Trezena de Santo Antônio - 11 - Benção - YouTube
Bahia em Pauta » Blog Archive » Janio Ferreira Soares: o mais ...
CRÔNICA

 

O Silêncio dos Sinos da Trezena  de Santo Antonio

 

Janio Ferreira Soares

Dias atrás, Tati Bernardi, colunista da Folha de São Paulo, escreveu um texto sob o título de “Socorro, Rubem Braga!”, onde ela pede ajuda não só ao genial cronista capixaba, mas também a Paulo Mendes Campos e Vinicius de Moraes, diante de sua incapacidade de escrever uma crônica nesses tempos onde só se fala de política e saúde.

Em seguida foi a vez de Fernanda Torres, colunista da mesma Folha – talvez mais genial na escrita do que na interpretação -, escrever uma resposta a Tati, dizendo que também passa pela mesma dificuldade e que, apesar de uma nova geração onde despontam Antônio Prata e Gregório Duvivier (quando escreve sobre lulas lisinhas e não as barbadas, viu, Fernandinha?), “somos todos do jardim de infância, se comparados ao Rubem e ao Millôr”.

Pois bem, minhas caras, me sentindo que nem Lô Borges, Fernando Brant e Márcio Borges quando escreveram para Lennon e MacCartney dizendo que eram da América do Sul – mesmo conscientes de que eles nunca iriam sabê-los -, este velho escriba de quem vocês também nunca ouviram falar, igualmente anda carente de escrever sobre abobrinhas neste estrangeiro junho de sanfonas amordaçadas, bandeirolas recolhidas e Trezena televisada, fatos nunca vistos nessas bandas.

Acontece que diante do vírus invisível e das pragas concretas como Olavo de Carvalho e demais aberrações que eu pensava enterradas para sempre nos jardins do nunca mais, realmente fica difícil falar sobre outra coisa que não tenha ligação direta com as desafinadas canções do glorioso Bolsonaro e Seus Green Caps.

Essa semana mesmo, madrugada de segunda-feira, me acordei com sons de tiros vindos do lado esquerdo do rio. Em tempos normais, abriria um sorriso e viraria de lado, sabendo que eram apenas fogos saudando o início da Trezena de Santo Antônio. Mas agora, confesso que senti uma sensação estranha, sei lá, como se meu sítio tivesse sendo invadido por centenas de mortos-vivos comandados por Regina Duarte cantando “salve a Seleção”, todos juntos e armados com porretes e cloroquinas nas mãos.

Mas voltando a Trezena, ontem liguei pra tia Letícia, que mora aqui pertinho, na cidade de Nova Glória (a velha, pra quem não sabe, era batizada Santo Antônio da Glória e foi inundada nos anos 70), pra saber o que ela estava achando da primeira Trezena virtual de sua vida. “Meu filho, nunca pensei que um dia fosse me ajoelhar na frente da TV como se ela fosse um altar. Você tá assistindo?”. Digo um mentiroso sim só pra agradá-la e pergunto pelo som do sino que o vento sempre me traz e que este ano não ouço. Ela diz que a igreja matriz está em reforma e que a celebração está acontecendo numa capela que nem torre tem. “Parece até o fim dos tempos!”.

Se for, tia Tice, já sei quem tocará a trombeta. Viva Santo Antônio!

Janio Ferreira Soares, cronista e contista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco.

Be Sociable, Share!

Comentários

vitor on 7 junho, 2020 at 17:28 #

A trezena a Santo Antonio da Glória, uma das minhas melhores e maiores recordações da minha infância na beira do São Fracisco, o rio que passa na minha aldeia!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos