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Postado em 30-05-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 30-05-2020 00:20

Bolsonaro demonstrou insatisfação com a PF em pelo menos 10 ocasiões desde agosto de 2019

Sergio Moro saiu do governo acusando o presidente Jair Bolsonaro de tentar interferir em investigações da Polícia Federal. Desde agosto do ano passado, em pelo menos dez ocasiões o presidente ou reclamou que os filhos estavam sendo investigados ou falou em trocar o superintendente da PF no Rio.

Na porta do Palácio da Alvorada, em transmissões ao vivo na internet ou em entrevistas, um tema apareceu com frequência nos últimos dez meses: a Polícia Federal.

A primeira vez que Jair Bolsonaro demonstrou insatisfação com a PF do Rio foi em agosto do ano passado. Sem o conhecimento da cúpula da corporação, ele anunciou a troca do superintendente da Polícia Federal no Rio:

“Vou mudar por exemplo o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Motivo: é questão de produtividade.”

No mesmo dia, a PF afirmou que a mudança estava sendo planejada havia meses e não tinha relação com a avaliação de Saadi no cargo.

A PF anunciou o substituto: Carlos Henrique Oliveira Sousa, que era superintendente regional em Pernambuco. Mas o presidente queria outro nome. E, no dia seguinte, indicou Alexandre Saraiva, superintendente do Amazonas. E subiu o tom. Sem citar o nome de Sergio Moro, disse que quem manda é ele.

 

“O que eu fiquei sabendo, se ele resolveu mudar, vai ter que falar comigo. Quem manda sou eu, deixar bem claro. Eu dou liberdade para os ministros todos, mas quem manda sou eu. Pelo o que está pré-acertado, seria o lá de Manaus. Quando vão nomear alguém, falam comigo. Ué, eu tenho poder de veto. Ou vou ser um presidente banana, agora? Cada um faz o que bem entende, e tudo bem?”

No mesmo dia, no Planalto, Bolsonaro minimizou:

“Se quiser o de Pernambuco, tem problema não. Tá há três meses programado. Acho que ele vai pro exterior o que tava lá, tá certo? Tanto faz pra mim. Eu sugeri o de Manaus, se vier o de Pernambuco não tem problema não.”

Cinco dias depois, com a repercussão sobre possível interferência na PF, Bolsonaro foi às redes sociais com um objetivo: afirmar que a escolha do diretor-geral da PF era prerrogativa dele.

“Confio plenamente em meus ministros. A eles conferi total autonomia. Aos setores da imprensa que me acusam de interferir na PF, lembro que, de acordo com a lei, a escolha do diretor-geral dessa exemplar instituição é de competência exclusiva do presidente da República.”

No dia seguinte foi ainda mais taxativo:

“Se eu trocar hoje, qual o problema? Tá na lei. Eu que indico e não o Sergio Moro, e ponto final. Não depende da vontade dele. E outra, ele é subordinado a mim, não ao ministro, deixar bem claro isso aí, eu que indico, tá na lei, o diretor-geral. Se eu não posso trocar um superintendente, eu vou trocar o diretor-geral, aí não se discute isso aí.”

Dois meses depois, Bolsonaro falou sobre a Polícia Federal no contexto da reportagem do Jornal Nacional que revelou, no dia 29 de outubro, que o porteiro do condomínio do Rio onde o presidente tem casa afirmou que no dia do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes um dos acusados do crime, Élcio Queiroz, entrou no condomínio dizendo que ia para a casa 58, que pertence ao presidente, então deputado federal. Na mesma reportagem o JN informou que Bolsonaro estava em Brasília nesse dia. Em uma transmissão ao vivo na internet, o presidente anunciou uma diligência da investigação. Disse que a PF iria colher o depoimento do porteiro do condomínio:

“Fiquei sabendo dia 9 de outubro, uma quarta-feira, que eu estava no processo, estava no processo, através do governador Witzel, do Rio de Janeiro. Ele teve acesso ao processo que seguia, corria em segredo de Justiça. E fiquei sabendo também que ele estava interessado em meu nome estar lá. Muita coisa mais aconteceu, mas lamento o delegado que presta serviço diretamente para o Witzel. Não é de forma apenas administrativa. Pelo que estamos sabendo ele reporta-se ao governador tudo que acontece. E ouviu o porteiro, o porteiro assinou, não sei se o porteiro leu o que estava assinando ou não. Se o porteiro falou aquilo mesmo, tá? Eu espero que o porteiro, que vai ser ouvido agora pela Polícia Federal juntamente com o MP federal, vai ser ouvido e ele fale a verdade, o que aconteceu.”

