Papa Francisco, no Vaticano, durante a celebração do Angelus neste domingo, o papa Francisco, ao pedir para que as pessoas não diminuam as medidas de segurança sanitária contra a pandemia e fez uma referência ao número de mortes por Covid-19 no Brasil.

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CRÔNICA

 

O Silêncio dos Sinos da Trezena  de Santo Antonio

 

Janio Ferreira Soares

Dias atrás, Tati Bernardi, colunista da Folha de São Paulo, escreveu um texto sob o título de “Socorro, Rubem Braga!”, onde ela pede ajuda não só ao genial cronista capixaba, mas também a Paulo Mendes Campos e Vinicius de Moraes, diante de sua incapacidade de escrever uma crônica nesses tempos onde só se fala de política e saúde.

Em seguida foi a vez de Fernanda Torres, colunista da mesma Folha – talvez mais genial na escrita do que na interpretação -, escrever uma resposta a Tati, dizendo que também passa pela mesma dificuldade e que, apesar de uma nova geração onde despontam Antônio Prata e Gregório Duvivier (quando escreve sobre lulas lisinhas e não as barbadas, viu, Fernandinha?), “somos todos do jardim de infância, se comparados ao Rubem e ao Millôr”.

Pois bem, minhas caras, me sentindo que nem Lô Borges, Fernando Brant e Márcio Borges quando escreveram para Lennon e MacCartney dizendo que eram da América do Sul – mesmo conscientes de que eles nunca iriam sabê-los -, este velho escriba de quem vocês também nunca ouviram falar, igualmente anda carente de escrever sobre abobrinhas neste estrangeiro junho de sanfonas amordaçadas, bandeirolas recolhidas e Trezena televisada, fatos nunca vistos nessas bandas.

Acontece que diante do vírus invisível e das pragas concretas como Olavo de Carvalho e demais aberrações que eu pensava enterradas para sempre nos jardins do nunca mais, realmente fica difícil falar sobre outra coisa que não tenha ligação direta com as desafinadas canções do glorioso Bolsonaro e Seus Green Caps.

Essa semana mesmo, madrugada de segunda-feira, me acordei com sons de tiros vindos do lado esquerdo do rio. Em tempos normais, abriria um sorriso e viraria de lado, sabendo que eram apenas fogos saudando o início da Trezena de Santo Antônio. Mas agora, confesso que senti uma sensação estranha, sei lá, como se meu sítio tivesse sendo invadido por centenas de mortos-vivos comandados por Regina Duarte cantando “salve a Seleção”, todos juntos e armados com porretes e cloroquinas nas mãos.

Mas voltando a Trezena, ontem liguei pra tia Letícia, que mora aqui pertinho, na cidade de Nova Glória (a velha, pra quem não sabe, era batizada Santo Antônio da Glória e foi inundada nos anos 70), pra saber o que ela estava achando da primeira Trezena virtual de sua vida. “Meu filho, nunca pensei que um dia fosse me ajoelhar na frente da TV como se ela fosse um altar. Você tá assistindo?”. Digo um mentiroso sim só pra agradá-la e pergunto pelo som do sino que o vento sempre me traz e que este ano não ouço. Ela diz que a igreja matriz está em reforma e que a celebração está acontecendo numa capela que nem torre tem. “Parece até o fim dos tempos!”.

Se for, tia Tice, já sei quem tocará a trombeta. Viva Santo Antônio!

Janio Ferreira Soares, cronista e contista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco.

jun
07
Posted on 07-06-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 07-06-2020

Luiz Henrique Mandetta criticou a mudança da metodologia do Ministério da Saúde para compilar os dados diários da pandemia de Covid-19.

Como registramos ontem, a pasta mudou novamente a tabela de divulgação dos dados e passou a omitir o total geral de mortos e infectados pela doença.

“Diferentemente de uma guerra militar, em que o segredo é uma arma, contra um vírus não há segredo. Camuflar números é uma tragédia. Tira do indivíduo a capacidade de se defender. Informação é fundamental, por isso, eu fazia questão das coletivas à tarde, para dar tempo de as pessoas analisarem os números, e deixar a população atenta”, afirmou Mandetta, segundo o Correio Braziliense.

