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ARTIGO/ Ponto de vista
E o febeapá continua
Joaci Góes
Ao velho e querido amigo Raimundo Lisboa Freeman!
Precisa-se de quem dê sequência à obra Febeapá-Festival de besteiras que assola o País, de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto,(1923-1968), jornalista carioca que se notabilizou por vergastar personalidades e costumes do seu tempo, publicando livros de humor, com crônicas satíricas e mordazes, resultando na criação de personagens que ganharam fama, a exemplo de A Velha Contrabandista, Rosamundo e Tia Zulmira. Em seu programa de TV – as Dez mais certinhas do Lalau –, Sérgio Porto ridicularizou os concursos de beleza e seus organizadores, badalados cronistas sociais. Foi, sem dúvida, um dos mais temidos jornalistas brasileiros.
Nos seus últimos anos, Stanislaw Ponte Preta escreveu dois volumes do Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País, crônicas inspiradas nas trapalhadas praticadas pela “redentora”, nome que ele deu ao golpe militar de 1964.
A lembrança do cáustico escriba vem a propósito do caudaloso festival de besteiras que vem deixando boquiaberto o expressivo segmento da opinião pública nacional que consegue manter-se imune ao concurso das paixões desenfreadas que comprometem a boa convivência entre pessoas de visões ideológicas ou simplesmente políticas distintas, conduzindo ao danoso culto de transformar-se em inimigos ferozes a quem, num ambiente minimamente civilizado, dever-se-ia considerar simples adversários, em decorrência do elementar entendimento de que estão acima do bem e do mal os sentimentos expressados de boa fé.
Para não recuarmos no tempo, uma vez que a cada semana cresce em espetaculosidade o festival de besteiras que nos assoberba, restrinjamo-nos ao episódio da famigerada reunião ministerial de 22 de abril último, apontada pelo ex-ministro Sérgio Moro, como prova da interferência ilegal do Presidente Bolsonaro nas atividades da Polícia Federal, um órgão do Estado para fazer diligências e apurar fatos, a serviço do Poder Judiciário. Vendo no episódio o quantum satis para o enquadramento do Presidente em crime de responsabilidade, capaz de fundamentar um pedido de impeachment, as oposições, pressurosamente, peticionaram à Suprema Corte pela divulgação dos fatos daquele momentoso encontro, pleito deferido pelo Ministro Relator Celso de Mello, decano do Praetorium Excelsior. Quem vem acompanhando com interesse os desdobramentos de mais esse entrevero, por maior que seja a animosidade que alimente contra o Presidente da República, não consegue encontrar na fita o que, sequer de longe, caracterize crime de responsabilidade. A montanha parirá um calango. Disso, aliás, a própria oposição já se convenceu ao considerar a abertura da fita que registrou a indigitada reunião um verdadeiro tiro no pé em suas aspirações de enquadrar o Presidente que, segundo pesquisas, saiu de mais uma de suas olímpicas confusões, ainda com maior popularidade. Uma coisa é alguém se comportar num encontro de modo deselegante, recorrendo a linguagem chula e a um vozear de tropeiros fazendo retornar à marcha estradeira as animálias transviadas. Outra coisa é o tropeiro vender a carga de terceiros que transporta e embolsar o dinheiro. Todas as indignadas críticas ao modo desabrido com que o Presidente conduziu a reunião têm cabimento. Crime de responsabilidade, porém, inexiste, por maior que seja o contorcionismo de uma grande parte da mídia, ávida de ver pelas costas quem lhe ameaça a continuidade de privilégios.
Quanto ao comportamento dos ministros do Meio Ambiente e da Educação, o que se pode dizer é que o primeiro foi profundamente infeliz em sua locução, dando margem a supor que pretenda aprovar medidas absurdas, quando o que queria dizer, segundo esclareceu, é que o momento seria favorável para se aprovarem leis ambientais necessárias, implacavelmente torpedeadas por xiitas ecológicos que obedecem a critérios ideológicos no mínimo discutíveis. Já o Ministro da Educação, sua continuidade tornou-se insustentável, seja por desequilíbrio emocional, seja por excesso de puxasaquismo, no esforço simiesco de querer parecer mais realista do que os numerosos reis presentes ao encontro.
Sobre o destino do inquérito, nada mais previsível do que o seu imediato arquivamento, na sequência do parecer do PGR que não poderá deixar de ser referendado pelo Ministro Celso de Melo, o mais notável detentor do saber jurídico-burocrático de nossa história, a ponto de, segundo seus críticos, inocentar os genocidas de Nuremberg, com base no clássico princípio do nullum crimen – nulla poena sine lege!
Será que depois de mais esse febeapá, nossos governantes, finalmente, dar-se-ão as mãos, para juntos, enfrentarmos o inimigo comum, a Covid 19?
Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado nesta quinta-feira, 28, na TB.

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Comentários

Vanderlei on 29 Maio, 2020 at 12:55 #

Excelente texto e melhor ainda recordar o saudoso Stanislaw Ponte Preta, o qual tive oportunidade de vê-lo diversas vezes na TV. Ele está fazendo muita falta e seria muito bom que ele escrevesse sobre o nosso STF, que não admite críticas.


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