix arrasador de qualidades, o nome certo é Martha Rocha.
O Brasil é um país de aglomerados inesquecíveis da beleza feminina, nichos de esplendores diversos como o das Certinhas do Lalau, as Dez mais elegantes, as Chacretes, as Mulatas que não estão no mapa, as Paquitas, as Coelhinhas da Playboy, as Rainhas de bateria – e as Misses.
A cada ano, com uma representante de cada estado, elas desfilavam em traje de gala, típico e de maiô da marca Catalina. Eram mulheres de perna de fora, mas de uma sensualidade domada, o que permitia a reunião da família diante da TV para assistir. O Brasil parava. As feministas, se já existiam, não protestavam.
A loura Vera Fischer foi eleita Miss Brasil 1969, a classuda Adalgisa Colombo em 1958 e, só em 1986, uma negra, a gaúcha Deise Nunes. Martha Rocha, a mais bonita de todas, se consolidou no imaginário brasileiro por causa da derrota que sofreu em seguida ao Miss Brasil.
No Miss Universo daquele ano de 1954, ela acabou desbancada por uma lambisgoia americana, que a história não guardou o nome, uma moça desprovida daqueles recursos que os brasileiros sempre julgaram fundamentais para eleger uma mulher num concurso de beleza. Foi aí que se fez a lenda.
Martha teria perdido porque seus 96cm de quadris, de fartura tão ao gosto do padrão da estética tropical, excederiam em 6cm, as famosas duas polegadas, a modelagem clássica do concurso. A baiana tinha sido derrotada pelo glorioso excesso de cadeiras e todos seus adereços. Soube-se depois que não foi bem assim, a história não passava de fake news de um jornalista da revista O Cruzeiro – mas aliviava a frustração nacional. Esses americanos, definitivamente, não entendem do assunto.
No carnaval do ano seguinte, os brasileiros começaram a fazer justiça ao deslumbramento de Marta Rocha, o seu espetacular conjunto de olhos verdes na pele morena, os coxões – chamados na época de “mocotós” – sustentando uma elegância de madame do high-society carioca. “Todo o Brasil se ufana/junto do teu pedestal/e te oferece/ ó baiana/ a coroa da beleza universal”, dizia a marchinha de Wilson Batista. Uma outra, de Pedro Caetano e Alcir Pires Vermelho, foi mais explícita ainda na louvação dos atributos desprezados pelos gringos: “Martha/não ligue pra isso não/Martha/ninguém tem o teu violão”.
O borogodó e o violão de Martha Rocha | Joaquim Ferreira dos Santos - O Globo

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