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Posted on 17-05-2020
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Quem vai pagar o preço pelo desastre que se aproxima

J. R. Guzzo

Um dia, no futuro, vão ser feitas as contas exatas e finais do custo que a Covid-19 trouxe para o Brasil, mas aí já vai ser tarde demais – o mal estará feito, e nenhum esforço, seja dos governos ou de quem for, vai ser capaz de devolver mais adiante o que foi perdido hoje. Vidas humanas “não têm preço”, como dizem desde o começo disso tudo a maioria dos políticos, homens considerados como “de ideias” e aproveitadores diversos; por conta disso, todos os atos de destruição que vêm sendo praticados no país em nome do combate ao vírus têm de ser apoiados. “Salvar vidas”, nesta visão de mundo, é mais importante que salvar “empregos”, “empresas”, etc. Desde o começo, sempre foi um argumento falso. Não vai deixar de ser só porque passa mais tempo e aumenta o número de mortos.

Não é aceitável, obviamente, que para cuidar de vidas seja necessário arruinar o Brasil ao mesmo tempo. Mas é exatamente isso que está sendo proposto pela maior parte da gente que manda. As pessoas que não estão doentes também têm vidas a serem preservadas — a obrigação mais básica dos governos e demais responsáveis pela gestão da sociedade é tratar com o mesmo empenho das duas coisas, a saúde pública e a sobrevivência de todos os cidadãos.

Pode ser muito difícil, mas em nenhum lugar está escrito que os governos tenham direito a lidar apenas com coisas fáceis. Não se trata de uma opção em aberto. Não se trata de sobrevivência “econômica”. Manter a produção, o trabalho e as demais atividades essenciais a uma sociedade não é uma questão de aumento do PIB. É, simplesmente, a vida das pessoas. Ela tem de ser defendida tanto quanto a vida das vítimas da epidemia.

O Brasil, até o momento, tem cerca de 13 mil mortos em consequência da Covid-19 – algo como 0,006% dos 220 milhões de brasileiros. O número total de infectados, nestes últimos dois meses, está por volta de 180 mil. Em 2018, segundo os últimos números oficialmente computados pelo IBGE, morreram no Brasil, por todos os tipos de causa, 1,3 milhão de pessoas – 100 vezes mais que o total de mortos na presente epidemia.

É claro que uma vida humana vale mais que um conjunto de porcentagens. Os que sofrem com a tragédia das perdas individuais não podem ser consolados com um cálculo aritmético, nem com a informação de que são uma minoria no total da população. Mas ninguém perde por ter em mente as dimensões exatas do problema.

O preço que a população brasileira vai pagar pelos desastres que estão sendo praticados hoje em nome da “vida” — sobretudo a imensa maioria de pobres cuja única esperança de um mínimo de bem estar é o trabalho — será um horror. Como sempre, os responsáveis pelas decisões não vão pagar nada pelo desastre que causaram — a conta jamais irá para qualquer autoridade que está aí. Faz parte da nossa calamidade permanente.

“”Pessoa Nefasta”, Gilberto Gil e BaianaSistem: a canção  indignada do grande compositor gravada , ao vivo, no memorável  show do encontro de Gil com o grupo BaianaSistem. Para ouvir, cantar, dançar e pensar.

BOM DOMINGO!!!

(Vitor Hugo Soares)

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DO CORREIO BRAZILIENSE

Na cerimônia pelos 500 dias do governo, ministro frisou a necessidade de Bolsonaro impedir que servidores tenham aumentos, como está previsto em trecho do projeto de socorro financeiro a estados e municípios. ”É inaceitável que tentem saquear o gigante que está no chão”


 
Guedes comparou os aumentos para os servidores a medalhas,
Guedes comparou os aumentos para os servidores a medalhas,”dadas depois da guerra, não antes” (foto: AFP / EVARISTO SA)

O ministro da Economia, Paulo Guedes, enfatizou a importância de o presidente Jair Bolsonaro vetar o trecho do projeto de socorro a estados e municípios que permite reajuste salarial a algumas categorias do funcionalismo, mesmo nesse período de pandemia. Ele pediu a contribuição dos servidores e disse que “é inaceitável que tentem saquear o gigante que está no chão”. E adaptou uma frase do ex-presidente John Kennedy ao acrescentar que “nós queremos saber o que podemos fazer de sacrifício pelo Brasil nessa hora, e não o que o Brasil pode fazer por nós”.