“Misty”, Sarah Vaughan: Uma raríssima apresentação da fabulosa intérprete norte-americana em Estocolmo, anos 60. Um presente musical do Bahia em Pauta aos seus ouvintes e leitores neste domingo de junho.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

jun
07

 

O novo secretário de Vigilância em Saúde é a 11ª indicação do Centrão desde que Bolsonaro iniciou a aproximação


postado em 06/06/2020 07:00 / atualizado em 06/06/2020 03:10

 
(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)
(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)

Os esforços do presidente Jair Bolsonaro em estreitar laços com o Centrão rendeu a nomeação para um dos cargos de maior destaque no enfrentamento à pandemia de coronavírus. A parceria emplacou o professor e farmacêutico Arnaldo Correia de Medeiros como o novo secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, um dos setores mais importantes da pasta e protagonista na guerra contra a covid-19.
A nomeação está publicada no Diário Oficial da União, de ontem, e assinada pelo ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto. O cargo tinha sido ocupado por Wanderson de Oliveira, servidor de carreira da pasta que permaneceu no cargo desde a gestão de Luiz Henrique Mandetta, e que era um dos únicos em função de confiança a se manter com Nelson Teich, na sua passagem pelo Ministério da Saúde. Com a saída de Wanderson, quem o substituía era Eduardo Macário, mas interinamente.

O novo secretário de Vigilância em Saúde é a 11ª indicação do Centrão desde que Bolsonaro iniciou a aproximação. O nome foi apresentado pelo líder do PL na Câmara, Wellington Roberto (PB), e aprovado pelo ministro interino, general Eduardo Pazuello, no início da semana.

Arnaldo é graduado em Farmácia pela Universidade Federal da Paraíba e é mestre em Bioquímica e Imunologia pela Universidade de Minas Gerais. O novo secretário também é doutor em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo e tem especialização em Gestão Hospitalar pelo Hospital Sírio-Libanês. Com experiência na área da saúde, ele atua como professor titular da UFPB.

Novos nomes
Mais dois militares foram nomeados para o ministério. De acordo com o DOU, para exercer o cargo de diretor de Programa da Secretaria-Executiva foi escolhido o tenente-coronel Nivaldo Alves de Moura Filho. Já o coronel médico Roberto Bentes Batista fica responsável pela direção do Departamento de Engenharia de Saúde Pública da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Além de cardiologista e médico de família, é pós-graduado em Gestão da Administração Pública e possui especialização em Política e Estratégia. Assim, passa para 25 o número de militares atuando na linha de frente da pasta mais requisitada em tempos de emergência sanitária.

Já o coordenador de Apuração Disciplinar da Corregedoria-Geral, da Diretoria de Integridade, agora é o sociólogo Luciano Chagas Barbosa, que entre 2014 e 2016 foi coordenador de Apuração Disciplinar da Corregedoria-Geral do Ministério da Saúde. E a função de chefe do Serviço de Orçamento e Finança da Secretaria Especial de Saúde Indígena foi entregue a Felisberto de Sousa Rocha.

Na gestão Mandetta, apenas um militar ocupava papel de destaque na pasta: o coronel Robson Santos da Silva, secretário especial de Saúde Indígena, que, aliás, continua na função.

 

(foto: -)
(foto: -)

 

DO CORREIO BRAZILIENSE

De Sydney a Londres, passando por Paris e Montreal, estão previstas inúmeras manifestações neste fim de semana para homenagear esse afroamericano asfixiado até a morte por um policial branco, em 25 de maio, em Minneapolis


AF Agência France-Presse

postado em 06/06/2020 13:50 / atualizado em 06/06/2020 16:51

Com a frase “Não consigo respirar” como lema, pronunciada por George Floyd enquanto era morto nas mãos de um policial nos Estados Unidos, milhares de pessoas em todo mundo começaram a desafiar a pandemia de coronavírus, neste sábado (6), para se manifestar contra as desigualdades sociais e a brutalidade policial.