Em novembro o JN mostrou que o porteiro voltou atrás nas declarações que tinha dado à PF.

Bolsonaro também falou de investigações envolvendo a família toda, como seus filhos e também o amigo deputado Hélio Lopes, conhecido como Hélio Negão. E acusou o governador Wilson Witzel.

“Pensei que ele estava agindo, quer dizer, eu já sabia do que ele já fazia contra Flávio Bolsonaro, a força que ele dá pra que esse processo do Flávio Bolsonaro aí chegue ao ponto, de quem sabe, incriminar meu filho. A exemplo, o que ele queria agora com essa sua, eu não tenho dúvida, a sua participação na confecção do inquérito do caso Marielle com o meu nome também fosse pros tribunais um dia. Como um outro filho meu, o Carlos, é investigado também no Rio de Janeiro. Como minha família toda, lá no Vale do Ribeira, a sua vida já foi levantada pela Receita, toda levantada. Como tentaram incriminar o Hélio Negão, como se fosse um grande fraudador de INSS uns 15 anos atrás. Eu já conhecia o governador. Falei pro pessoal dos parlamentares, os ministros, porque tinha obrigação de falar. Porque a informação que eu passei a ter é que ia estourar na minha viagem.”

 

Em janeiro de 2020, Bolsonaro reuniu secretários estaduais de Segurança para falar da possibilidade de recriação do Ministério da Segurança Pública, sem a presença de Sergio Moro, o ministro da pasta.

A leitura era que o movimento do presidente poderia, na prática, tirar o comando da Polícia Federal de Moro.

“A gente vai estudar, estudaremos essas questões aqui e daremos uma resposta o mais rápido possível.”

Dois dias depois, Bolsonaro anunciou que, naquele momento, o ministério comandado por Moro não seria dividido, mas que não sabia sobre o futuro.

“A chance no momento é zero. Tá bom ou não? Acho que tá bom, né? Mas não sei amanhã, na política tudo muda, mas não há essa intenção de dividir, não há essa intenção.”
Repórter: “Na conversa, o senhor tranquilizou o ministro?”
Bolsonaro: “Eu nem conversei com o Moro, ele nem precisou ligar pra mim, mandar mensagem pra mim. Simplesmente está ignorado o fato.”

Em 22 abril, Bolsonaro decidiu sobre a troca no comando da Polícia Federal. Foi horas antes da reunião ministerial divulgada na última sexta (22).

Conversas por mensagens, que fazem parte do inquérito sobre tentativa de interferência na PF, mostram que às 6h20 da manhã Bolsonaro avisa Moro:

“Moro, o Valeixo sai nessa semana. Isto está decidido. Você pode decidir apenas a forma. A pedido ou ex oficio.”

Na reunião, o presidente reclamou diversas vezes do serviço de inteligência. E mais uma vez citou a PF:

“E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema com Paulo Guedes. Agora os demais, vou. Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações.”

No dia seguinte à reunião, o presidente manda uma notícia: PF está na cola de dez a 12 deputados bolsonaristas. E afirma: “Mais um motivo para a troca.”

 

Sergio Moro respondeu ao presidente explicando que a investigação não tinha sido pedida pelo então diretor da PF, Maurício Valeixo: “Esse inquérito é conduzido pelo ministro Alexandre no STF”, se referindo ao ministro Alexandre de Moraes.

A conversa ocorreu antes de uma reunião privada dos dois em que Bolsonaro comunicou Moro que iria trocar Valeixo. Moro disse então que sairia do governo se Valeixo fosse demitido.

No dia seguinte, 24 de abril, Moro foi surpreendido com a demissão de Valeixo no Diário Oficial da União.

Depois da divulgação do vídeo da reunião ministerial pelo Supremo Tribunal Federal, o presidente deu uma longa entrevista na porta do Alvorada. Afirmou ter recebido de antemão informações sobre operações policiais no Rio que envolveriam um de seus filhos.

“Possibilidade de busca e apreensão na casa de filho meu, onde provas seriam plantadas. Levantei, graças a Deus tenho amigos policiais civis e policiais militares no Rio de Janeiro, o que estava sendo armado para cima de mim. Moro, eu não quero que me blinde. Mas você tem a missão de não deixar eu ser chantageado. Nunca tive sucesso para nada.”

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