DO EL PAÍS

A série ‘Hollywood’, da Netflix, recuperou em uma de suas tramas o nome de Lee Miller, uma mulher que viajou pelo mundo, foi precursora da fotografia surrealista e morreu deixando centenas de segredos em um sótão

Lee Miller, em sua fase de modelo, fotografada para a ‘Vogue’, em 1931, por George Hoyningen-Huene. / George Hoyningen-Huene / Condé Nast / Getty Images
Lee Miller, em sua fase de modelo, fotografada para a ‘Vogue’, em 1931, por George Hoyningen-Huene. / George Hoyningen-Huene / Condé Nast / Getty Images
 Eva Güimil

 

No quinto capítulo de Hollywood, uma das séries de sucesso da Netflix durante a pandemia, a personagem de Patti Lupone, produtora plenipotenciária de uma imitação da Paramount Pictures, oferece à mulher que Mira Sorvino interpreta (uma atriz fictícia chamada Jeanne Crandall) um papel que a fará ganhar o Oscar. Trata-se de Lee Miller.

Sorvino aceita de bom grado, embora não saiba quem é. Nada incomum em 1947, o ano em que mais ou menos se desenrola a cena. Lee Miller é provavelmente a desconhecida mais fascinante do século XX. Modelo, fotógrafa, amante e parceira de Man Ray, musa de Picasso e Cocteau, socialite, precursora da food porn e uma das primeiras civis que testemunharam o horror dos campos de extermínio, uma experiência que a mudou para sempre.

A primeira vez que Elizabeth Miller (Poughkeepsie, Nova York, 1907-1977) foi chamada de Lee Miller se deu na capa da Vogue, em uma aquarela de George Lepape, e sua chegada lá quase parece um clichê de romance romântico. Enquanto caminhava por Manhattan esteve a ponto de ser atropelada, mas um pedestre, que a observava absorto, interveio. O seu salvador não era outro senão Condé Montrose Nast, o homem que fez da Vogue uma lenda e hoje dá nome a uma poderosa editora de moda, atualidades e luxo.

A publicação procurava uma mulher que representasse a nova modernidade percebida nas ruas de Nova York, e Lee se encaixasse no perfil. Tinha um certo ar europeu com seus cabelos curtos e porte sofisticado e, ao mesmo tempo, era profundamente norte-americana graças ao corpo atlético e grandes olhos azuis. A câmera não era algo estranho para ela. Seu pai, apaixonado por fotografia, a havia imortalizado obsessivamente, mesmo em nus que hoje poderiam ser considerados perturbadores. Tinha utilizado isso como terapia: quando estava com apenas sete anos, Lee havia sido estuprada por um conhecido da família que também a infectou com gonorreia, um detalhe revelado por seu filho Antony Penrose em The Lives of Lee Miller.

Para curar seu corpo, sua mãe a banhava em água sanitária e desinfetava tudo o que tocava. Para curar sua alma, seu pai ––seguindo o conselho de um psiquiatra–– tentava fazê-la recuperar o controle de seu corpo, exibindo-o permanentemente.

Em 'Hollywood', a série Netflix criada por Ryan Murphy, Mira Sorvino interpreta uma atriz fictícia a quem é oferecido o papel de Lee Miller em uma cinebiografia.
Em ‘Hollywood’, a série Netflix criada por Ryan Murphy, Mira Sorvino interpreta uma atriz fictícia a quem é oferecido o papel de Lee Miller em uma cinebiografia.

Com a capa da Vogue, essa exposição chegou a todo o país. Nos anos 20, os melhores fotógrafos queriam sua imagem, seu rosto se multiplicava de costa a costa, como os de divas como Greta Garbo, Clara Bow e Louise Brooks. Mas, no auge da carreira, descobriu algo que parece tão moderno como a cultura da anulação de uma pessoa. Uma foto sua terminou em um anúncio de absorvente higiênico da marca Kotex e isso provocou um escândalo. Era a primeira vez que um produto de higiene íntimo era promovido por uma mulher de verdade. As demais marcas consideraram indigno que ela aparecesse em seus anúncios e pararam de chamá-la. Não se importou: fez as malas e foi para a muito menos puritana Paris, satisfeita por ter contribuído para romper um tabu absurdo.

De fotografada a fotógrafa

O vórtice cultural que a capital francesa era na década de 1920 a enredou. Foi atraída por novas tendências artísticas e, sobretudo, por um homem em particular: Emmanuel Radnitzky, mais conhecido como Man Ray, outro norte-americano exilado em Paris, o homem que tinha estado na origem do dadaísmo e do surrealismo. Seu primeiro encontro foi tão cinematográfico como o que a levou à capa da Vogue. Ela lhe pediu que a aceitasse como aluna, mas o homem cujo epitáfio (no cemitério de Montparnasse) o define como “despreocupado, mas não indiferente” respondeu que não tinha alunas e que iria no dia seguinte para Biarritz. Ela respondeu: “Eu também”. E o acompanhou.