De Sydney a Londres, passando por Paris e Montreal, estão previstas inúmeras manifestações neste fim de semana para homenagear esse afroamericano asfixiado até a morte por um policial branco, em 25 de maio, em Minneapolis.
Sua morte provocou um movimento histórico de protesto que atravessou as fronteiras dos Estados Unidos e reacendeu o desejo de mudança.
 
Ver galeria . 7 Fotos Washington AFP
Washington (foto: AFP )

 

 
Na Austrália, o primeiro país a protestar fora dos EUA, milhares de pessoas marcharam no sábado, levando faixas com a frase “Não consigo respirar”. A frase é uma referência às últimas palavras de Floyd, enquanto era sufocado por quase nove minutos pelo joelho de um policial durante sua detenção.
Para os organizadores da manifestação na Austrália, o caso encontra eco em seu país. Segundo eles, o objetivo é denunciar o alto índice de detenção entre os aborígines, bem como os membros dessa comunidade mortos quando estavam sob custódia policial. Foram mais de 400 nos últimos 30 anos.
Em Sydney, a manifestação foi autorizada alguns minutos antes de começar, graças a uma decisão judicial que anulou uma proibição anterior.
“O fato de tentarem evitar a manifestação leva as pessoas a quererem fazer ainda mais”, disse Jumikah Donovan, um dos manifestantes.
Muitos usavam máscaras de proteção e tentavam respeitar o melhor possível a distância de segurança, duas medidas preventivas no contexto da pandemia do novo coronavírus.

“Não participem” 

No Reino Unido, está marcada uma manifestação para este sábado, na frente do Parlamento, em Londres, e no domingo, diante da embaixada dos EUA. O governo pediu aos britânicos para não irem às ruas.
“Entendo por que as pessoas estão profundamente afetadas, mas ainda estamos enfrentando uma crise de saúde, e o coronavírus continua sendo uma ameaça real”, alegou o ministro da Saúde, Matt Hancock, na sexta-feira.
“Portanto, para a segurança de seus parentes, não participem de grandes multidões, como os protestos de mais de seis pessoas”, acrescentou.
Na capital britânica, vários atos foram organizados ao longo da semana, às vezes marcadas por incidentes com a polícia. Esses protestos trouxeram de volta a raiva dos negros contra o “racismo camuflado” e o “abuso” da polícia em seu país – nas palavras de alguns manifestantes.
Na França, voltaram para o primeiro plano as denúncias de violência policial nos últimos anos, ecoando a indignação global com a morte de Floyd.
Manifestações contra a violência policial foram convocadas para este sábado, em Paris, para “ampliar o movimento de solidariedade internacional contra a impunidade na aplicação da lei”.
Foram desautorizadas pelas autoridades locais, em função da pandemia.
De acordo com nota divulgada pela prefeitura de Paris, essas convocações “foram lançadas nas redes sociais (…) sem qualquer declaração prévia à chefia de polícia”. O comunicado lembra que o atual estado de emergência na França proíbe reuniões de mais de dez pessoas nos espaços públicos.
Na última terça, porém, um protesto proibido na capital francesa reuniu pelo menos 20.000 pessoas. 
A multidão foi convocada pelo comitê para apoiar a família de Adama Traoré, um jovem negro morto em 2016, na periferia de Paris, após ser detido pela polícia.

Do Jornal do Brasil

 

O mercado de câmbio voltou a ser dominado por uma onda de venda de dólares nesta sexta-feira, que coroou a melhor semana para o real em mais de 11 anos, em meio à disparada da demanda global por risco diante de um crescente otimismo econômico no mundo.

A surpreendente geração de vagas de emprego nos EUA em maio serviu de catalisador para investidores que desde meados de maio têm desfeito posições contrárias ao real, depois de a moeda brasileira ter batido sucessivas mínimas históricas sob pressão adicional de incertezas políticas domésticas.

O dólar interbancário fechou esta sexta em baixa de 2,80%, a 4,9877 reais na venda, menor nível desde o último dia 13 de março (4,8128 reais).

Na semana, o dólar recuou 6,60%, mais intensa depreciação desde outubro de 2008. Esta marcou a terceira semana consecutiva de perdas para a divisa norte-americana no Brasil. No período, a cotação cedeu 14,58%%, maior desvalorização para esse intervalo desde pelo menos o fim de março de 2002.

