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CRÔNICA

A cloroquina cristalina em Teresina

Janio Ferreira Soares

Nesses complicados tempos de idiotices sem fim, dois recentes acontecimentos que até pensei ter outro sentido acabaram por me levar a associá-los a um anjo louco com asas de um avião que decolou antes da hora, e a um velho querubim de brancas madeixas a lamber sua testa cheia de expressões de nãos e de sins.

O primeiro fato foi quando a ministra Damares soube pelas redes que no Hospital Regional de Floriano, cidade a cerca de 250 quilômetros de Teresina, dezenas de portadores do Covid-19 medicados com cloroquina estavam sendo curados. Aí, mesmo sem entender nada do assunto, nossa singela pastorinha da sagrada igreja onde o milagre da goiabeira se deu, pegou um avião e foi até lá testemunhar o fenômeno logo batizado por ela de “o milagre da cloroquina”, felizmente desmentido pelo diretor do hospital, Dr. Justino Moreira, que disse não haver prova do efeito da droga nos pacientes curados.

Dias depois, dando continuidade a essa doentia obsessão por um remédio que um estudo publicado ontem pela Escola de Medicina de Harvard diz que mata mais do que cura, foi a vez do nosso glorioso capitão relinchar mais uma de suas pérolas numa live assistida por centenas daqueles equídeos que se aglomeram diariamente no estábulo de seu quintal, sempre a postos pra seguir o mestre aonde quer que seu potoc, potoc vá, mesmo que o galope suicida siga o rumo do desfiladeiro das valas comuns. Mas voltando à frase, ei-la em todo seu esplendor: “Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma tubaína”.

Como disse lá em cima, tivesse o mito ao menos folheado algum livro com o tecido morto de seus cascos, ou a ministra soltado à franja ao som de uma melodia sobre a poesia de Torquato, e eu até poderia achar que esse jogo de palavras misturando cloroquina e tubaína, mais a inútil viagem a Teresina, teriam sido uma espécie de provocação a Caetano, que, esquerdista até o talo, só lhe sobraria à opção de uma cajuína quente e choca antes de partir.

A propósito, pra quem não conhece como essa canção aconteceu, conta Caetano que ele a escreveu após uma visita à casa de seu Heli, pai de Torquato Neto, em Teresina. Era a primeira vez que os dois se viam depois do suicídio de Torquato, acontecido em 1972. Quase não se falaram. Apenas olharam fotos antigas, enquanto Caetano chorava sem parar. Sem saber muito o que fazer, seu Heli foi ao quintal, colheu uma pequena rosa e lhe deu. Em seguida, beberam uma cajuína, se despediram e, pra sorte nossa e dessa história, a mão do gênio esfregou a própria garrafa e permitiu que ela também pertencesse ao mundo.

Logo no começo, uma afirmação e a pergunta: “Existirmos: a que será que se destina?”. Se me permite uma resposta, meu velho baiano, a isso daí é que não. Viva Torquato Neto!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

“Tudo se transformou”, Demônios da Garoa: e a questão é samba aqui está, no domingo do Bahia em Pauta uma verdadeira raridade um das mais bonitas composições do carioca Paulinho da Viola interpretada pelos inimitáveis Demônios da Garoa, de Sampa. Gravação incluída no raro LP “Abre a Gira”, de 1973.. Os Demônios nessa época contavam com a seguinte formação: Arnaldo Rosa (voz e ritmo), Ventura Ramirez (violão de 7 cordas), Canhotinho (cavaquinho), Toninho (violão tenor) e Cláudio Rosa (pandeiro). Maravilha!!!

BOM DIA!

(Vitor  Hugo Soares)

“Tudo se transformou”, Demônios da Garoa:

maio
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Posted on 24-05-2020
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Do Jornal do Brasil

 

 

IESA RODRIGUES, cadernob@jb.com.br

Entre as muitas discussões e desorientações que agitam o mundo da moda e da indústria do vestuário e acessórios, as soluções ainda parecem indefinidas. Durante quanto tempo as vendas pelo e-commerce vão durar? Como lançar novidades, que ninguém sabe se terão uso ou local para exibir?

