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Joca: “P.S.-  Em tempos de fake news,

a pena de aço do bom e velho Joca

vai fazer uma falta danada”

CRÔNICA

Saudade do beijo, do mel e do carnê da Renner

Segundo o Aurélio, saudade significa: “sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas”. A partir daí, nostálgico leitor e saudosa leitora, cada um que se sinta livre para experimentá-la na intensidade que melhor combine com suas necessidades.

Inúmeros são os casos em que essa enigmática palavrinha mostra sua versatilidade, como naquela noite dos anos 80 em que Nando Cordel fez uma DDD (lembra?) pra sua esposa depois de semanas longe de casa e aí, ao desligar, a saudade ativou o modo inspiração e sussurrou em sua orelha amassada pelo peso do velho fone: “vai, amigo, aproveite o embalo e bote no papel o que você está sentindo e mande pro seu amigo Dominguinhos colocar uma melodia meio xoteada, que mais tarde será gravada por Bethânia num ritmo que irá transformá-la numa espécie de clássico sempre que alguém distante do seu amor quiser falar de mim”.

E aí, de uma tacada só, saiu: “Tô com saudades de tu, meu desejo, tô com saudade do beijo e do mel, do teu olhar carinhoso, do teu abraço gostoso, de passear no teu céu. É tão difícil ficar sem você, o teu amor é gostoso demais, teu cheiro me dá prazer e quando estou com você, estou nos braços da paz. Pensamento viaja e vai buscar meu bem-querer, não posso ser feliz assim, tem dó de mim, o que é que eu posso fazer!”.

O diacho é que o mesmo sentimento que gera essa singeleza em forma de canção também é culpado por atos que se sobrepõem a quaisquer resquícios de razão, como no caso da recente aglomeração de centenas de pessoas diante da reabertura dos Shoppings da capital paulista.

Sem nenhum compromisso que justificasse o ajuntamento, a grande maioria responsabilizou exatamente a saudade pelo fato, o que me fez imaginar nosso famoso substantivo feminino se materializando e fazendo com essa turma o mesmo que fez com o compositor Luiz Bandeira, que depois de um longo tempo longe do Carnaval pernambucano, retornou pra lá de braços dados com ela, só pra tomar umas e outras e cair no passo. Divago, pois.

Passeando pelo Tatuapé, a saudade, vendo a impaciência de milhares de paulistanos sem poder sair de casa – e sem aguentar mais tanto bolo solado feito por chefes diplomados pela escola da ociosidade -, resolveu igualmente levá-los pelos braços, não pra sentir a famosa embriaguez do frevo entrando na cabeça e acabando no pé.

Nesse caso, foi criado o Bloco dos Saudosistas dos Carnês da Renner, uma imensa e animada agremiação que adora desfilar pelos corredores dos Shoppings em alas fantasiadas de suaves prestações, de preferência, claro, sem juros. “Olha o coronavírus aí, gente!”.

P.S. Em tempos de fake news, a pena de aço do bom e velho Joca vai fazer uma falta danada.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beirada baiana do Rio São Francisco.

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