Na B3, o dólar futuro tinha queda de 2,99%, a 4,9720 reais, às 17h32.

Dados da operadora da Bolsa mostram que investidores estrangeiros venderam dólares nos mercados futuros desde 13 de maio, quando a moeda cravou a máxima recorde nominal.

Os estrangeiros venderam, em termos líquidos, 2,287 bilhões de dólares em contratos de dólar futuro, cupom cambial e swap cambial. Já os fundos locais desmontaram bem menos, 943 milhões de dólares, no mesmo período.

Ambos os grupos ainda mantêm posições líquidas compradas em dólar, mas, dada a pulverização de instrumentos e mercados utilizados para se montar apostas no câmbio, analistas chamaram atenção para as variações de posições, ambas no sentido de venda de moeda dos EUA.

Roberto Motta, chefe da mesa de futuros da Genial Investimentos, disse que boa parte dos fundos multimercados perderam o rali do real nas últimas semanas —pois mantinham o kit “compra de dólar, compra de bolsa”— e que provavelmente se viram forçados a desfazer posições de hedge (comprados em dólar) a partir do começo desta semana, depois do entendimento de atuação mais firme do Banco Central na segunda-feira.

Ele cita operações de venda de dólar de quem estava “short gamma” em opções de moeda na casa de 5 reais, 5,10 reais. Estar “short gamma” exige que o preço do ativo-objetivo da opção —no caso, o dólar— se mantenha estável para evitar que se tenha posição direcional.

Os market makers precisam manter posição neutra nas opções e, conforme o dólar à vista engatou quedas, tiveram de vender divisa no mercado para evitar posições direcionais. “Isso retroalimentou a queda do dólar”, disse Motta.

Profissionais de mercado citam de forma unânime a melhora do ambiente externo como fator de destacada relevância para a correção na taxa de câmbio. Mas apontam que uma aparente desescalada nas tensões políticas internas —além da já citada percepção de maior presença do Banco Central no mercado cambial— também têm tido papel preponderante na recente apreciação da moeda brasileira.

“Não tivemos grandes escândalos políticos nas últimas semanas”, disse William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, acrescentando que o “real é uma moeda que tende a oscilar junto com ativos de risco como ações”.

“A julgar pelo desempenho de outras moedas emergentes, em linha com o otimismo do mercado e a menor aversão a risco, pode-se dizer que existe sim algum espaço para continuidade do movimento. Ressalto que, para isso, é fundamental que o cenário político interno não nos traga novas surpresas indesejadas”, acrescentou Castro Alves.

Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, segue com previsão de dólar a 4,70 reais ao fim do ano. “O dólar pode até ter caído quase 1 real das máximas, mas subiu quase 2 reais desde o começo do ano. Foi um processo de depreciação muito forte para o real”, disse.

Em junho, o real aprecia 7,07%, depois de ganhar terreno também em maio, quando quebrou uma série de quatro meses de desvalorização. A recuperação da moeda brasileira ocorreu num momento em que o fluxo cambial passou a ficar positivo na margem, o que ajudou a reduzir a pressão sobre o câmbio.

Motta, da Genial Investimentos, lembrou que recentemente o fluxo para emergentes voltou a ficar positivo e que, continuando esse movimento, o real poderá seguir em valorização e mudar o debate a respeito das atuações do Banco Central.

“O mantra do Guedes de câmbio depreciado e juro baixo não mudou”, disse, em referência a repetidas falas do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre um câmbio de equilíbrio mais fraco. “Se o BC perceber muito fluxo a caminho e o dólar continuar caindo, podemos ver uma redução das rolagens de swap cambial. Acho que isso poderia acontecer (com o dólar) perto de 4,80 reais”, afirmou Motta.

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O BC tem disponibilizado lotes diários para rolagem integral de contratos de swap cambial tradicional —derivativo cuja venda equivale a uma injeção de dólar no mercado futuro. Nesta sexta, a autoridade monetária fez colocação integral de todos os 12 mil contratos de swap ofertados para rolagem.

No ano, o real ainda perde 19,54%. Estudo da FGV mostrou que os fundamentos para a taxa de câmbio melhoraram recentemente, depois de a divisa ter fechado abril com nível extremo de desvalorização, comparável aos piores números de 2015 e entre os mais intensos desde a década de 1980.

“A saída de capital aparentemente acalmou, o ajuste no estoque no balanço de pagamentos parece acalmar. Num prazo mais longo, se você não tiver inflação —algo ligado à questão fiscal—, não teria por que o câmbio nominal continuar depreciando”, disse Emerson Marçal, autor do estudo e coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP).(Reuters)

jun
07
Posted on 07-06-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 07-06-2020


 

Duke, no jornal

 

 DO EL PAÍS

Sem protocolo baseado em evidências científicas, e com pesquisas mundiais em xeque, tratamento da covid-19 com base no medicamento cresce no Brasil

Embalagem da hidroxicloroquina em uma foto feita nos Estados Unidos.
Embalagem da hidroxicloroquina em uma foto feita nos Estados Unidos.GEORGE FREY / AFP

|Regiane Oliveira

São Paulo

“A cloroquina voltou!”, comemorou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na noite desta sexta-feira. Ele se referia a mais um capítulo da novela envolvendo idas e vindas de pesquisas sobre a eficácia ou não do uso da substância no tratamento de pacientes com o novo coronavírus. Nesta semana, a The Lancet retirou de sua plataforma, a pedido dos autores, o estudo global que concluía que a cloroquina e seu derivado, a hidroxicloroquina, não ofereciam nenhum benefício para os pacientes, inclusive podendo aumentar o risco de morte em 30% dos casos. Dúvidas em relação à pesquisa fizeram a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciar que retomará os testes com os medicamentos, interrompidos após a publicação do estudo. Enquanto pesquisadores do mundo todo se debatem sobre a eficácia ou não da substância e, principalmente, sobre seus efeitos colaterais, no Brasil não somente sua produção segue a todo o vapor, como os comprimidos têm sido distribuídos pela rede pública até para pacientes assintomáticos, contrariando o protocolo do Ministério da Saúde.

Foi o que aconteceu com o cozinheiro Lucas Bittencourt, 23 anos, da cidade de Porto Feliz, a 118 quilômetros de São Paulo. Ele trabalha em uma residência e fez o teste PCR, que atesta a presença do coronavírus, a pedido da chefe, que faz parte do grupo de risco. Para sua surpresa, já que não tinha sintoma algum, o resultado foi positivo. “Assim que soube fui ao posto de saúde. Só pediram para eu ficar isolado e me deram os remédios”, afirma ele. Os remédios mencionados por ele formam parte de um kit com sete medicamentos que obedecem ao protocolo de tratamento precoce adotado pela cidade para suspeitas de covid-19.

No kit estão incluídos hidroxicloroquina (para tratar malária e doenças autoimunes), azitromicina (antibiótico), ivermectina (vermífugo), celocoxibe (doenças autoimunes), paracetamol (febre e dores no corpo), metoclopramida (náusea e vômitos), enoxaparina (anticoagulante). Ao tomar o coquetel, o cozinheiro afirma ter sentido ânsia, dor de barriga e diarreia, mas elogiou a orientação recebida no posto de saúde. “Não tive medo de tomar a cloroquina”, diz. “Se eles me recomendaram é porque sabem o que estão fazendo”.

A Prefeitura de Porto Feliz afirmou em nota que “não há distribuição de kits no município”. E que o protocolo de prescrição da cloroquina só é realizado para pacientes sintomáticos após exames como função renal e hepática, tomografia computadorizada de tórax e eletrocardiograma laudado por cardiologista, bem como a “autorização formal de cada paciente”. E que só então é decidido pelo médico “se há ou não indicação com segurança do uso da hidroxicloroquina e das demais medicações que compõe o protocolo”.