“Vamos nos aproveitar de um momento desse, de maior gravidade de uma crise de saúde, e vamos subir em cadáveres para fazer palanque? Para arrancar recursos do governo? Isso é inaceitável! A população não vai aceitar. Vai punir quem usar cadáveres como palanque”, frisou Guedes, ontem, durante cerimônia no Palácio do Planalto em alusão aos 500 dias do governo Bolsonaro.

O ministro ainda enfatizou que “as medalhas são dadas depois da guerra, não antes” e destacou que “nossos heróis não são mercenários”. Também falou que “é inaceitável que usem a desculpa da crise da saúde para saquear o Brasil na hora que ele cai”. “Que história é essa de pedir aumento de salário porque o policial vai à rua exercer a sua função, ou porque um médico vai à rua exercer a sua função? Se ele trabalhar mais por causa do coronavírus, ótimo. Ele recebe hora extra. Mas dar medalhas antes da batalha? As medalhas vêm depois da guerra, depois da luta”, ponderou Guedes.

Assim que o país vencer a pandemia e se mostrar “um Brasil forte, erguido”, Guedes disse que será o momento de se discutir o reajuste para servidores. “Nós vamos lembrar disso. Vamos botar o quinquênio, o anuênio, o milênio, o Eugênio, tudo o que for preciso”, ironizou. E completou: “Mas não antes da batalha. Não podemos aproveitar um momento de fragilidade que o Brasil cai numa crise financeiramente”, analisou.

Segundo Guedes, “acho que nós, como brasileiros, temos que estar juntos. Temos que atravessar essa primeira onda de saúde juntos. Temos que estar juntos no esforço para impedir que o Brasil colapse, também financeiramente; essa segunda onda que o presidente Bolsonaro tem alertado, que pode nos remeter a um país onde prateleiras estão vazias”.

Redução
A proposta de socorro a estados e municípios aprovada no Congresso reduziu de R$ 130 bilhões para R$ 43 bilhões a estimativa de economia, por parte do governo, com o congelamento da remuneração do funcionalismo pelos próximos 18 meses. Bolsonaro prometeu que vai vetar essa parte do projeto, mas ainda não anunciou quando o fará.

Para Guedes, o governo precisa da contribuição do servidor porque “dezenas de milhares de brasileiros estão sendo demitidos, milhares de empresas estão fechando”. “Só estamos pedindo uma contribuição. Não queremos tirar nada de ninguém. Nós sempre tivemos a mesma posição. Não vamos tirar nada de ninguém. Por favor, enquanto o Brasil está de joelhos, nocauteado, tentando se reerguer, por favor, não assaltem o Brasil. Não transformem um ano eleitoral, onde é importante tirar o máximo possível do gigante que foi abatido, deixa ele levantar.”

O ministro disse que as próximas duas semanas serão decisivas para garantir que o provável veto de Bolsonaro não seja derrubado no Parlamento. Guedes comentou que o Legislativo “não pode derrubar o veto para impor uma derrota política ao governo, para desorganizar economia brasileira, ou para transformar em farra eleitoral um ato de grandeza nosso”.

“Se ele (Bolsonaro) tiver que vetar, ele veta. Não transformem isso em ato político. Esse é um pedido que eu faço de colaboração, que sejamos bem interpretados”, salientou Guedes.

DO CORREIO BRAZILIENSE

Vice-presidente e a esposa, Paula, fizeram teste e aguardam o resultado. Por enquanto, ficarão isolados no Palácio do Jaburu


 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), fez o teste para diagnosticar se está ou não infectado pelo novo coronavírus. O exame foi realizado neste sábado (16/5) e a instrução é que o general fique em isolamento até que o resultado saia. A esposa dele, Paula, também foi submetida ao teste e cumprirá a medida junto ao marido, no Palácio do Jaburu, residência oficial do número dois do Executivo Federal.

O resultado deve ficar pronto na segunda-feira (18/5). Por isso, a agenda de Mourão foi cancelada até que se tenha certeza de que ele não está infectado. A suspeita se deu depois que um servidor próximo ao vice-presidente testou positivo para o novo coronavírus. Mourão teve contato com o infectado na última quarta-feira (13/5). 
A assessoria de Mourão divulgou uma nota esclarecendo as informações. Confira a íntegra:
“Na manhã de hoje, sábado, 16 de maio, foi confirmado o teste positivo para o covid-19 de um servidor que esteve próximo ao Senhor Vice-Presidente da República na quarta-feira, dia 13.
 
Imediatamente, o Vice-Presidente Hamilton Mourão e sua esposa Paula Mourão foram submetidos a teste para o covid-19, permanecendo isolados na residência oficial do Jaburu.

maio
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Posted on 17-05-2020
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Regina Duarte usou o Instagram na manhã deste sábado para dizer que está “sendo vítima de infodemia”.

“Matérias tendenciosas, maldosas, venenosas. Mas posso garantir que tudo nessa pandemia vai passar. Em breve vocês poderão ver os resultados da Cultura que quero pro meu país acontecendo, sob minha gestão. Não vou rebater os absurdos lançados contra mim, estou trabalhando muito. E vou mostrar serviço!”, afirmou.

A postagem de Regina ocorre no dia em que a imprensa noticiou que o governo federal exonerou Pedro José Vilar Godoy Horta do cargo de secretário especial adjunto da Secretaria Especial da Cultura. Ele foi um dos primeiros nomeados por Regina.

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 Zé Dassilva, NO

 

Jornal do Brasil

 

País – Política

Macaque in the treesTeich não ficou nem um mês no cargo (Foto: Adriano Machado/Reuters/16/4/20)

O ministro da Saúde, Nelson Teich, pediu demissão do cargo nesta sexta-feira (15) menos de um mês após assumir o cargo em 17 de abril em meio à pandemia do novo coronavírus.

Assim como Mandetta, Teich também apresentou discordâncias com o presidente Jair Bolsonaro sobre as medidas para combate ao coronavírus.

Em entrevista à agência de notícias Sputnik Brasil, o infectologista Edimilson Migowski, professor de Doenças Infecciosas da Universidade Federal do Rio do Janeiro (UFRJ), disse que qualquer análise sobre o desempenho de Nelson Teich à frente do Ministério da Saúde é “prematura”.

“Qualquer opinião que se venha a ter sobre Nelson Teich vai ser uma opinião com a possibilidade de não ser justa, nós temos pouco dados aqui de fora e eu sei o quanto é conturbado, não deve ser fácil ser chefiado pelo presidente Bolsonaro”, disse.

Segundo Edimilson Migowski, há na gestão da pandemia da COVID-19 um alto de grau de “politização de decisões”.

“Eu não sei se alguém faria melhor do que Teich estava fazendo, pelas dificuldades que são grandes. Ainda mais em um conflito político que existe, de uma politização da questão da COVID-19, em que a cloroquina se tornou uma questão política e não técnica. Assim como abrir ou não abrir determinados setores do comércio deixou de ser uma questão puramente epidemiológica para ser uma decisão política”, afirmou.

Um dos exemplos citados por Edimilson Migowski ocorreu nesta semana, quando Nelson Teich soube através da imprensa da decisão de Jair Bolsonaro sobre a ampliação das atividades consideradas essenciais, numa tentativa de acabar com o isolamento social, defendido pelo Ministério da Saúde.

“Às vezes o presidente atropela, ele é presidente e pode atropelar, tudo bem, mas se ele tivesse feito uma parceria, certamente o Ministério da Saúde tem talento suficiente para a toque de caixa baixar normas que aumentem a segurança da operação. É ruim trabalhar assim, eu não gostaria de trabalhar assim”, completou Migowski.(Sputnik Brasil)

DO EL PAÍS

Justiça obriga inclusão de dados de cor das vítimas nos óbitos da pandemia, num momento em que ao menos um terço dos registros não traz essa informação. Dados disponíveis sugerem que os negros são maioria entre as vítimas

Mulher usa máscara em um ponto de ônibus no Rio de Janeiro na última segunda-feira.
Mulher usa máscara em um ponto de ônibus no Rio de Janeiro na última segunda-feira.RICARDO MORAES / Reuters

A Justiça Federal do Rio de Janeiro determinou, no último dia 4, que notificações de casos confirmados e óbitos em decorrência do coronavírus incluam, obrigatoriamente, informações de raça e cor dos infectados. A liminar estabelecia que tanto a União, quanto o município e o Estado do Rio de Janeiro cumpram essa determinação. A decisão tentava corrigir a lacuna de informações sobre raça de infectados e vítimas de covid-19, pois ao menos um terço das notificações disponíveis com o Ministério da Saúde não têm essa informação. Nesta sexta, a Justiça do Rio acabou suspendendo a liminar a pedido da União.

O episódio acabou relevando um impasse que expõe a falta de controle dos dados sobre a pandemia no Brasil e sobre os grupos mais atingidos pelo vírus. Na decisão do dia 4, o juiz federal Dimitri Vasconcelos Wanderley ressaltava que a “coleta adequada de informações se revela essencial para o estabelecimento de protocolos de mobilização da população para a contenção da propagação do vírus e a formulação de políticas públicas adequadas para o tratamento da população atingida”.

Em tese, a decisão seria desnecessária, já que o Ministério da Saúde tem duas portarias que disciplinam a política de atenção integral à população negra, obrigando os registros de raça/cor em todas as notificações referentes a doenças. Foi esse um dos argumentos da União para derrubar a liminar. Também alegou que o ordem judicial faria com que os agentes de saúde “repentinamente” fossem “obrigados a modificar suas atividades para promover o cumprimento daquilo que os autores – sem qualquer planejamento – reputam devido”.

O Ministério da Saúde, porém, tem divulgado dados incompletos a despeito da orientação que diz seguir. No único boletim epidemiológico em que há informações sobre raça dos infectados e vítimas da covid-19, do último dia 9, com dados compilados até dia 8, havia 30% dos óbitos sem essa informação. Até aquele dia, o Brasil registrava oficialmente 9.897 mortes. O gráfico apresentado pela pasta (na página 44, figura 48, que pode ser visto clicando aqui) leva a crer que 47% das vítimas eram brancas, 42% pardas e 7% em pretas. Porém, o Ministério informa que 2.896 mortes desse total, ou seja, 30% dos óbitos registrados até o dia 8, não informavam a raça. Questionada por que nem todas as notificações são preenchidas, a assessoria de imprensa respondeu que faria uma consultoria à área técnica.

O embate jurídico expôs a negligência histórica com o tratamento da saúde de mais da metade dos brasileiros que hoje se declaram pretos ou pardos. “Pedimos o cumprimento das normas que já existem”, explica Silvio Almeida, presidente e advogado do Instituto Luiz Gama, ONG que atua em defesa dos direitos e garantias das minorias e é autora da petição, juntamente com a Defensoria Pública da União. “Não havendo esse cumprimento, é possível que existam providências mais drásticas, como por exemplo, a responsabilização dos agentes públicos que são diretamente responsáveis pela coleta de dados”, afirma ele, que também é advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Universidade de Duke, nos Estados Unidos.

A defensora pública federal Rita Cristina de Oliveira, lembra que, embora a obrigatoriedade desse registro exista no papel, o próprio sistema informático do Ministério da Saúde abre uma brecha para essa negligência. “Na ferramenta, se esse dado de raça/cor não for preenchido, o sistema é alimentado da mesma maneira. Ou seja, ele não trava porque esse dado específico não foi colocado lá”, diz. “Mas o que mais nos chamou atenção no contexto da pandemia, é que, não bastasse essa negligência histórica, foi criada uma ficha de notificação simplificada para doentes da covid-19 que sequer tinha o campo para o preenchimento de raça/cor”. Somente a ficha de doentes de Síndrome Respiratória Aguda Grave, usada no caso de pacientes que não tiveram contato direto com casos positivos de coronavírus, apresenta esse campo de raça/cor.

Silvio Almeida explica que essa informação é fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas e estratégias no combate à pandemia. “A pandemia, que é um problema de saúde pública, tende a se agravar muito mais por causa da desigualdade que é uma característica do Brasil”, afirma. “É fácil constatar que são as pessoas negras são mais afetadas no contexto da pandemia”. A defensora Rita Cristina completa: “O racismo no sistema de saúde também não pode ser ignorado especialmente quando a morte de muitos cidadãos periféricos advém da ausência de acesso a tratamentos adequados, equipamentos e atenção básica”, diz.

Em São Paulo, o último boletim epidemiológico da capital paulista que traz esse recorte de raça/cor é de 30 de abril e informa que quase 79% dos 11.025 casos confirmados de coronavírus naquele momento não tiveram esse campo preenchido. A falta de informações ocorre exatamente quando mapa da cidade mostra que é nas periferias, que está a maioria dos atingidos pela doença, como reconheceu o prefeito Bruno Covas numa coletiva da semana passada. “Semanalmente o número de mortos vai aumentando muito na periferia, Brasilândia, Grajaú, Sapopemba, Cidade Tiradentes, mostrando o quanto isso está se disseminando na periferia”, afirmou. É na periferia que vivem a maioria das famílias negras.

A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, por sua vez, nunca apresentou tais informações. Mas a pedido da reportagem, fez um levantamento e apontou que, do total de óbitos no dia 12 de maio (3.949), 43% foram notificados com raça/cor branca, 17% parda, e 5% preta. Mas 34% não foram notificados com essa informação. Entre os infectados (46.131 no total) nessa mesma data, constavam 38% brancos, 14% pardos, 4% pretos. Porém, 43% das fichas não estavam preenchidas com as informações de raça.

Marcia Lima, professora de Sociologia da USP e coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Centro Brasileiro de Análise a Planejamento (Cebrap), explica que a ausência desses dados não é um fenômeno que surgiu com a pandemia. “A desigualdade contribuiu de forma crucial para que os dados fossem configurados dessa maneira”, diz. “Não é um efeito da pandemia. A pandemia, na verdade, encontra essa desigualdade e vai exacerbar essa desigualdade”. Ela alerta que há outros fatores, além das subnotificações, que dividem os que têm privilégios, dos que não. “Todas essas comorbidades que colocam as pessoas no grupo de risco dependem de um diagnóstico. Ou seja, saber se você é ou não do grupo de risco já é um privilégio”.

Tanto a Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, quanto a do município, foram procuradas pela reportagem já que a decisão da Justiça menciona diretamente esses locais. O município do Rio informou, por meio da assessoria de imprensa, que “os números de ignorados e em branco são altos porque, infelizmente, este ainda é um dado negligenciado no preenchimento das notificações”. A assessoria também apresentou números com a quantidade de casos cuja raça/cor foram ignorados, mas não explicou baseado em quais notificações eles foram colhidos, já que eles não batiam com o total de casos na cidade. O Estado do Rio não respondeu até o fechamento desta reportagem.

“A cor chega antes”

Na tentativa de orientar e proteger populações mais vulneráveis, entidades e organizações criam iniciativas para informar e esclarecer moradores das franjas das cidades. Na semana passada, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), por meio do grupo de trabalho da População Negra, publicou a segunda edição de uma cartilha com orientações para a prevenção do coronavírus em favelas e nas periferias. No documento, há um capítulo especial que aborda o tema “homens negros e suas máscaras”, escrito pela psicóloga Jeane Sasyka Campos Tavares, doutora em saúde pública e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

A cartilha explica que as máscaras de proteção contra a covid-19 usadas por homens negros entraram na lista de acessórios que podem ser considerados “suspeitos” pela polícia, assim como pode ocorrer com bonés, capuzes, capacetes e até guarda-chuvas, que são adereços que cobram parte do rosto. “Essa questão do homem negro ser o tempo todo colocado em suspeição faz parte do cotidiano da população negra no Brasil”, afirmou a psicóloga ao EL PAÍS. “Independentemente dele ter uma classe social elevada, estudos ou posições, a cor chega antes nas pessoas”.

Por isso, as orientações da cartilha são objetivas. “Se, por qualquer razão, você tiver acesso a máscaras industrializadas descartáveis, prefira essas. Elas são associadas à saúde não à criminalidade”. Outra dica é, portanto, usar as máscaras que são distribuídas localmente, na comunidade. “É importante que se identifique rapidamente que você faz parte deste território”, diz o texto. De maneira geral, o que o uso de máscaras ou as subnotificações por raça e cor dos doentes e mortos pela corvid-19, revela, de acordo com a psicóloga é a falsa sensação de que não há racismo no Brasil. “O grande problema que enfrentamos aqui é a falácia da democracia racial”, diz. “Historicamente, a gente desconsidera, o tempo todo, o racismo”.

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