Mas esta situação não é nova, nem deriva apenas da pandemia. Uma prova é o que a americana Donna Karan vem anunciando desde o final dos anos 1990.

“Por alguma razão além da minha compreensão, as lojas querem receber suéteres de cashmere em julho. Claro que as consumidoras sabem que podem esperar pelas liquidações em outubro, quando realmente começa a esfriar.Temos que vender as roupas certas no tempo certo”, ela dizia em 1997.

Em 2010, ela pensava nos lançamentos: “temos que reduzir o número de peças mostradas nos desfiles e apresentações para a imprensa. Por que antecipar as novidades cinco meses antes de irem para as lojas? Não faz sentido, quando está nevando, as pessoas não encontram botas ou um casaco quente. “ A solução dela foi criar uma marca atemporal, a Urban Zen em 2016.

Enquanto Karan dava estes palpites, os colegas de profissão fingiam que davam atenção. Até que a crise desta pandemia assustou todo o setor. Designers, empresas e fabricantes estão tentando se reunir, enfrentando falências e fechamentos de muitas lojas poderosas, como a Neiman Marcus e a Nordstrom, nos Estados Unidos. Como lançar as semanas de moda, como organizar as entregas para o varejo e competir com as redes de fast fashion, são apenas algumas questões atuais, ainda sem definições. Nesta semana, alguns anúncios parecem trazer uma volta ao consumo normal. Um exemplo é o Aventura Mall, de Miami, que reabriu na quinta-feira, dia 21.

Donna Karan não foi a única profetiza desta situação. O desfile do inverno 2020/2021da grife Maison Margiela, assinado pelo genial John Galliano, mostrou suas visões do que vamos vestir (ou já estamos vestindo): na complementação, as modelos usavam máscaras e as bolsas eram protegidas, cobertas com plástico.

Para encerrar, uma ícone da moda, a holandesa Iris Van Herpen também faz sua profecia. “ Vamos voltar à roupa on demand”. O que significaria isto? A volta às costureiras? Aguardemos as próximas iniciativas.

“Agradeço ao Ministro Interino Eduardo Pazuello pelo convite para ser Conselheiro do Ministério da Saúde, mas não seria coerente ter deixado o cargo de Ministro da Saúde na semana passada e aceitar a posição de Conselheiro na semana seguinte”, disse Teich no Twitter.

“Uma condução técnica do Sistema de Saúde significa uma gestão onde estratégia, planejamento, metas e ações são baseadas em informações amplas e precisas, acompanhadas continuadamente através de indicadores.

Desejo ao Ministro Interino Eduardo Pazuello todo o sucesso na condução do Ministério da Saúde e estou à disposição para que a transição aconteça da melhor forma possível.”

DO CORREIO BRAZILIENSE

Gravação da reunião ministerial de 22 de abril mostra que Bolsonaro insistiu na troca do ”pessoal da segurança no Rio”. Segundo o ex-ministro Moro, ele se referiu à Polícia Federal. Encontro revela enxurrada de disparates de ministros e agressões verbais contra autoridades


postado em 23/05/2020 07:00 / atualizado em 23/05/2020 07:25

 
A queda do sigilo da reunião ministerial foi determinada pelo ministro Celso de Mello, do STF(foto: Marcos Correa/PR)
A queda do sigilo da reunião ministerial foi determinada pelo ministro Celso de Mello, do STF (foto: Marcos Correa/PR)

Com a queda no sigilo do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, no Palácio do Planalto, vieram à tona declarações do presidente Jair Bolsonaro que reforçam suspeitas de tentativa de interferência na Polícia Federal. As imagens se juntaram ao inquérito que tramita na Corte para investigar acusações do ex-ministro Sergio Moro e se somam a depoimentos de policiais federais, ministros da área militar do governo e provas que foram apresentadas por testemunhas e colhidas pelos agentes. Ao autorizar a publicação das imagens, o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), destacou que o conteúdo poderá ser utilizado para embasar decisões de colegas de plenário, em caso do avanço da ação até o julgamento.