Lee se tornou sua aprendiz, amante e principal modelo, e, como costuma acontecer quando se revê a história de mulheres que compartilham o trabalho com homens, seus trabalhos eram misturados no estúdio e muitos foram atribuídos erroneamente a Ray.

De fato, sua influência foi decisiva em algumas das inovações do fotógrafo, como depois de se assustar porque um rato pousou em seus pés. Acendeu a luz antes de terminar um processo de revelação e assim inventou a solarização. Um efeito que enfatiza os contornos dos corpos, gerando um dramatismo que ambos exploraram, mas permanece associado a ele. Para o mundo, ela era apenas a musa dele e em alguns livros de fotografia até se referem a ela como “seu técnico de laboratório”, ignorando até que Lee era uma mulher.

No entanto, ela possuía estilo próprio e algumas de suas fotografias como o Nude Bent Forward (nu inclinado para a frente), que o olho humano identifica como um pênis ou uma bunda, e que justifica as teorias de Freud sobre a sexualidade cotidiana, são seu expoente máximo.

O que começou como uma tutoria terminou como um duelo de egos que Ray, acostumado a modelos silenciosas que se limitavam a passar do estúdio para a sua cama, não sabia administrar. Ele a admirava e ao mesmo tempo era obcecado por ela. Quando percebeu que os sentimentos de Ray por ela tornariam impossível o seu desenvolvimento como artista, ela foi embora. Para se livrar de sua influência, Man Ray a estilhaçou e começou a fragmentar de modo obsessivo sua anatomia, especialmente olhos e lábios.

Lee Miller com alguns soldados em Rennes (França) em 1944, para onde foi como fotógrafa de guerra.
Lee Miller com alguns soldados em Rennes (França) em 1944, para onde foi como fotógrafa de guerra. Getty Images

Uma das obras resultantes é Objeto para ser Destruído, um metrônomo em cujo pêndulo ele adicionou uma fotografia de um olho de Lee e que incluía um pequeno manual de instruções: “Coloque no pêndulo de um metrônomo o olho da pessoa amada que você não voltará a ver. Ponha o metrônomo para funcionar até o limite de sua resistência. Com um martelo, tente destruí-lo de um só golpe”. Duas décadas depois, um grupo de estudantes de arte levou a obra ao pé da letra e aos gritos de “Viva a poesia! destruiu o metrônomo de Ray. Com o dinheiro do seguro, ele comprou outros cem e hoje eles podem ser vistos em vários museus, como o Reina Sofia. Dadaísta, sim, precavido, também.

Adeus, Man Ray

Não foi o único cativado pela beleza de Lee Miller. Pablo Picasso a pintou seis vezes e Jean Cocteau a incluiu em seu filme O Sangue de um Poeta, outro motivo para um surto de raiva de Ray, que queria Lee só para ele. Sua obsessão por Miller pode ser seguida pelas cartas do artista, que tenta segurá-la pedindo a em casamento. Mas ela o rejeitou.

Miller fugiu para os Estados Unidos para se distanciar dos egos desmedidos da capital da arte e montou um lucrativo estúdio de fotografia, tendo clientes como Elizabeth Arden, Helena Rubinstein e Saks Fifth Avenue. A Nova York que tirava a poeira da Grande Depressão parecia o pior lugar para começar um negócio, mas seus retratos solarizados triunfaram e toda a alta sociedade queria ser imortalizada por sua câmera. Quando o calor do verão nova-iorquino se tornou sufocante demais para ela, fechou o estúdio, pensando em abandoná-lo somente por dois meses. Nunca voltou.

Pelo caminho cruzou com o rico empresário e engenheiro egípcio Aziz Eloui Bey. Depois de Nova York e Paris, Lee Miller chegava ao Cairo. Durante três anos, viveu como um personagem de Paul Bowles, tão loira, tão branca, tão independente, viajando por aquela Cairo ancestral em que se sentia purificada. A mulher que tinha oscilado entre as agitadas Nova York e Paris levou três anos para se cansar da languidez cairota. Aziz não pôs obstáculos à separação: ela iniciava uma nova reinvenção.

Instalou-se em Londres e recuperou seu círculo de amigos: Picasso e Dora Maar, Paul Eluard e Nush e Man Ray com Ady, sua nova amante ––a primeira mulher negra a aparecer em uma revista de moda. E com eles, Roland Penrose, um artista britânico endinheirado, fascinado pelo movimento surrealista e conselheiro do Exército britânico na técnica de camuflagem.

Juntos, compartilharam um verão em Mougins, durante o qual Miller se reconciliou com parte de seu passado e documentou fotograficamente. Tornou-se amante de Penrose e se estabeleceu em Londres, embora a guerra se intensificasse e seus amigos lhe implorassem que abandonasse a Europa, como fazia a maioria dos norte-americanos. Mas ela preferiu ali permanecer e, em meio aos bombardeios que devastavam Londres, decidiu dar uma nova orientação à sua arte.

