Proibido para senhoritas”

Mario Vargas Llosa

 
Quem decide o que convém aos costumes e à moral de um povo? Os censores? Artigo de Mario Vargas Llosa sobre censura ao filme …E o Vento levou, publicado pelo El País:
 
Um artigo no Los Angeles Times do diretor e roteirista John Ridley pedindo para que a WarnerMedia retirasse de seu catálogo o filme …E o Vento Levou, por ser racista e apresentar de maneira positiva a escravidão, corre o risco de acabar com uma das boas coisas que os Estados Unidos tinham: sua liberdade de expressão. A WarnerMedia anunciou imediatamente que obedeceria à recomendação, retiraria o filme de seu catálogo e que ele só poderia voltar a ser projetado “com alguma introdução” que alertasse seus futuros espectadores.
Imediatamente fiquei muito curioso pelo pequeno aviso que, no futuro, precederá o filme, explicando aos espectadores que o filme, do ano de 1939 e que ganhou dez Oscars, é racista e não deve ser acreditado no contexto histórico que apresenta, com exceção da história de amor frustrada que ele conta sobre o velho Sul norte-americano, onde todo o resto, fora do romance entre a bela Vivien Leigh e o charmoso Clark Gable, é falso e calunioso. O famoso aviso só servirá para despertar o apetite de muitos espectadores, claro, tão burros como os que escreveram, filmaram e colaram a introdução a esse excelente filme.
 
A censura do cinema foi um pesadelo de minha infância, primeiro em Piura e depois em Lima. Era muito rígida e, além das proibições e cortes selvagens dos censores, os filmes tolerados vinham com classificações, a pior das quais era “proibido para senhoritas”, que fechava as portas dos cinemas aos garotos de minha idade, ou seja, menores de quinze e dezesseis anos. A proibição poderia ser evitada dando uma boa gorjeta aos bilheteiros, mas quem tinha dinheiro para dar gorjetas naqueles anos?
 
Estou certo de que não sou menos antirracista do que John Ridley, e que detesto tanto quanto ele as agressões contra os negros que agora motivam protestos por todo seu país, mas me surpreende muito que o autor de um filme tão bom como 12 Anos de Escravidão acredite que a brutalidade racista seja combatida pela censura. Não é assim. A censura só serve para criar outra forma de brutalidade, menos crua do que o racismo, mas, talvez, de consequências mais nefastas a uma sociedade, a quem torna menos consciente e livre, e mais manipulável em questões raciais, morais e ideológicas. Entre outras aberrações, a censura de filmes, livros e artigos em longo prazo serve somente para, ao invés de inocular ideias boas e corretas à população, adormecê-la, confundi-la e fazê-la engolir as mentiras que o poder político gostaria de impingi-la. Seria triste que, além de suportar o presidente Trump, que da Casa Branca já deteriorou bastante a democracia norte-americana, os Estados Unidos tenham daqui para frente que sofrer também uma censura que – como todos os sistemas de controle intelectual e artístico no mundo – tenta justificar-se a si mesma com a ideia que deste modo “preserva” as pessoas de verem e lerem coisas que podem destruir seus costumes e sua consciência moral.
 
Quem decide o que convém aos costumes e à moral de um povo? Os censores, entre os quais costumam existir religiosos e padres? Esses obscuros personagens anônimos que, nesses escritórios que costumam ser porões, aplicam a tesoura aos filmes e aos livros para que leitores e espectadores só entrem em contato com o bem e fiquem longe do mal? Quem decide o que é o bem e o mal? Os censores ou o diretor John Ridley, a quem estou disposto a atribuir um nível de cultura e uma sensibilidade maiores do que a média daqueles personagens? Tenho certeza de que a imensa maioria dos norte-americanos ficaria horrorizada que “censores” de qualquer índole – simplórios e inteligentes, cultos e incultos – velassem por sua saúde espiritual cortando os filmes e livros e proibindo-os.
 
O que estou tentando dizer? Que todos os filmes devem ser admitidos em uma sociedade realmente livre? Sim, exatamente. Com somente uma indicação, feita à margem do filme: de que certas imagens podem ferir a sensibilidade de certos espectadores. Algo que, de fato, já vem sendo feito em alguns países sem que com essa advertência a liberdade de criação tenha sido limitada. Ocorre exatamente com a literatura. O Ulisses de Joyce foi proibido por muitos anos na Inglaterra e nos Estados Unidos até que por fim essa aberrante medida foi levantada. Aconteceu o mesmo na França com as obras do Marquês de Sade. Agora quem tem suficiente paciência para fazê-lo pode ler semelhantes horrores, e até na Pléiade. Não acho que por essas leituras os franceses tenham se tornado mais torturadores sexuais do que os outros povos da terra.
 
A censura pretende proteger a população daquilo que não a convém. Quem decide o que é positivo e negativo a uma sociedade? Geralmente os pobres diabos que costumam se prestar a fazer esse ofício ignóbil. Nunca esquecerei que, a meu amigo Juan Marsé, nos tempos de Franco, um censor riscou enfurecido todas as vezes em que em um de seus romances aparecia a palavra “sovaco”. O que tinha de intolerável o sovaco? Certamente, aquele personagem, quando lia em algum artigo a bendita palavra, tinha uma ereção.
 
Quem pratica a censura com empenho são todas as ditaduras, alegando as razões que me deu a diretora russa da editora La Joven Guardia, em Moscou, em 1966, por ter suprimido vinte páginas de meu primeiro romance, A cidade e os Cachorros: “Os casais russos não poderiam se olhar na cara após ler essas cenas”. Perguntei quem decidia o que os casais russos podiam ler sem se escandalizar. Ela me olhou com certa pena: “Todos os leitores de La Joven Guardia são doutorados em literatura”.
 
Por isso, é bom e saudável que em uma sociedade se filmem e publiquem os filmes e livros sem censura prévia, os bons e os ruins, os que defendem as boas ideias e as ruins e estúpidas como o racismo, de modo que, graças a esses contrastes, espectadores e leitores podem adotar e repudiar o que lhes parece positivo e negativo. O resultado não é o caos e a preeminência do erotismo vulgar dos filmes pornográficos e as ideias reacionárias e estúpidas. Se nos filmes e nos livros há ofensas contra a moral e os costumes, que os tribunais o decidam, de acordo com as leis vigentes. Assim acontece nas democracias avançadas, e esse é o exemplo que todos os países que querem imitá-las deveriam seguir.
 
Os verdadeiros efeitos da censura são aqueles que os que a estabelecem nunca se atrevem a divulgar: idiotizar as pessoas e torná-las mais vulneráveis à propaganda, seja religiosa, política e moral, e fazê-las engolir todas as mentiras do que costuma ser feita a ideologia oficial, e até a simples publicidade com a qual o poder tentar se justificar e ridicularizar o adversário. Por isso é tão perigoso aceitar a censura, incluindo nos casos em que a obra incriminada possa ser entrada para ofender a moral reinante contra a visão benevolente dos seres humanos. Não duvido das boas intenções com as quais o cineasta John Ridley pediu que a WarnerMedia retirasse de seu catálogo …E o Vento Levou. O que ele não imaginava é que, com os mesmos argumentos que colocava nas mãos das autoridades, lhes concedia o direito a recortar e proibir seus próximos filmes.

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