Em um dos trechos da gravação, Bolsonaro citou a Polícia Federal e falou em “trocar o pessoal da segurança no Rio de Janeiro”. De acordo com Sergio Moro, foi neste momento que ficou evidente o interesse do chefe do Executivo em interferir na corporação para proteger familiares e aliados. O comandante do Planalto, por sua vez, alega que se referia à sua segurança pessoal.
Bolsonaro afirmou que todos os ministros precisam estar alinhados com ele, como no armamento da população, que, conforme frisou, servirá para impedir que “o Brasil vire uma ditadura”. O presidente mencionou que pretendia interferir em todos os ministérios, se fosse preciso. 
O presidente reclamou do sistema de segurança, que, de acordo com ele, não passa informações suficientes. Mas citou um serviço de inteligência pessoal, sem dar mais detalhes. “O meu particular funciona. O que tem oficialmente, desinforma. Prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho”, completou. Entre palavrões e ataques, Bolsonaro criticou governadores, como os do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e de São Paulo, João Doria.
Celso de Mello deve determinar novas diligências na próxima semana. Na terça-feira, será ouvido novamente o empresário Paulo Marinho, que acusa o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) de ter recebido informações vazadas da Operação Furna da Onça.

Reunião bombástica

Veja trechos das declarações feitas no encontro ministerial e as reações que causaram

Bateu…

“Eu não vou esperar f. a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira”
 
“O que esses caras fizeram com o vírus, esse bosta desse governador de São Paulo, esse estrume do Rio de Janeiro, entre outros, é exatamente isso. Aproveitaram o vírus”
 
“Eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos, eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. (…) Agora, os demais, vou! Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações”
 
Jair Bolsonaro, presidente
 
“Por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”
 
Abraham Weintraub, ministro da Educação
 
“Precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos neste momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”
 
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente
 
“Nós estamos fazendo um enfrentamento, mais de cinco procedimentos o nosso ministério já tomou iniciativa, e nós estamos pedindo inclusive a prisão de alguns governadores”
 
Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos
 
“O senhor já notou que o BNDES e a Caixa, que são nossos, públicos, a gente faz o que a gente quer. Banco do Brasil, a gente não consegue fazer nada, e tem um liberal lá. Então, tem que vender essa p. logo”
 
Paulo Guedes, ministro da Economia

… Levou

“O Brasil está atônito com o nível da reunião ministerial. Palavrões, ofensas e ataques a governadores, prefeitos, parlamentares e ministros do Supremo demonstram descaso com a democracia, desprezo pela nação e agressões à institucionalidade da Presidência da República”
 
João Doria, governador de São Paulo
 
“A falta de respeito de Bolsonaro pelos poderes atinge a honra de todos. Sinto na pele seu desapreço pela independência dos poderes. E espero que num futuro breve o povo brasileiro entenda que, do que ele me chama, é essencialmente como ele próprio se vê”
 
Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro
 
“Na forma e no conteúdo, a tal reunião ministerial revela um repertório inacreditável de crimes, quebras de decoro e infrações administrativas. Além de uma imensa desmoralização e perda de legitimidade desse tipo de gente no comando da nossa nação”
 
Flávio Dino, governador do Maranhão
 
“A decisão (de Celso de Mello) possibilita às autoridades e à sociedade civil constatar a veracidade das afirmações do ex-ministro em seu pronunciamento de saída do governo e em seu depoimento à Polícia Federal”
 
Trecho de nota da defesa do ex-ministro Sergio Moro
 
“A reunião ministerial do dia 22 de abril ficará marcada como um dos momentos mais baixos e deprimentes da história recente brasileira. Nenhum apego à liturgia do cargo, linguagem chula, ameaças gratuitas. Em alguns momentos parecia mais uma reunião de uma gangue armamentista”
 
PSDB, em nota
 
“A reunião ministerial revela o baixo nível dos integrantes do atual governo. Como bárbaros, jogam a República no caos, desrespeitam as leis, as instituições e ignoram a Constituição. (…) Ademais, indica a tentativa de formação de milícias em defesa de um projeto antinacional e antidemocrático”

DO EL PAÍS

O governador Cuomo emitiu a ordem após ação movida por entidade de direitos civis; na Espanha, Governo se prepara para reabrir país a turistas estrangeiros a partir de julho

O governor de Nova York, Andrew Cuomo, em entrevista coletiva na quinta-feira.
O governor de Nova York, Andrew Cuomo, em entrevista coletiva na quinta-feira.SPENCER PLATT / AFP

 Amanda Mars

Washington

O governador de Washington, Andrew Cuomo, surpreendeu na noite desta sexta-feira ao emitir uma ordem executiva autorizando as reuniões de até 10 pessoas em qualquer parte do Estado – incluindo a cidade de Nova York, epicentro da crise – por qualquer propósito ou motivo. A medida, que gerou críticas das autoridades locais, foi divulgada horas após Cuomo autorizar reuniões somente para os serviços religiosos, por ocasião do Memorial Day, que os Estados Unidos celebram nesta segunda-feira em honra aos caídos em combate. A União Americana das Liberdades Civis (ACLU), principal entidade de direitos civis dos EUA, havia entrado com uma ação contra o governador por discriminar as demais atividades.

Em todo o mundo, países preparam seus planos para a retomada das atividades. A Espanha anunicou que se abrirá a turistas estrangeiros a partir de julho. Na mesma linha, a reabertura do Estado de Nova York, o mais atingido pela pandemia, com quase 29.000 mortos e 20 milhões de habitantes, está sendo feita por etapas e territórios, mas a Grande Maçã não tinha conseguido tornar mais lenta a crise – requisito para começar a retomar as atividades. “Essa ordem chocante, forçada por uma ação, não muda nada em relação aos riscos associados às reuniões de pessoas, especialmente em espaços fechados. Precisamos que a população continue sendo inteligente e use o bom senso quanto aos riscos deste vírus, independentemente do que um tribunal tenha nos obrigado a fazer”, criticou no Twitter Mark D. Levine, presidente do Conselho Municipal de Saúde de Nova York.

No entanto, as precauções obrigatórias de manter os quase dois metros de distância e usar máscara continuam vigentes para tais encontros. Horas antes, o presidente Donald Trump havia declarado como “serviços essenciais” as igrejas e outros lugares de culto, incentivando os governadores a darem luz verde para a sua reabertura. “Alguns governadores consideraram as lojas de bebidas e as clínicas de aborto como essenciais, mas não as igrejas e outros templos. Isso não está certo”, criticou o republicano, na mesma linha das queixas habituais dos manifestantes contra as medidas de confinamento.

Todo o país já iniciou diferentes níveis de desconfinamento. E neste fim de semana, com feriado na segunda-feira, espera-se uma retomada das movimentações das pessoas. As praias de Nova York, Nova Jérsei, Connecticut e da maior parte da Flórida abrirão, embora com restrições

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Sponholz, NO

 

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DO EL PAÍS

Vídeo e entrevista desmontam versão de presidente sobre PF e elevam pressão sobre Aras por denúncia. A uma radio, mandatário diz ter sido avisado de operações policiais contra a família

 

 Carla Jiménez|Afonso Benites|Felipe Betim

São Paulo e Brasília

A íntegra da reunião do conselho de ministros de Jair Bolsonaro revelada nesta sexta-feira por ordem do decano do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, expôs como nunca o modus operandi do Governo ultradireitista e desmontou a versão do presidente de que ele jamais havia cobrado mudanças na estrutura de segurança, Polícia Federal incluída, para proteger seus familiares. Nas imagens, Bolsonaro aparece não apenas ameaçando trocar “ministro” caso não fosse atendido na missão de preservar seus parentes de “sacanagens” —ele mira na direção do então ministro da Justiça, Sergio Moro no exato momento—, como fala também da necessidade de proteger “amigos”. O Planalto vinha repetindo que o presidente, na reunião, se referia à segurança pessoal de seus familiares, que cabe ao GSI (Gabinete Segurança Institucional), e não a policiais federais. A menção aos amigos, porém, complica ainda mais a linha de defesa de Bolsonaro no inquérito que apura se ele tentou interferir na PF, uma vez que o GSI não teria como se envolver na proteção de quem não seja da sua família.

