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ARTIGO

 

                     O segundo assassinato da Ave Maria de Gounod

 

Janio Ferreira Soares

Nada de Queiroz preso, nem Weintraub fugindo para terras norte-americanas, muito menos as malandragens curriculares do professor Decotelli. A cena que melhor resume este governo foi gerada na quinta-feira, 25 de junho, numa live do presidente.

Na ocasião, ele usava uma jaqueta com uma asa branca na lateral, que tanto poderia ser uma homenagem ao baião de Luiz Gonzaga, como uma alusão ao instrumento de voo do arcanjo Gabriel, ambos, diga-se, indiretamente presentes no ambiente, cuja configuração (Guedes à direita, a tradutora de libras à esquerda e Gilson Neto, presidente da Embratur, ao fundo com uma sanfona nos peitos) evidenciava o desastre.

No começo, enquanto Bolsonaro lembrava que não teve São João, Gilson dedilhava Asa Branca de uma maneira tal, que logo perguntei a Deus do céu por que tamanha judiação. Mas, confirmando o adágio de que nada é tão ruim que não possa piorar, faltava o acorde de misericórdia. E ele veio quando o capitão, fingindo compaixão pelos mais de 55 mil brasileiros mortos até àquela noite, resolveu homenageá-los de uma forma que só legitimou sua hipocrisia.

Olhando o relógio como um médico ao registrar a hora da morte de um paciente, ele disse: “agora são dezenove horas e dois minutos e queria prestar uma homenagem aos que se foram. Então vou pedir ao Gilson aqui, que toque Ave Maria”. Aí, “o Gilson aqui”, que na verdade é um veterinário que tinha uma banda de forró chamada Brucelose, começou a uivar igual a um nelore a caminho do matadouro, fato que logo virou piada pelo mundo, principalmente em Portugal, como revelou João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo.

Mas o que o nosso excelente cronista português não sabe é que esse foi o segundo assassinato da obra-prima de Gounod cometido por uma sanfona. O primeiro foi aqui em Paulo Afonso, quando Arthur Moreira Lima trouxe pra cá o projeto Um Piano Pela Estrada.

Figuraça, depois de várias cervejas acompanhando um surubim na brasa, ele me pediu que indicasse um instrumentista local para tocar apenas uma música antes de sua apresentação. Imediatamente liguei pra Elias Nogueira e sugeri um solo de Ave Maria na sua sanfona, já que o local do show seria o pátio da Igreja São Francisco e ficaria bacana.

Dia seguinte liguei pra saber se estava tudo certo e ele, com a empáfia que o caracterizava, disse: “tinha umas duvidazinhas nuns semitons, mas já li a partitura e vou improvisar um pouco”.

Perto do fim, sem ninguém saber qual música ele tocava, Arthur me chamou num canto e, solidário à classe, disse: “ô Janio, peça pra ele tocar alguma do Gonzaga”.

Crente que o pedido fora uma espécie de consagração e não uma forma de clemência, Elias arregaçou o fole e “entoce disse adeus Rosinha, guarda contigo, meu coração”, para alívio geral. Bons tempos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

 

 

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