No final do mês passado, o Ministério da Saúde emitiu novas diretrizes para a aplicação da cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes não só graves – como já era admitido – mas também com sintomas leves da doença, contanto que houvesse consentimento do médico e do paciente. A utilização desses medicamentos, fortemente defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, despreza o fato de que os estudos sobre seu uso ainda são inconclusivos. O protocolo também vai contra o que aponta a única pesquisa brasileira sobre a droga. Em 18 de abril, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicou uma nota afirmando que doses altas da cloroquina não eram indicadas para o tratamento de pacientes graves com a covid-19 e que ainda não era possível atestar a eficácia de seu tratamento sobre a doença. Os resultados, ainda iniciais, até hoje não avançaram e não há conclusão sobre o estudo.

Receita médica recebida por um paciente assintomático no Estado de São Paulo, para o tratamento da covid-19.
Receita médica recebida por um paciente assintomático no Estado de São Paulo, para o tratamento da covid-19.

Por isso, o Tribunal de Contas da União (TCU) deu dez dias, a contar do último dia 3, para que o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) expliquem a fundamentação técnica e jurídica que levou ao novo protocolo. O ministro Benjamin Zymler, do TCU, destacou que essa nova orientação pode elevar os gastos públicos em saúde, tanto com a compra do medicamento, quanto com a realização de exames.

De fato, até o final de maio, o Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (LQFEx) já havia produzido 1,25 milhão de comprimidos de cloroquina para atender à demanda do Ministério da Saúde. Antes do início da crise da covid-19 o LQFEx produzia um lote de 250.000 comprimidos a cada dois anos, sendo esta demanda exclusiva do Exército Brasileiro, para o combate à malária. Os números da produção da droga são altos, em comparação aos anos anteriores, mas o Ministério da Saúde já distribuiu aos Estados quatro vezes mais que essa produção. Até o momento, 4,3 milhões de comprimidos da cloroquina foram enviados para as secretarias estaduais da Saúde em todo o país. Segundo a pasta, quatro empresas têm registros válidos junto à Anvisa para fornecer o medicamento: Apsen Farmacêutica, Sanofi Aventis, Medley Sanofi no Brasil, e EMS Indústria Farmacêutica. Elas são responsáveis por abastecer o mercado público e privado no país.

Do número total de comprimidos distribuídos, quase 1 milhão foram enviados para São Paulo, o epicentro desta pandemia e Estado com o maior número de casos e óbitos até este sábado, 6 de junho. Apesar da grande remessa recebida, o governador João Doria (PSDB) lembrou, em entrevista ao EL PAÍS, que “a ciência não recomenda [o uso da droga], exceto em casos muito especiais, com prescrição médica e a aceitação do paciente, porque os efeitos colaterais são muito graves, principalmente para cardíacos”. Ele classificou a orientação do Governo Federal como uma “vontade deliberada de recomendar o uso indiscriminado” da substância.

Mas os municípios paulistas não necessariamente seguem o governador. Em entrevista para o Jornal da Cultura, o prefeito de Porto Feliz, o médico Antonio Cássio Prado (PTB), afirmou que o kit distribuído pela rede a pessoas como o cozinheiro Lucas Bittencourt, mencionado no início desta reportagem, custa menos de 40 reais e “tem eficiência na fase inicial da doença, nos primeiros cinco ou seis dias”.

O caso da bancária Bruna Torres de Lara, 27 anos, foi diferente. Ela procurou o posto de saúde de Porto Feliz com dores no corpo, falta de ar e tosse excessiva. Fez eletrocardiograma, exames de sangue e tomografia, que detectou uma mancha no pulmão. Saiu do atendimento com uma receita médica e um kit com os sete medicamentos. Não fez exame para detectar o novo coronavírus na rede pública, mas optou por seguir o protocolo de cinco dias e o isolamento de duas semanas. Assinou o termo de consentimento, que deixa claro os riscos dos medicamentos. “Não sei se foi por excesso de medicação, ou se foi a hidroxocloroquina, mas em um dos dias me deu um mal estar forte, dor de cabeça, ânsia, diarreia”, conta. Os sintomas duraram pouco, mas ela decidiu fazer o exame de PCR na rede privada para ter certeza. O resultado saiu uma semana depois, após ela terminar os medicamentos, e foi negativo para o coronavírus.