De acordo com juristas ouvidos pelo EL PAÍS, o vídeo corrobora a tese de Moro de que houve intenção de intervir na corporação policial, e aponta para ao menos dois crimes: advocacia administrativa e prevaricação. O primeiro é um crime previsto no Código Penal, que é patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública. Já a prevaricação diz respeito a ações ou omissões de funcionário público para atender objetivo de terceiros.

“O vídeo traz uma fala bastante clara do presidente dizendo que não mediria esforços para interferir em estrutura governamental —no caso, a Polícia Federal— para proteger familiares e amigos. Isso corrobora a versão do ex-ministro Sérgio Moro”, diz Eloísa Machado, professora de direito constitucional na FGV Direito de São Paulo. “Não podemos esquecer que, de fato, o presidente promoveu mudança na Polícia Federal, indicando pessoa muito próxima da família e que depoimentos do inquérito confirmam também essa versão”, explica Machado. “O vídeo derruba a justificativa do Bolsonaro de que ele se referia à segurança do GSI, e não à PF. Ele fala expressamente em ‘foder amigos meus’, e amigo de presidente não tem segurança do GSI. Só pode ser a PF”, concorda Rafael Mafei, da USP.

Um jurista próximo à Procuradoria Geral da República, avalia que o vídeo é muito ruim do ponto de vista jurídico para o presidente Bolsonaro. “Ele demonstra muita preocupação. Ele quer o tempo todo puxar esse assunto. Ele avisa aos ministros o tempo todo que precisa deles. Aquela reunião foi para o Moro”, acredita. Ele destaca que o presidente falou que contava com “inteligência particular”, e que a PF não informava nada. “Não tinha nada a ver com segurança, ele criticou a PF. Mesmo não sendo assunto, ele falava, e mudava o assunto”, explica ele.

A pressão sobre Moro ficou destacada em vários momentos da reunião. Em um deles, Bolsonaro disse que o ministro deveria se manifestar sobre a prisão de pessoas que furavam a quarentena para conter os contágios do novo coronavírus. “Tem que falar, pô! Vai ficar quieto até quando? Ou eu tenho que continuar me expondo? Tem que falar, botar pra fora, esculachar!”. Em outra ocasião, voltou ao tema da “interferência” e avisou seus ministros de que iria interferir em suas pastas se fosse preciso. Reclamou que a Polícia Federal não passava informações ao Planalto. “Eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção”. E prosseguiu: “Eu não posso ser surpreendido com notícias. Eu tenho a PF que não me dá informações. Eu tenho as… as inteligências das Forças Armadas que não tenho informações. ABIN tem os seus problemas, tenho algumas informações”.

Depois, em entrevista à Jovem Pan após a divulgação do vídeo, o presidente voltou a reforçar a ideia de que exigia de Moro espécie de proteção via PF. “O tempo todo vivendo sob tensão, possibilidade de busca e apreensão na casa de filho meu, onde provas seriam plantadas. Levantei isso, graças a Deus tenho amigos policiais civis e policiais militares do Rio de Janeiro, que isso tava sendo armado pra cima de mim”, disse Bolsonaro. “Moro, eu não quero que me blinde, mas você tem a missão de não deixar eu ser chantageado”, lembrou.

Efeito político e próximos passos

O conteúdo do vídeo agora será analisado pela Procuradoria Geral da República —que também terá e mãos uma série de depoimentos e as novas acusações feitas pelo ex-aliado de Bolsonaro Paulo Marinho. “Certamente esse vídeo ajuda a compor o acervo probatório indiciário de crimes”, diz Eloísa Machado. A pressão agora recai sobre Augusto Aras, uma vez que ele pode acusar formalmente o presidente de crime. “Com certeza há substância para abrir um pedido de afastamento. Se vai abrir ou não é outra coisa. Mas isto é muito mais que o Fiat Elba que afastou o presidente [Fernando] Collor e muito mais que a pedalada fiscal da presidenta Dilma [Rousseff]”, diz o jurista próximo à PGR. Machado, da FGV, concorda com o embasamento para destituição.. “São crimes comuns, que também geram afastamento e perda do cargo, caso aconteça a condenação”, conclui.