Em 1942, convenceu a Vogue a lhe conseguir uma credencial de correspondente e se juntou ao Exército a lado do jornalista David E. Sherman, da Life. Após o desembarque na Normandia, ambos percorreram durante meses uma Europa devastada pela barbárie.

Lee Miller conversa com o crítico de arte Frederick Laws na inauguração de uma exposição de Picasso em Londres em 1950.
Lee Miller conversa com o crítico de arte Frederick Laws na inauguração de uma exposição de Picasso em Londres em 1950.Getty Images

A Vogue, que tinha sido cética à ideia de ter uma correspondente de guerra, encontrou material excepcional. Lee havia entrado com sua câmera em lugares permitidos apenas ao Exército. Em seu uniforme militar e ao lado da 83ª Divisão de Infantaria do Sétimo Exército dos EUA, testemunhou a morte de dezenas de crianças em um hospital de Viena, documentou o uso de napalm pela primeira vez na Europa, visitou as casas dos ex-comandantes do Exército alemão em cujos aposentos jaziam os corpos daqueles que preferiram cometer suicídio com suas famílias, a ser julgados, e fotografou o horror de Buchenwald e Dachau.

Depois de visitar campos de extermínio, chegou a Munique, no apartamento particular de Hitler, na Prinzregentenplatz, e quase sem pensar se despiu e entrou na banheira do ditador. Horas antes, Hitler e Eva Braun haviam se suicidado em seu bunker. Scherman conseguiu a melhor foto de sua vida, Miller nua com o olhar perdido em um quarto branco asséptico no qual apenas o barro de Dachau ––que ainda permanecia em suas botas–– permitia entrever que aquela não era uma cena da vida cotidiana. Foi severamente julgada pelo que alguns consideraram uma frivolidade. Ela estava apenas tentando exorcizar o horror, a tristeza por aquela Europa vigorosa e brilhante que agora se desvanecia em cacos. Quantos de seus amigos teriam morrido de fome e frio, quantos foram humilhados e torturados pelo regime nazista?

Reencontrar os amigos foi sua obsessão depois do fim da guerra. Quando entrou em uma Paris recém-libertada, o primeiro lugar que visitou foi o número 7 na Rue des Grands-Augustin, a casa de Pablo Picasso. “Você é o primeiro soldado aliado que eu vejo”, disse ele a sua ex-modelo (que teve dificuldade de reconhecer no uniforme militar). A amizade deles permaneceu por toda a vida.

A última grande festa

O mundo estava se recuperando e Lee trocou o pó das trincheiras pelas primeiras coleções de alta costura do pós-guerra e pelo retorno da vida cotidiana às grandes capitais da Europa Ocidental. Em 1947, engravidou sem ter planejado e se casou com Penrose. Eles se instalaram em uma fazenda em Sussex e ela abraçou a vida doméstica com o mesmo fervor com que havia submergido nas etapas anteriores de sua existência. Sua casa se tornou um local de encontro de artistas e de festas perpétuas, mas ela nunca se recuperou completamente do que havia vivido. Sofria de transtorno de estresse pós-traumático e se refugiava cada vez mais no álcool.

Mas ainda teve tempo de se reinventar uma vez mais: trocou o quarto escuro pela cozinha e começou a inovar como tinha feito antes com a fotografia. Graduou-se na Le Cordon Bleu, em Paris, colecionou mais de 2.000 livros de culinária para os quais teve que arrumar um quarto e criou receitas que combinavam a cozinha tradicional norte-americana com o surrealismo: couves-flores rosa, espaguetes azuis, peitos de frango verdes, pudim de ameixa com molho azul, sorvete de marshmallow e refrigerante … sua cozinha era um reflexo de si mesma.

Apesar de anotar todas as receitas, nunca cumpriu seu objetivo de compilá-las em um livro, o que só seria feito por sua neta Ami Bouhasanne em 2017 em Lee Miller: A Life with Food, Friends and Recipes.

Naquela fazenda de Sussex não restava nada da mulher que o MI5 tinha investigado por medo de que fosse uma espiã soviética perigosa. Ou talvez tenha sobrado muito. Miller passou os últimos anos de sua vida quase reclusa em um quarto que também era um bar, vendo desvanecer-se a beleza com a qual nunca se importara e se distanciando de todos a seu redor, incluindo seu filho. Quando morreu de câncer aos 70 anos, era um enigma para o mundo e suas realizações haviam desaparecido porque nunca tivera o interesse em promovê-las.

Era também difícil reconhecer nela a modelo que tinha sido: o álcool e a depressão haviam cobrado seu preço. Era um mistério até para o filho, com quem havia tido uma relação complexa e que ignorava todo o passado daquela mulher de quem só se lembrava de estar irritada. Após sua morte, ele descobriu no sótão dezenas de milhares de negativos, documentos, jornais, câmeras, cartas de amor e lembranças que formavam parte da espinha dorsal da história europeia recente, uma história em que Lee Miller fora protagonista, mesmo que ninguém se lembrasse dela. Mesmo que, ao morrer o obituário do The New York Times se referisse a ela simplesmente como Lady Penrose

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