A prefeitura de Porto Feliz não quis compartilhar o protocolo técnico com a reportagem, nem responder em qual pesquisa se baseia. A assessoria de comunicação informou por telefone apenas que é o mesmo utilizado na cidade de Floriano, no Piauí, que chamou a atenção da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. A ministra se disse “impactada” com o “milagre do uso da cloroquina associada a medicamentos”, após uma visita à cidade de cerca de 60.000 habitantes, que teria obtido bons resultados com os fármacos. O protocolo foi recomendado pela médica piauiense Marina Bucar Barjud, que trabalha no Hospital HM Puerta del Sur em Madri, com base em sua na experiência na Espanha.

“O que mais querem, que desça um anjo do céu para dizer que o remédio dá certo? São milhares de cientistas no mundo atestando, médicos do mundo inteiro atestando, que mais vocês querem?”, afirmou Damares, em entrevista coletiva durante a visita ao Hospital Regional Tibério Nunes na segunda semana de maio, que utiliza o protocolo. A cidade piauiense registrou 18 mortes e 82 casos confirmados; 39 pessoas se recuperaram da doença.

A reportagem tentou falar com Marina Bucar, que tem dado consultorias sobre o protocolo para municípios brasileiros, mas segundo seu irmão, o também médico Walter Bucar Barjud, a médica está com “muito trabalho, assessorias importantes, treinamento e orientações para médicos que estão salvando vidas com sua ajuda” e não poderá dar entrevista.

Embates teóricos

Não é a primeira vez que uma pesquisa sobre os medicamentos é derrubada de uma publicação científica. No dia 20 de maio, a revista medRxiv retirou do ar o primeiro estudo que recomendou a utilização de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes com a covid-19. O trabalho dos pesquisadores franceses ganhou repercussão mundial, levando líderes como o presidente dos EUA Donald Trump a defender as drogas. O uso indiscriminado das drogas pós-publicação, especialmente fora do ambiente hospitalar, causou preocupação no próprio órgão regulador de alimentos e medicamentos do EUA (FDA). “Autorizamos seu uso temporário apenas em pacientes hospitalizados com covid-10 quando os ensaios clínicos não estão disponíveis ou a participação não é viável”, afirmou o FDA. Segundo o órgão, “estes medicamentos têm vários efeitos colaterais, incluindo problemas sérios de ritmo cardíaco que podem ser fatais”.

O trabalho dos pesquisadores franceses recebeu uma enxurrada de críticas pela metodologia e amostra reduzida – apenas 30 pacientes -, o que fez com que os autores pedissem a retirada da pesquisa do ar e também que ela não fosse citada em outros trabalhos científicos. “Por conta da controvérsia sobre a hidroxicloroquina e da natureza de seu estudo, eles [autores] gostariam de avaliar o manuscrito após revisão metodológica”, afirmou em nota a revista científica.

O estudo em defesa da cloroquina e da hidroxocloroquina caiu justamente quando aconteceu a divulgação de uma pesquisa considerada mais robusta, na The Lancet. O estudo teria sido realizado com 96.000 pacientes em 600 hospitais de todo o mundo, inclusive Brasil. A pesquisa parecia ter concluído a questão, ao afirmar categoricamente que os medicamentos aumentavam o risco de morte e piora cardíaca. França e Itália proibiram seu uso, enquanto a Bélgica alertou sobre sua utilização fora dos ensaios clínicos. Mas também não passou pela revisão da comunidade científica. Uma carta aberta assinada por mais de 120 pesquisadores criticaram inconsistências no estudo. A agência de medicamentos espanhola concluiu que o estudo não fornecia provas sólidas e recomendou que se continuem os ensaios clínicos com esses fármacos no país.

Paralelamente, uma investigação do jornal britânico The Guardian revelou problemas com as informações passadas pela empresa norte-americana Surgisphere, cujo banco de dados de pacientes e pesquisas médicas foi utilizado na pesquisa. Dados da Austrália, por exemplo, mostravam um número de mortos maiores do que o registrado do país. A companhia – que tem poucos profissionais da área média entre seus colaboradores, mas, curiosamente, tem um escritor de ficção científica e um ator pornô na equipe -, se recusou a liberar o acesso ao banco de dados alegando confidencialidade.

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