Para o advogado Marco Aurélio de Carvalho, o procurador-geral Augusto Aras, tem a obrigação de apontar o crime de prevaricação do presidente diante do conteúdo do vídeo, ou ele mesmo pode ser acusado de prevaricação. “Essa tentativa de interferência se enquadra plenamente no artigo 85 da Constituição Federal e é suficiente para dar ensejo, entre outras, a pedido de cassação do presidente”, diz o advogado Cristiano Vilela, da Comissão de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo.

A grande pergunta é como Aras, indicado por Bolsonaro em setembro de 2019 como alguém “alinhado” ao Planalto, reagirá. Se decidir pela denúncia contra Bolsonaro, ela ainda precisará dos votos dois terços dos deputados para virar uma ação penal e, assim, afastar o presidente do Planalto. Para tentar prever o quanto de pressão o procurador-geral e o Congresso terão na matéria, uma variável é quanto de desgaste as imagens, cheias de palavrõs e vulgaridades, trarão para o apoio popular de Bolsonaro, já afetado pela crise do coronavírus. Rafael Mafei, da USP, é cético: “O vídeo alimenta a base de Bolsonaro”.

Em sua defesa, o presidente disse que considerou a divulgação do vídeo como positiva. “Até que foi boa. Cada um pense, interprete da maneira que quiser esse vídeo, mas é a maneira que eu tenho de ser. E vou continuar sendo assim porque antes da eleição eu era assim. Como militar eu era assim”, afirmou em entrevista à rádio Jovem Pan. Ainda tratou as revelações de Moro como falsas. “É mais um tiro n’água, mais uma farsa como tantas outras que eu acompanho em minha vida”.

O escritor autoexilado nos Estados Unidos e ideólogo do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, concordou com a ideia de as imagens mostram um presidente “autêntico”: “Ouvi dizer que o Moro e o Celso de Mello estavam escondendo um vídeo do Bolsonaro, para depois exibir e dizer: ‘Ah, vamos mostrar ao povo quem é o Bolsonaro’. Pois mostraram, Bolsonaro é o presidente que todos os brasileiros quiseram e querem. É o presidente que não suporta ver uma elite armada oprimindo um povo desarmado.”

Processo contra Weintraub e impeachment

Ao citar “povo desarmado”, Carvalho se referia ao trecho da reunião em que Bolsonaro falou abertamente que pretende armar a população. Um dos intuitos declarados foi o de intimidar prefeitos que decretaram quarentena durante a pandemia de coronavírus. “O que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui!”.

As imagens ainda revelaram o plano do ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) de se aproveitar da crise sanitária para alterar uma série de regras de proteção ambiental, mostram Damares Alves (Direitos Humanos) ameaçando governadores de prisão e escancaram a conduta do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que ameaçou autoridades e ministros do Supremo Tribunal Federal. “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”, disse Weintraub. O ministro da Educação é o que está mais próximo de se complicar por causa do vídeo. Na decisão que liberou a íntegra das imagens, Celso de Mello apontou “indício de crimes contra a honra” do Supremo.

No meio político, a reação foi imediata. A oposição, que não tem maioria no Congresso e ainda não convenceu o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a por em andamento um processo de impeachment, não poupou indignação: “Repleto de crimes, ameaças à democracia, quebras de decoro e de falta de ética para gerir uma nação. São inaptos, mas também são abjetos. Bolsonaro não pode continuar a frente da presidência da República! Tem que cair pelo bem do país”, escreveu o senador Randolfe Rodrigues (REDE).

A antiga líder do Governo no Congresso, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), disse que o Ministério Público não pode mais segurar qualquer denúncia contra Bolsonaro. “As provas são cabais e podem embasar tanto um processo de impeachment quanto de interdição. Bolsonaro conseguiu dar munição aos dois. É um mito!”, ironizou.

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