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CRÔNICA

HQ – Cinerama
 Cartum de Flávio Luiz (SP)

CRÔNICA

Lágrimas por Tico

Gilson Nogueira

“Lembrar do que é bom”, sentencia uma de minhas filhas. Ela está certíssima. Contudo, não há como recordar o que era ótimo, ou mais que isto, e chorar, por dentro, a todo instante, lágrimas de saudade, a começar por meus pais. E nessa de sofrer em silêncio a ausência de entes e amigos queridos, vou vivendo entre o riso e o pranto. Hoje, a onze dias de mais um aniversário de minha primogênita, chorei em lágrimas invisíveis ao ver em seus braços o gato de estimação dela e da filha de olhos abertos e sem respirar:
Quadro tocante, desses de fazer da gente uma lágrima em carne e osso. Na hora, com minha neta em soluços e gritos, fiquei sem palavras. Nem tanto, recordo, agora, enquanto ouço jazz na Rádio MEC. “ Minha netinha primeira, ele também vai para o Céu!”, afirmei, tentando consolá-las. Não deu. Os minutos foram de completa tristeza, até que alguém levantou a cabeça e disse: “ Todo mundo tem seu dia!”, buscando consolar mãe e filha. Saí do quarto em pranto íntimo e fui refletir ao ouvir Eumir Deodato, no You Tube. Ao dirigir-me para a cama, rezei,em todas as dimensões, pedindo a Deus que console os que foram vítimas do Novo Coronavírus. “ Meu Deus, quanto sofrimento em escala mundial! O que dizer a essas pessoas que ficaram ao ter parentes e amigos e conhecidos apunhaladas pela fatalidade e agora mortas? Faltam-me mais que palavras. Silêncio. Sou vítima, morrendo um pouco mais, mesmo que vivo, por testemunhar a maior tragédia dos novos séculos do homem sapiens. Boto, porém, fé na vida, na esperança, como brasileiro, em ver meu país livre de gente que não merece minhas lágrimas. Tico, muitíssimo mais que essa corja!

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do Bahia em Pauta

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